A filha de ferro , Os Lâfrer

7 Capítulo 7 : O Protocolo de Carne e osso



​CAPÍTULO 7: O Protocolo de Carne e Osso

​O centro de comando da Fundação Lâfrer não brilhava mais com o azul tecnológico de costume. Agora, as luzes de emergência pulsavam em um vermelho sangue, acompanhadas por um som metálico de estática que parecia arranhar o cérebro de qualquer um que estivesse no prédio.

​O vírus "Blackout" não era apenas um código; era um parasita digital avançado, criado por remanescentes das indústrias Vance. Ele não buscava dados. Ele buscava controle biológico. E ele havia encontrado o hospedeiro perfeito: a interface neural única de Hadacsa.

​— LUCAS! — Hadacsa caiu de joelhos, as mãos apertando as têmporas. Seus olhos cinzas estavam injetados, e fios de eletricidade azul percorriam sua pele de forma errática. — Ele está... reescrevendo... meu sistema nervoso!

​Lucas correu até ela, segurando-a antes que sua cabeça atingisse o chão de metal. Ele olhou para o monitor tático de Hadacsa, que flutuava no ar com alertas de "FALHA CRÍTICA" e "INVASÃO SINÁPTICA".

​— Haddy, olha para mim! — Lucas gritou, tentando manter a voz firme enquanto o pânico subia por sua garganta. — O que está acontecendo?

​— O vírus... ele usa a minha conexão Wi-Fi neural para se multiplicar — ela gemia, o corpo entrando em convulsão. — Se ele chegar ao meu córtex... eu viro um drone. Eu vou atacar a Fundação... eu vou matar todos vocês. Lucas... você precisa me desligar.

​Thomas e Maya entraram na sala, seguidos pela avó Hadassa e Richard. O rosto de Maya estava pálido como nunca. Ela sabia o que aquilo significava. Ela tinha o braço, mas a filha tinha a alma conectada às máquinas.

​— Hadassa, me diga que tem um firewall, uma vacina digital, qualquer coisa! — Thomas implorou à mãe.

​A Dra. Hadassa Nymerelle olhou para os gráficos com uma tristeza profunda nos olhos.

— Não há tempo para vacinas. O vírus é autorreplicante. A única solução para impedir que ele tome o controle total e a mate no processo... é o Protocolo de Carne e Osso.

​Lucas sentiu um calafrio. — O que é isso?

​— Temos que desativar todos os implantes dela — Maya explicou, a voz trêmula. — Não apenas o visor ou a conexão. Temos que usar um pulso eletromagnético focado para queimar todos os filamentos neurais que permitem que ela fale com as máquinas.

​— Mas isso... — Lucas começou, a percepção o atingindo como um soco. — Isso a tornaria uma humana comum. Ela perderia o dom dela. Ela perderia a identidade de "Sussurradora de Máquinas". Ela seria... apenas Hadacsa.

​— Ou ela será uma "humana comum" viva, ou uma arma biológica morta — Richard disse, a voz endurecida pela dor de um soldado veterano. — Escolha, Lucas. Você é o médico dela.

​Hadacsa segurou a mão de Lucas com uma força sobrenatural, a mão mecânica rangendo.

— Faz isso... Lucas. Eu não quero ser... uma máquina de matar. Eu quero ser... sua. Apenas sua.

​Lucas olhou para a mulher que amava. Ele amava a guerreira, a hacker, a soldado. Mas, acima de tudo, ele amava a mulher por trás do aço. Ele se levantou e caminhou até o terminal de cirurgia de emergência. Suas mãos, que antes tremiam, agora estavam firmes como o bisturi que ele segurava.

​— Iniciando Protocolo de Carne e Osso — Lucas anunciou, as lágrimas escorrendo livremente, mas o olhar fixo no objetivo. — Haddy... você vai sentir um frio imenso. E depois... o silêncio.

​— O silêncio... vai ser bom... se eu puder ouvir... o seu coração — ela sussurrou, dando um último sorriso enquanto os filamentos de sua interface brilhavam intensamente pela última vez.

​Lucas acionou o comando.

​Um clarão branco preencheu a sala. Um som de curto-circuito agudo ecoou, e o corpo de Hadacsa arqueou-se violentamente antes de desabar, inerte, nos braços de Lucas. Todos os monitores da Fundação se apagaram. O vírus "Blackout" morreu instantaneamente, privado de sua fonte de energia.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto.

​Lucas checou o pulso dela. Estava fraco, mas rítmico. Ele afastou os fios de cabelo ruivo do rosto dela e percebeu que a marca prateada na base do crânio, o sinal de sua interface, havia desaparecido, deixando apenas uma cicatriz comum.

​Horas depois, na ala médica, Hadacsa abriu os olhos. Ela não viu dados flutuando no ar. Não ouviu o zumbido dos servidores do prédio. Pela primeira vez em dezoito anos, o mundo estava... silencioso.

​— Lucas? — ela chamou. Sua voz soava diferente para ela mesma. Mais humana, mais vulnerável.

​Lucas, que não havia saído do lado dela, segurou sua mão.

— Eu estou aqui, Haddy.

​Ela olhou ao redor, confusa. Tentou "pensar" na luz do quarto para diminuir a intensidade, mas nada aconteceu. Ela teve que esticar o braço — o braço de carne e osso — e apertar o interruptor na parede.

​— Acabou, não é? — ela perguntou, uma lágrima solitária escorrendo. — Eu sou... só eu agora.

​Lucas se inclinou e a beijou na testa.

— "Só você" é tudo o que eu sempre quis, Hadacsa. O aço se foi, mas o coração que bate aí dentro... esse nunca precisou de eletricidade para ser a coisa mais poderosa desta Fundação.

​Na porta da enfermaria, Maya observava a filha. Ela sentiu uma pontada de tristeza pela perda do dom de Hadacsa, mas sentiu um alívio ainda maior. O Legado de Vidro havia passado por muitas transformações, e agora, Hadacsa estava começando a sua versão mais difícil e bela: a de ser, simplesmente, humana.