A filha de ferro , Os Lâfrer
8 CAPÍTULO 8: O Silêncio das Estrelas
O diagnóstico veio como um tiro de misericórdia em um campo de batalha deserto. A Dra. Hadassa Nymerelle, com os olhos marejados, segurava os exames laboratoriais. O vírus "Blackout", antes de ser destruído pelo pulso eletromagnético, havia causado danos térmicos irreversíveis ao sistema reprodutor de Hadacsa.
A "Filha do Aço" agora era apenas humana, mas uma humana marcada pela impossibilidade de gerar a vida que tanto sonhara em construir com Lucas.
— Você tem certeza, vovó? — Hadacsa perguntou, a voz oca, olhando para o jardim da fundação onde Lucas, alheio a tudo, montava um gazebo para o casamento.
— Sinto muito, minha querida. O dano celular foi profundo. — A veterana Hadassa segurou a mão da neta. — Mas Lucas... ele te ama. Ele não se importa com isso.
— Ele é médico, vovó. Ele ama a vida. O sonho dele sempre foi ter uma casa cheia de crianças, uma família que ele nunca teve de verdade. — Hadacsa levantou-se, sentindo o peso da sua nova humanidade. — Eu sou um soldado quebrado. Primeiro perdi meu dom, agora perdi o futuro dele. Eu não vou deixar que ele sacrifique os sonhos dele por um resto de mulher como eu.
Naquela noite, o silêncio da fundação foi absoluto. Sem sua interface neural, Hadacsa não podia mais "ouvir" as câmeras ou "conversar" com os sensores de movimento. Ela teve que usar o que seu pai, Thomas, e seu avô, Richard, lhe ensinaram sobre o mundo analógico: invisibilidade real.
Ela não deixou cartas. Cartas deixam rastros emocionais. Ela não levou dinheiro eletrônico, que poderia ser rastreado por Lucas. Ela levou apenas uma mochila, um punhal de tungstênio que pertencera a Maya e o anel que Lucas lhe dera, pendurado em um cordão de couro sob a farda.
Às três da manhã, ela parou no portão leste. Olhou para a janela do quarto de Lucas uma última vez. Seu coração, agora desprovido de sensores, doía de uma forma física que nenhuma morfina poderia curar.
— Você merece o mundo, Lucas — ela sussurrou para o vento. — E o meu mundo agora é o vazio.
Ela saltou o muro, caindo suavemente na grama alta. Sem o visor tático, a floresta era escura e assustadora, mas ela correu. Correu até os pés sangrarem, até que a Fundação Lâfrer fosse apenas um ponto de luz distante no horizonte.
72 HORAS DEPOIS
O caos reinava na Fundação. Thomas e Richard haviam acionado todos os satélites de busca, mas Hadacsa sabia exatamente como se esconder. Ela conhecia os pontos cegos do sistema Lâfrer melhor do que qualquer um.
Lucas estava sentado no chão do quarto dela, segurando um pequeno sapatinho de bebê que ele havia comprado secretamente semanas antes para surpreendê-la. Seus olhos estavam vermelhos, a alma estilhaçada.
— Ela fugiu porque acha que é um fardo — Lucas disse, a voz rouca, olhando para Maya e Thomas. — Ela acha que eu a amo pela capacidade de ter filhos, e não pela alma dela.
— Ela sumiu completamente, Lucas — Richard disse, jogando o quepe sobre a mesa. — Nenhuma transação bancária, nenhum sinal de GPS, nenhum reconhecimento facial em nenhum aeroporto do mundo. Ela se tornou um fantasma.
Longe dali, em uma pequena vila de pescadores na costa sul do país, uma mulher ruiva, com roupas simples e o olhar perdido no mar, limpava peixes em uma banca de mercado. Seus cabelos estavam cortados curtos e desgrenhados.
Alguém a chamou pelo nome falso que ela adotara.
— Ei, Elena! O café está pronto!
Hadacsa, ou "Elena", deu um sorriso triste. Ela não tinha mais o aço, não tinha mais o amor, e não tinha mais o futuro. Mas ela tinha a certeza de que, ao desaparecer, ela havia dado a Lucas a chance de ser feliz com alguém que não estivesse, como ela, em ruínas.
O que ela não sabia era que Lucas Benevides não era apenas um médico; ele era um Lâfrer por escolha. E um Lâfrer nunca abandona um ferido no campo de batalha, mesmo que esse ferido não queira ser encontrado.
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