A filha de ferro , Os Lâfrer
4 CAPÍTULO 4: O Protocolo de Jantar Lâfrer
O convite para o jantar na Mansão Lâfrer não foi um pedido; foi uma convocação com o peso de um decreto presidencial. Lucas Benevides, um homem que já havia realizado cirurgias de emergência sob fogo de artilharia, nunca sentiu as mãos tremerem tanto quanto no momento em que ajustou a gravata diante do espelho da entrada da residência oficial da família.
A mansão era um monumento ao contraste: mármore clássico adornado com painéis de segurança holográficos e retratos de generais que pareciam seguir cada movimento dele com olhos de julgamento.
Quando as portas duplas da sala de jantar se abriram, Lucas foi recebido por uma cena que parecia saída de um filme de ação clássico misturado com um pesadelo diplomático.
No topo da mesa, o Coronel Richard Lâfrer cortava um pedaço de carne com uma precisão que sugeria que ele estava dissecando um plano tático. Ao seu lado, a Dra. Hadassa Nymerelle observava Lucas com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que um cientista dá a uma cobaia particularmente interessante. Thomas, o pai de Hadacsa, estava sentado no meio da mesa, cercado por um arsenal desmontado de pistolas de elite, limpando meticulosamente o ferrolho de uma .45 sobre um pano de seda branca.
— Dr. Benevides — Thomas disse, sem levantar os olhos da arma. — Sente-se. Espero que não se importe com o cheiro de óleo de máquina. É o nosso perfume de família.
Maya, a mãe de Hadacsa, entrou logo atrás, carregando uma travessa de prata. Seu braço mecânico emitiu um zumbido suave enquanto ela a colocava sobre a mesa. Ela deu um tapinha no ombro de Lucas que quase o deslocou.
— Relaxa, Doutor. O Thomas só faz isso quando gosta de alguém. Quando ele não gosta, ele limpa o rifle de precisão no jardim — Maya piscou, sentando-se ao lado do marido.
Hadacsa entrou por último, vestindo uma blusa casual, mas com o olhar faiscando de irritação para o pai. Ela se sentou ao lado de Lucas e colocou a mão sobre a dele por baixo da mesa. O toque era quente e firme.
— Ignora eles, Lucas. Eles estão apenas tentando compensar o fato de que nenhum deles conseguiu hackear o seu histórico médico pessoal — ela sussurrou, alto o suficiente para todos ouvirem.
— Ah, mas nós tentamos, querida — a avó Hadassa comentou, servindo o vinho. — Lucas Benevides, formado com honras, sem registros criminais, um histórico de serviço voluntário impecável... Você é quase bom demais para ser verdade, Doutor. O que me faz perguntar: qual é o seu defeito?
O silêncio caiu sobre a mesa. Richard parou de comer. Thomas parou de limpar a arma. Maya inclinou a cabeça. Todos os olhos, de três gerações de guerreiros, estavam fixos no médico.
Lucas respirou fundo. Ele não era um soldado, mas era um Lâfrer por escolha agora. Ele olhou diretamente para Richard.
— Meu defeito, Dra. Nymerelle, é que eu sou teimoso o suficiente para achar que posso curar pessoas que passam a vida tentando se quebrar. E sou louco o suficiente para me apaixonar por uma mulher que usa espadas como acessórios de moda e fala com geladeiras inteligentes.
Um milissegundo de tensão. Então, Richard soltou uma gargalhada que ecoou pelo salão.
— Ele tem fibra! — Richard exclamou, batendo na mesa. — Thomas, guarde essas armas. Ele não vai sair correndo.
Thomas deu um sorriso torto, guardando as peças da pistola.
— Justo. Mas agora, a pergunta técnica, Benevides. Se a Hadacsa fosse atingida por um pulso eletromagnético que fritasse a interface neural dela, qual seria o seu protocolo de ressuscitação biológica antes de chamar a equipe técnica?
O jantar seguiu como um interrogatório de campo disfarçado de refeição gourmet. Entre uma garfada de risoto e outra, Lucas teve que explicar sua visão sobre medicina regenerativa para a avó Hadassa, debater táticas de extração de feridos com Maya e ouvir as histórias embaraçosas de infância de Hadacsa contadas por um Thomas orgulhoso.
— Você sabia que, aos cinco anos, ela hackeou o sistema de segurança da base para liberar todos os cães farejadores porque achava que eles precisavam de férias? — Thomas ria, enquanto Hadacsa escondia o rosto nas mãos.
— E você, Thomas, sabia que o Dr. Lucas enfrentou um deslizamento de terra para tirar a sua filha debaixo de uma viga? — Maya interrompeu, o tom de voz subitamente sério e grato.
Thomas olhou para Lucas. O deboche sumiu por um instante, substituído por um respeito silencioso que valia mais do que qualquer medalha.
— Eu soube — Thomas disse baixo. — Por isso você ainda está sentado aqui, Doutor.
Perto do final da noite, Richard levantou-se com sua taça.
— Um brinde. Ao Legado. Que ele não seja feito apenas de aço e códigos, mas também de coragem para amar o que é frágil. E ao Dr. Benevides, que sobreviveu ao primeiro jantar. O segundo será pior, garanto.
Após o jantar, Lucas e Hadacsa caminharam pelo jardim da fundação sob a luz da lua. O ar estava fresco e o perfume das flores se misturava ao cheiro de óleo que ainda pairava nas mãos de Lucas.
— Você foi incrível — ela disse, encostando a cabeça no ombro dele. — Meu pai quase nunca guarda as armas antes da sobremesa.
— Eu sobrevivi — Lucas sorriu, puxando-a para mais perto. — Mas acho que prefiro enfrentar o deslizamento de terra novamente do que outro debate sobre bioética com a sua avó.
Hadacsa parou e o olhou nos olhos. O visor tático dela emitiu um brilho azul suave, refletindo o amor que ela não conseguia mais esconder.
— Você faz parte do Legado agora, Lucas. E eu acho que o meu sistema nunca esteve tão estável quanto está agora, do seu lado.
Eles se beijaram no silêncio do jardim, enquanto, na varanda da mansão, quatro veteranos observavam em silêncio, sabendo que a Filha do Aço finalmente encontrara a sua cura.
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