A filha de ferro , Os Lâfrer

5 ​CAPÍTULO 5: O Paradoxo de Turing




​O laboratório de biotecnologia da Fundação Lâfrer estava mergulhado em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo bipe rítmico dos monitores cardíacos. No centro da sala, repousava o Sargento Miller, um veterano e amigo próximo da família, cujos pulmões haviam sido severamente danificados por uma nova toxina química em campo.

​Lucas Benevides estava diante de um terminal, os olhos fixos em uma solução de nanorrobôs regenerativos que ele mesmo havia desenvolvido. Era a sua obra-prima: o Projeto Phoenix.

​— Haddy, eu preciso que você abra o firewall de segurança do núcleo neural dele — Lucas disse, a voz firme, mas carregada de urgência. — Os nanorrobôs precisam de acesso direto ao tronco cerebral para sincronizar a regeneração tecidual. Se eu não injetar agora, o Miller entra em falência múltipla em menos de dez minutos.

​Hadacsa estava parada do outro lado do console, seus dedos flutuando sobre hologramas de segurança vermelhos e vibrantes. Seu visor tático estava operando em capacidade máxima, processando milhões de linhas de código por segundo.

​— Eu não posso, Lucas — ela respondeu, e o tom de sua voz fez o sangue de Lucas gelar. Não era arrogância; era medo técnico. — O código dos seus nanorrobôs não tem assinatura digital criptografada. No momento em que eu abrir o núcleo neural do Miller para a sua "cura", eu estarei deixando o cérebro dele escancarado para qualquer ataque cibernético externo. A Fundação está sob constante tentativa de hackeamento. Se eu abrir essa porta, alguém pode assumir o controle motor dele... ou pior.

​— Alguém "pode", Hadacsa! — Lucas se virou, a frustração explodindo. — Mas o Miller vai morrer se não fizermos isso! Você está priorizando a segurança cibernética contra uma vida humana que está sangrando na sua frente!

​— Eu estou priorizando a integridade da alma dele! — Hadacsa gritou de volta, aproximando-se. — Se ele for hackeado através da sua tecnologia, ele se torna uma arma. Ele deixa de ser um homem e vira um drone de carne e osso. Você quer salvar os pulmões dele custe o que custar, mas eu vi o que acontece quando o código é corrompido, Lucas. Eu vi o que o Vance fez!

​A tensão era palpável. Era o confronto ideológico final: o médico que acredita que a vida biológica é absoluta, contra a especialista que sabe que, em um mundo cibernético, a liberdade da mente é a única coisa que resta.

​Lucas olhou para o monitor. O oxigênio de Miller caiu para 82%.

— Hadacsa Maya Lâfrer — ele disse, usando o nome completo dela, a voz agora num sussurro mortalmente calmo. — Eu confio na minha ciência. Você confia em mim?

​Hadacsa hesitou. Seu cérebro processava as probabilidades de invasão: 42%. Era alto demais para qualquer protocolo Lâfrer. Mas ela olhou para Lucas — para o homem que a tirou da lama, para o homem que enfrentou o jantar de seu pai com um sorriso — e viu a mesma determinação que via em sua mãe antes de um salto impossível.

​— Eu vou fazer o seguinte — ela disse, os dedos movendo-se como borrões no ar. — Eu vou criar um "Sandbox" neural. Eu vou isolar o sistema dele em uma bolha de frequência fechada. Mas isso significa que eu terei que me conectar diretamente ao Miller. Se o sistema dele for atacado, o vírus vai passar por mim primeiro. Eu serei o escudo.

​— Haddy, não! Isso vai fritar a sua interface se houver um ataque! — Lucas tentou segurá-la.

​— É o meu jeito, Doutor — ela sorriu de forma triste, conectando o cabo neural à base do seu próprio crânio. — Você salva o corpo dele. Eu protejo a mente. Agora... injeta essa droga logo!

​Lucas agiu com precisão cirúrgica. Ele injetou os nanorrobôs. No monitor, a luz azul da cura começou a se espalhar pelo sistema de Miller. Simultaneamente, o visor de Hadacsa ficou vermelho.

​— Tentativa de invasão detectada — a voz sintética do sistema ecoou.

​Hadacsa arqueou as costas, os olhos revirando enquanto ela lutava contra os hackers que tentavam aproveitar a brecha. Lucas segurava o corpo de Miller com uma mão e a mão de Hadacsa com a outra, sentindo a descarga elétrica passando pela pele dela.

​Foram dois minutos que pareceram duas décadas.

​Finalmente, o monitor de Miller estabilizou. O nível de oxigênio subiu para 98%. Os nanorrobôs haviam concluído a tarefa. Hadacsa desabou nos braços de Lucas, ofegante, o visor tático descarregado e fumaçando.

​— Bloqueados... — ela sussurrou, tossindo. — Eu... chutei eles para fora da rede.

​Lucas a abraçou com tanta força que parecia querer fundir seus corpos.

— Me desculpa. Eu nunca deveria ter colocado você em perigo assim.

​Hadacsa se afastou um pouco, limpando um filete de sangue que escorria do nariz, mas com um brilho de vitória nos olhos cinzas.

— Você salvou ele, Lucas. Sua tecnologia funciona. Mas da próxima vez que você inventar algo, por favor, coloca uma senha de seis dígitos, ok?

​Eles riram, uma risada nervosa e aliviada, enquanto o Sargento Miller dava a primeira respiração profunda e limpa em anos. Naquela noite, eles aprenderam que o Legado não era sobre quem estava certo, mas sobre como as fraquezas de um eram supridas pela força do outro.