A filha da Morte
3 Capitulo 2 - Canibais
Notas iniciais
As horas se passaram rapidamente e logo já era noite novamente. Eu havia ficado o dia todo no mesmo local, pensando se tudo que eu fiz era realmente necessário.
Encostei-me à parede e fiquei observando o vai e vem das pessoas naquele local. Umas pareciam olhar para mim com uma expressão que eu não conhecia. Elas apertavam o passo e pareciam tomar distancia. Outras ficavam observando de longe com uma expressão de pena.
Comecei a escutar uma agitação, olhei em direção aquilo e vi que alguns jovens riam, se empurravam e falavam coisas altas, muitas vezes palavras feias e de baixo calão.
Falavam que haviam “pegado” uma menina “gostosa”, que iriam leva-la para a “cama” e fazê-la “delirar” quando a “comessem”.
Fiquei observando aquela conversa tentando entender o jeito que falavam e encontrar uma coerência.
Da para se “pegar” alguém sem que seja no colo?
Ou então, comidas não eram gostosas? Ou meninas são?
Se alguém for levar outra para cama, ela iria para lá para dormir, certo?
E, por que eles estão falando que vão comer as mulheres? E que elas vão delirar com isso?
Oh, não acredito... Eles são canibais!
Será que a autoridade desse local não sabia? Eles poderiam sair por ai comendo as mulheres depois de fazê-las dormir?
Será que elas gostavam disso?
Um arrepio percorreu minha espinha e tentei me concentrar em ficar desenhando linhas aleatórias no meu bloquinho para tentar esquecer tudo aquilo. Mas logo percebi que as vozes aumentavam e pareciam perto demais...
– Hm, veja o que temos aqui... – disse e levantei os olhos para vê-lo logo a minha frente. Seu sorriso tinha um toque de maligno, que parecia estar planejando algo a qualquer momento.
Pronto, agora eles queriam que eu fosse a próxima vitima deles. Eles queriam me comer!
– Nossa, que bonequinha linda... – disse o outro tocando meu rosto, como se aquilo fosse apenas uma carícia.
– Qual é o seu nome, heim boneca? – perguntou o primeiro. — hm, o gato comeu sua língua, é?
Todos riram em uníssono. O meu sangue fervia, podia sentir a raiva querendo me dominar, mas mantive minha postura, e não demonstrei nada.
– E essa armadura ai? – perguntou outro garoto. – Certamente vale uma gana.
– Você esta certo, Rick. — disse o que parecia ser o líder. Ah, a minha armadura não! – Anda boneca, passa essa armadura pra cá.
Fiz que não com a cabeça, eu não iria entregar a minha armadura.
– Ah então nós teremos que pegar. – sorriu.
O meu sangue fervia, eu só precisava falar uma única palavra... Apenas uma.
– O que pensam que estão fazendo? – escutei a voz de Noah. Todos os três olharam para ele.
– Hm, o mocinho veio salvar a dama? – perguntou um dos garotos. – Mas vejo que está em desvantagem...
– Quem disse que é o numero que importa? – Noah perguntou com uma autoconfiança visível. Mas, eu não sei se confiava tanto assim em que ele se sairia bem dessa...
– Veremos então... – a resposta parecia ser tanto a eles como a pergunta em meu pensamento.
Os três tentaram cercar Noah, que estava com um sorriso largo nos lábios. Aquele sorriso em seus lábios fez meu corpo estremecer.
Eu queria gritar, queria pedi-lo para parar e fugir dali. Eu poderia dar meu jeito...
Mas tudo aconteceu muito rápido, primeiro os três garotos tentaram avançar, e em questão de segundos, estavam desacordados no chão. E Noah mostrava uma expressão que jamais pensei ver em seu rosto nesse momento: uma calma sem igual.
– Venha... – Noah estendeu a mão em minha direção e eu prontamente a segurei.
Caminhamos durante algum tempo, e quando os meus pés haviam começado a doer, Noah apontou para um restaurante.
– Vamos comer alguma coisa.
O restaurante era grande e parecia ser muito aconchegante.
Entramos, e eu não pude evitar me sentir um pouco envergonhada. Parecia um tipo de encontro e... eu nunca havia tido um encontro.
Sentamos numa das mesas vazias e aguardamos um pouco.
– Filho! – disse uma mulher bonita, que parecia ser muito mais jovem do que a idade que provavelmente tinha, vindo em nossa direção. — Você veio, e vejo que trouxe companhia...
Seu sorriso simpático me fez querer sorrir, mas eu não podia...
– Mãe, essa é a Helena. – disse olhando para mim. — e essa é a minha mãe, Jessie.
– É um prazer conhecê-la Helena. – depois falou perto da orelha de Noah, como se eu não fosse escuta-la: – Boa escolha filho. Ela é linda.
Não consegui controlar, um sorriso começou a se formar em meus lábios, mas fingi que não havia escutado nada.
– Mãe, pode nos trazer lasanha?
– Claro meu filho. – disse com um sorriso no rosto.
– E então, você gosta de lasanha, não é? – perguntou e fiz que sim com a cabeça. – Ufa, que bom.
A comida chegou, e pelo jeito que ele me olhava, mais parecia que eu estava comendo feito uma esfomeada.
Despedimos-nos de Jessie e voltamos a caminhar, mas ao lado oposto da vendinha.
"Aonde vamos?" – o mostrei o bloquinho, mas ele sequer olhou. Bati com a caneta nas folhas, só que parecia que ele não queria olhar.
– É ali, venha. — disse pegando minha mão e me puxando até a entrada de uma casa.
"Onde estamos?" – o mostrei enquanto ele pegava a chave.
– Na minha casa. — disse como se fosse obvio. – Você poderá ficar aqui por enquanto...
Deu de ombros e sorriu enquanto abriu a porta.
–Entre. — apontou para a entrada quando viu que não me mexia.
"Você mora sozinho?" – perguntei não querendo demonstrar a vergonha que sentia.
– Sim... -respondeu. – Algum problema, Helena?
"É que... não é certo."
– Ah, entendi. Então você acha que o certo é ficar dormindo na rua?
“Hmm... Você não come mulheres não é?”
Ele olhou para mim com uma expressão como se perguntasse de que mundo eu vim.
– An Helena?
“Você sabe... você não é nenhum tipo de canibal, ou é?”
E então ele teve uma reação que jamais pensaria que teria nesse momento. Jogou a cabeça para trás e riu, ou melhor, gargalhou.
Fiquei o observando, ele mal havia me conhecido e confiava em mim a ponto de deixar-me ficar em sua casa.
– Entre Helena, lá dentro te explico o que é isso.
"Obrigada..." – mostrei o bloquinho a ele, me rendendo e vi seus olhos brilharem.
Noah me mostrou sua casa e mostrou onde eu ficaria, num quarto que parecia ser de hóspede mas eu podia ver e sentir que não era apenas isso para ele.
– Vou pegar algo para se cobrir e forrar a cama pode ir tomar banho enquanto isso.
E assim fiz, tirei meu vestido, porém continuei com a armadura em meu corpo.
Não poderia tirar, não poderia deixar que nada de ruim pudesse acontecer a Noah.
Quando sai do banho já estava tudo pronto para eu dormir.
Noah estava me esperando sentado em uma cadeira de balanço e tomando um liquido que parecia estar quente.
– Trouxe chá. – apontou para uma caneca em cima de escrivaninha.
“Adoro chá” – disse pegando e já me enrolando nas cobertas enquanto me deliciava.
– Er... Você ainda quer que eu explique aquilo? – perguntou parecendo incomodado com aquilo.
“Sim... Se não atrapalhar, é claro”.
– Bem, por aqui, quando se fala que vai comer alguém, não quer dizer que realmente se vá comer. – disse.
“Então, por que dizem isso?”
Alguns garotos são, hm, desrespeitosos, e usam esse termo para falar que vão fazer... – coçou a cabeça como se estivesse se sentindo envergonhado.
“Fazer o que?” – perguntei, não entendia por que ele estava dessa forma.
– Fazer sexo. – falou de uma vez.
“Sexo?”
– Sim Helena, sexo... O se faz para fazer bebês, entendeu?
“Mas, bebês nascem de sexo? E como isso acontece? E, não pareciam que queriam bebês quando escutei.”
Noah bateu a mão na cabeça, acho que não gostou das minhas perguntas.
– Helena, podemos falar sobre isso outro dia? – perguntou
“Ta bom... Boa noite Noah.”
– Boa noite Helena. – saiu do quarto e fechou a porta.
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