A exceção
2 Capítulo 2.
Notas iniciais
Como toda segunda de manhã – ou qualquer outro dia da semana – eu estou no que eu, carinhosamente, chamo de pesadelo diurno. A escola. Eu chego, sento no mesmo lugar de sempre, digo oi para o meu único amigo nessa sala, ele responde oi. E não falamos mais nada quase o tempo inteiro. Ainda assim é bom estar na presença dele. Pedro e eu somos amigos tempo o suficiente para o silêncio absoluto não ser desconfortável. Assim como o nome, ele é bem comum, normal. Mas todos os adolescentes são estranhos, então, por ser normal, ele é anormal.
Pedro tem uma regra que ele segue rigidamente que é não dizer ou fazer coisas desnecessárias, o que eu acho ótimo. Ele não costuma fazer alarde por nada, muito menos por uma pirâmide de popularidade idiota da qual estou na base. Ou melhor, estamos. Mas ele se importa com outras coisas. Por exemplo, ele sempre escuta os meus problemas e tenta ajudar ou simplesmente estar aqui comigo, e eu posso ser muito dramática e irritante às vezes.
Somos amigos desde a primeira série. Antes disso eu brincava com outras crianças, mas depois me achavam chata e eu acabava brigando ou chorando. Ou os dois. A diretora falou para os meus pais que eu precisava de um psicólogo, o que gerou uma grande confusão, afinal minha mãe não gostou nada. Todo mundo soube, e claro, ninguém quis mais falar comigo e sempre que possível me tratavam mal. Só mais de um ano depois Pedro e eu ficamos amigos. Nesse intervalo de tempo, eu só tinha meus irmãos como amigos, e, raramente, brincava com alguns primos. Eis como começou a minha amizade com o Pedro: ele mandou eu parar de frescura quando eu estava chorando por me acertarem uma bola de propósito, eu gritei com ele e ameacei bater nele. Ele disse que sabia que eu não ia bater nele, perguntei por que, ele respondeu que sou legal. Parei de chorar e matamos aula juntos, ainda que eu nem soubesse direito que estava matando aula.
Apesar de sermos amigos de infância, não tivemos muitas brigas. Só me lembro bem de uma, conhecida como Cúmulo do Ridículo. E olha que já tínhamos doze anos. Pedro sempre gostou de ter muita privacidade, então não me contou do primeiro beijo dele e acabei descobrindo pela própria menina, Emily. Meses depois. Inclusive me disse que ele havia pedido para não contar. Quando fui tirar satisfação, ele perguntou porque eu estava tão brava. Respondi que era porque ATÉ ele tinha tido o primeiro beijo antes de mim. Ele se sentiu ofendido, óbvio. Na verdade, parte de mim achava que meu primeiro beijo ia ser com o Pedro, outra parte tinha ânsia de vômito só em pensar. No geral achava que seria melhor porque ele não ia zombar de mim se fosse ruim, então esse era o plano. Na mesma semana, beijei um carinha qualquer. Fiquei confusa. Simplesmente não achei bom, ruim, nada. Pensava que tinha feito algo de errado, mas com o tempo vi que simplesmente não era nada daquilo que todo mundo falava. Claro, eu tive que contar o real motivo da briga para o Pedro. Não aguentava mais ficar sem falar com ele. Preciso dizer o quanto ele me zoou? Não.
Emily e Pedro foram namoradinhos por um tempo, um curtíssimo tempo, mas quando eu estava por perto éramos três amigos. Dois meses depois ela teve de se mudar. Os dois terminaram e ela não quis manter contanto com ele. Nós duas trocamos telefone e combinamos de manter contato, mas depois de um tempo ela não fazia questão de falar comigo, e com o tempo, nem eu de falar com ela. No geral é o que acontece quando as pessoas mudam de ambiente, elas mudam também.
Eu copio a matéria do quadro e faço várias anotações sobre o que o professor fala. Não costumo ser muito atenta às explicações, então me forço a prestar atenção anotando, e isto me é bem útil para estudar em casa, também. Acho que não sou nerd, para isso eu teria que ser viciada em quadrinhos e Star Wars – talvez eu seja um pouco. Gosto de Star Wars, mas não sou viciada – e tirar notas muito altas. Apenas me esforço. Não quero ficar desesperada no terceiro ano quando precisar passar no vestibular, já vi o meu irmão passando por isso, apesar dele ter passado de primeira tranquilamente para o que queria, pelo curso não ser tão concorrido e ele ser bom no que gosta.
Sinto falta do Marcelo de vez em quando. Quando está em casa, vive estudando ou fazendo trabalhos. É estranho parar e pensar no quanto ele cresceu, mudou. E eu também. Mesmo se tentarmos, é impossível ser como antes. A inocência é um bom exemplo disso. Uma vez perdida, se vê maldade em tudo e todos. Crescer às vezes é perder a inocência também, gradativamente. Talvez por isso muitos dos amigos que a gente mantém na vida adulta – ou pelo menos é assim com meus pais – são da época de escola. Passamos a confiar apenas nas pessoas que cresceram com a gente, pois elas trazem a tona o que éramos. Às vezes gosto de pensar em várias coisas, só por pensar.
No intervalo, sento em um banco de concreto do pátio e divido um pacote de batata ruffles com Pedro. Vejo Marjorie não muito longe sentada com um grupo de pessoas, escutando e sem falar nada. Ela olha para os lados algumas vezes, claramente quer se livrar daquela situação. Quando me vê, sorrio e ela fica visivelmente aliviada por se livrar daquela situação. É como se nem tivessem visto-a sair dali. Com exceção de uma menina, mas esta não fez nada.
— Bom dia, Nina – cumprimenta-me sorrindo e sentando ao meu lado no banco.
— Bom dia – Respondo retribuindo o sorriso. – Esse é o Pedro. É da minha sala. Um cara legal.
— Oi, eu sou Marjorie.
— Hã... Oi – diz, com um rosto inexpressivo. Ele estava distraído com alguma coisa, como de costume, e por isso demorou um pouco para responder.
— Não é pessoal, ele não gosta de sorrir mesmo – digo.
— Ainda não decidi se é isso ou preguiça mesmo.
— Aposto que ele sorri muito para você – ela fala baixinho. Está tentando perguntar algo, sei o que é, só não sei o porquê.
— Por quê? – Eu rio.
— É só que, bem, vocês, parecem um casal – diz pausadamente, e se arrepende logo em seguida. Parece nervosa.
— Ai, é tão óbvio assim? – Imito uma voz irônica e feminina demais. Ela fica em silêncio, então continuo: – você não acha que estou falando sério, acha?
— Eu pensei, por algum tempinho. Sabe, todo mundo de repente está namorando sério aqui no colégio.
— Acho que é assim em todas as escolas no ensino médio – comentei. Nunca me apaixonei por ninguém que estudasse comigo, nem por nenhuma outra pessoa. Fiquei com garotos que nem gostava. Só queria me sentir amada, mas depois vi que não adiantava. Eu sei, sou bem ridícula.
— Na minha sala os casaizinhos estão começando a se formar, imagino que na de vocês também, por isso perguntei. Não me irrito por isso, me irrito por falarem disso o tempo inteiro. Nada é mais a mesma coisa esse ano.
— Bem-vinda ao clube de alunos depressivos do ensino médio – digo.
— Realmente motivacional – observa Pedro.
— Não quero ficar reclamando, é só que, eu amava esse lugar. Até as pessoas começarem a mudar, mentirem, se apunhalar pelas costas e criarem rumores sobre mim – os olhos dela se encheram de água, ela piscou e as lágrimas sumiram. Quando abro a boca para falar, penso por dois segundos e desisto, o que acaba sendo quase um suspiro. Eu queria perguntar que rumores inventavam, mas algo me alertou que eu não devia. Talvez o fato de eu ter conhecido-a ontem.
Ela não está sendo tão alegre como antes. Isso demonstra que ela não é perfeita, mas isso não a faz menos encantadora. Tem uma certa humanidade nisso, aquele sentimento que une as pessoas. Não encontro mais nada a dizer. Fico abraçada de lado a ela, e isso torna o silêncio confortável.
Vinte minutos. O sinal bate. Subir para a sala. Aula de literatura. Espere, aula? Não, eu não chamaria assim. Está mais para massacre. Não massacre literário, massacre mesmo. Duas amigas brigaram e as outras estão discutindo quem está certa, parece. A professora passou um dever do livro e está sentada corrigindo provas de outras turmas. Eu respondo rapidamente para me sentir livre de uma vez.
— Elas brigam toda semana. E ninguém cansa de dar ibope – comento.
— Essa é a forma que as pessoas encontram de conferir sentido à vida – diz Pedro, daquela forma que eu nunca consigo saber se ele está debochando ou se está decepcionado. Ele faz uma breve pausa e muda de assunto: – quando você e a Marjorie começaram a se falar?
— Ontem. Mirian e eu fomos ao Starbucks. Ela estava lá e de repente ficamos amigas.
— Ah – ele faz uma breve pausa e ri pelo nariz, então fica sério de novo. Pedro sempre parece estar longe daqui, talvez esteja rindo de mim, ou talvez tenha achado graça de alguma lembrança. Resolvo não perguntar. Ele apoia o cotovelo na mesa, sustentando o rosto com a mão.
— Sério, por que a gente não pode ir embora mais cedo? – Digo, observando algumas alunas brigando por um celular. Aparentemente, estão lendo as mensagens da menina que está tentando recuperá-lo.
— Bom, eu não sei você, mas eu estou fazendo um monte de porra nenhuma – eu rio.
Mais quarenta minutos se passam, a professora deixa o gabarito no quadro e nos libera para a saída. Além de nós dois, apenas um outro casal de amigos fica para corrigir o dever.
Saímos da sala, nos despedimos e procuro a Mirian no meio de centenas de crianças e adolescentes. Antes de achá-la, avisto a Marjorie com os mesmos amigos de antes. Vejo-a rindo e sorrio, automaticamente. Ela estava tão triste por causa deles há pouco, me pergunto o que mudou. Permito-me observar de longe por alguns segundos. Nenhum sinal de tristeza. Mirian me encontra e vamos para casa, enquanto ela me conta sobre o dia escolar movimentado dela.
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