A exceção
3 Capítulo 3.
Notas iniciais
Ontem à noite ouvi uma conversa dos meus pais. Não que eu fique escutando as conversas deles, é só que, eu tive fome de madrugada. Vi a luz acesa na sala então fui sorrateiramente até a cozinha, porque meus pais odeiam que eu coma de madrugada. Dizem que tira o apetite para o café da manhã. Eles estavam falando sobre mim, com aquela voz que as pessoas fazem estão falando sobre um segredo. Tipo, que eu deveria sair mais e que eu nunca arranjo um namorado, diferente da maioria das garotas da minha idade. De vez em quando pegam no meu pé. Acho que eles têm medo que eu acabe solteirona. Não me preocupo com isso, e o fato de essa ser a maior preocupação deles comigo me irrita.
No ano passado, eu gostei de alguns garotos, mas eu só fui correspondida duas vezes. Não que eu tenha ficado triste por isso, no geral, eu ficava triste por dez minutos e logo esquecia. Uma das vezes que fui correspondida, acabou sendo uma merda porque ele me amava e eu só gostava dele, fiquei sufocada. Durou um mês. Fiquei mais triste por ter partido um coração que por ter terminado. O outro dizia que eu nunca estava lá. Duas semanas. Acho que eu não gostava mesmo deles, era mais uma admiração, todos eram certinhos. Meus pais nunca ficaram sabendo deles dois, afinal não era nada sério. Mirian torcia para que eu ficasse com o Pedro. Não sei se ainda torce. Não temos nenhuma química, seria completamente bizarro e forçado.
— Intervalo. – Diz Pedro.
— O sinal já bateu? – Pergunto.
— Já.
Marjorie está guardando os livros no armário e conversando com uma das garotas da sua rodinha de amigos que eu vi ontem.
— Bom dia, Marjorie. – Cumprimentei-a.
— Bom dia, vocês dois. – Respondeu sorrindo. – Essa é a Elisa. – Quando ela vira para mim, a primeira coisa que noto são as sobrancelhas grossas e bem desenhadas. Do tipo que deixam o olhar mais forte e penetrante. O cabelo é castanho claro bem liso e vai quase até a cintura. Se o meu cabelo fosse liso assim, eu também deixaria solto. Aposto que ela nem precisa pentear de manhã, o sonho de toda preguiçosa como eu.
— Oi, Elisa. Eu sou...
— Eu sei quem você é. Marina, né? – Ela me interrompe, sorrindo.
— É, mas me chame de Nina, por favor. – Digo. – E esse é o Pedro.
— Oi. – Diz ele.
— Usar franja e trancinhas é tão terceira série. Você parece tão novinha, Marina.
— Obrigada. E você parece ter uns vinte anos, tipo, tão madura! – Respondi forçando um sorriso. Eu já não estava gostando dela. Se eu digo que prefiro ser chamada de Nina, as pessoas geralmente me chamam de Nina, e se o Pedro disse “oi”, ela devia responder. E sabe o que é tão terceira série? Implicar com os outros sem motivo. – Pedro e eu vamos estudar na biblioteca, então, até mais tarde. – Digo, embora meu rosto expresse “até nunca”.
— Nós podemos ir também, não vamos atrapalhar. – Diz Elisa. Não sei se é coisa da minha cabeça ou se posso mesmo sentir veneno em sua voz.
Nós quatro vamos para a biblioteca. Pego um livro de física e finjo estar estudando. Sério, Nina? Física? Podia ter pego biologia para tentar ler de verdade. Pedro está lendo um livro de história, mas ao contrário de mim, ele está realmente estudando. Ele gosta de estudar história. Elisa e Marjorie ficam conversando e a Elisa faz questão de rir alto. A atmosfera está pesada aqui e quero que o intervalo termine. Então lembro que não sou obrigada a ficar ali e saio. Pedro vem atrás de mim.
— Foi impressão minha ou a Elisa estava claramente implicando comigo? – Tento não parecer irritada, mas não funciona.
— Estava. – Diz ele. – Não se preocupe, não é nada pessoal. Ela me odeia também.
— Talvez seja. Como você é meu amigo, ela sabe que me irrita te tratando mal. – Ele considera seriamente a ideia e pensa "faz sentido". Em todos esses anos de amizade, às vezes consigo até adivinhar o que ele pensa. Não muitas, bem de vez em quando mesmo.
Marjorie aparece do nosso lado sem a Elisa.
— Desculpem por isso. Acho que ela só está de mau humor hoje. – Diz ela.
— Tudo bem. – Respondo. O silêncio passa entre nós por alguns segundos.
— Sabe, amanhã eu tenho uma festa de família para ir, e, eu realmente odeio isso. Não simplesmente por ser de família, e sim por ser da minha família. – Explica ela. – Estou sendo forçada a ir, e, em troca de não reclamar posso levar alguém. Estava pensando se você podia ir comigo. Eu me sentiria melhor.
— Eu posso. – Faço uma pausa. – Por que odeia tanto?
— É complicado. – Entendo que ela não quer falar sobre isso e não pergunto mais. – Começa às seis, mas sei que vai ter algum atraso, então, sete. Além disso, não quero você nessa tortura por muito tempo.
— Ok. – Sorrio. – Deve odiar mesmo.
— Na verdade, eu queria mesmo falar contigo amanhã. Mas sim, odeio.
— Ah. – Ela me passa o endereço e me faço lembrar até poder anotar.
Festa em família não é o tipo de evento que me agrada, aliás, nenhuma festa nem nada que envolva sair arrumada de casa. Mas admito estar ansiosa, por saber o que Marjorie quer falar comigo. Pelo simples fato de estar com ela. Ainda mais sem a Elisa por perto.
Pedro está me olhando como se estivesse analisando alguma coisa. Desde o intervalo ele começou com isso, chega a ser perturbador. Até agora fingi que não estava percebendo, mas está começando a me dar nos nervos.
— Por que você está me encarando?
— Estou apenas estudando o comportamento humano. – Responde ele, parecendo entediado novamente.
— Sério, Pedro.
— Só estava distraído.
— Sei. – Estranho demais, até mesmo para o Pedro. Desde que saímos da biblioteca. Espera, será que ele reparou que eu estava com ciúmes? Será que ele acha que eu estou a fim da Marjorie? Nada a ver! Para de viajar, Nina. Meu coração está acelerado. Merda, Pedro consegue me irritar de verdade! Preciso esconder minha cara, não tem nenhum buraco por perto, acho que me debruçar na mesa resolve.
Não acredito nessa de "estava distraído", conheço-o bem. Alguma coisa ele está pensando.
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