A exceção
13 Capítulo 13.
Notas iniciais
Enfim sábado. Não que eu tenha qualquer expectativa para esse final de semana, ou qualquer outro, só estou aliviada de não ter que ir à escola. Estou em dúvida se levanto da cama e tento fazer as coisas que estou adiando desde segunda – como arrumar o quarto e estudar – ou se fico na cama o dia inteiro.
Ah, a quem estou tentando enganar? Sei que não vou fazer nada. Minha cabeça só pensa na Marjorie, na briga com o Pedro e no risco da minha família me odiar. Eu fico muito feliz e em seguida muito triste, ou os dois ao mesmo tempo. Se isso se prolongar, eu vou perder a minha sanidade e arrancar meu estômago fora. Estou com uma sensação esquisita nele desde ontem. Durante o jantar, fiquei imaginando o que aconteceria se naquele momento eu contasse sobre meus sentimentos e comecei a passar mal. Meu devaneio não foi nada bom.
Meu celular vibrou. Deve ser a Marjorie, ou apenas espero que seja.
— Falando sério Nina, não é possível você realmente acreditar que eu fiz isso. Caralho, há quantos anos você me conhece? Sei que está sendo difícil, mas não justifica jogar a culpa em mim, que te apoiei desde o começo. Eu tenho meus problemas também, e preciso de você, mesmo só para me fazer companhia. – Enviada às 16:13.
Não sei nem o que responder. Pensei que estivesse bravo comigo, mas ele parece estar sentindo minha falta de verdade. E não sei se alguma vez ele já disse que "precisa" de mim. Pode ser alguma coisa séria.
— Que problemas? Está tudo bem? – Enviada às 16:14.
Está demorando a responder, estranho. Sei que ele não larga facilmente do celular.
— Isso não vem ao caso. Acredita em mim ou não? – Enviada às 16:25.
— Sim, é claro. Me desculpa. Quer sair pra algum lugar hoje comigo?
— Na verdade eu preferia passar aí na sua casa.
— Também prefiro assim. Pode vir a hora que quiser, não estou fazendo nada mesmo.
— Já estou indo então.
Eu devia ter pedido para os meus pais antes. Fiquei tão atarantada com aquela mensagem que me esqueci. Eles provavelmente deixam, ainda mais se tratando do Pedro. Talvez seja mais uma questão de avisar.
Quando cheguei na sala, os dois estavam conversando baixinho, num tom sério. Parece ser sobre alguma briga de família. Eles não gostam que eu e meus irmãos escutemos os problemas. Ao perceber minha presença, eles se calam.
— Pedro pode vir aqui hoje?
— Claro. Que horas? – Responde minha mãe.
— Daqui a pouco.
— E você ainda está desse jeito? – Ela me olha com reprovação.
— Não vou me arrumar para isso, ele me vê todos os dias na pior situação possível: de manhã no colégio. – Ela não me parece muito convencida, mas também não rebate o argumento. Pelo menos funcionou.
Vou para o meu quarto checar as redes sociais enquanto espero ele chegar. Pelo visto a Sarah já encontrou meu perfil, e também mandou um "oi". Eu respondi, no entanto, ela não está online agora.
Passado alguns bons minutos, a campainha toca. Ele entra e me acompanha até meu quarto. A gente se encara por alguns segundos, sentados na beira da cama, sem saber o que dizer. Talvez eu deva começar, dado que fui eu quem comecei a briga.
— Desculpe por não ter acreditado em você, e te xingado, e dito que te odeio. Era mentira. Se eu te odiasse, nem ia ligar. Eu fiquei muito triste e, mesmo nesse pouco tempo, senti muito a sua falta. Você é o melhor amigo que eu já tive e tenho.
— Tudo bem. E eu também não te odeio.
— Como assim?! Eu faço a maior declaração e você só diz “eu também não te odeio”?
— Declaração? Isso foi meio gay. E o que esperava de mim?
— Já te disse, eu sei que sou meio gay. Hã, talvez, “eu também senti sua falta e eu gosto de você” cairia bem.
— Eu também senti sua falta e eu gosto de você. – Repete ele, de forma mecânica.
— Francamente.
É assim que ele é, então estou feliz do mesmo jeito. Na verdade, fiquei mais preocupada com a forma que ele falou mais cedo.
— Será que agora você pode me explicar de quais problemas estava falando?
— Não vai fazer diferença. – Ele evita olhar para o meu rosto.
— Olha, a gente acabou de fazer as pazes e já vou ter que dar um tapa na sua cara?
— Que seja, então. – Ele respira fundo, sem paciência. – Eu passo o dia inteiro deitado na minha cama, fazendo nada a não ser me sentir triste e inútil, todos os dias. E isso é uma merda.
— Meu Deus, você não devia guardar isso para si mesmo! – Abraço-o com força. – Já falou disso com a sua mãe?
— Não, e nem vou. Só iria deixá-la preocupada.
— Você precisa procurar tratamento, vai ser pior se não fizer nada. E vai chegar ao ponto em que ela vai notar sem você nem dizer, se não notou ainda. – Ele ficou em silêncio, sem ao menos olhar para mim de novo. – Você vai falar com ela! Ok?
— Ok. – O silêncio paira novamente, pesado. – Quem é aquela garota que estava com você ontem?
— Ah, é a Sarah. Ela começou a conversar comigo no intervalo. Por quê?
— Estou apenas tentando quebrar o clima ruim.
— Só isso mesmo? – Faço uma expressão maliciosa.
— Só. – Ele está falando a verdade, mas mesmo assim, será que ele e a Sarah podem acabar formando um casal? Eles vão acabar andando bastante juntos por minha causa. Seria engraçado. Espere, pensando bem, eu ia ficar de vela. Mas também não gostaria que a Sarah levasse um fora. Sei lá. De qualquer maneira, isso não depende de mim. – E como estão as coisas com a Marjorie?
— Nós estamos juntas, enfim, você já deve saber disso, todo mundo está comentando. – Minha voz acaba transparecendo um pouco de raiva. Eu me recomponho. – Está tudo indo muito bem. Quero marcar de sairmos para algum lugar logo, só não sei bem onde.
— Acho que o lugar não importa tanto, o principal é não ficar adiando isso, se não ela vai acabar achando que você não liga muito para ela.
— Verdade.
Conversamos mais um pouco, pedimos uma pizza e assistimos um filme. Quero dizer, quase isso. Eu acabei dormindo lá pela metade. Ele conseguiu assistir até o fim, mas dormiu depois também. Pelo menos não perdi grande coisa, de acordo com ele.
Espero de alguma forma conseguir ajudá-lo. Às vezes mergulho tanto nos meus problemas que devo acabar deixando despercebido o meu redor. Preciso passar a prestar mais atenção nele, e perguntar mais. Se não tivesse acontecido tudo isso, ele provavelmente nem teria me contado.
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