A exceção

6 Capítulo 6.


Notas iniciais
Oi galero! Mais capítulo novo, e fui bem rápida. Confesso que estou muito animada e inspirada, mesmo que escrever algumas palavras ainda me doa. Muito obrigada à Hyuuga Mery, seu comentário me enche de determinação! (alguém pegou a referência?) É isso, galero. Enjoy! ♥

Quando Marcelo chegou, por volta das seis, percebi que estava muito cansado e provavelmente queria dormir. Me senti um pouco mal por ele ter de passar o tempo comigo quando poderia estar descansando. Mas eu realmente preciso dele agora. ele. E logo ficou aquele clima todo familiar, e eu fiquei lá sorrindo e tentando ser mais simpática o possível. Ele me pareceu feliz.

Minha irmã, apesar de ter estranhado, achou “bonitinho”, – isso me fez lembrar que Marjorie provavelmente diria algo parecido – e meus pais ficaram admirados. Talvez estejam pensando que agora eu sou mais unida com a família e tal, enquanto eu sinto o contrário.

Não costumo ser muito carinhosa, é só isso. Não quer dizer que eu sou fria, mas é assim que eles costumam ver.

Só porque uma pessoa não expressa certos sentimentos, não quer dizer que ela não os tenha. Na verdade, eu sinto até demais, na maior parte das vezes.

Hoje é sexta, então nos próximos dois dias não vou ter que ficar fugindo da Marjorie, embora queira muito estar perto dela. Pedro provavelmente ficaria entediado se eu conversasse sobre isso, e também quero arrastá-lo o menos possível para esse drama, então prefiro o silêncio, como de costume.

No intervalo, vamos para a biblioteca de novo e sentamos no mesmo lugar de ontem. Eu estava pensando que não íamos dizer uma palavra hoje, mas, para minha surpresa, dissemos. E, mais surpreendente ainda, ele quem puxou assunto.
— Sinto muito por não conseguir te dar um conselho concreto, uma solução para... – Ele busca as palavras mas não parece encontrá-las. – O que está acontecendo. – Completa.
— Pode falar, não tem ninguém aqui. – Percebo que ele estava apreensivo porque alguém podia estar nos ouvindo, mas, só a tia da biblioteca fica aqui, e, estamos bem afastados da mesa dela. – Não precisa se desculpar, eu quem devo resolver meus problemas. Estou feliz só por ter você ao meu lado. Obrigada.
— Isso foi meio gay. – Eu rio. É tão bom quando a palavra gay não tem nenhum sentido negativo.
— Eu sei que sou meio gay. – Ele ri também. É quase libertador usar a palavra dessa forma. De uma forma positiva.
— Tudo o que posso dizer eu já disse ontem. Mas eu não sei se sou egoísta demais ou você é boazinha demais. – Diz, agora sério.
— Eu acho que você quem é egoísta demais. – Digo, apenas para provocá-lo.
— Tanto faz.
— Ei, eu estive pensando uma coisa. Qual é a minha orientação sexual? – Pergunto. – Tipo, eu já fiquei com alguns garotos e achei indiferente. Nunca fiquei com outras garotas, mas não tenho vontade também. A não ser Marjorie. Eu sou o quê?
— Lésbica. Eventualmente.
— É, talvez Marjorie seja minha exceção. – Digo.

Nós ficamos em silêncio, até porque eu não tinha mais o que falar, a não ser, o quanto eu sinto falta da Marjorie e o quanto eu odeio ter que passar por essa situação toda, e isso seria chato. Afinal eu é quem estou criando essa situação toda e fazendo-o ficar aqui comigo se escondendo.

Ao final do intervalo, continuamos na biblioteca e ninguém percebe, como sempre. Temos aula de educação física, então vamos ficar por aqui, como tradição.

Nós demos uma olhada na pilha de coisas novas para a biblioteca, e, adivinhe. Revistas adolescentes. Daquelas que impõem um padrão de beleza e depois querem falar de bullying e anorexia. Acho que a ideia era que as alunas viessem mais à biblioteca. Daqui a pouco vão ter revistas pornôs também, aí essa porra vai encher de gente. O banheiro também. Tá, isso é péssimo.

Como aqui só tem livros didáticos e, agora, revistas adolescentes, eu prefiro ficar estudando, por duas horas. Sim, isso é melhor do que fazer educação física ou fazer nada.

Quando bate o sinal do último tempo, vamos buscar nossas mochilas na sala, nos despedimos e vou procurar Mirian, que, como de costume, está conversando com a Marjorie. Ignoro-a e praticamente arrasto Mirian para fora do colégio.

Ela é só um ano mais nova que eu, mas ainda assim, quem manda sou eu. No caminho, ela me conta sobre seu dia, mas, admito que não prestei muita atenção.

Minha irmã é do tipo que faz amizade com todo mundo, por isso, todo dia acontece alguma coisa diferente, e daqui a pouco ela esquece.

Chegando em casa, eu só quero dormir por meses, mas tenho que almoçar primeiro. Estão todos à mesa, menos Marcelo. Fico completamente absorta em meus pensamentos enquanto todos conversam à mesa. Começo a ter lembranças da minha família. Tenho ótimos pais e irmãos. Imagino como tudo isso está arriscado agora. Acabo deixando uma lágrima escapar.
— Marina, o que houve? – Pergunta minha mãe.
— Eu só... – Não consegui pensar em uma desculpa.
— Você o quê? – Insiste.
— Por que vocês não deixam eu ser como eu sou?! – Pergunto, irritada e um tanto desajeitada nas palavras.
— O que quer dizer com isso?
— Desculpa. Eu preciso ir dormir. – Digo indo em direção ao meu quarto. Depois disso, a sala fica em silêncio e me sinto culpada. Tenho vontade de chorar, fica difícil respirar e parece que o ar não é suficiente, mas acabo cochilando assim mesmo.
***
— Nina? – Abro os olhos e tenho uma visão um pouco embaçada de Mirian.
— O que é? – Pergunto sonolenta.
— Está tudo bem?
— Só estou cansada. Amanhã estarei bem. – Minto.
— Então tá. – Diz ela. Fico em silêncio e ela parece desconfortável, então continua com um assunto aleatório: – as lésbicas são tão... Tão... Estranhas!
— Eu... Não sei. – Isso foi tão inesperado que eu não fazia ideia de como responder. É incrível como quando você não quer falar sobre um assunto, ele te persegue.
— É que, tem uma garota na minha sala que é, e tipo, ela veio falar comigo, eu não sabia o que fazer. Não quis ser grossa mas também não quero ser amiga de uma lésbica! – Eu olhei incrédula para ela, que continuou: – Quero dizer, e se ela estiver interessada em mim?
— Não é porque ela é lésbica que ela vai estar interessada em todas as garotas. – Argumento. Isso não tem nada a ver com a sexualidade da pessoa, e sim a personalidade. Odeio rótulos. Quero gritar, xingar, mas me contenho. – E mesmo que estivesse, não é motivo para tratar mal. Se um cara estiver a fim de você, vai achar tão ruim assim?
— Ai, não sei, Nina! É que, não acho isso correto. E, é nojento. Não posso ser amiga dela, não mesmo. – Consigo imaginá-la dizendo "não posso ser irmã dela". Algo se desmonta dentro de mim.
— Ela deve ouvir muito isso dos outros, não acha que já basta? Não acha que ela sofre? – Interrogo, tentando não deixar a fúria se expressar. Uma falha tentativa.
— Qual é, ela nem está aqui para ouvir!
— Bem, eu estou. – Ela me lança um olhar confuso. – De qualquer forma, não vamos ficar falando sobre isso, eu quero dormir, e não me acorde de novo.

Isso foi doloroso. Quem sabe se eu dormir agora eu esqueça ou pense que foi um pesadelo? Mentira, sei que isso não vai acontecer. Merda, por que eu não esqueço essa Marjorie de uma vez? E ela tinha que se tornar amiga da minha irmã? E a minha irmã tinha de ser uma idiota nesse ponto! Que droga.

Marcelo agora é o único a quem ainda me sinto genuinamente próxima nesta casa.

Meu celular vibra. Isso sim é uma mensagem inesperada.
Já tomou uma decisão?— De Pedro. Enviada às 16:54..
Depois do que ouvi hoje, fica difícil saber.
O que você ouviu?
Eu sou nojenta. E dou em cima de todas as garotas.
Quem disse isso?
Minha irmã.
Caralho. Olha, a gente conversa depois, pessoalmente. Mas não dê atenção a esse tipo de comentário. São mentiras. Sabe disso.

Sei que ele provavelmente está certo, mas é extremamente difícil esquecer aquelas palavras. A culpa, o medo, a rejeição, o medo da rejeição. Eles tomam o lugar da lógica.

Notas finais
E aí, galerinha, o que acharam? Espero ter suprido suas expectativas. Beijos! :3