A exceção
7 Capítulo 7.
Notas iniciais
Já faz quase duas semanas que não falo com a Marjorie. E eu ainda penso nela o tempo todo. E todos os detalhes, as lembranças, mesmo que poucas. Talvez exatamente por serem poucas, fica mais fácil lembrar de tudo. Estou cansada disso. Por que eu não posso esquecer essas coisas assim como esqueço, por exemplo, a matéria da prova ou o que almocei ontem?
Eu tenho que ir para aquela merda de escola quase todo dia e vê-la, evitá-la. Chego em casa estressada, e, mesmo com todo o esforço, tenho que ouvir reclamações dos meus pais sobre passar grande parte do dia dormindo, daí acabo descontando neles e na Mirian.
Me sinto sozinha. Estão todos aqui, porém as brigas são mais constantes. Toda vez que eu olho para a Mirian eu me lembro das coisas absurdas que me disse. E os “eu te amo” soam falsos.
E como poderia soar diferente para mim? Se eu dissesse o que eu penso, como eu me sinto, eu nunca mais ouviria tais palavras. Quando o assunto surge, eles sempre dizem as mesmas coisas, que é pecado, que não é natural, que é contra as leis de Deus e sempre tem os mesmos rótulos, que todo gay vive uma vida desajustada, libertina e tal. Mas como um sentimento tão intenso e bonito como o que eu sinto pela Marjorie poderia ser errado?
Ouço tanto que é errado que eu me sinto culpada às vezes, mesmo que eu não pense como eles. Mas eu não posso fazer nada, assim como os sentimentos, não se pode controlar os pensamentos. É como se as palavras deles grudassem na minha mente.
É um domingo tedioso de novo. Mas não vejo mais aquela coisa da perfeição das tardes comuns que eu via. Porque eu não consigo ficar mais em paz comigo mesma. Qualquer momento se torna tortura. Simplesmente não consigo pensar em outra coisa a não ser Marjorie, de uma forma mais que amigável.
Resolvo ir ao Starbucks para me amaldiçoar. Peço um latte e um donut, o mesmo que pedi da outra vez, o lugar onde sentei da vez que vim antes está vazio, e é lá que resolvo sentar. Quase posso ver Marjorie sentada na mesa da frente, agitada, tremendo com o celular em sua mão.
Eu não sabia que, em uma tarde insignificante, seria praticamente arrastada de casa para uma cafeteria por causa da minha irmã, e este ia ser um dia em que definitivamente tudo seria posto à dúvida, até mesmo o amor da minha família. Sempre achei que a melhor forma de viver era sair de casa o menos possível. E eu estava certa.
O que estou fazendo aqui, afinal? E até quando eu vou ficar me sentindo mal por tudo isso? Eu nem ao menos precisava vir aqui me amaldiçoar, já estou amaldiçoada. Devia mesmo é tomar uma decisão. Ou a paz em minha família, ou Marjorie. Ninguém deveria ter de passar por esse tipo de decisão, mas eu terei.
Pelas minhas atitudes ultimamente, acho que já me decidi. Apenas dói demais aceitar.
Ouço alguém chamar meu nome do balcão, então vou até lá buscar meu pedido. O gosto está bom, mas eu continuo achando que não é tão maravilhoso quanto dizem, só me traz lembrança, assim como tudo nesse lugar e tudo na minha cabeça. Se ela estivesse aqui, eu dividiria com ela. E ela ficaria super animada. Posso imaginar seu rosto sorridente na minha frente, mas claro, não é a mesma coisa.
Ah, Marjorie. Eu tento tanto não te amar, tento não lembrar do pouco tempo que tivemos juntas, mas esse esforço tem sido tão inútil que chega a ser frustrante. Queria tanto ver o seu sorriso puro, ouvir a sua voz acolhedora, sentir seu toque gentil, e ao invés disso, tenho de manter distância de você. Eu espero que eu não tenha te chateado demais, espero que você esteja bem e que continue a alegrar as pessoas com o seu jeito encantador. Nunca mude por ninguém.
Quando termino, pago a conta e vou embora. Chego em casa silenciosamente e vou para o meu quarto ouvir música. É fim de semana, então, assim como na maioria das vezes, Mirian não está em casa.
Aproveito e pego meus fones de ouvido e meu celular, sento na minha cama e canto baixinho uma playlist de Arctic Monkeys e Oasis. Devido à alguma razão, isso me acalma. Talvez é como se eu estivesse expressando meus sentimentos. Por isso, canto até cansar a minha garganta.
Eu preciso seguir a vida sem pensar em Marjorie e esses sentimentos. Talvez seria melhor que eu arranjasse um namorado. Mas, pensando bem, e se ele acabasse gostando de mim enquanto eu só estivesse com ele para esquecer a Marjorie? E se eu não conseguisse me apaixonar por ele? Isso seria cruel. A não ser que eu dissesse à ele desde o início, mas qual o cara que aceitaria isso por mim? É, acho que isso não vai dar certo. Foi uma ideia muito idiota.
Alguém bate na porta me tirando dos meus pensamentos, eu paro de cantar e em seguida alguém entra no quarto. É o Marcelo.
— Eu estou descansando um pouco das coisas da faculdade, então resolvi vir falar com você. – Diz Marcelo.
— Ah, oi! – Respondo sorrindo.
— É bom ver esse sorriso. Você anda estressada. – Comenta. Fico impressionada, pois ainda que ele passe a maior parte do tempo fora de casa ou ocupado, notou isso. Já Mirian, meus pais, não conseguem notar. Ou não se importam.
— É, só algumas coisas que têm me preocupado, mas, eu já estou resolvendo. – Quero acreditar nisso.
— Espero que sim. – Um silêncio perturbador segue por alguns segundos, então percebo que estou tomando o tempo de descanso dele.
— Ei, é seu tempo de descanso, não o perca comigo. Eu estava planejando dormir agora, também. Estou cansada.
— Tudo bem. Mas não hesite em falar comigo, ainda sou seu irmão. – Me pergunto se o que eu disse soou como “vá embora, eu quero dormir”, e me sinto culpada e distante.
— É claro que é! – Digo levantando abruptamente e abraçando-o. Ele ri. Se há uma pessoa desta casa a quem um dia posso contar sobre Marjorie, esse alguém é o Marcelo. Ele nunca concorda com o que meus pais dizem. E desconfio que ele me ama bem mais que meus pais. Quanto a Mirian, não quero nem pensar. Apesar de estar magoada com o que me disse, ainda gosto dela como uma melhor amiga. Pensar que isso pode acabar com poucas palavras, machuca. – Por que não dorme aqui? Assim pode descansar e estar comigo de uma vez.
Ele sorri e se aconchega ao meu lado.
O meu celular vibra. Uma mensagem:
— Eu fiz algo de errado?— De Marjorie. Enviada às 18:03.
Não respondo. Mas espero que isso doa mais em mim que nela. Não gosto de ter de fazer isso, sei que ela gosta de mim também, mesmo não tendo certeza se é da mesma forma que eu. Guardar estes sentimentos para mim, tê-la sempre tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Toda vez que a vejo nos corredores, sinto uma vontade avassaladora de correr e abraçá-la. Ao invés disso, finjo nem vê-la. E eu sei que o que sinto por ela não vai se apagar tão fácil. Ou nunca vai se apagar.
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