Narrado por Renesmee


William continuou me observando enquanto eu permanecia próxima à entrada da sala de jantar. Não havia qualquer timidez em seu olhar. Pelo contrário, ele me analisava com uma atenção desconfortavelmente calculada para uma criança de sete anos, como se estivesse procurando alguma coisa que pudesse usar contra mim antes mesmo que eu abrisse a boca. Martha permaneceu ao meu lado por alguns segundos. — Senhor William, esta é a senhorita Miller — apresentou a empregada enquanto indicava discretamente minha presença. — Ela ficará com o senhor durante alguns minutos. O menino não desviou os olhos de mim. — Outra? Martha manteve a expressão impassível. — Sim, senhor. William soltou um suspiro impaciente e voltou a olhar para o prato que havia empurrado para longe. — Pode mandar embora. Olhei para Martha, esperando alguma orientação, mas a mulher apenas fez um pequeno gesto em direção à mesa. — Boa sorte, senhorita Miller — desejou ela antes de sair da sala e fechar a porta atrás de si. Aquela mulher me abandonara sem qualquer remorso. Voltei minha atenção para William. Ele continuava com os braços cruzados. Caminhei até a mesa, mas não me sentei imediatamente. Observei o prato. Havia purê de batatas, alguns legumes, pequenos pedaços de carne e algo que parecia ter sido preparado com um cuidado muito maior do que qualquer refeição que eu já tivesse recebido quando criança. William acompanhou meu olhar. — Não vou comer. — Eu ainda não pedi que coma — respondi enquanto puxava a cadeira que ficava a alguma distância dele. — Vai pedir. — Talvez. Ele estreitou os olhos. — Todas pedem. Sentei-me e coloquei a bolsa sobre a cadeira ao lado. — E funcionou? William olhou significativamente para o prato intacto. — O que você acha? — Acho que não funcionou. — Então você é mais inteligente do que a última. Tive que controlar um sorriso. — Isso foi um elogio? — Não. — Uma pena. Eu estava começando a gostar de você. William me encarou com seriedade. — Você nem me conhece. — Exatamente. Por isso ainda tenho esperança. A expressão dele mudou por um instante. Não chegou a sorrir, mas percebi que não esperava aquela resposta. O menino descruzou os braços e apoiou os cotovelos sobre a mesa. — Você sabe quem eu sou? — William. — William o quê? — Não me disseram. Ele inclinou levemente a cabeça. — Então você não sabe. — Parece que não. — E mesmo assim veio aqui? — Vim para uma entrevista de emprego. Normalmente não faço uma investigação sobre crianças de sete anos antes de aceitar uma entrevista. William franziu a testa. — Tenho sete anos e três meses. — Peço desculpas pela imprecisão. Ele pareceu considerar se eu estava zombando dele. — Você fala estranho. — Cresci com freiras. — Isso explica? — Explica muitas coisas. William olhou novamente para o prato e empurrou-o ainda mais para longe. — Não vou comer. — Você já mencionou isso. — Então pode ir embora. — Também já mencionou isso. — E você ainda está aqui. — Estou percebendo que temos uma memória excelente. Ele bateu os dedos sobre a mesa. — Quanto estão pagando para você? A pergunta me surpreendeu. — Isso é uma pergunta bastante indiscreta para alguém de sete anos e três meses. — Você veio por dinheiro. — Naturalmente. É assim que empregos funcionam. — As outras disseram que gostam de crianças. — Talvez gostem. — Mentiram. Observei-o por alguns segundos. — Como sabe? William deu de ombros. — Porque todas começaram a falar comigo como se eu fosse um bebê. Uma delas disse que eu era um menino lindo. Outra tentou fazer um avião com uma colher. Finalmente compreendi parte da irritação dele. — Um avião? — Ela fez barulho de avião também. — Isso realmente parece desagradável. William me olhou com desconfiança. — Você não vai fazer? — Não tenho intenção de imitar uma aeronave durante esta entrevista. — Nem dizer que eu sou lindo? — Não pensei nisso até você mencionar. Ele estreitou os olhos novamente. — Você acha? Analisei seu rosto com exagerada atenção. — Ainda estou decidindo. William pareceu genuinamente ofendido. — Minha avó diz que sou bonito. — Avós não são fontes confiáveis nesse assunto. A boca dele se contraiu. Dessa vez eu tive certeza de que estava segurando um sorriso. Apoiei os braços sobre a mesa. — Posso fazer uma pergunta? — Você já fez várias. — Tem razão. Então farei outra. Ele fez um gesto indiferente. — Por que não quer comer? A pequena abertura que eu havia conseguido desapareceu imediatamente. William voltou a cruzar os braços. — Não estou com fome. — Certo. Ele esperou. Eu não disse mais nada. Depois de alguns segundos, William ergueu uma sobrancelha. — Só isso? — Você respondeu à pergunta. — Você não vai dizer que preciso comer? — Não. — Nem que vou ficar doente? — Imagino que já tenham dito isso muitas vezes. — Minha avó diz. — Provavelmente porque se preocupa com você. — Meu pai também. Aquela era a primeira vez que ele mencionava o pai. — Então imagino que ele também se preocupe. William desviou os olhos. — Ele manda. Havia alguma coisa diferente em sua voz. — Manda você comer? — Manda todo mundo fazer tudo. — Deve ser cansativo. William voltou a olhar para mim. — Para quem? — Para todo mundo. Ele ficou em silêncio por um momento. — Ninguém diz não para o meu pai. — Você diz. — Eu posso. — Então existe pelo menos uma pessoa nesta casa que diz não para ele. — Ele fica bravo. — Imagino. — Mas não faz nada. A maneira como William disse aquilo me chamou atenção. Não havia orgulho na voz. Parecia quase uma constatação. — Talvez ele não saiba o que fazer. William soltou uma risada curta. — Meu pai sabe fazer tudo. — Ninguém sabe fazer tudo. — Ele sabe. — Sabe cozinhar? William hesitou. — Temos cozinheiro. — Isso significa não. — Ele não precisa. — Sabe costurar? — Por que meu pai precisaria costurar? — Porque você disse que ele sabe fazer tudo. William franziu a testa. — Você está tentando me confundir. — Estou apenas verificando sua teoria. Ele me observou por alguns segundos antes de balançar a cabeça. — Você é irritante. — Já me disseram isso. — Aposto que muitas vezes. — Mais do que gostaria de admitir. William olhou para minha bolsa. — Você trouxe currículo? — Não. — Todas trouxeram. — Eu não tenho um. — Então não vai conseguir o emprego. — Essa possibilidade já tinha me ocorrido. — Você precisa muito dele? Pensei antes de responder. — Preciso. — Por quê? — Porque preciso de dinheiro. — Você é pobre? A franqueza infantil quase me fez rir. — Consideravelmente. — Quanto dinheiro você tem? — William, algumas perguntas não devem ser feitas. — Por quê? — Porque são pessoais. — Você perguntou por que eu não como. — Tem razão. Ele pareceu satisfeito por ter encontrado uma contradição. — Então quanto dinheiro você tem? Suspirei. — Pouco. — Quanto é pouco? — Menos do que eu gostaria e mais do que pretendo contar para uma criança que acabei de conhecer. William apoiou o queixo na mão. — Você não tem marido? — Não. — Namorado? — Não. — Família? Aquela pergunta me atingiu de maneira diferente. — Também não. Ele pareceu surpreso. — Ninguém? — Ninguém. William ficou em silêncio. — Todo mundo tem alguém. — Nem todo mundo. — Seus pais morreram? — Não sei. A expressão dele mudou. — Como você não sabe? — Eu cresci em um orfanato. Não conheci meus pais. William descruzou os braços. Pela primeira vez desde que eu entrara, ele parecia ter esquecido o jogo que estava fazendo comigo. — Eles abandonaram você? — Sim. — Por quê? — Também não sei. Ele abaixou os olhos por alguns segundos. — Minha mãe morreu. Eu não esperava aquela revelação. — Sinto muito. William imediatamente endureceu a expressão. — Eu não gosto quando dizem isso. — Então retiro. Ele ergueu os olhos. — Não pode retirar. — Posso parar de repetir. — As pessoas sempre dizem que sentem muito e depois ficam olhando para mim. — Como? — Como você estava olhando agora. Percebi que havia feito exatamente aquilo que provavelmente todos faziam. — Está certo. Não farei novamente. William me estudou com atenção. — Você fala sério? — Sim. — As pessoas dizem que não vão fazer e fazem. — Nesse caso, poderá reclamar quando eu fizer. — Eu vou. — Não tenho dúvida. O silêncio que se instalou entre nós já não parecia tão hostil. Olhei discretamente para o prato. William percebeu. — Nem pense nisso. — Pensar em quê? — Na comida. — Não estava pensando. — Estava olhando. — Posso olhar para um prato sem desenvolver um plano secreto. — As outras fizeram isso. — Talvez eu seja diferente das outras. — Todas dizem isso também. — Então aparentemente não sou tão original quanto imaginava. William quase sorriu novamente, mas controlou a expressão. Eu me levantei. Ele imediatamente ficou atento. — Vai embora? — Você disse que não está com fome. — Então perdeu. — Perdi o quê? — O teste. Fiquei parada ao lado da cadeira. — Que teste? — Você precisa me fazer comer. Finalmente tudo fez sentido. As candidatas cobertas de comida, as entrevistas rápidas, a recomendação de Sarah para que eu não tentasse obrigá-lo. Olhei para o prato e depois para William. — Então esse é o teste? — É. — E você sabe? — Claro. — Interessante. William recostou-se na cadeira com uma expressão satisfeita. — Se eu não comer, você não consegue o emprego. — Parece um sistema bastante injusto. — Não fui eu que inventei. — Mas está aproveitando. — Sim. Pelo menos era sincero. Voltei a me sentar. William sorriu pela primeira vez. Era um sorriso pequeno, quase arrogante. — Você precisa do emprego e eu não vou comer. Então você vai perder. — Está muito confiante. — Nenhuma conseguiu. — Quantas tentaram? Ele olhou para o teto enquanto calculava. — Muitas. — Essa é uma medida bastante precisa. — Parei de contar depois de vinte. — Hoje? — Sim. Olhei para ele com surpresa. — Você fez isso com mais de vinte mulheres em um único dia? — Algumas desistiram rápido. — E aquela que saiu com comida no cabelo? O sorriso de William aumentou. — Ela tentou segurar meu nariz para eu abrir a boca. — Então considero que ela mereceu parte do que recebeu. Ele riu. Foi uma risada curta, mas verdadeira. Aproveitei o momento para puxar o prato alguns centímetros na minha direção. William imediatamente parou de rir. — O que está fazendo? — Estou com fome. — É meu. — Você disse que não quer. — Isso não significa que você pode comer. Peguei o garfo. — Não vejo seu nome escrito no purê. William puxou o prato de volta. — É meu almoço. — Pensei que não estivesse com fome. — Não estou. — Então não vejo problema. Estendi a mão novamente. William afastou o prato. — Não toque. — Está bem. Recostei-me na cadeira. Ele olhou para mim. Depois para o prato. Esperei. William empurrou o prato um pouco para longe, mas não tanto quanto antes. — Você está tentando me enganar. — Não estou fazendo nada. — Está esperando que eu coma. — Neste momento estou esperando alguma coisa acontecer porque esta conversa já dura bastante tempo. — Você quer ganhar. — Naturalmente. — Eu também. Inclinei a cabeça. — Então temos um problema. William ficou alguns segundos pensando. — Podemos fazer uma disputa. — Que tipo de disputa? Ele olhou para meus braços e depois para os próprios. — Queda de braço. Demorei alguns segundos para acreditar que havia ouvido corretamente. — Você quer disputar uma queda de braço comigo? — Está com medo? — Estou tentando decidir se seria moralmente aceitável humilhar uma criança de sete anos. William endireitou-se imediatamente. — Eu sou forte. — Não duvido. — Já ganhei do meu primo. — Quantos anos tem seu primo? — Seis. Mordi a parte interna da bochecha para não rir. — Uma vitória impressionante. — Está com medo — insistiu ele enquanto apoiava o cotovelo na mesa. Olhei para a pequena mão estendida. — E o que acontece com quem perder? William pensou. — Se eu ganhar, você vai embora. — E se eu ganhar? Ele ficou em silêncio. Olhei para o prato. William acompanhou meu olhar. — Não. — Então não temos uma aposta. — Eu como uma coisa. — Metade do prato. — Uma coisa. — Metade. — Duas. — Metade. — Três coisas. — William, existem quatro coisas nesse prato. Ele percebeu tarde demais que havia revelado estar perfeitamente consciente do que havia diante dele. — Então três. — Combinado. Estendi a mão. — Mas três porções razoáveis. Não vale colocar um grão de ervilha na boca e dizer que comeu uma coisa. — Você está criando regras depois. — Estou evitando que use alguma brecha. William sorriu. — Você sabe o que é uma brecha? — Tenho vinte anos, não quatro. — Você parece mais nova. — Obrigada. Agora coloque o braço. Ele apoiou o cotovelo na mesa e segurou minha mão. Fiz o mesmo. William imediatamente tentou empurrar antes que começássemos. — Isso é trapaça — reclamei enquanto voltava nossas mãos para o centro. — Você não disse quando começava. — Outra brecha? — Você deveria prestar mais atenção. Balancei a cabeça. — Quando eu contar três. — Certo. Ajustamos as mãos. — Um, dois, três. William fez força imediatamente. Eu quase ri. Ele realmente era mais forte do que eu esperava para uma criança de sete anos, mas obviamente não havia qualquer possibilidade real de me vencer se eu usasse toda a força. Ainda assim, não terminei de imediato. Deixei meu braço ceder alguns centímetros. Os olhos dele se iluminaram. — Eu sabia. — Ainda não ganhou. — Vou ganhar. William aumentou a força e chegou a se levantar parcialmente da cadeira. — O cotovelo precisa ficar na mesa — avisei enquanto resistia. — Está na mesa. — Metade dele está na mesa. — Continua contando. — Você negocia como um advogado. — Meu pai tem muitos. — Isso explica algumas coisas. Ele fez mais força. Deixei minha mão se aproximar da mesa. William sorriu, convencido de que venceria. — Vai embora quando perder. — Você realmente quer tanto que eu vá embora? A pergunta fez sua expressão vacilar. Foi apenas um segundo. Mas eu percebi. William não queria necessariamente que eu fosse embora. Ele queria decidir se eu ficaria. Havia diferença. Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, ele voltou a pressionar minha mão. — Está quase perdendo. — Tem razão. William sorriu. Então comecei a empurrar na direção contrária. A expressão de triunfo desapareceu. — Ei! — O quê? — Você estava perdendo. — Estava. — Não pode ficar forte de repente. — Não conheço essa regra. Ele apertou minha mão com mais força. — Pare. — Quer desistir? — Não! Continuei lentamente. William usou toda a força que tinha. Seu rosto ficou vermelho, e ele chegou a prender a respiração. — Respire — aconselhei enquanto mantinha o movimento. — Não pretendo explicar à sua avó que você desmaiou durante uma queda de braço. — Eu não vou perder. — Parece que vai. — Não vou. — Então faça alguma coisa. — Estou fazendo! Minha mão continuou avançando. William tentou usar o outro braço. — Isso é trapaça — avisei. Ele retirou imediatamente. — Eu sei. — Pelo menos é um trapaceiro com consciência. — Não sou trapaceiro. — Ainda estou avaliando. Poucos segundos depois, encostei a mão dele na mesa. William ficou completamente imóvel. Eu soltei sua mão. — Ganhei. Ele olhou para o próprio braço como se tivesse acabado de testemunhar uma traição. — Você deixou eu achar que estava ganhando. — Deixei. — Isso é trapaça. — Não existe regra contra parecer mais fraca do que realmente sou. William levantou os olhos e me encarou. — Você me enganou. — Usei uma brecha. Ele ficou alguns segundos em silêncio. Então reconheceu a própria frase. — Isso não vale. — Vale, sim. Fizemos um acordo. William olhou para o prato. Depois olhou novamente para mim. — Três coisas? — Três. — Não vou comer as ervilhas. — Não pedi que comesse. — Nem o brócolis. — Então escolha outras três. Ele puxou o prato para perto. Observei enquanto pegava o garfo. William espetou um pedaço de carne e ficou olhando para ele durante alguns segundos. — Você não vai ficar me olhando, vai? Lembrei-me do que ele havia dito sobre as pessoas observarem. Desviei os olhos imediatamente. — Não. — E não vai contar para minha avó que ganhou? — Certamente vou contar. — Não conte. — Por quê? — Porque ela vai contar para meu pai. — E qual é o problema? William colocou o pedaço de carne na boca antes de responder. — Ele vai rir. Sorri enquanto mantinha os olhos voltados para a janela. — Então talvez eu guarde seu segredo. — Talvez? — Ainda estou negociando. Ouvi o garfo tocar novamente no prato. — Você é muito irritante, Renesmee Miller. Dessa vez, não consegui conter o sorriso. — Também estou começando a gostar de você, William Black.