Capítulo 1

Renesmee

Quando deixei a sala de jantar, William ainda estava diante do prato, cumprindo com evidente má vontade a parte dele no acordo. Eu não sabia se aquilo significava que havia passado no teste, mas o fato de Martha ter voltado poucos minutos depois e me conduzido novamente até o escritório de Sarah Black parecia um bom sinal.

Enquanto caminhava pelos corredores da mansão, tentei organizar tudo o que havia acontecido desde que atravessara aquele portão. Eu chegara esperando uma entrevista comum, encontrara uma criança que parecia ter transformado a seleção de candidatas em uma competição particular e, de alguma maneira, conseguira fazê-lo comer sem terminar coberta de comida ou abandonar a casa aos prantos.

Talvez minha experiência no Saint Agnes tivesse sido mais útil do que eu imaginava.

Sarah estava sentada atrás de uma escrivaninha quando entrei. Dessa vez, havia alguns documentos diante dela e uma xícara de café ao lado. Ela ergueu os olhos assim que me aproximei e indicou a cadeira diante da mesa.

– Sente-se, senhorita Miller – pediu Sarah enquanto fechava uma das pastas.

Obedeci e coloquei a bolsa sobre o colo.

– William cumpriu o acordo – informei, sem conseguir evitar um pequeno sorriso. – Embora provavelmente conte uma versão diferente quando alguém perguntar.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

– Que acordo?

– Uma queda de braço.

Durante alguns segundos, ela apenas me encarou.

– Você disputou uma queda de braço com meu neto?

– Foi ideia dele – expliquei, apoiando as mãos sobre a bolsa. – Se ele ganhasse, eu iria embora. Se eu ganhasse, ele comeria três coisas do prato.

Sarah tentou esconder o sorriso, mas não conseguiu completamente.

– E imagino que você tenha vencido.

– Não teria voltado aqui se tivesse perdido.

– William odeia perder.

– Percebi.

Sarah balançou a cabeça lentamente.

– Faz algum tempo que ninguém consegue convencê-lo a transformar uma refeição em algo que não termine em discussão.

– Eu não o convenci. Fizemos uma negociação.

– Para William, isso é praticamente a mesma coisa.

Ela abriu uma das pastas novamente e consultou algumas anotações. Esperei em silêncio, embora minha ansiedade começasse a aumentar. Eu precisava saber se havia conseguido o emprego. Cada minuto naquela casa tornava ainda mais difícil pensar na possibilidade de voltar para o pequeno quarto no Bronx e continuar procurando trabalho.

Sarah levantou os olhos.

– Antes de qualquer decisão, preciso explicar algumas coisas. O cargo exige residência permanente nesta casa. A rotina não será limitada a algumas horas por dia, e haverá ocasiões em que será necessária sua presença em viagens, compromissos familiares e eventos.

Assenti.

– Isso não seria um problema.

– William frequenta a escola durante a semana, mas atualmente possui acompanhamento particular em algumas disciplinas. Existem profissionais responsáveis por isso. Você não deverá substituir professores, médicos ou qualquer especialista. Sua função será outra.

– Qual?

Sarah apoiou os braços sobre a mesa.

– Fazer parte da rotina dele. Acordá-lo quando necessário, acompanhá-lo durante algumas refeições, buscá-lo ou levá-lo à escola quando solicitado, estar com ele em determinados compromissos e, principalmente, estabelecer uma relação de confiança.

Aquilo parecia consideravelmente mais abrangente do que a palavra babá normalmente significava.

– Então não é exatamente um trabalho de babá.

– O anúncio precisava ser simples.

– Imagino que colocar todas essas informações não ajudaria a conseguir quase cem candidatas.

Sarah sorriu discretamente.

– Provavelmente não.

– Existe mais alguma coisa que não estava no anúncio?

A pergunta fez Sarah permanecer alguns segundos em silêncio.

– Existe.

Aquilo não me tranquilizou.

– Posso saber o que é?

– Saberá caso avance para a próxima etapa.

Franzi levemente a testa.

– Ainda existe outra etapa?

– Existe uma entrevista final.

– Com quem?

Sarah fechou a pasta e apoiou as mãos sobre ela.

– Com Don Black.

Eu já ouvira aquele título antes, principalmente em filmes e livros, mas nunca imaginara escutá-lo em uma conversa de emprego.

– Don Black?

– Jacob Black – explicou Sarah com naturalidade. – Pai de William e proprietário desta casa.

A maneira como ela disse aquilo me fez perceber que eu provavelmente deveria saber quem era aquele homem.

– Ele também entrevista as babás?

Sarah sustentou meu olhar.

– Ele entrevista qualquer pessoa que possa permanecer próxima aos filhos.

Havia alguma coisa naquela resposta que tornou o emprego ainda mais estranho.

– E quando será essa entrevista?

– Hoje.

Olhei discretamente para o relógio.

– Hoje?

– Meu filho está resolvendo alguns assuntos e ainda não retornou. Não sei quanto tempo levará, por isso gostaria que aguardasse aqui.

– Aqui na casa?

– Sim.

Sarah percebeu minha surpresa.

– Existe algum problema?

– Não, apenas pensei que poderia voltar em outro horário.

– Seria pouco prático. Jacob pode chegar dentro de meia hora ou no início da noite. Prefiro que esteja disponível quando ele chegar.

Aquela família definitivamente não parecia trabalhar com horários comuns.

– Certo. Posso esperar.

– Você será levada a um dos quartos de hóspedes. Pode descansar, usar o banheiro e pedir alguma coisa para comer se estiver com fome.

– Não precisa fazer tudo isso.

– Senhorita Miller, esta casa possui quartos suficientes para receber uma pequena delegação. Não será um inconveniente.

Sorri discretamente.

– Quando coloca dessa maneira, parece razoável.

Sarah apertou um pequeno botão sobre a mesa. Poucos segundos depois, uma empregada apareceu à porta. Era uma jovem de cabelos castanhos, provavelmente alguns anos mais velha do que eu.

– Senhora Black?

– Jessica, acompanhe a senhorita Miller até um dos quartos de hóspedes – pediu Sarah enquanto voltava sua atenção para alguns documentos. – Ela aguardará a chegada do Don.

Jessica assentiu imediatamente.

– Claro, senhora Black.

Levantei-me e coloquei a bolsa no ombro.

– Obrigada pela oportunidade.

Sarah ergueu os olhos.

– Ainda não agradeça. Você conquistou William, o que já é mais do que quase todas as mulheres que passaram por esta casa conseguiram. Agora terá que convencer o pai dele.

Não sabia por que aquela frase pareceu uma advertência.

– Tentarei.

Sarah permitiu um pequeno sorriso.

– É exatamente isso que espero.

Saí do escritório acompanhando Jessica. Ela caminhava com rapidez, mas não com a rigidez de Martha, e parecia bem mais próxima da minha idade. Depois de alguns metros em silêncio, não consegui evitar a pergunta que estava me incomodando desde que Sarah mencionara o quarto.

– Posso perguntar uma coisa?

Jessica olhou para mim enquanto continuávamos caminhando.

– Pode.

– Todas as candidatas a babá ficam hospedadas na mansão enquanto esperam?

Jessica parou por um instante e depois começou a rir.

Olhei para ela sem compreender.

– O que foi?

– Nada – respondeu enquanto tentava recuperar a compostura. – Apenas achei engraçada a pergunta.

– Não vejo por quê.

– Porque você ainda está chamando isso de vaga de babá.

Diminui o passo.

– Foi exatamente o que estava escrito no anúncio.

– Eu sei.

– Então qual seria o nome correto?

Jessica olhou rapidamente ao redor antes de responder.

– Digamos apenas que esse cargo é bastante específico.

– Sarah também disse algo parecido.

– Então aconselho que se acostume. Nesta casa, muita coisa parece uma coisa quando, na verdade, é outra.

Aquilo só aumentava minha curiosidade.

– Você está tentando me assustar?

– Não – respondeu Jessica enquanto voltava a caminhar. – Se estivesse tentando assustá-la, contaria algumas histórias sobre o senhor Black.

– Jacob?

Jessica lançou um olhar rápido para mim.

– Se conseguir o emprego, recomendo que não o chame assim logo no primeiro dia.

– Por quê?

– Porque quase ninguém chama.

– Sarah chamou.

– Ela é mãe dele. Imagino que tenha alguns privilégios.

Sorri.

– Então Don Black realmente é tão sério quanto parece?

Jessica fez uma expressão pensativa.

– Depende do que considera sério.

– Pelo que estou percebendo, qualquer resposta nessa casa vem acompanhada de outra pergunta.

– Está aprendendo rápido.

Chegamos próximos à grande escadaria do hall quando uma voz feminina atravessou o ambiente.

– Jessica!

O tom foi tão autoritário que nós duas paramos imediatamente.

Uma mulher loira vinha em nossa direção pelo corredor lateral. Devia ter pouco mais de vinte anos e era extremamente elegante. Usava uma roupa clara perfeitamente ajustada ao corpo, saltos altos e carregava o celular em uma das mãos. Não havia qualquer dúvida de que estava acostumada a ser observada.

Jessica imediatamente assumiu uma postura mais formal.

– Pois não, senhorita Cullen?

O sobrenome chamou minha atenção, embora eu não soubesse por quê. Talvez apenas porque até aquele momento eu ouvira Black tantas vezes que outro sobrenome dentro daquela casa parecia estranho.

A loira parou diante de nós e olhou primeiro para Jessica, depois para mim, sem esconder a curiosidade.

– Onde está minha bebida?

Jessica pareceu surpresa.

– Pedi que fosse levada para a sala azul há alguns minutos.

– Eu sei o que pediu. Estou perguntando por que ainda não chegou.

– Eu estava cumprindo uma ordem da senhora Black.

A mulher cruzou os braços.

– E desde quando isso impede você de cumprir duas coisas ao mesmo tempo?

Jessica abaixou discretamente a cabeça.

– Vou verificar assim que terminar de acompanhar a senhorita Miller.

A loira finalmente voltou toda a atenção para mim.

– E quem é ela?

Antes que Jessica respondesse, falei por mim mesma.

– Renesmee Miller.

Ela me examinou dos sapatos ao rosto.

– Não perguntei a você.

A grosseria foi tão gratuita que levei alguns segundos para acreditar que havia escutado corretamente.

Jessica tentou interferir.

– Senhorita Cullen, a senhora Black pediu que eu a levasse...

– Eu ouvi – cortou a loira enquanto voltava a olhar para Jessica. – Mas estou esperando há quase vinte minutos. Você deveria saber organizar suas prioridades.

Jessica apertou discretamente as mãos diante do corpo.

Eu conhecia aquela expressão.

Conhecera muitas pessoas que permaneciam em silêncio diante de alguém que podia lhes custar o emprego.

Também conhecia perfeitamente pessoas que confundiam salário com direito de humilhar os outros.

Talvez eu tivesse aprendido pouco na noite anterior sobre a importância de manter a boca fechada quando precisava de um trabalho.

– Ela acabou de explicar que está cumprindo uma ordem – disse enquanto me colocava discretamente ao lado de Jessica.

A loira virou lentamente o rosto em minha direção.

– Desculpe?

– Jessica disse que a senhora Black pediu que ela me acompanhasse. Imagino que deixar de cumprir essa ordem apenas porque sua bebida está atrasada não resolveria muita coisa.

Jessica me olhou de imediato.

A expressão dela dizia com absoluta clareza que eu deveria parar.

Eu não parei.

A loira soltou uma pequena risada sem humor.

– Você acabou de chegar e já decidiu interferir no trabalho dos empregados?

– Não estou interferindo. Apenas ouvi a conversa.

– Então deveria aprender a não participar de conversas que não lhe dizem respeito.

– Poderia ter feito isso se a conversa não estivesse acontecendo diante de mim.

Os olhos claros da mulher se estreitaram.

– Você sabe quem eu sou?

– Ainda não.

Jessica respirou fundo ao meu lado.

– Renesmee...

A loira ergueu uma das mãos, impedindo Jessica de continuar.

– Sou Bree Cullen.

Assenti lentamente.

– Certo.

Ela pareceu esperar alguma reação que não veio.

– Só isso?

– Não sei exatamente o que deveria acrescentar.

Bree soltou uma risada curta.

– Você realmente não sabe onde entrou.

– Isso já ficou bastante evidente desde que cheguei.

Ela deu um passo em minha direção.

– Então talvez seja melhor aprender rapidamente. Funcionários desta casa sabem qual é o lugar deles.

Olhei para Jessica e depois para ela.

– Imagino que funcionários também mereçam ser tratados com respeito.

– Não pedi sua opinião.

– Mesmo assim, parece que estamos trocando opiniões desde que começou a falar comigo.

Jessica segurou discretamente meu braço.

– Senhorita Miller, precisamos subir.

Percebi que ela tentava impedir que aquela situação ficasse pior.

Bree, porém, ainda me encarava.

– Você é candidata ao quê?

– Ao cargo anunciado.

– Babá?

– Aparentemente.

Ela olhou novamente para roupas, e o desprezo em sua expressão não foi exatamente sutil.

– Boa sorte. Vai precisar.

– Obrigada.

Bree voltou-se para Jessica.

– Quero minha bebida quando descer.

Jessica assentiu.

– Sim, senhorita Cullen.

Bree passou por nós sem dizer mais nada, e esperei até que estivesse distante antes de voltar a caminhar.

Jessica permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

– Você não deveria ter feito isso.

– Defender você?

– Confrontar Bree Cullen.

– Ela estava sendo desrespeitosa.

– Isso não muda quem ela é.

– E quem ela é?

Jessica olhou para mim enquanto começávamos a subir as escadas.

– Alguém que você não quer irritar no primeiro dia.

– Tecnicamente, ainda nem é meu primeiro dia.

Jessica me encarou por um instante e, apesar da preocupação, acabou sorrindo.

– Tenho a impressão de que você vai dar muito trabalho nesta casa.

– Isso é ruim para minha entrevista?

– Ainda não decidi.

Continuamos subindo, e eu olhei discretamente para o andar superior enquanto tentava entender como uma simples procura por emprego havia terminado comigo hospedada em uma mansão, esperando uma entrevista com um homem chamado Don Black e discutindo com uma mulher arrogante poucos minutos depois de entrar.

Quanto mais tempo permanecia naquela casa, menos aquele trabalho parecia ter qualquer coisa de simples.

E eu ainda nem havia conhecido o homem que decidiria se eu poderia ficar.


O restante do dia passou de maneira muito mais lenta do que eu esperava.


Depois que Jessica me deixou no quarto de hóspedes, uma funcionária apareceu pouco antes do horário do almoço com uma bandeja tão bem organizada que parecia ter sido preparada para alguém muito mais importante do que uma candidata a emprego. Havia sopa, salada, pão ainda quente, uma pequena sobremesa e uma jarra de água. Agradeci, comi sozinha e, durante algum tempo, fiquei convencida de que Don Black chegaria logo.

Ele não chegou.

Ou, pelo menos, ninguém apareceu para me chamar.

Passei parte da tarde observando o quarto e tentando decidir o que poderia fazer sem parecer inconveniente. Havia uma televisão, uma pequena estante com livros, uma poltrona próxima à janela e uma cama grande demais para uma única pessoa. O banheiro era maior do que o quarto que eu alugara no Bronx, e levei alguns minutos para aceitar a ideia de que aquele espaço inteiro estava destinado apenas a hóspedes.


Li algumas páginas de um livro que encontrei na estante, mas não consegui me concentrar. Tentei dormir, mas minha mente insistia em retornar à mesma pergunta. Quanto tempo ainda precisaria esperar por um homem que nem sequer conhecia?

No fim da tarde, outra funcionária trouxe chá. Mais tarde, veio o jantar.

Também no quarto.

Aquilo começou a me incomodar.

Não porque estivesse sendo maltratada. Muito pelo contrário. Eu estava confortável, alimentada e, aparentemente, autorizada a permanecer ali pelo tempo que fosse necessário. O problema era justamente a ausência de qualquer informação. Ninguém dizia se Don Black estava a caminho, se havia mudado de ideia ou se aquela espera fazia parte de algum teste absurdo.


Depois de jantar, permaneci sentada por quase vinte minutos olhando para a bandeja vazia.


Então desisti de fingir paciência.

Levantei-me, ajeitei os cabelos e saí do quarto, o corredor estava silencioso. Fechei a porta atrás de mim e comecei a caminhar devagar, observando tudo com mais atenção do que tivera oportunidade de fazer antes. A mansão parecia ainda maior à noite. A iluminação era suave, distribuída por lustres e pequenos pontos de luz nas paredes, e o piso brilhava de uma maneira quase excessiva. Havia tapetes longos, móveis antigos, esculturas, vasos e quadros em praticamente todos os corredores.


Nada parecia colocado por acaso.


A casa possuía aquele tipo de riqueza que não precisava de etiquetas de preço. Era visível na madeira escura dos móveis, na altura das portas, na espessura dos tapetes e até no silêncio. Não parecia uma residência construída apenas para impressionar. Parecia uma casa pertencente a uma família que estava acostumada a ter tudo aquilo havia muito tempo.


Parei diante de uma mesa estreita onde havia um vaso com flores brancas e observei uma pequena fotografia emoldurada. Nela, Sarah aparecia ao lado de um homem que eu não reconhecia e de duas crianças. William era menor. A outra devia ser uma menina, talvez alguns anos mais velha.

Alguns metros adiante, encontrei um corredor ainda mais bonito. As paredes eram revestidas por painéis de madeira, e havia quadros maiores distribuídos ao longo do caminho. Alguns eram retratos. Outros pareciam peças antigas.


Um deles me fez parar.

Era diferente dos demais.


O quadro tinha fundo escuro e detalhes dourados. No centro, havia uma inscrição escrita com letras gregas, cercada por um desenho discreto que lembrava folhas de louro. A composição era simples, mas extremamente bonita.


Aproximei-me alguns passos.


Eu reconhecia o alfabeto apenas de maneira vaga. Algumas letras pareciam familiares, mas não o suficiente para que eu conseguisse formar qualquer palavra.


Foi então que ouvi uma voz atrás de mim.

– Você ao menos sabe ler o que está escrito?

Fechei os olhos por um segundo. Aquela voz eu conhecia.

Virei-me devagar.

Bree Cullen estava parada alguns metros atrás, segurando uma taça de vinho. Usava outra roupa, ainda mais elegante do que a anterior, e me observava com aquela mesma expressão de superioridade que demonstrara pela manhã.


Suspirei. – Não – respondi enquanto voltava a olhar para o quadro. – No orfanato onde cresci não havia a disciplina de língua grega.


Bree soltou uma pequena risada. – Isso explica bastante coisa.

Olhei novamente para ela. – Imagino que sim.

– Você fala sobre ter crescido em um orfanato como se isso não fosse constrangedor.

A maneira como ela disse aquilo me fez permanecer em silêncio por alguns segundos.

– Não vejo motivo para me envergonhar.

Bree inclinou levemente a cabeça. – Claro que não vê.

– Fui abandonada quando criança. Não escolhi isso. Crescer com pouco também não foi uma escolha minha. Não vejo por que deveria baixar a cabeça por algo sobre o qual nunca tive controle.


A expressão dela endureceu. – Você gosta de responder.


– Quando falam comigo, normalmente respondo.

– Existe uma diferença entre responder e esquecer qual é o seu lugar.

– Ainda não entendi por que insiste tanto nessa ideia.


Bree aproximou-se. – Porque pessoas como você chegam a lugares como este e confundem educação com igualdade.


Sustentei o olhar dela. – Pessoas como eu?

– Funcionários. Dependentes. Pessoas que estão aqui porque alguém permitiu.


Aquilo teria me atingido mais se eu não tivesse passado a vida ouvindo diferentes versões do mesmo desprezo.

– Ainda não sou funcionária – respondi com tranquilidade. – E, mesmo se fosse, não acredito que um salário transforme ninguém em alguém inferior.

Bree riu sem humor. – Você realmente não entende nada.

– Talvez.

– Esta casa tem hierarquia.

– Imagino que tenha.

– E eu estou acima de você.

– Isso parece muito importante para você.

A frase produziu exatamente o efeito que eu esperava.

Bree apertou a taça com mais força. – Tome cuidado com a maneira como fala comigo.

– Estou falando da mesma maneira como você fala comigo.

– Não somos iguais.

– Também não disse que somos.

– Então comporte-se como alguém que precisa deste emprego.


Aquela observação tocou em um ponto que eu preferia não admitir.

Eu precisava. Precisava muito.

Ainda assim, não conseguiria aceitar que aquilo significasse permitir qualquer coisa. – Precisar de um emprego não significa aceitar humilhação.


Bree deu mais um passo. – Você não está sendo humilhada.

– Discordo.

–Sua opinião pouco importa.

– Então não compreendo por que continua discutindo comigo.

O rosto dela mudou de imediato. Percebi que havia ultrapassado algum limite invisível.

Bree colocou a taça sobre uma mesa próxima.

– Sabe de uma coisa? Você não ficará aqui.

– Isso cabe à família Black decidir.

– Eu decido muitas coisas nesta casa.

– Sarah não me deu essa impressão.

A menção ao nome de Sarah a irritou ainda mais. – Não use a senhora Black para se proteger.

– Não estou me protegendo. Apenas estou lembrando que foi ela quem pediu que eu permanecesse.

– Então eu direi a ela que você não serve.

– Pode dizer.

Bree pareceu surpresa. – Você acha que estou brincando?

– Não.

– Posso fazer você sair desta casa hoje mesmo.

– Se tiver essa autoridade, faça.

Ela me encarou durante alguns segundos. – Você é insolente.

– Talvez eu apenas não esteja acostumada a ser tratada como se devesse pedir desculpas por existir.

– Eu vou demitir você.

Uma voz grave interrompeu a discussão antes que eu pudesse responder.

– E quem, exatamente, lhe deu autoridade para demitir um funcionário da minha casa?

O silêncio caiu sobre o corredor.

Bree empalideceu.

O homem surgia na extremidade do corredor com passos tranquilos. Era alto, mais do que eu esperava, e o terno escuro que usava parecia ter sido feito especialmente para ele. A roupa elegante não escondia a largura dos ombros nem o porte musculoso. Havia algo em sua presença que fazia todo o ambiente parecer menor.

Ele não precisava andar depressa. Também não parecia precisar levantar a voz.

Mesmo assim, Bree ficou completamente imóvel.

Eu acompanhei sua aproximação sem conseguir desviar os olhos.


O rosto era sério, marcado por traços firmes e por uma expressão que não revelava absolutamente nada. Os cabelos escuros estavam perfeitamente arrumados, e o modo como ele caminhava demonstrava a segurança de alguém acostumado a ser obedecido antes mesmo de terminar uma ordem.

Quando ficou próximo o suficiente, seus olhos passaram primeiro por Bree.

Depois vieram até mim.

E permaneceram ali.