A esposa do Don
6 A candidata
Jacob
O homem estava preso à cadeira havia quase duas horas.
Eu permanecia do outro lado da sala, observando o trabalho dos meus homens sem qualquer necessidade de participar. Havia aprendido muito cedo que interrogatórios exigiam paciência. O medo fazia algumas pessoas falarem antes mesmo de serem tocadas. Outras precisavam compreender que ninguém viria buscá-las. Existiam ainda aquelas que se agarravam ao silêncio por lealdade, dinheiro ou pela esperança equivocada de que resistir por tempo suficiente mudaria alguma coisa.
Aquele homem pertencia à última categoria.
O galpão abandonado ficava em Red Hook, no Brooklyn, em uma antiga área industrial próxima ao cais. Por fora, não havia nada que despertasse atenção. Portas metálicas enferrujadas, janelas parcialmente cobertas e um estacionamento que não recebia caminhões havia anos. Por dentro, entretanto, o lugar pertencia aos Black e servia perfeitamente para conversas que não poderiam acontecer em meus escritórios.
O homem gemeu quando um dos meus homens o ergueu pelos cabelos.
Havia sangue descendo por sua boca, e um dos olhos estava tão inchado que provavelmente não conseguiria abri-lo até a manhã seguinte. Caso chegasse à manhã seguinte.
Quil colocou diante dele algumas fotografias.
— Quero o nome — exigiu Quil enquanto empurrava uma das imagens sobre a mesa improvisada. — Você recebeu dinheiro, conseguiu acesso aos nossos horários e entregou a localização de dois carregamentos. Não fez isso sozinho.
O homem cuspiu sangue no chão.
— Já disse que não sei.
Quil segurou seu rosto.
— E eu já disse que essa resposta não serve.
Permaneci imóvel.
Os ataques haviam começado pequenos. Um caminhão interceptado, depois uma carga desaparecida. Na semana anterior, dois dos meus homens haviam sido emboscados quando deixavam um dos armazéns. Um deles ainda estava no hospital.
Aquilo já não era roubo.
Alguém estava testando minha estrutura.
E eu detestava testes.
O homem recebeu outro golpe. Sua cabeça tombou para o lado antes que ele voltasse a ser colocado na posição correta.
— Quem está pagando você? — perguntou Quil.
Silêncio.
— Quem forneceu os horários?
Nada.
— Quem está por trás dos ataques?
O homem ergueu lentamente a cabeça.
— Vá para o inferno.
Quil sorriu.
— Provavelmente. Mas você vai chegar antes.
Ouvi passos atrás de mim.
Embry entrou e permaneceu alguns segundos observando o interrogatório antes de se aproximar.
— Ele não vai falar — disse em voz baixa.
Continuei olhando para o homem.
— Todo mundo fala.
— Esse não.
Virei o rosto para Embry.
— Então ainda não encontramos o argumento correto.
Embry conhecia aquela resposta.
Ele não insistiu.
Voltei os olhos para Quil.
— Continuem.
Quil assentiu.
— Até quando?
— Até ele lembrar quem o contratou.
Afastei-me da parede e peguei meu paletó, que estava sobre uma cadeira. Já havia perdido tempo demais naquele lugar e ainda precisava passar pelo escritório antes de voltar para casa.
Foi quando pensei nas crianças.
— Como estão meus filhos? — perguntei enquanto vestia o paletó.
Embry demorou um segundo a mais do que deveria para responder.
Olhei para ele.
— William está na mansão.
— E Claire?
Outro silêncio.
Dessa vez, virei completamente o corpo.
— Embry.
— Perdemos contato visual com ela há pouco mais de uma hora.
Fiquei imóvel.
— Repita.
— Claire conseguiu sair sem que os homens percebessem. Paul já está procurando por ela.
Olhei para ele sem acreditar no que acabara de ouvir.
— Quantos homens estavam responsáveis pela segurança dela hoje?
Embry respirou fundo.
— Doze.
A raiva subiu imediatamente.
— Doze homens.
— Jacob...
— Estou tentando compreender como uma adolescente de quatorze anos consegue passar por doze homens treinados e desaparecer no meio de Nova York.
Minha voz não aumentou.
Não precisava.
Embry endireitou os ombros.
— Ela trocou de roupa com uma amiga na escola. A outra garota saiu usando o casaco dela e entrou no carro enquanto Claire deixou o prédio por uma saída lateral.
Fechei os olhos por um instante.
Aquela menina ainda acabaria comigo.
— E nenhum dos doze percebeu?
— Só perceberam quando a garota entrou no carro e se recusou a mostrar o rosto.
— Impressionante.
— Paul está seguindo o telefone dela.
— Claire sabe que o telefone pode ser rastreado.
— Sabemos.
Comecei a caminhar em direção à saída.
Embry veio comigo.
— Ela será encontrada.
Parei diante da porta metálica e olhei para ele.
— É bom que seja.
Embry sustentou meu olhar.
— Será.
— Porque, se doze homens não forem capazes de encontrar uma menina de quatorze anos, mais cabeças vão rolar esta noite.
Empurrei a porta e saí.
O ar frio do lado de fora foi uma mudança agradável depois do cheiro daquele galpão. Dois carros estavam estacionados próximos à entrada, ambos com homens posicionados ao redor. Meu motorista abriu a porta traseira assim que me viu.
Entrei.
Embry ficou do lado de fora.
— Avise assim que Paul encontrá-la — ordenei enquanto retirava o celular do bolso.
— Avisarei.
— E, Embry.
Ele esperou.
— Quando Claire estiver em segurança, quero saber exatamente como conseguiu sair daquela escola.
— Vou cuidar disso.
O motorista fechou a porta.
Poucos segundos depois, assumiu seu lugar diante do volante e olhou para mim pelo retrovisor.
— Para onde, senhor?
— Meu escritório.
O veículo começou a se mover.
Apoiei a cabeça no banco e afrouxei discretamente o primeiro botão da camisa. Ainda precisava analisar relatórios sobre os ataques, conversar com Paul quando encontrasse Claire e descobrir por que meu sistema de segurança parecia ter sido derrotado por uma adolescente que provavelmente estava em alguma festa acreditando que havia realizado o maior feito de sua vida.
Meu celular tocou, olhei para a tela e ao ver que era minha mãe atendi.
— Mãe.
— Finalmente.
Franzi a testa. — Você ligou uma vez.
— E você demorou quatro toques para atender.
— Estava ocupado.
— Você está sempre ocupado.
Olhei pela janela enquanto o carro deixava Red Hook. — Aconteceu alguma coisa com William?
— Não. Pelo contrário. Acho que finalmente encontrei alguém.
Aquilo conseguiu chamar minha atenção. — Alguém?
— Uma jovem.
— Das candidatas?
— Evidentemente, Jacob.
Passei a mão pela mandíbula.
Eu havia autorizado minha mãe a conduzir a primeira seleção porque não pretendia desperdiçar um dia inteiro entrevistando dezenas de mulheres. Meu único requisito naquela etapa havia sido simples: William precisava aceitá-la.
A quantidade de profissionais que meu filho expulsara de casa nos últimos meses transformara aquele requisito em algo quase impossível.
— Quanto tempo ela durou?
Minha mãe riu discretamente. — Mais do que as outras.
— Isso não responde.
— Ela fez seu filho comer.
Endireitei-me no banco. — O quê?
— William almoçou.
— Quanto?
— O suficiente.
Aquilo era inesperado. — Como ela conseguiu?
— Com uma queda de braço.
Fiquei alguns segundos em silêncio. — Uma queda de braço.
— Foi uma negociação entre eles.
Olhei pela janela. — Ela venceu uma criança de sete anos em uma queda de braço e você considera isso qualificação profissional?
— Considerando que vinte e três mulheres tentaram convencê-lo a comer antes dela e nenhuma conseguiu, considero um excelente começo.
Minha mãe tinha um ponto. Não significava que eu admitiria. — Qual a experiência dela?
— Nenhuma formal.
— Então por que ainda está na minha casa?
— Porque cresceu em um orfanato e passou boa parte da vida ajudando a cuidar de crianças menores. William conversou com ela, Jacob. Não apenas tolerou sua presença. Conversou.
Isso era diferente.
William vinha se fechando desde a morte da mãe. Eu podia contratar os melhores médicos, psicólogos, professores e profissionais disponíveis, mas dinheiro não obrigava uma criança a confiar em alguém.
— Ela sabe para que está sendo selecionada?
— Ainda não.
— Melhor assim.
— Imaginei que você preferiria explicar pessoalmente.
— Prefiro.
Minha mãe permaneceu alguns segundos em silêncio. — Ela está esperando.
Olhei o relógio. — Ainda?
— Você disse que voltaria.
— Tive problemas.
— Seus problemas geralmente envolvem pessoas que eu prefiro não conhecer.
Ignorei o comentário. — Mande os dados dela.
— Vou enviar agora.
— Tudo o que tiver.
— Jacob, é uma entrevista para casamento, não uma investigação criminal.
— Para uma mulher que viverá com meus filhos e usará meu sobrenome, não existe diferença.
Minha mãe suspirou.
— Eu sabia que diria isso.
— Mande o arquivo.
— Já estou mandando.
Ela desligou.
Abaixei o telefone e esperei. Poucos segundos depois, uma notificação apareceu na tela.
Abri o arquivo e uma fotografia surgiu primeiro.
Uma jovem ruiva olhava diretamente para a câmera. Não havia produção, maquiagem elaborada ou qualquer tentativa de parecer sofisticada. Era apenas uma fotografia simples, provavelmente retirada de algum documento.
Ainda assim, permaneci alguns segundos observando.
Bonita, muito bonita.
Continuei lendo, seu nome é Renesmee Miller.m, tem vinte anos, é da Pensilvânia. Solteira. Sem filhos. Sem registro de casamento. Criada no Saint Agnes.
Experiência profissional recente no Riverside Diner, em Allentown.
Nenhuma formação relacionada à infância. Nenhum familiar registrado nos dados enviados por minha mãe.
Voltei à fotografia.
Vinte anos era mais jovem do que eu esperava. Muito mais jovem. Continuei descendo pelo arquivo.
Minha mãe havia incluído as anotações da entrevista. Renesmee chegara a Nova York recentemente. Estava hospedada temporariamente no Bronx. Não possuía parentes na cidade. Não tinha vínculo empregatício atual.
Uma candidata improvável.
Talvez exatamente por isso William tivesse reagido de maneira diferente. Ela não era uma profissional tentando aplicar técnicas que ele já conhecia.
Ampliei a fotografia com dois dedos. Olhos claros. Cabelos ruivos. Expressão séria.
Não parecia intimidada.
Pelo relato de minha mãe, também não se comportava como alguém facilmente intimidável.
Fechei o arquivo. — Mudança de planos — informei.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Senhor?
Guardei o celular no bolso interno do paletó.
— Vamos para casa.
Ele assentiu e alterou o caminho.
Voltei a olhar pela janela.
Uma garota de vinte anos, sem família, sem vínculos importantes e aparentemente capaz de lidar com William.
No papel, Renesmee Miller possuía exatamente aquilo que eu estava procurando.
Pouco a perder.
Nenhuma família com quem eu precisasse negociar. Nenhum sobrenome capaz de interferir nos interesses dos Black.
Restava descobrir se ela seria inteligente o bastante para compreender a proposta que eu faria.
E se teria coragem suficiente para aceitá-la.
O trajeto até a mansão levou mais tempo do que eu gostaria. O trânsito de Manhattan parecia especialmente disposto a testar minha paciência naquela noite, embora meu problema estivesse longe de ser o número de carros diante de nós. Paul ainda não havia ligado, o que significava que Claire continuava desaparecida. Aos quatorze anos, minha filha já havia desenvolvido uma capacidade extraordinária de desafiar limites, e eu reconhecia que parte daquele comportamento tinha começado depois da morte da mãe. Isso explicava algumas coisas, mas não justificava todas. Eu tolerara mais do que deveria nos últimos meses, alternando entre impor regras que ela desprezava e permitir situações que jamais teria permitido antes. Culpa era uma péssima conselheira para qualquer homem e uma conselheira ainda pior para um pai.
Olhei novamente para o telefone, mas não havia nenhuma mensagem de Paul. Havia apenas o arquivo enviado por minha mãe ainda aberto em segundo plano e, por algum motivo, voltei à fotografia da candidata antes de bloquear a tela. Renesmee Miller tinha vinte anos, vinha da Pensilvânia, crescera em um orfanato e chegara a Nova York sem vínculos familiares ou profissionais que justificassem sua permanência. Em circunstâncias normais, eu consideraria aquelas informações insuficientes para permitir que alguém sequer passasse uma noite sob o mesmo teto que meus filhos. Minha mãe, entretanto, parecia convencida de que havia encontrado a mulher que procurávamos, e William havia feito algo que não fazia com uma desconhecida havia meses: conversara com ela e aceitara comer por causa de um acordo feito entre os dois.
Ainda assim, uma boa interação com meu filho não transformava uma desconhecida em minha esposa.
A proposta que eu pretendia apresentar exigia muito mais do que paciência com uma criança. A mulher que aceitasse meu sobrenome precisaria compreender que entraria em uma família com regras próprias, compromissos públicos e uma estrutura que não poderia ser abandonada no primeiro momento de dificuldade. Não me interessava uma esposa apaixonada, tampouco procurava companhia. Precisava de estabilidade dentro da minha casa, alguém capaz de estabelecer uma relação saudável com William e, sobretudo, uma mulher sem interesses políticos que transformassem o casamento em uma disputa entre famílias. Eu já tinha problemas suficientes sem convidar outra organização para minha mesa de jantar.
Quando o carro atravessou os portões da propriedade, guardei definitivamente o telefone. Os seguranças abriram a porta assim que o veículo parou diante da entrada principal, e desci sem esperar qualquer cumprimento. Entreguei o paletó a um funcionário no hall e caminhei para o interior da casa enquanto afrouxava discretamente os punhos da camisa. O silêncio daquele lugar depois de um dia inteiro de reuniões, ameaças e homens incapazes de fornecer respostas deveria ser agradável. Naquela noite, entretanto, apenas me lembrava de que uma das pessoas que deveriam estar ali continuava desaparecida.
Encontrei minha mãe na sala principal.
Sarah estava sentada em uma das poltronas próximas à lareira, com uma revista aberta sobre o colo e os óculos repousando na ponta do nariz. Pela maneira como virou uma página quando entrei, qualquer pessoa poderia acreditar que estava completamente tranquila. Eu a conhecia o suficiente para perceber que não havia lido uma única palavra nos últimos minutos.
— Onde está Will? — perguntei, aproximando-me.
Minha mãe ergueu os olhos para mim.
— A esta hora, já deve estar na cama. Jéssica subiu com ele há algum tempo e, considerando que não ouvi nenhum protesto vindo do andar superior, acredito que tenha conseguido fazê-lo dormir.
Assenti e retirei o celular do bolso para verificar novamente as mensagens. Nada de Paul.
Sarah fechou a revista.
— Estou preocupada com Claire.
— Paul está atrás dela.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Deveria.
— Não tranquiliza.
Olhei para minha mãe.
— Paul vai encontrá-la.
— Espero que encontre logo. Claire tem quatorze anos, Jacob. Está sozinha em algum lugar desta cidade e ninguém sabe com quem.
— Eu sei exatamente quantos anos minha filha tem.
— Então talvez também saiba que colocar doze homens atrás dela não está funcionando.
A observação não merecia resposta porque, infelizmente, era verdadeira.
Minha mãe retirou os óculos e os colocou sobre a mesa lateral.
— O que pretende fazer quando ela voltar?
— Primeiro, pretendo descobrir como conseguiu enganar doze homens que são pagos precisamente para impedir que isso aconteça. Depois decidirei o que fazer com ela.
— Tente conversar antes de transformar a casa em um quartel.
— Minha filha desapareceu sem autorização no meio de Nova York, mãe. Não pretendo recebê-la com uma conversa sobre sentimentos e uma xícara de chá.
Sarah sustentou meu olhar.
— É justamente por isso que ela conversa comigo e foge de você.
Aquilo me irritou mais do que deveria, talvez porque houvesse alguma verdade na observação.
— Se pretende analisar minha relação com Claire, escolha outra noite.
— Não estou analisando. Estou tentando evitar que vocês dois transformem cada desacordo em uma guerra.
— Para existir uma guerra são necessárias duas partes em condições minimamente equivalentes. Claire tem quatorze anos e eu sou o pai dela. Não existe negociação sobre desaparecer sem segurança.
— Nesse ponto, concordamos.
— Excelente. É um avanço.
Minha mãe revirou os olhos e pegou novamente a revista.
— Sua capacidade de ser desagradável quando está preocupado continua admirável.
— Obrigado.
— Não foi um elogio.
— Continuo agradecendo.
Passei por ela, disposto a subir, quando sua voz me fez parar.
— Há outra pessoa esperando por você.
Virei o rosto.
— A candidata?
— Ela também.
Franzi a testa.
Sarah voltou a colocar os óculos.
— A Cullen está aqui.
Minha expressão se fechou imediatamente.
Não precisei perguntar qual Cullen.
— Bree.
— Ela mesma.
Passei a língua lentamente pela parte interna da bochecha, contendo a irritação que o simples nome já provocava naquela noite.
— O que ela quer?
— Imagino que você tenha mais condições de responder a essa pergunta do que eu.
— Onde ela está?
— Não sei. Quando perguntei, disseram que havia subido. Provavelmente está procurando você.
Soltei o ar lentamente.
Bree tinha uma dificuldade inconveniente em compreender limites quando eles não correspondiam ao que desejava. O que existira entre nós jamais recebera o nome que ela insistia em lhe atribuir. Eu nunca prometera casamento, posição ou futuro. Fui claro desde o início, talvez mais claro do que costumava ser com qualquer mulher, justamente porque o sobrenome Cullen tornava qualquer ambiguidade perigosa. Para Bree, entretanto, minha recusa parecia apenas uma etapa que ela acreditava poder superar com persistência.
— Vou resolver isso de uma vez por todas — informei.
Minha mãe deixou escapar uma breve risada sem humor.
— Espero sinceramente que desta vez resolva, porque já não suporto Bree circulando por esta casa como se fosse a senhora Black.
Olhei para Sarah.
Ela manteve a expressão perfeitamente tranquila enquanto folheava a revista.
— Ela dá ordens aos funcionários — continuou. — Decide o que deve ou não ser servido, reclama dos arranjos da casa, entra em cômodos sem ser convidada e, esta tarde, tentou modificar os preparativos de um jantar que sequer diz respeito a ela. Não sei exatamente o que você permitiu que aquela mulher imaginasse, Jacob, mas ela está cada vez mais convencida de que esta casa lhe pertence.
Não respondi.
Minha mãe ergueu os olhos da revista.
— Seu silêncio é particularmente irritante quando sabe que estou certa.
— Boa noite, mãe.
— Covarde.
Ignorei a provocação e deixei a sala.
Subi as escadas sem pressa, embora minha disposição para lidar com Bree fosse praticamente inexistente. Eu pretendia primeiro verificar se William estava realmente dormindo, depois conversar com a candidata que minha mãe mantivera esperando durante horas e, quando Paul finalmente localizasse Claire, teria uma conversa bastante desagradável com minha filha. Bree não fazia parte dos meus planos para aquela noite.
Ao alcançar o andar superior, segui pelo corredor principal. A iluminação estava reduzida, e a casa permanecia silenciosa até que algumas vozes chegaram de uma área próxima à galeria.
Reconheci a de Bree imediatamente.
A outra era feminina.
Mais jovem.
Diminuí o passo e, conforme me aproximava, consegui distinguir a conversa.
— Quando falam comigo, normalmente respondo.
Aquela não era a voz de Bree.
— Existe uma diferença entre responder e esquecer qual é o seu lugar — respondeu Bree.
— Ainda não entendi por que insiste tanto nessa ideia.
Parei antes de entrar na galeria. Não tinha o hábito de ouvir conversas alheias, mas aquela discussão acontecia dentro da minha casa e envolvia Bree, o que já era motivo suficiente para que eu prestasse atenção.
— Porque pessoas como você chegam a lugares como este e confundem educação com igualdade.
Houve uma breve pausa.
— Pessoas como eu?
— Funcionários. Dependentes. Pessoas que estão aqui porque alguém permitiu.
Meu semblante se fechou.
As palavras de minha mãe poucos minutos antes voltaram à minha mente. Bree realmente começara a acreditar que possuía alguma autoridade naquela casa.
A resposta da outra mulher veio tranquila.
— Ainda não sou funcionária. E, mesmo se fosse, não acredito que um salário transforme ninguém em alguém inferior.
Ouvi a risada sem humor de Bree.
— Você realmente não entende nada.
— Talvez.
— Esta casa tem hierarquia.
— Imagino que tenha.
— E eu estou acima de você.
— Isso parece muito importante para você.
Minha sobrancelha se ergueu discretamente.
Definitivamente, aquela não era uma das funcionárias da casa.
Aproximei-me o suficiente para enxergar parte da galeria sem ainda ser visto. Bree estava de costas para mim, com uma taça na mão. Diante dela estava a jovem ruiva cuja fotografia eu recebera no carro.
Renesmee Miller.
Então aquela era a candidata que conseguira fazer William comer.
Bree apertou a taça entre os dedos.
— Tome cuidado com a maneira como fala comigo.
Renesmee sustentou o olhar dela.
— Estou falando da mesma maneira como você fala comigo.
— Não somos iguais.
— Também não disse que somos.
— Então comporte-se como alguém que precisa deste emprego.
Vi uma pequena mudança na expressão de Renesmee. Dessa vez Bree havia encontrado alguma coisa. A garota permaneceu calada por alguns segundos, mas não baixou os olhos.
— Precisar de um emprego não significa aceitar humilhação.
Bree deu mais um passo em sua direção.
— Você não está sendo humilhada.
— Discordo.
— Sua opinião pouco importa.
— Então não compreendo por que continua discutindo comigo.
Quase sorri.
Quase.
Bree, entretanto, não pareceu compartilhar do meu divertimento. Seu rosto mudou imediatamente. Ela colocou a taça sobre uma mesa próxima com força suficiente para produzir um ruído seco.
— Sabe de uma coisa? Você não ficará aqui.
— Isso cabe à família Black decidir.
— Eu decido muitas coisas nesta casa.
Meu olhar se tornou mais frio.
Renesmee não poderia saber, mas acabara de tocar exatamente no problema que minha mãe mencionara poucos minutos antes.
— Sarah não me deu essa impressão.
A reação de Bree foi imediata.
— Não use a senhora Black para se proteger.
— Não estou me protegendo. Apenas estou lembrando que foi ela quem pediu que eu permanecesse.
— Então eu direi a ela que você não serve.
— Pode dizer.
Bree pareceu genuinamente surpresa.
— Você acha que estou brincando?
— Não.
— Posso fazer você sair desta casa hoje mesmo.
Renesmee permaneceu onde estava.
— Se tiver essa autoridade, faça.
Observei Bree encará-la durante alguns segundos.
— Você é insolente.
— Talvez eu apenas não esteja acostumada a ser tratada como se devesse pedir desculpas por existir.
O silêncio que se seguiu foi breve.
— Eu vou demitir você.
Decidi que já tinha ouvido o suficiente.
Entrei na galeria, mantendo os passos tranquilos enquanto ajustava o punho da camisa.
— E quem, exatamente, lhe deu autoridade para demitir um funcionário da minha casa?
Bree se virou imediatamente.
Ao me ver, permaneceu em silêncio.
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