A esposa do Don
9 Sem saída
Dois dias haviam se passado desde que eu saíra da mansão Black convencida de que jamais voltaria.
Durante aqueles dois dias, descobri que convicções eram muito mais fáceis de sustentar quando se tinha dinheiro suficiente para pagar o aluguel.
Eu estava sentada sobre a cama estreita do quarto que alugara no Bronx, com o jornal aberto diante de mim e uma caneta na mão. Havia circulado anúncios, riscado outros e anotado números nas margens até quase não existir espaço em branco. A procura por emprego não estava exatamente avançando. Na manhã anterior, eu havia conseguido uma vaga de garçonete em um pequeno restaurante, mas o proprietário deixara claro que praticamente toda a minha renda viria das gorjetas. O pagamento fixo mal cobriria o transporte e, para piorar, os turnos mudariam todas as semanas. Eu precisava de dinheiro, mas também precisava saber quanto receberia no final do mês.
A segunda possibilidade fora ainda pior.
Uma casa noturna procurava recepcionistas e garçonetes. O anúncio prometia ganhos excelentes e contratação imediata. Excelente parecia exatamente o que eu precisava até chegar ao endereço e perceber que as roupas das funcionárias tinham menos tecido do que algumas peças íntimas que eu possuía. O gerente garantira que eu ganharia muito dinheiro se soubesse ser "agradável" com os clientes. Depois de Richard Coleman, aquela única frase fora suficiente para que eu agradecesse e saísse.
Restavam algumas vagas que exigiam experiência que eu não tinha, outras pediam referências que não poderia fornecer e uma quantidade impressionante de anúncios procurando pessoas com carro próprio. Meu patrimônio naquele momento consistia em algumas roupas, uma mala, uma bolsa e dinheiro suficiente para permanecer naquele quarto por pouco mais de uma semana.
Larguei a caneta.
— Maravilhoso.
O jornal continuou aberto diante de mim como se estivesse particularmente satisfeito com meu fracasso.
Encostei as costas na parede e fechei os olhos.
Não queria pensar na mansão.
Muito menos no homem que vivia nela.
Ainda assim, Jacob Black havia encontrado uma maneira irritante de aparecer nos meus pensamentos desde aquela noite. Talvez porque sua proposta tivesse sido tão absurda que meu cérebro ainda tentasse compreender como alguém podia sentar diante de uma desconhecida e lhe oferecer um casamento de três anos com a mesma tranquilidade com que outra pessoa ofereceria um contrato de trabalho.
O pior era que eu havia cometido o erro de ler mais algumas páginas antes de jogar o documento dentro da mala.
Eu não deveria ter levado aquilo.
Mas levei.
E descobrira que o senhor Black não exagerara quando dissera que as condições financeiras eram favoráveis. Eram absurdamente favoráveis. Se eu aceitasse, nunca mais precisaria contar moedas para decidir se poderia comprar comida e pagar aluguel na mesma semana. Teria uma quantia depositada exclusivamente em meu nome, segurança, moradia e, ao final do acordo, patrimônio suficiente para construir uma vida independente.
Tudo isso em troca de três anos da minha vida.
E de um filho.
A última parte era suficiente para me devolver a razão toda vez que os números começavam a parecer atraentes.
Peguei o jornal novamente. — Um emprego normal, Renesmee. Pessoas conseguem isso todos os dias.
Meu problema era que pessoas normais também tinham documentos organizados, endereço permanente, referências recentes e antigos empregadores que não estavam provavelmente tentando colocá-las na cadeia.
Dobrei o jornal e o coloquei ao meu lado.
O dinheiro que possuía duraria mais uma semana se eu economizasse. Talvez um pouco mais se reduzisse as refeições e evitasse transporte sempre que pudesse caminhar. Depois disso, não fazia ideia do que aconteceria.
Pensei em Emma.
Não falava com ela desde o dia em que chegara a Nova York. Prometera ligar novamente, e a culpa por ainda não ter cumprido a promessa começava a me incomodar. Além disso, precisava ouvir uma voz conhecida. Alguém que soubesse quem eu era antes de Nova York, dos Black e daquela proposta completamente insana.
Peguei algumas moedas e saí do quarto.
A senhora Alvarez estava no andar inferior, sentada perto da pequena mesa da cozinha, separando correspondências. Ergueu o rosto quando apareci.
— Precisa de alguma coisa, querida?
Mostrei as moedas.
— Posso usar o telefone novamente?
Ela olhou para minha mão e balançou a cabeça.
— Guarde isso.
— Senhora Alvarez...
— Guarde, Renesmee. Uma ligação não vai me levar à falência.
— É interurbana.
— E eu continuo não indo à falência.
Sorri discretamente.
— Obrigada.
Ela empurrou o telefone na minha direção.
Disquei o número que conhecia de memória e esperei, segurando o telefone com as duas mãos. Emma atendeu depois de alguns toques, e ouvir sua voz produziu um alívio imediato depois de dois dias imaginando como estavam as coisas na Pensilvânia.
— Emma, graças a Deus. Eu estava preocupada. Desculpe não ter ligado antes, estou procurando emprego e as coisas aqui estão um pouco mais complicadas do que eu esperava, mas estou bem. E você? Como estão as crianças?
Do outro lado, houve um silêncio estranho.
— Nessie, eu sinto muito.
Meu sorriso desapareceu.
— Sente muito pelo quê?
Ouvi algum movimento e depois a respiração de Emma, mais forte, como se estivesse tentando dizer alguma coisa sem poder. Endireitei o corpo imediatamente.
— Emma, o que aconteceu?
Ela não respondeu. Alguns segundos depois, ouvi outra pessoa pegar o telefone e meu corpo inteiro enrijeceu quando uma voz masculina chegou até mim.
— Está na hora de voltar, Renesmee.
Por um momento, não consegui respirar. Eu conhecia aquela voz. Poderia reconhecê-la no meio de centenas de outras depois do que acontecera naquela noite.
— Coleman?
— Amanhã. Você tem até amanhã para voltar .
A forma tranquila e objetiva como ele falou me causou mais medo do que se estivesse gritando.
— Onde está Emma?
— Comigo. E vai continuar bem se você fizer exatamente o que estou mandando.
Apertei o telefone contra o ouvido. — Passe o telefone para ela.
— Você já ouviu a voz dela. Isso é suficiente. Escute com atenção porque não vou repetir: você vai voltar amanhã e não vai procurar a polícia, não vai avisar ninguém e não vai tentar desaparecer novamente. Se fizer qualquer uma dessas coisas, sua amiga será a primeira a pagar pela sua decisão. Depois dela, existem duas crianças que voltam da escola todos os dias praticamente no mesmo horário. Não me obrigue a envolvê-las nisso.
Meu sangue gelou.
A imagem dos filhos de Emma apareceu imediatamente na minha cabeça.
— Não se aproxime das crianças. Elas não têm nada a ver com isso. Se você machucar Emma ou qualquer um dos filhos dela, eu...
— Você não está em posição de me ameaçar, Renesmee. Foi exatamente por isso que escolhi Emma.
As lágrimas começaram a se acumular nos meus olhos.
— O que você quer de mim?
— Eu já disse o que quero. Você volta.
— Para quê?
— Isso não lhe interessa agora.
Minha mão começou a tremer.
— Coleman, eu não vou ....
— Então não verá Emma novamente.
Não houve raiva em sua voz, nenhuma discussão, nenhuma tentativa de me convencer de que eu estava errada sobre o que acontecera no escritório. Era apenas uma ameaça dita por um homem que parecia absolutamente seguro de que poderia cumpri-la.
— Por favor, deixe as crianças fora disso. Eu faço o que for necessário, mas não toque nelas.
— Amanhã, Renesmee. Se não estiver em Allentown, Emma e os filhos sofrerão as consequências. Não haverá outra ligação.
— Espere. Deixe-me falar com ela novamente.
A ligação foi encerrada.
Permaneci com o telefone junto ao ouvido por alguns segundos, incapaz de aceitar o silêncio que havia substituído a voz dele.
— Emma?
Nada.
Afastei o aparelho devagar e olhei para ele. Minhas mãos tremiam tanto que precisei segurá-lo com as duas antes de conseguir colocá-lo de volta no lugar. As lágrimas que eu tentara conter começaram a descer pelo meu rosto, e foi então que percebi que a senhora Alvarez havia parado de organizar as correspondências e me observava do outro lado da cozinha.
— Renesmee, você está bem?
Passei as mãos pelo rosto rapidamente e assenti, embora estivesse evidente que não estava.
— Estou. Desculpe, senhora Alvarez. Foi apenas um problema que preciso resolver.
Ela se levantou.
— Ouvi você falar sobre crianças. Alguém está ameaçando você?
A preocupação sincera na voz dela quase desfez o pouco controle que eu ainda tinha, mas eu não poderia envolvê-la. Coleman chegara até Emma. Eu não sabia como, não sabia há quanto tempo a estava vigiando e, naquele momento, já não sabia quem poderia colocar em perigo simplesmente por tentar me ajudar.
— Não se preocupe. Eu vou resolver.
— Tem certeza de que não quer que eu chame alguém?
Balancei a cabeça.
— Tenho. Obrigada pelo telefone.
Saí da cozinha antes que ela pudesse insistir e subi as escadas rapidamente. Quando entrei no quarto, tranquei a porta e fiquei alguns segundos encostada nela tentando organizar a respiração. O medo já não era apenas por mim. Enquanto eu fugia e tentava construir alguma coisa em Nova York, Emma continuara em Allentown, vivendo a mesma rotina, levando os filhos à escola, trabalhando no Riverside e acreditando que dizer a verdade à polícia seria suficiente para protegê-la.
Coleman sabia que eu voltaria por ela.
E o pior era saber que ele estava certo.
Caminhei até a cama e me sentei, cobrindo o rosto com as mãos. Eu poderia voltar para Allentown na manhã seguinte, mas sabia que estaria fazendo exatamente o que ele queria. Depois do que acontecera no escritório, não acreditava que Coleman desejasse apenas que eu prestasse esclarecimentos. Ele queria me colocar novamente ao alcance dele, e dessa vez eu não teria Emma por perto, nem testemunhas, nem qualquer garantia de que conseguiria sair.
Eu precisava ajudá-la sem voltar diretamente para as mãos dele.
Foi quando meus olhos encontraram a mala no chão.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Dentro daquela mala estava o contrato que eu deveria ter deixado sobre a mesa do senhor Black. Eu o trouxera por insistência dele e não tornara a abri-lo desde que saíra da mansão. Durante dois dias, considerei Jacob Black um homem arrogante, absurdo e tão acostumado a conseguir o que queria que acreditava ser perfeitamente razoável oferecer dinheiro a uma desconhecida para transformá-la em esposa.
Naquele momento, entretanto, não pensei no dinheiro.
Pensei nos portões da mansão, nos seguranças espalhados pela propriedade e na maneira como todos naquela casa reagiam quando Jacob Black dava uma ordem. Pensei em Bree Cullen, tão arrogante poucos segundos antes, ficando em silêncio assim que ele apareceu. Pensei na tranquilidade daquele homem ao falar de poder, família e proteção como coisas que simplesmente lhe pertenciam.
Eu não sabia exatamente quem era Jacob Black.
Mas sabia que era poderoso.
E Richard Coleman acabara de cometer o erro de me mostrar que, sozinha, eu não tinha poder algum.
Olhei novamente para a mala.
Talvez ainda tivesse um dia para mudar de ideia.
Então a proposta do senhor Black já não parecia ser a coisa mais assustadora diante de mim.
Voltei à mansão Black no fim da tarde seguinte.
Passei boa parte do caminho tentando não pensar no significado daquela decisão. Não estava indo até lá porque havia reconsiderado os benefícios financeiros do contrato, tampouco porque os números que Jacob Black colocara diante de mim haviam se tornado mais atraentes de repente. Se dependesse apenas de mim, provavelmente continuaria procurando emprego até o último dólar desaparecer da minha bolsa. O problema era que já não dependia apenas de mim.
Emma e os filhos estavam em perigo.
Coleman sabia que eu fugira sozinha, sabia que não tinha família e conhecia suficientemente minha vida para ter certeza de que eu não possuía dinheiro, influência ou qualquer pessoa capaz de enfrentá-lo. Ele contava com isso. Havia usado Emma porque sabia que eu voltaria para protegê-la, e eu ainda sentia um aperto no peito sempre que lembrava da voz da minha amiga ao telefone antes que ele tomasse o aparelho de suas mãos.
Eu não tinha intenção de voltar para Allentown e me entregar a ele.
Precisava encontrar outra maneira.
E, naquele momento, minha única alternativa tinha o sobrenome Black.
O carro que me levara até o Upper East Side parou a alguns metros dos portões, e fiz o restante do caminho a pé. Os mesmos homens estavam posicionados na entrada, embora dessa vez ninguém precisasse perguntar quem eu era. Um deles falou discretamente ao rádio depois que informei meu nome e, poucos segundos depois, os portões se abriram.
A sensação ao atravessá-los foi completamente diferente da primeira vez.
Naquela manhã, eu havia entrado ali procurando um emprego. Agora caminhava em direção à casa de um homem que me propusera casamento e, por mais que tentasse tratar aquilo como um acordo, não conseguia esquecer algumas das cláusulas que havia lido.
Principalmente uma.
Tentei afastar o pensamento.
Ainda não havia aceitado nada.
Era importante lembrar disso.
Eu estava voltando para conversar.
A porta principal foi aberta antes que eu precisasse tocar a campainha. Uma funcionária que eu não conhecia me cumprimentou e pediu que esperasse no hall. Não levou sequer um minuto para Sarah aparecer.
A matriarca dos Black continuava tão elegante quanto na primeira vez que a vira. Usava uma calça escura e uma blusa clara, os cabelos impecavelmente arrumados, e não demonstrou surpresa alguma ao me encontrar. Apenas me observou durante alguns segundos antes que um sorriso discreto surgisse.
— Senhorita Miller.
— Senhora Black.
Ela se aproximou.
— Confesso que esperava vê-la novamente, embora não tivesse certeza de que seria tão cedo.
Não sabia se aquilo deveria me tranquilizar ou preocupar.
— Eu também não esperava voltar.
Sarah inclinou levemente a cabeça.
— O que a fez mudar de ideia?
A pergunta era simples.
A resposta não.
Não queria contar sobre Coleman para Sarah. Pelo menos não ainda. Se eu realmente fosse negociar com Jacob Black, aquela seria uma das coisas que colocaria diretamente diante dele. Eu precisava saber o que aquele homem poderia fazer antes de expor Emma ainda mais.
Apertei discretamente a alça da bolsa.
— Não consegui um emprego melhor.
Sarah me observou.
Tive a impressão de que não acreditou completamente, mas foi educada o suficiente para não me confrontar.
— Querida, não existe um emprego melhor.
Quase sorri. — Ainda não tenho certeza se aquilo pode ser chamado de emprego.
— Tecnicamente, não pode.
— Isso não ajuda.
Sarah riu baixo.
— Jacob gosta de transformar tudo em contratos. É uma das maneiras que encontrou de manter a ilusão de que consegue controlar absolutamente tudo ao redor dele.
Olhei para ela, surpresa.
— A senhora fala do próprio filho dessa maneira?
— Sou mãe dele. Tenho privilégios que você ainda não possui.
Ainda.
A palavra ficou implícita de uma maneira que me deixou desconfortável.
— Ele está em casa?
— Está. Terminando uma reunião.
Meu coração acelerou um pouco, e eu me irritei comigo mesma por isso.
— Posso esperar.
— Foi exatamente o que imaginei.
Sarah começou a caminhar, e eu a acompanhei.
Percorremos o mesmo corredor da noite anterior. Quando passamos pela galeria onde eu discutira com Bree, olhei involuntariamente para o lugar. Sarah percebeu.
— Bree não está aqui.
Voltei imediatamente os olhos para ela.
— Eu não perguntei.
— Não precisou.
— Ela costuma estar muito aqui?
Sarah parou por um instante e me lançou um olhar que me fez perceber que havia entrado em um assunto que talvez não devesse.
— Mais do que eu gostaria.
Não perguntou por que eu queria saber, e eu também não continuei. Emtramos no escritório e o ambiente estava exatamente como eu lembrava, com a enorme mesa diante das janelas, as estantes ocupando boa parte das paredes e aquele ar excessivamente organizado que parecia combinar perfeitamente com Jacob Black. Meus olhos foram automaticamente para a estante onde encontrara The Great Gatsby na noite anterior.
— Espere aqui — pediu Sarah. — Vou avisá-lo de que chegou.
— Obrigada.
Ela já estava saindo quando parou.
— Renesmee.
Olhei para ela.
— Você não precisa aceitar nada que não queira.
Aquela frase me surpreendeu.
Sarah sustentou meu olhar durante alguns segundos.
— Meu filho pode ser extremamente persuasivo quando deseja alguma coisa. Isso não significa que você tenha perdido o direito de dizer não.
Assenti lentamente.
— Eu sei.
— Ótimo.
Ela saiu e fechou a porta.
Caminhei até uma das poltronas, mas não me sentei. Minha inquietação era grande demais. Tirei o contrato da bolsa e o segurei por alguns segundos antes de colocá-lo sobre a mesa.
Eu havia lido tudo.
Naquela madrugada, depois da ligação de Coleman, lera cada página.
Conhecia os valores, as obrigações, os direitos e as garantias. Sabia quanto receberia, onde viveria, o que aconteceria depois dos três anos e quais seriam minhas responsabilidades diante dos filhos de Jacob. Também havia relido várias vezes a cláusula sobre um futuro herdeiro, talvez na esperança de encontrar alguma frase que a tornasse menos absurda.
Não encontrei.
Olhei para o espaço reservado à minha assinatura.
Continuava vazio e permaneceria assim até Jacob Black ouvir o que eu tinha a dizer.
Se ele imaginava que eu voltara para simplesmente assinar aquele documento, descobriria que estava enganado.
Eu precisava dele.
Essa era a parte que mais me incomodava.
Precisava de seu dinheiro? Sim. Seria mentira dizer o contrário. Mas naquele momento precisava principalmente do poder que parecia acompanhá-lo para qualquer lugar. Precisava que Emma e as crianças ficassem seguras e que Coleman descobrisse que eu já não estava tão sozinha quanto ele acreditava.
Se para conseguir isso eu precisasse negociar com Jacob Black, faria.
Mas haveria condições.
Respirei fundo e finalmente me sentei.
Uma tristeza pesada se misturava à determinação que me levara de volta àquela casa. Eu havia imaginado muitas coisas quando fugira para Nova York. Trabalhar, economizar dinheiro, talvez estudar novamente algum dia e construir uma vida que fosse verdadeiramente minha. Não imaginara que, menos de uma semana depois, estaria sentada no escritório de um desconhecido considerando vender três anos daquela liberdade em troca de proteção.
Fechei os olhos por um instante.
Não.
Eu não venderia minha liberdade.
Se aceitasse, seria nos meus termos também.
— Dois dias.
Abri os olhos imediatamente e a voz masculina e grave veio da entrada do escritório. Jacob Black estava parado junto à porta. Não o ouvira entrar.
Ele fechou a porta com tranquilidade e permaneceu me observando. Seus olhos passaram por mim e depois pelo contrato sobre a mesa. Não demonstrou surpresa ao vê-lo ali.
— Eu lhe dei três — continuou, aproximando-se. — E, ainda assim, levou apenas dois para voltar à minha porta.
Meu orgulho reagiu antes do bom senso.
— Posso voltar por onde entrei, se isso for um problema.
Ele parou a poucos passos da mesa. Por um instante, apenas me observou. Então o canto de sua boca se moveu discretamente.
— Não seria um problema, senhorita Miller.
Sua voz permaneceu baixa e perfeitamente controlada.
— Seria apenas uma pena descobrir que atravessou Nova York inteira para fugir de uma proposta e precisou de apenas quarenta e oito horas para compreender que talvez fosse mais perigoso recusá-la do que sentar diante de mim e negociar.
Meu sorriso desapareceu e Jacob puxou a cadeira do outro lado da mesa.
— Portanto, fique. Tenho a impressão de que desta vez nossa conversa será consideravelmente mais interessante.
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