JACOB

Passei o restante da tarde trancado no escritório com Sam e Embry. Mantive Solomon deliberadamente fora daquela conversa. Ele era um dos homens em quem eu mais confiava e, em qualquer outra situação, estaria sentado à minha frente discutindo cada decisão comigo, mas naquele momento não era apenas um dos meus homens. Era pai de Simon. O que dissera na sala, ao afirmar que já não tinha um filho, não mudava o fato de que sangue, culpa e vergonha poderiam interferir em decisões que exigiam uma frieza que eu próprio estava tendo dificuldade para conservar. Não o colocaria na posição de assistir ao que seria decidido e muito menos exigiria que participasse. Havia coisas que nem mesmo homens como nós deveriam ser obrigados a fazer contra os próprios filhos.

Sobre a mesa estavam os primeiros relatórios que eu pedira. Horários de Simon dentro da propriedade, escalas de segurança, acessos registrados, câmeras dos corredores e a lista dos homens que trabalharam nos últimos meses. Eu queria saber quando ele começara a circular livremente pela mansão, quem havia autorizado alterações em postos e, principalmente, como conseguira deixar o corredor de Claire sem segurança naquela manhã. Não aceitei que Embry tratasse aquilo como uma investigação comum. Cada funcionário seria ouvido separadamente. Cada câmera seria revisada. Cada ausência seria confrontada com a escala correspondente. Se alguém tivesse facilitado deliberadamente o acesso de Simon, eu descobriria. Se ele simplesmente tivesse explorado falhas de um sistema que eu considerava seguro, as falhas deixariam de existir naquela mesma noite.

Simon já havia sido transferido para o galpão Sul. Embry recebera a responsabilidade direta de controlar tudo o que acontecia ali e havia colocado homens de sua confiança no perímetro. Ninguém entraria sem minha autorização. Nem Rebecca, nem Solomon, nem qualquer pessoa que carregasse o sobrenome Black e acreditasse que isso lhe concedia privilégios. Simon teria água, comida e atendimento médico se precisasse. Não seria espancado por homens tentando me agradar, tampouco interrogado antes que eu chegasse. Eu queria encontrá-lo consciente, lúcido e perfeitamente capaz de compreender cada palavra que ouviria.

Sam fechou uma pasta e apoiou as mãos sobre a mesa.

— Já temos as imagens das últimas três semanas. Embry pediu também o arquivo externo, porque Simon aparece mudando de posto algumas vezes sem registrar a alteração.

— Quero mais do que três semanas.

— Quanto?

— Desde o primeiro dia em que ele começou a trabalhar nesta casa.

Embry assentiu.

— Vai levar algumas horas.

— Então leve algumas horas.

— E os homens que estavam de serviço hoje?

— Separados. Ninguém conversa antes de ser ouvido.

Sam inclinou-se ligeiramente para a frente.

— Jacob, se Simon vinha fazendo isso há algum tempo, pode ter usado a posição na segurança para saber exatamente quando Claire estava sozinha.

A frase fez minha mandíbula se contrair.

— Eu sei.

— Estou dizendo porque isso muda a responsabilidade dos homens que...

— Eu sei o que muda, Sam.

Ele se calou.

Levantei-me e caminhei até a janela. O sol começava a baixar sobre a propriedade, e a tranquilidade do jardim do lado de fora me pareceu ofensiva. Passei anos transformando aquela casa em um lugar difícil de invadir. Câmeras, homens armados, controle de acessos, veículos acompanhados e relatórios sobre os deslocamentos dos meus filhos. Construí uma fortaleza e me convenci de que isso significava segurança. Simon não precisara atravessar muro algum. Eu mesmo abrira a porta.

Voltei-me para os dois.

— Podem se retirar. Preparem tudo. Em duas horas estarei no galpão.

Sam levantou-se.

— Quer que eu esteja lá?

— Sim.

Embry também se levantou.

— Simon ainda não sabe o que foi decidido.

— Não foi decidido tudo.

Ele entendeu imediatamente.

— Certo.

— E ninguém toca nele antes de eu chegar.

— Entendido.

Sam e Embry saíram. Pouco depois, Paul passou pelo escritório para receber as últimas instruções sobre o deslocamento e também se retirou. Permaneci sozinho por alguns minutos, olhando para os relatórios espalhados sobre a mesa. Eu deveria pensar apenas em Simon, mas minha mente voltava continuamente para Claire. Para a pergunta que fizera sobre eu estar bravo com ela. Para a maneira como se agarrara ao meu paletó. Para o fato de minha filha ter acreditado que contar a verdade poderia ser mais perigoso do que continuar em silêncio. Aquilo eu não conseguiria resolver em um galpão.

Saí do escritório.

Encontrei Sarah na sala principal, dando instruções a dois funcionários. Minha mãe havia recuperado a postura habitual, mas seus olhos denunciavam o cansaço. Ela pediu que uma das empregadas levasse uma bandeja para o andar superior e dispensou os dois antes de se aproximar.

— Rachel levou Rebecca para casa — informou. — Ela não estava em condições de continuar aqui. Solomon foi embora antes delas.

— Para onde?

— Não perguntei. Imagino que quisesse ficar sozinho.

Assenti. Eu conhecia Solomon o suficiente para entender que aquela noite seria longa para ele também.

— E Claire?

— Dormiu.

Olhei imediatamente para a escada.

— Onde está Renesmee?

— Com ela. Claire não queria ficar sozinha. Sua esposa permaneceu no quarto até o calmante começar a fazer efeito.

— Calmante?

— O médico veio. Foi uma dose leve, prescrita porque ela estava muito agitada e não conseguia descansar. Ele examinou o que Claire permitiu e conversou comigo. Disse que, além do acompanhamento médico adequado, ela precisa de apoio psicológico. Não apenas amanhã ou esta semana, Jacob. Pelo tempo que for necessário.

— Terá.

Sarah segurou meu braço antes que eu subisse.

— Não transforme a recuperação dela em outra operação sua.

Olhei para minha mãe.

— O que quer dizer?

— Você está acostumado a resolver problemas identificando uma ameaça, eliminando-a e reorganizando tudo ao redor. Com Claire não será assim. Tirar Simon da vida dela é apenas uma parte. Você terá de ter paciência quando ela não quiser falar, quando ficar com raiva, quando parecer bem e depois não estiver.

Eu sabia que minha mãe tinha razão.

— Vou aprender.

Sarah soltou meu braço.

— Faça isso.

Subi as escadas e segui pelo corredor. Abri a porta do quarto de Claire devagar, tomando cuidado para não produzir ruído. A iluminação estava baixa. Minha filha dormia de lado, coberta até a cintura, enquanto Renesmee permanecia sentada junto à cabeceira. Ela acariciava os cabelos de Claire com movimentos lentos, afastando algumas mechas de seu rosto.

Renesmee olhou para mim.

— O calmante finalmente fez efeito — sussurrou. — O médico disse que provavelmente ela vai dormir até mais tarde.

Aproximei-me da cama.

Claire parecia mais tranquila dormindo. Ainda havia marcas do choro ao redor dos olhos, mas a tensão que eu vira em seu rosto havia diminuído.

— Ele disse mais alguma coisa?

— Disse que ela precisa de um psicólogo. Alguém que tenha experiência com adolescentes e trauma. Eu acho que seria melhor uma mulher, mas podemos deixar Claire participar dessa escolha quando estiver mais calma.

Assenti.

— Providencie.

Renesmee levantou os olhos.

— Eu?

— Você.

— Está bem. Vou procurar alguém amanhã.

— Não procure qualquer pessoa. Peça referências ao médico e faça uma seleção. Quero alguém competente, discreto e que Claire aceite. Se ela não se sentir confortável com a primeira pessoa, trocamos. Quantas vezes forem necessárias.

— Eu faço isso.

Permaneci olhando para minha filha por mais alguns segundos. Renesmee retirou cuidadosamente a mão dos cabelos dela e se levantou.

— Will já está na cama. Emma trouxe ele no começo da noite. Ele percebeu que havia alguma coisa estranha, mas eu disse apenas que Claire não estava se sentindo bem. Ele quis vir vê-la e eu pedi que esperasse até amanhã.

— Fez bem.

— Ele reclamou.

— Isso significa que está normal.

Um sorriso cansado apareceu no rosto dela.

— Reclamou bastante, então está perfeitamente normal.

Renesmee passou por mim em direção à porta. Foi quando notei.

Segurei seu braço.

Ela se assustou ligeiramente.

— Jacob.

Afastei com cuidado a manga da blusa. Havia uma mancha arroxeada começando a aparecer na parte superior do braço, com marcas que lembravam claramente a pressão de dedos.

Meu olhar permaneceu nela.

— Quem fez isso?

Renesmee tentou puxar o braço.

Não permiti.

— Não é nada.

— Eu não perguntei o que é. Perguntei quem fez.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Simon.

A fúria que eu vinha mantendo cuidadosamente sob controle desde que saíra do quarto de Claire voltou inteira.

— Quando?

— Quando ele tentou me segurar. Eu já contei. Ele me puxou para dentro do quarto e depois tentou me agarrar quando eu o empurrei.

Passei o polegar ao redor da mancha sem pressioná-la.

— Ele deixou isso em você.

— Jake...

Meus olhos subiram imediatamente para os dela.

Era raro Renesmee me chamar daquela maneira.

— Não faça essa expressão.

— Que expressão?

— Essa que significa que alguém vai se arrepender de ter nascido.

— Nesse caso, está interpretando corretamente.

Ela soltou um suspiro baixo.

— Eu estou bem. Claire é quem importa agora.

— Uma coisa não elimina a outra.

— Eu sei. Só não quero que você faça alguma loucura porque ele apertou meu braço.

— Renesmee, o braço é seu. Eu não considero irrelevante quem acredita ter o direito de deixar marcas nele.

Ela me observou por alguns segundos, então colocou a mão sobre a minha.

— Eu sei cuidar de mim.

Olhei para ela.

— Disso eu não tenho dúvida. O estado em que Simon estava quando meus homens chegaram é uma demonstração razoavelmente convincente.

Ela quase sorriu.

— Eu chutei uma vez.

— Em um lugar particularmente eficiente, segundo fui informado.

— Não tive muito tempo para escolher.

— Escolheu bem.

Dessa vez ela sorriu de verdade, ainda que apenas por um instante.

Olhei novamente para a mancha em seu braço e soltei-a com cuidado.

— Preciso ir.

O sorriso desapareceu.

— Agora?

— Sim.

— Para onde?

— Resolver algumas coisas.

Renesmee cruzou os braços.

— Simon.

Não respondi.

— Você vai encontrar Simon.

— Vou.

Ela olhou rapidamente para Claire dormindo antes de voltar para mim.

— O que vai fazer?

— Já conversamos sobre isso.

— Você disse que eu não devia pensar. Não é exatamente uma resposta.

— É a única que vou lhe dar esta noite.

— Jacob...

Aproximei-me.

— Vou voltar em duas horas.

Ela estudou meu rosto, como se tentasse decidir se podia acreditar.

— Duas horas?

— Aproximadamente.

— Você também disse ontem que voltaria inteiro e apareceu apenas por mensagem.

— Tecnicamente, cumpri metade da promessa.

— Não tente usar tecnicalidade comigo agora.

Passei a mão pelo rosto dela.

— Não estou tentando.

Renesmee segurou meu pulso.

— Eu vou esperar por você.

Fiquei alguns segundos olhando para ela. Havia muitas coisas que eu poderia ter dito, mas nenhuma pertencia àquele quarto.

Inclinei-me e beijei sua testa.

— Fique com Claire.

— Vou ficar.

— Se ela acordar antes de eu voltar, não a deixe sozinha.

— Não vou deixar.

Afastei-me e saí do quarto, fechando a porta silenciosamente atrás de mim. Atravessei o corredor, desci as escadas e retirei o telefone do bolso antes mesmo de chegar ao hall. Encontrei o contato de Paul e liguei. Ele atendeu no segundo toque.

— Don.

Continuei caminhando em direção à porta.

— Estou saindo agora.

— Para o galpão?

— Sim. Avise Sam e Embry.

— Está tudo preparado.

Parei diante da entrada enquanto um dos seguranças já se movimentava para chamar o carro.

— Paul.

— Sim?

Olhei uma última vez para o andar superior da mansão, onde Claire dormia e Renesmee havia prometido esperar por mim.

— Estou indo para o galpão Sul. Quero Simon acordado quando eu chegar.

— Sim, Don.

Encerrei a ligação e guardei o telefone. Então atravessei a porta da mansão em direção ao carro que já me aguardava.


Adentrei o galpão Sul de Manhattan com um passo que ecoou como um presságio de vingança. O lugar cheirava a sal e metal, um cheiro que me lembrava o mar, mas que naquela noite, trazia apenas o gosto amargo da justiça eu vinha buscar. As luzes fracas das lâmpadas balançavam como fantasmas, projetando sombras que dançavam nas paredes de concreto. Os lotes de mercadorias, empilhados como torres bizarras, pareciam observar minha passagem, testemunhas silenciosas do que estava por vir.

As escadas de metal rangiam sob meu peso, cada degrau ecoando como um bater de tambor, anunciando minha chegada. Ao chegar ao topo, empurrei a pesada porta de aço, que se abriu com um gemido de protesto. Dentro, a luz era ainda mais fraca lançando sombras que se moviam como seres vivos. Paul, estava de pé, esperando por mim, seu rosto impassível como sempre.


— Já está tudo pronto? — perguntei, minha voz baixa, mas carregada de uma promessa perigosa.


Paul assentiu, com seu olhar fixo no meu. Entrei na sala seguinte, onde Simon estava deitado de bruços sobre uma mesa de madeira, completamente nu, suas mãos presas por grossas correntes de aço. Ele levantou a cabeça quando me viu, seus olhos cheios de desprezo.

Fechei a porta atrás de mim, mas não me aproximei imediatamente.

Apenas o observei.

Aquele era o filho de minha irmã. Um rapaz que estivera em minha casa durante aniversários, jantares e reuniões familiares. Alguém que eu permitira aproximar-se dos meus filhos porque nunca considerara necessário protegê-los de um membro da própria família. A lembrança de Claire agarrada ao meu paletó voltou com tanta força que precisei manter as mãos relaxadas ao lado do corpo.

Simon foi o primeiro a falar.

— Então veio me matar?

Caminhei lentamente até ele.

— Não.

Ele soltou uma risada curta.

— Não?

— Está decepcionado?

— Faça logo o que veio fazer.

— Você ainda acredita que está em posição de me dar ordens?

Ele me encarou.

— Sua filhinha não é tão inocente quanto está fingindo ser.

Parei.

Simon percebeu a mudança em minha expressão e, em vez de ter inteligência suficiente para ficar calado, continuou.

— E sua mulher muito menos. Renesmee gosta de provocar e depois age como se...

Aproximei-me até ficar diante dele.

— Escolha cuidadosamente as próximas palavras.

— Ou o quê?

Não respondi imediatamente.

Simon sorriu.

— Vai me matar?

— Já disse que não.

— Então você é um covarde.

Observei-o durante alguns segundos e compreendi que não havia arrependimento. Não havia sequer medo verdadeiro ainda. Simon passara horas acreditando que meu parentesco com Rebecca estabeleceria algum limite, e minha afirmação de que não pretendia matá-lo parecera confirmar essa esperança.

— Você está confundindo morte com punição.

O sorriso dele diminuiu.

— O que isso quer dizer?

— Significa que morrer seria simples demais. Alguns minutos de medo, talvez alguma dor e depois absolutamente nada. Você deixaria minha filha carregando consequências enquanto sua responsabilidade terminaria numa cova. Não vou lhe conceder essa facilidade.

Simon mexeu as mãos contra as contenções.

— Claire está mentindo.

— Não volte a pronunciar o nome dela como se tivesse qualquer direito sobre ele.

— Ela quis...

Bati a mão sobre a mesa ao lado dele com força suficiente para fazê-lo se calar.

— Você vai aprender uma coisa esta noite, Simon. Não existe versão sua capaz de transformar o medo de uma menina de quatorze anos em consentimento. Não existe parentesco que torne uma porta trancada aceitável. Não existe provocação de Renesmee que justifique você colocar as mãos nela. E não existe Rebecca, Solomon ou sobrenome Black capaz de colocá-lo novamente perto da minha família.

Ele respirou mais depressa.

— O que vai fazer comigo?

Caminhei até a porta e a abri. Simon olhou para eles e finalmente perdeu parte da arrogância.

Então, com um gesto, ordenei e dois homens grandes, sem camisa, entraram.

— Façam com meu hóspede o mesmo que ele fez com minha filha.

Simon entendeu o que estava vir e começou a gritar, seus gritos ecoando pelas paredes do galpão. Saí da sala, deixando-o para enfrentar seu destino. Paul me seguiu, e eu disse a ele:

— Deixem os homens trabalharem durante toda a noite.

Paul, sempre pragmático, perguntou:

— E quando terminarem?

Eu olhei para ele.

— Mande o médico castrá-lo.

Aquela noite, eu não estava apenas procurando vingança. Eu estava ensinando uma lição. E Simon, ele aprenderia, do jeito mais doloroso possível.