A esposa do Don

38 Black Holdings ( parte 1)


RENESMEE

As semanas que se seguiram ao que aconteceu com Claire mudaram a rotina da mansão de uma forma que eu não saberia explicar para alguém de fora. Não houve uma grande reunião familiar, ninguém se sentou à mesa para estabelecer novas regras e Jacob não fez qualquer anúncio. Ainda assim, todos pareciam saber que algumas coisas haviam mudado definitivamente. Claire começou o acompanhamento com uma psicóloga que eu escolhera depois de conversar com o médico e analisar algumas profissionais. Nas primeiras sessões, ela exigiu que eu a acompanhasse até a porta; depois passou a entrar sozinha, embora quase sempre perguntasse se eu estaria esperando quando saísse. Em casa, havia dias em que parecia a mesma adolescente impaciente de antes, reclamando das aulas, implicando com Will e discutindo comigo por causa de roupas, e havia outros em que mal saía do quarto. Nesses dias, aprendi a não insistir. Sentava perto dela, levava alguma coisa para comer e deixava que fosse Claire a decidir se queria conversar ou apenas companhia. Jacob também estava aprendendo, embora para ele fosse consideravelmente mais difícil aceitar que existiam problemas que não podiam ser resolvidos com uma ordem.

Rebecca não voltou à mansão. Eu não a vira uma única vez desde aquele dia e, embora ninguém tivesse me contado que ela estava proibida de aparecer, a ausência dela dizia o suficiente. Solomon, ao contrário, continuava trabalhando com Jacob.

Algumas vezes eu o encontrava entrando ou saindo do escritório, sempre mais sério do que costumava ser, e nós nos cumprimentávamos com educação, sem mencionar o assunto que permanecia entre nós. Sobre Simon, eu não sabia absolutamente nada. Perguntei a Jacob uma vez, alguns dias depois, e recebi apenas a informação de que ele não voltaria a se aproximar de Claire. Quando tentei saber onde estava, meu marido encerrou a conversa com aquela tranquilidade irritante que usava quando já decidira que eu não precisava conhecer determinada informação. Pouco depois, o nome de Simon praticamente deixou de existir dentro da mansão. Os empregados não o pronunciavam, Claire nunca falava dele fora das sessões e Sarah deixou claro que ninguém deveria comentar qualquer coisa perto de Will. Eu também parei de perguntar. Havia perguntas que eu ainda queria fazer a Jacob, mas uma parte de mim suspeitava que talvez fosse melhor não conhecer todas as respostas.

Minha vida, entretanto, não podia ficar restrita àquela casa. Aos poucos, eu criara uma rotina em Nova York, e encontrar Emma era uma das poucas partes dela que ainda pareciam pertencer inteiramente à Renesmee que existia antes de se tornar senhora Black. Eu tinha Sarah e Rachel, claro. Gostava genuinamente das duas, e elas me acompanhavam em compras, almoços e nos eventos aos quais Jacob precisava levar a esposa.

Rachel conseguia transformar uma tarde comprando sapatos em um acontecimento de proporções absurdas, e Sarah tinha se tornado alguém a quem eu recorria quando precisava entender as regras silenciosas daquela família. Mas era diferente com Emma. Emma era minha amiga antes dos vestidos caros, dos carros com motorista, dos seguranças esperando do lado de fora e do cartão de crédito que parecia não conhecer a palavra limite. Era minha confidente e, na verdade, a única melhor amiga que eu já tivera.

Naquela tarde, escolhemos nos encontrar no Lexington Candy Shop, no Upper East Side, uma lanchonete antiga que Emma descobrira e decidira que seria perfeita justamente porque não parecia pertencer ao universo de Jacob. Eu chegara primeiro e escolhi uma mesa mais afastada, embora afastada fosse uma palavra relativa quando dois homens da segurança Black haviam entrado antes de mim e outro permanecia do lado de fora. Eu já desistira de discutir sobre isso com meu marido. Tirei o celular da bolsa enquanto esperava e encontrei várias mensagens. Sarah perguntava se eu estaria em casa para o jantar, Rachel havia enviado fotografias de três vestidos acompanhadas de uma pergunta sobre qual deles eu usaria em um evento no sábado, e Jacob deixara uma mensagem objetiva avisando que provavelmente chegaria tarde. Respondi a Sarah, ignorei temporariamente Rachel porque escolher entre três vestidos que pareciam custar mais do que eu ganhava em meses no Riverside exigia disposição emocional, e fiquei alguns segundos olhando para a mensagem de Jacob antes de responder que ele tinha desenvolvido um talento preocupante para chegar tarde desde que se casara.

— Espero sinceramente que esse sorriso seja para mim.

Levantei os olhos e encontrei Emma tirando a bolsa do ombro.

— Claro que é.

— Mentira. Estava olhando para o celular com cara de mulher casada.

— Existe uma cara específica?

— Depois que você se casou, descobri que existe. Ri enquanto me levantava para abraçá-la. Emma apertou meus braços e depois se afastou, analisando meu rosto como se precisasse confirmar que eu continuava inteira.

— Você está bonita.

— Você também.

— Eu estou acabada.

— Continua bonita.

— Então seu casamento afetou sua visão.

Ela se sentou diante de mim e deixou o celular sobre a mesa. Percebi imediatamente o cansaço em seu rosto.

— Dia ruim?

Emma soltou o ar e apoiou as costas no banco.

— Difícil. A empresa inteira está enlouquecida porque o grande chefe resolveu fazer uma visita. Ergui as sobrancelhas.

— O grande chefe?

— Aparentemente. O homem que está acima do homem que está acima do homem que está acima da minha chefe. Já perdi a conta de quantos chefes existem entre mim e ele. Segurei o sorriso.

— Deve ser um homem muito durão.

— Pelo comportamento das pessoas, eu diria que ele respira fogo. Hoje fizeram uma reunião para explicar como devemos nos comportar durante a visita. Você acredita nisso?

— Talvez ele seja exigente.

— Talvez seja insuportável.

Mordi o interior da bochecha para não rir.

— Você conhece o nome desse terrível chefe?

Emma estreitou os olhos.

— Black Holdings, Renesmee.

Não consegui mais me controlar.

— Ah.

— Não faça esse “ah”.

— Eu não fiz nada.

— Seu marido é dono da empresa que é dona da empresa que é dona da empresa onde eu trabalho.

Acho que é isso. A árvore corporativa daquele homem parece uma floresta.

Comecei a rir.

— Então você estava falando do Jacob.

— Sim, senhora Black. Eu estava falando do seu marido.

— Nesse caso, retiro o “talvez”. Ele é realmente durão.

Emma apontou para mim.

— Você não pode contar que eu disse que ele é insuportável.

— Posso usar isso na próxima discussão.

— Nessie!

— Estou brincando.

— Não pareceu.

Continuei sorrindo enquanto ela pegava o cardápio. Era estranhamente divertido ouvir alguém reclamar de Jacob sem saber inicialmente que estava falando justamente dele. Depois de algumas semanas convivendo com homens que mudavam de postura quando meu marido entrava em uma sala, eu apreciava qualquer oportunidade de vê-lo reduzido à categoria de chefe inconveniente.

Meu sorriso desapareceu quando me lembrei da ligação que Emma recebera mais cedo. Ela parecera preocupada quando me mandara mensagem dizendo que precisava conversar comigo.

— Agora me conta o que aconteceu. Você parecia muito preocupada no telefone.

Emma deixou o cardápio sobre a mesa.

— É a senhora González. Endireitei-me.

— Ela está bem?

— Mais ou menos. Você lembra que eu disse que ela estava tendo problemas com o prédio?

— Com a hipoteca.

Emma assentiu.

— Venceu. Ela tentou negociar de novo, mas aparentemente a situação está muito pior do que me contou. Há meses ela tenta resolver e foi escondendo porque não queria preocupar os moradores. Agora recebeu uma notificação e está apavorada. Passei lá ontem e ela estava passando mal. Jason ficou assustado porque encontrou ela chorando na escada.

Meu peito apertou. A senhora González não tinha qualquer obrigação de ajudar Emma quando ela chegara a Nova York com duas crianças e precisava desesperadamente de um lugar onde morar. Mesmo assim, ajudara.

— Ela procurou um advogado?

— Não sei. Acho que não tem dinheiro nem para isso. Ela está usando praticamente tudo que recebe para manter o prédio funcionando e pagar as despesas. Eu já comecei a procurar outro lugar para mim e para as crianças porque preciso pensar neles, mas... — Emma passou a mão pelo rosto. — E ela, Nessie? Para onde aquela senhora vai? É a casa dela há anos. Ela conhece todo mundo naquele prédio. Metade dos moradores só continua lá porque ela nunca tratou ninguém como um número.

Olhei para minha mão sobre a mesa.

Alguns meses antes, uma hipoteca vencida seria um problema diante do qual eu poderia apenas sentir pena. Talvez oferecer cinquenta dólares, ajudar Emma a procurar outro apartamento ou fazer alguma coisa pequena. Agora eu estava casada com um homem para quem comprar seis pares de sapatos numa tarde não merecia sequer aparecer na fatura que ele verificava.

Mas não queria simplesmente aparecer com dinheiro de Jacob e decidir que isso resolvia tudo.

— Vou descobrir exatamente qual é a situação do prédio.

Emma me olhou.

— Como?

— Primeiro preciso saber qual é o valor da dívida, qual banco está com a hipoteca, se já existe algum procedimento para tomar o imóvel e se ainda é possível negociar. Depois vejo no que posso ajudar.

— Nessie, pode ser muito dinheiro.

— Eu sei.

— Muito dinheiro mesmo.

— Emma, eu entendi o conceito de muito dinheiro.

— Você costumava guardar moedas em um pote para comprar café.

— E continuo achando aquele sistema excelente.

Ela sorriu, mas a preocupação permaneceu.

— Não quero colocar você numa situação complicada com Jacob.

— Eu não vou pegar uma mala de dinheiro do escritório dele escondida.

— Com a sua vida atual, não sei mais quando você está brincando.

— Nem eu.

Emma riu e então estendeu a mão sobre a mesa, segurando a minha.

— Você é um anjo, sabia?

Sorri e apertei seus dedos.

— Não sou.

— É, sim. A senhora González ajudou a mim, e agora você está tentando ajudar ela sem sequer saber o tamanho do problema.

— Talvez eu não consiga resolver.

— Mas já decidiu tentar. Isso conta.

O garçom apareceu e interrompeu nossa conversa. Emma olhou para mim antes mesmo de abrir o cardápio.

— Milk-shake?

— Definitivamente.

— Chocolate.

— Morango.

Ela fez uma expressão de reprovação.

— Eu continuo questionando suas escolhas.

— Você trabalha para o meu marido e acabou de chamá-lo de insuportável. Não está em posição de questionar nada.

Emma arregalou os olhos antes de começar a rir.

— Eu sabia que esse casamento acabaria estragando você.

Pedimos os milk-shakes e, quando o garçom se afastou, a conversa mudou naturalmente para as crianças, o trabalho dela e minha adaptação à vida de casada. Emma queria saber se Will ainda entrava no nosso quarto sem bater, eu reclamei que ele aparentemente considerava portas apenas elementos decorativos, e ela contou que Jason decidira que queria ficar rico como Jacob sem ainda compreender que “ser dono de empresas” exigia alguma coisa entre desejar e efetivamente conseguir.

Quando nossos milk-shakes chegaram, percebi que estava rindo de verdade pela primeira vez em vários dias.

Ainda assim, a situação da senhora González não saiu da minha cabeça. Enquanto Emma falava, uma decisão começava a se formar silenciosamente. Eu descobriria quem detinha aquela hipoteca e qual era o tamanho real do problema antes de prometer qualquer coisa. Se houvesse uma maneira de ajudar, eu encontraria.

E, se precisasse conversar com o homem durão que fazia empresas inteiras entrarem em pânico apenas anunciando uma visita, eu tinha a pequena vantagem de saber exatamente de que lado da cama ele dormia.

Emma olhou a hora no celular e fez uma careta antes mesmo de terminar o que restava do milk-shake.

— Eu preciso voltar. Se eu me atrasar justamente no dia em que todo mundo está surtando por causa da visita do grande chefe, minha supervisora provavelmente me demite antes que seu marido tenha a oportunidade de aterrorizar o prédio.

— Jacob não aterroriza ninguém.

Emma me encarou por cima do copo.

— Você consegue dizer isso sem rir?

— Consigo.

— Então diga.

Abri a boca, mas meu sorriso apareceu primeiro, fazendo Emma apontar para mim com uma expressão vitoriosa.

— Foi o que pensei. E não conte a ele que eu disse nada disso.

— Ainda estou avaliando quanto vale o meu silêncio.

— Você era uma pessoa melhor quando servia café em Allentown.

— Eu era mais pobre. É diferente.

Emma riu, levantou-se e pegou a bolsa. Eu também me levantei para abraçá-la, e ela ainda repetiu que eu não deveria me comprometer com a situação da senhora González antes de descobrir exatamente o tamanho da dívida. Prometi que teria cuidado, embora soubesse que, se existisse uma maneira de ajudar aquela mulher, dificilmente conseguiria simplesmente ignorar. Emma beijou meu rosto, despediu-se e saiu apressada pela porta da lanchonete, olhando para o relógio enquanto caminhava. Fiquei alguns minutos terminando meu milk-shake antes de pagar a conta e sair.

O carro já estava esperando.

Um dos seguranças abriu a porta traseira, e entrei enquanto o outro ocupava o banco da frente. Assim que me acomodei, tirei o celular da bolsa e procurei o nome de Jacob. Hesitei antes de ligar. Pedir alguma coisa a ele ainda era estranho, principalmente quando a coisa em questão poderia envolver muito dinheiro. Eu sabia que Jacob jamais me deixaria sem nada. O cartão que me entregara praticamente não tinha limite, minhas roupas apareciam no closet antes mesmo de eu perceber que precisava delas e, se eu mencionasse casualmente que queria alguma coisa, havia uma possibilidade bastante real de encontrá-la em casa dois dias depois. Isso, porém, era diferente. Eu não queria comprar um vestido ou sapatos. Queria ajudá-lo a salvar o prédio de uma mulher que ele sequer conhecia.

Liguei.

Chamou algumas vezes até cair na caixa postal.

— Claro — murmurei, encerrando.

Pensei em mandar uma mensagem, mas aquilo não era assunto para resolver com um Jacob, você poderia me emprestar uma quantia talvez absurda de dinheiro? escrito no celular.

Além disso, eu ainda nem sabia quanto era.

Procurei outro contato.

A secretária dele atendeu rapidamente.

— Escritório do senhor Black.

— Helena? É Renesmee.

A voz dela mudou imediatamente.

— Senhora Black. Boa tarde.

Eu ainda não tinha me acostumado completamente com aquilo.

— Boa tarde. O Jacob está por aí?

— Sim, senhora. O senhor Black está na Holding, mas entrou em uma reunião há alguns minutos.

— Sabe se vai demorar?

— Não tenho certeza. Posso avisá-lo assim que terminar.

— Não precisa interromper nada. Obrigada, Helena.

— Por nada, senhora Black. Desliguei. O motorista olhou para mim pelo retrovisor. — Para onde devo levá-la, senhora? Guardei o celular na bolsa. — Para a Holding. — Sim, senhora. O carro entrou no trânsito, e eu apoiei a cabeça no banco por alguns segundos. Não me sentia confortável em pedir dinheiro a Jacob. Talvez nunca me sentisse. Não importava quantas vezes ele dissesse que eu era sua esposa ou quantas vezes Sarah explicasse que eu precisava parar de pensar em cada centavo como exclusivamente dele. Durante vinte anos, eu aprendera a contar dinheiro antes de comprar qualquer coisa. Sabia quanto custava uma semana de comida, quantos turnos precisava trabalhar para pagar uma conta e o que significava olhar para alguma coisa e concluir que simplesmente não podia ter. Casar não apagava isso. Eu ainda olhava para os preços por instinto e quase tivera um ataque na primeira vez que Rachel me levara a uma loja onde nenhuma peça tinha etiqueta visível. Além disso, havia o contrato. Jacob podia me dar acesso a cartões, carros, roupas e qualquer conforto que julgasse necessário para a senhora Black, mas isso não fazia com que eu considerasse o dinheiro dele automaticamente meu. Talvez fosse ridículo depois de dividir a cama com aquele homem todas as noites, acordar com o braço dele sobre a minha cintura e discutir com ele sobre qual lado do closet eu estava invadindo, mas pedir uma grande quantia continuava parecendo atravessar uma fronteira. Olhei pela janela enquanto Manhattan passava diante de mim. O trânsito estava pesado, como sempre, e fiquei observando a sucessão de prédios, lojas, táxis e pessoas apressadas pelas calçadas. Nova York ainda conseguia me fazer sentir pequena. Havia semanas em que eu quase acreditava estar me acostumando, até atravessar uma região diferente e lembrar que continuava conhecendo apenas uma parte mínima daquela cidade. Durante o trajeto, peguei novamente o celular e procurei a mensagem de Emma. Ela havia enviado o nome completo da senhora González e o endereço do prédio. Salvei tudo. Eu não queria chegar diante de Jacob apenas com uma história triste e pedir dinheiro. Precisava descobrir primeiro o que realmente estava acontecendo. Talvez a hipoteca pudesse ser renegociada. Talvez existisse uma dívida muito menor do que Emma imaginava. Talvez fosse muito maior. Eu não sabia. O carro finalmente reduziu a velocidade diante de um edifício que me fez inclinar o corpo para conseguir enxergar o topo através da janela. — É aqui? — Sim, senhora. Olhei novamente. Eu sabia que Black Holdings era grande. Sabia, em teoria, que Jacob controlava empresas, investimentos, imóveis, logística e uma quantidade de negócios que eu ainda não conseguia acompanhar. Mas ouvir sobre aquilo durante o jantar era uma coisa. Ver o edifício onde parte daquele império era administrada era outra. O carro parou diante da entrada. O motorista desceu e abriu minha porta. — Senhora Black. Coloquei um pé na calçada e ergui os olhos. — Meu Deus. Ele disfarçou um sorriso. — Primeira vez? — Está tão evidente assim? — Um pouco. — Não conte ao meu marido que fiquei impressionada. — Naturalmente, senhora. Peguei minha bolsa e caminhei em direção à entrada, acompanhada a alguns passos pelos seguranças. O saguão era enorme, elegante e muito mais movimentado do que eu esperava. Pessoas atravessavam o espaço com crachás, telefones e pastas nas mãos. Havia algo quase engraçado em pensar que todas aquelas pessoas trabalhavam dentro de uma estrutura que, de alguma forma, terminava no homem que deixava a toalha molhada sobre uma poltrona e depois alegava que não tinha sido ele. Caminhei até a recepção. Havia duas mulheres atrás do balcão. Uma delas falava ao telefone; a outra era jovem, talvez não muito mais velha do que eu. Ela me viu aproximando e olhou rapidamente para minhas roupas antes que eu conseguisse abrir a boca. — Não estamos aceitando currículos no momento. Parei. Olhei para ela. Depois olhei discretamente para mim mesma, como se existisse alguma possibilidade de eu ter entrado ali carregando um currículo sem perceber. Voltei a encará-la e sorri. — Que pena. A jovem assentiu, aparentemente satisfeita por termos resolvido a questão. — As vagas são divulgadas pelo site quando estão disponíveis. — Entendi. — Posso ajudar em mais alguma coisa? Apoiei levemente uma das mãos sobre o balcão. — Pode. Eu gostaria de falar com o senhor Black. Ela piscou. — O senhor Black? — Sim. — A senhora tem horário marcado? — Não. A expressão profissional dela adquiriu um pouco mais de paciência. — Nesse caso, não será possível. O senhor Black não recebe ninguém sem agendamento. — Imagino. — Se quiser deixar seu nome e telefone, posso encaminhar ao setor responsável. Meu sorriso aumentou. — Acho que meu nome já está no sistema. Ela franziu a testa. — Qual seria? — Renesmee. Esperei elas olharem o sistema e quase ri da situação. — Renesmee Black. A outra recepcionista, que ainda estava ao telefone, virou o rosto tão depressa que precisei morder o lábio. A jovem diante de mim ficou completamente imóvel. — Black? — É. Seus olhos desceram por um instante para minha mão esquerda e encontraram minha aliança. — Senhora... Black? — Foi o que disseram no casamento. A mulher ao lado encerrou a ligação rapidamente. — Senhora Black, boa tarde. — Boa tarde. A primeira recepcionista parecia estar tentando decidir se deveria pedir desculpas, chamar alguém ou desaparecer debaixo do balcão. — Eu... eu não sabia que... — Que eu não estava procurando emprego? Ela ficou vermelha. — Desculpe. Eu realmente sinto muito. Eu poderia ter me ofendido. Talvez a esposa que aquelas pessoas imaginavam para Jacob Black se ofendesse. Mas passei anos entrando em lugares onde ninguém tinha motivo para me reconhecer, e poucas semanas de casamento não haviam me transformado em alguém que esperava ser anunciada por trombetas. — Está tudo bem. Mas talvez seja melhor perguntar o que a pessoa deseja antes de decidir por que ela entrou. — Sim, senhora. — E não se preocupe. Não vou contar ao senhor Black que quase saí daqui empregada. A outra recepcionista baixou o rosto, claramente escondendo um sorriso. A jovem, por outro lado, parecia ainda mais apavorada. — Eu posso avisar imediatamente ao escritório dele. — Helena já sabe que eu estava procurando por ele. Ele está em reunião. — Sim, senhora. — Então não interrompa. A recepcionista ao lado se aproximou. — Posso pedir que alguém acompanhe a senhora até o andar executivo. Olhei para os elevadores ao fundo e depois para os meus seguranças, que haviam assistido à conversa inteira com a disciplina impressionante de homens treinados para não rir da esposa do chefe. — Agradeço. Enquanto uma funcionária saía de trás do balcão para me acompanhar, peguei o celular novamente. Ainda não havia retorno de Jacob. Eu tinha vindo até a empresa dele sem avisar, pretendia pedir ajuda para uma mulher que ele não conhecia e, considerando a expressão da recepcionista quando descobriu quem eu era, provavelmente minha presença já estava subindo pelos andares do prédio mais depressa do que o elevador. Respirei fundo e segui em frente. Pedir dinheiro ao meu marido continuava me deixando desconfortável. Descobrir como ele reagiria ao encontrar a esposa aparecendo sem convite em pleno território Black, entretanto, começava a me deixar curiosa.