A esposa do Don
39 Black Holdings ( parte 2)
Renesmee
A funcionária que saiu da recepção para me acompanhar chamava-se Laura. Descobri isso porque li seu crachá enquanto caminhávamos em direção aos elevadores e perguntei seu nome, o que pareceu surpreendê-la mais do que deveria. Ela respondeu quase imediatamente, endireitando a postura, e depois apertou o botão de chamada para mim. Enquanto esperávamos, tive tempo de observar melhor o saguão. O tamanho do prédio já me impressionara do lado de fora, mas só ali comecei a entender que Black Holdings não era simplesmente uma empresa com muitos funcionários. Havia um fluxo constante de pessoas entrando e saindo dos elevadores, homens de terno atravessando o hall enquanto conversavam ao telefone, mulheres carregando tablets e pastas, funcionários usando crachás de cores diferentes e visitantes sendo identificados em uma área separada. Em uma parede enorme, discretamente iluminada, estava o nome BLACK HOLDINGS, acompanhado de uma marca que eu já reconhecia imediatamente.
O sobrenome que agora também era meu estava espalhado por aquele edifício de uma forma que me provocou uma sensação estranha. Na mansão, Black era família. Ali, Black significava poder.
— O senhor Black ocupa os andares superiores? — perguntei quando entramos no elevador.
Laura apertou um botão que exigiu primeiro aproximar o próprio crachá do leitor.
— O andar executivo principal fica acima dos setores administrativos. Há também salas de reunião e alguns departamentos que trabalham diretamente com a presidência.
Olhei para a quantidade de números no painel.
— Quantas pessoas trabalham aqui?
Ela hesitou.
— Apenas neste edifício?
— Essa pergunta não deveria ser tão assustadora.
Laura sorriu discretamente.
— Bastante gente, senhora Black.
— Essa foi uma excelente maneira de dizer que não sabe.
Ela soltou uma risada pequena e imediatamente pareceu preocupada por ter rido comigo.
— Eu realmente não sei o número exato.
— Então somos duas.
As portas se abriram alguns andares depois para a entrada de duas mulheres e um homem. Eles conversavam entre si até perceberem Laura comigo. Uma das mulheres a cumprimentou, e Laura respondeu naturalmente.
— Estou acompanhando a senhora Black até o executivo.
Foi quase fascinante.
Os três olharam para mim ao mesmo tempo.
O homem ajeitou a postura. A mulher que havia acabado de entrar deu uma olhada rápida para minha aliança e depois para meu rosto. A outra pareceu surpresa demais para disfarçar.
— Boa tarde, senhora Black.
— Boa tarde.
O elevador continuou subindo em um silêncio que não existia antes da apresentação. Tive vontade de perguntar se todos haviam esquecido o assunto sobre o qual conversavam, mas achei melhor não piorar a situação. Quando os três desceram, ouvi uma das mulheres começar a dizer alguma coisa antes mesmo que as portas terminassem de fechar.
Olhei para Laura.
— É sempre assim?
Ela fingiu não entender.
— Assim como?
— Você sabe exatamente como.
Um sorriso apareceu.
— O casamento do senhor Black foi bastante comentado.
— Isso eu imaginei.
— Pouquíssimas pessoas daqui conheciam a senhora.
— E agora estão decepcionadas porque não tenho dois metros de altura e uma coroa?
Laura riu novamente.
— Não.
— Pode falar. Eu prometo não demitir ninguém. Aliás, nem sei se posso demitir alguém.
Ela ficou visivelmente mais à vontade.
— Algumas pessoas imaginavam que a senhora fosse... diferente.
— Diferente como?
A hesitação foi suficiente.
— Uma dondoca mandona?
Laura arregalou os olhos.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Senhora Black...
— Renesmee.
Ela pareceu ainda mais alarmada.
— Não acho que eu possa chamar a esposa do senhor Black pelo primeiro nome.
— Então continuamos com senhora Black. Mas você ainda não respondeu.
Laura acabou cedendo.
— Acho que algumas pessoas imaginavam alguém mais... exigente.
— Essa palavra salvou seu emprego.
Ela riu, e eu também.
Quando chegamos ao andar executivo, compreendi por que o acesso era controlado. O ambiente era completamente diferente dos andares pelos quais passáramos. Não havia o mesmo movimento constante. Tudo parecia mais silencioso, espaçoso e organizado, com paredes de vidro, madeira escura, salas de reunião discretamente identificadas e uma vista de Manhattan que me fez diminuir o passo. A cidade parecia quase irreal daquela altura. Havia uma grande área de recepção antes do corredor principal, algumas mesas ocupadas por assistentes e, ao fundo, portas que provavelmente levavam aos escritórios mais importantes.
Laura me apresentou à primeira funcionária que encontrou, e novamente aconteceu a mesma transformação.
— Esta é a senhora Black.
A moça levantou-se imediatamente.
— Senhora Black, boa tarde.
— Boa tarde.
Ela parecia esperar que eu dissesse mais alguma coisa.
Eu sorri.
— Pode continuar trabalhando. Juro que não vim fazer inspeção.
A expressão dela relaxou um pouco.
Conforme atravessávamos o andar, percebi os olhares. Não eram exatamente desagradáveis; eram curiosos. Alguns funcionários apenas me cumprimentavam, outros tentavam não encarar e falhavam miseravelmente. Comecei a compreender que eu era uma espécie de personagem sobre a qual aquelas pessoas já tinham ouvido falar sem nunca terem visto pessoalmente. Provavelmente imaginavam a mulher que conseguira se casar com Jacob Black como alguém completamente diferente de mim. Talvez esperassem uma socialite acostumada a mandar em empregados desde criança, alguém que entraria ali exigindo café, reclamando do ar-condicionado e tratando funcionários como parte da decoração.
Em vez disso, encontraram uma mulher de vinte anos que ainda agradecia quando alguém segurava uma porta porque passara a maior parte da vida sendo justamente a pessoa que segurava portas, carregava pratos e ouvia clientes estalarem os dedos para chamar sua atenção.
Não sabia se aquilo os decepcionava ou tranquilizava.
Laura finalmente parou diante de uma mulher elegante sentada em uma mesa próxima a um conjunto de portas maiores.
— Helena, a senhora Black chegou.
A mulher levantou os olhos.
Reconheci a voz antes mesmo de ela falar.
— Senhora Black.
Sorri.
— Então você é a Helena.
Ela pareceu surpresa.
— Sim.
— Finalmente posso colocar um rosto na voz.
Helena sorriu e se levantou.
— O mesmo vale para mim. É um prazer conhecê-la pessoalmente.
— Igualmente. E obrigada por sempre atender minhas ligações quando meu marido resolve desaparecer dentro do próprio trabalho.
Laura tentou esconder o sorriso.
Helena teve mais experiência.
— Faz parte das minhas atribuições.
— Imagino que localizar Jacob Black deva ocupar metade delas.
— Em alguns dias, uma porcentagem considerável.
Gostei dela imediatamente.
Laura se despediu e voltou para o elevador depois que agradeci por ter me acompanhado. Helena então explicou que Jacob continuava na reunião.
— O senhor Black pediu expressamente para não ser interrompido. A reunião começou há algum tempo e acredito que esteja próxima do fim. Assim que eu levar o café, aviso que a senhora chegou.
— Não precisa interromper por minha causa.
— Tenho certeza de que ele vai querer saber.
— Pode apenas avisar quando tiver oportunidade. Eu espero.
Foi nesse momento que ouvi passos vindo do corredor.
Sam apareceu carregando várias pastas. Ele olhava para uma delas enquanto caminhava e só levantou a cabeça quando estava relativamente perto.
Parou.
— Renesmee?
— Oi, Sam.
Ele olhou para Helena e depois novamente para mim.
— O que está fazendo aqui?
Cruzei os braços.
— Pelo jeito, minha presença na empresa do meu marido é um acontecimento muito estranho.
— Não estranho. Inesperado.
— Vim conversar com Jacob.
Sam olhou para a porta fechada.
— Ele está em reunião.
— Eu sei. Helena acabou de me dizer. Posso esperar.
Sam entregou duas das pastas que carregava a uma assistente que passava.
— Eu aviso que você está aqui.
— Sam, não precisa. Se ele estiver muito ocupado, eu espero.
Ele me lançou um olhar quase divertido.
— Ainda não perdi o juízo a ponto de deixar a senhora Black esperando do lado de fora enquanto o marido está a dez metros daqui.
— Helena acabou de dizer que ele pediu para não ser interrompido.
— Isso foi antes de você aparecer.
— Não quero atrapalhar.
Sam já estava caminhando para a porta.
— Pode explicar isso a ele.
— Você vai mesmo interromper?
Ele abriu a porta.
— Prefiro interromper Jacob a explicar depois por que deixei a esposa dele esperando sem avisá-lo.
— Covarde.
Sam olhou por cima do ombro.
— Experiente.
Entrou e fechou a porta.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
— Ele sempre faz isso?
Helena sorriu discretamente.
— O senhor Uley costuma escolher muito bem quais ordens do senhor Black podem ser interpretadas.
— Estou começando a perceber.
Helena indicou uma pequena área de espera próxima às janelas.
— A senhora gostaria de beber alguma coisa enquanto espera?
— Água está ótimo, obrigada.
Ela imediatamente virou-se para uma moça em outra mesa.
— Camila, uma água para a senhora Black, por favor.
A pobre Camila se levantou tão depressa que quase derrubou uma caneta.
— Claro. Com gás ou sem gás, senhora Black?
Olhei para ela.
Depois para Helena.
As duas estavam excessivamente sérias.
Comecei a sorrir.
— Só água.
Camila piscou.
— Sim, mas... com gás ou sem gás?
— Sem gás.
— Natural, gelada ou em temperatura ambiente?
Meu sorriso aumentou.
— Gelada.
— Com gelo?
— Camila.
Ela parou.
— Sim, senhora?
— É só água.
Helena virou discretamente o rosto, e eu tive certeza de que estava segurando uma risada.
— Desculpe — Camila disse, ficando vermelha. — É que...
— Vocês estão nervosas.
Ninguém respondeu.
Isso respondeu.
Apoiei a bolsa na poltrona e olhei para as duas.
— Eu não vou contar ao meu marido que alguém trouxe a temperatura errada da minha água. Também não vou mandar ninguém embora, não vou reclamar com o RH e, até onde sei, não existe no contrato do meu casamento nenhuma cláusula sobre água mineral.
Helena finalmente riu.
Camila também, ainda tímida.
— Gelada e sem gás — ela confirmou.
— Perfeita.
Ela se afastou.
Sentei-me e observei novamente o andar. Algumas pessoas fingiam trabalhar enquanto evidentemente prestavam atenção em mim. Uma mulher passou, cumprimentou-me formalmente e pareceu surpresa quando perguntei como estava. Outro funcionário segurou a porta de uma sala e recebeu meu agradecimento como se eu tivesse feito algo extraordinário.
Era estranho perceber o que esperavam de mim apenas por causa do sobrenome que agora carregava.
Algumas semanas antes, eu servia mesas. Sabia como era estar em pé durante horas, sorrir quando os pés doíam e continuar educada diante de alguém que não se dava ao trabalho de olhar para meu rosto enquanto fazia um pedido. Nenhum vestido caro, carro com motorista ou aliança no meu dedo conseguiria fazer com que eu esquecesse disso.
Camila voltou com um copo e uma pequena garrafa de água sobre uma bandeja.
Eu aceitei.
— Obrigada, Camila.
Ela sorriu.
— Por nada, senhora Black.
Tomei um gole e olhei para a porta por onde Sam havia desaparecido.
Ainda precisava descobrir como pedir ajuda a Jacob para a senhora González.
Considerando que eu já havia provocado uma pequena crise apenas pedindo um copo de água, comecei a suspeitar que aquela seria a parte fácil da minha visita.
Eu terminava a água quando a porta da sala de reuniões finalmente se abriu. Levantei os olhos esperando ver Jacob, mas foi Sam quem apareceu primeiro. Ele fechou a porta atrás de si e caminhou em minha direção com as mãos agora vazias, embora a expressão séria permanecesse a mesma. Helena também ergueu os olhos de seu computador, provavelmente curiosa para saber se a presença inesperada da esposa do chefe havia conseguido aquilo que nenhum funcionário daquele andar ousava tentar: interromper uma reunião para a qual Jacob deixara ordens expressas de não ser incomodado.
— Pode entrar — Sam disse.
Coloquei o copo vazio sobre a pequena mesa ao lado da poltrona.
— Ele não ficou irritado?
Sam soltou uma respiração que quase pareceu uma risada.
— Comigo por interromper? Um pouco. Quando eu disse quem estava esperando, passou.
— Isso não me tranquiliza.
— Não deveria. Venha.
Peguei minha bolsa e o acompanhei. Quando passei pela mesa de Helena, ela me lançou um sorriso discreto, e eu agradeci novamente pela água antes de seguir Sam pelo corredor. Ele parou diante da mesma porta pela qual desaparecera minutos antes, abriu-a para mim e fez um gesto para que entrasse.
A sala era muito maior do que eu esperava. Talvez porque, até aquele momento, eu só tivesse visto Jacob trabalhando no escritório da mansão, um ambiente que já me parecia excessivamente grande para uma pessoa. Aquela sala, entretanto, tinha proporções diferentes. Uma extensa mesa ocupava o centro, cercada por cadeiras de couro, enquanto uma das paredes era praticamente inteira de vidro, oferecendo uma vista ampla de Manhattan. Havia telas embutidas, documentos cuidadosamente organizados, algumas pastas abertas e uma decoração elegante que seguia a mesma sobriedade do restante daquele andar. Nada parecia estar ali apenas para impressionar, embora tudo acabasse impressionando.
Jacob estava na cabeceira.
Ele ergueu os olhos no instante em que entrei.
A surpresa foi pequena, mas eu a reconheci porque já começava a conhecer suficientemente meu marido para perceber alterações que provavelmente passariam despercebidas para outras pessoas. Suas sobrancelhas se moveram discretamente antes que ele se recostasse na cadeira.
— Então foi você quem conseguiu fazer Sam ignorar uma ordem direta minha.
Parei perto da porta.
— Tecnicamente, eu pedi para ele não interromper.
Sam fechou a porta atrás de mim.
— Posso confirmar.
Jacob olhou para ele.
— Ninguém pediu sua defesa.
— Foi uma tentativa.
Jacob voltou os olhos para mim. A dureza que eu vira em seu rosto quando entrei havia diminuído.
— Venha aqui, senhora Black. Se pretende invadir meus domínios sem avisar, ao menos tenha a consideração de chegar perto o suficiente para que eu possa decidir se devo puni-la ou agradecer pela interrupção.
Senti meu rosto esquentar.
— Você não poderia simplesmente dizer “oi”?
— Poderia. Seria decepcionante.
Sam baixou o rosto, claramente escondendo um sorriso.
Caminhei em direção a Jacob.
— Desculpe aparecer sem avisar. Eu liguei, mas você não atendeu. Depois falei com Helena e ela disse que estava em reunião. Eu podia ter esperado.
— Podia.
— Sam não deixou.
— Sam desenvolveu instinto de sobrevivência depois de muitos anos trabalhando comigo.
— Foi exatamente o que ele disse.
Jacob levantou-se quando cheguei perto e pousou a mão em minha cintura. O gesto foi natural, íntimo e completamente diferente da postura que ele provavelmente mantivera naquela sala até poucos minutos antes. Seus olhos passaram rapidamente pelo meu rosto, como se verificasse alguma coisa.
— Aconteceu algo em casa?
— Não. Claire está bem. Will também.
A tensão discreta em seus dedos desapareceu.
— Então o que trouxe você até aqui?
— Eu precisava conversar com você sobre uma coisa.
— Poderia ter mandado uma mensagem.
— Não queria pedir isso por mensagem.
Os olhos dele se estreitaram ligeiramente.
— Pedir?
Foi quando percebi que não estávamos sozinhos.
Eu já havia visto o outro homem assim que entrara, mas minha atenção fora imediatamente atraída por Jacob. Agora, ao virar um pouco o rosto, encontrei o olhar do desconhecido.
E alguma coisa nele me deixou desconfortável.
Não porque parecesse ameaçador. Muito pelo contrário. Era um homem elegante, de aparência cuidadosamente controlada, provavelmente próximo da idade de Jacob ou um pouco mais velho. Estava sentado do outro lado da mesa, vestido com um terno escuro impecável. Havia uma pasta aberta diante dele e uma xícara de café quase intocada ao lado. Poderia ser apenas mais um empresário em reunião com meu marido.
Mas não me olhava como um empresário olha para a esposa de alguém que acabou de interromper uma reunião.
Ele me encarava como se tivesse esquecido completamente onde estava.
Fiquei sem graça.
O homem não piscava.
Seus olhos percorriam meu rosto com uma atenção que ultrapassava curiosidade. Pararam em meus olhos, desceram brevemente até minha boca e voltaram. Não havia malícia. Era pior, de certa forma, porque eu não conseguia identificar o que havia ali. Choque, talvez. Confusão. Uma incredulidade tão evidente que comecei a me perguntar se havia alguma coisa errada comigo.
Olhei discretamente para minha roupa.
Nada.
Voltei a encará-lo.
Ele continuava olhando.
A mão de Jacob permaneceu em minha cintura, mas senti seus dedos apertarem discretamente o tecido da minha roupa.
— Desculpe — falei, dirigindo-me ao desconhecido. — Eu não queria interromper a reunião.
Ele demorou a responder.
— Não precisa se desculpar.
Sua voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Jacob observava o homem.
Havia alguma coisa naquela sala que eu claramente não compreendia.
— Renesmee — Jacob chamou.
Olhei para ele.
— Sim?
Ele não desviou os olhos do outro homem imediatamente. Por um instante, tive a impressão de que meu marido estava calculando cada palavra que diria a seguir.
Então voltou a atenção para mim.
— Já que decidiu aparecer no meu escritório sem aviso, suponho que seja uma oportunidade tão boa quanto qualquer outra para algumas apresentações.
— Jacob...
— Minha esposa, Renesmee Black.
O homem levantou-se e novamente ficou me olhando.
Meu desconforto aumentou.
Jacob fez a segunda apresentação com uma calma que, por algum motivo, me pareceu excessivamente deliberada.
— Renesmee, este é Edward Cullen.
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