A esposa do Don
40 Black Holdings ( parte final)
JACOB
Edward permaneceu diante da minha mesa, olhando para as fotografias como se esperasse que alguma delas desaparecesse caso esperasse tempo suficiente. Eu compreendia a dificuldade em aceitar. Durante mais de vinte anos, aquele homem não tivera qualquer motivo para procurar uma filha desaparecida porque, para ele, não havia desaparecimento. Havia uma morte, um funeral e um túmulo. O corpo de uma criança fora colocado diante dos Cullen, reconhecido como Elizabeth e enterrado sob aquele nome. Agora eu lhe dizia que uma freira na Pensilvânia possuía uma versão completamente diferente dos mesmos acontecimentos e que a criança entregue a ela naquela noite poderia ter sido Elizabeth.
— Onde ela está? — Edward perguntou novamente, dessa vez sem elevar a voz. — Se acredita realmente que encontrou Elizabeth, diga onde ela está.
Fechei a pasta e a puxei para o meu lado da mesa.
— Não.
A reação dele foi imediata.
— Não brinque comigo, Black.
— Não estou brincando. Você não vai saber onde ela está até eu descobrir quem tentou matar sua filha e por quê.
— É minha filha.
— Justamente por isso deveria compreender o que estou dizendo. Alguém invadiu um hospital para chegar até um recém-nascido. Mais de vinte anos depois, homens apareceram no lugar onde essa criança foi criada fazendo perguntas sobre meninas deixadas ali naquela época. Se as duas coisas estiverem relacionadas, quem tentou encontrá-la pode continuar procurando.
Edward apoiou as mãos sobre minha mesa.
— E acha que pode protegê-la melhor do que eu?
— Neste momento, sim.
Seus olhos endureceram.
— Você é arrogante.
— E sua filha chegou aos vinte anos sem que essas pessoas a encontrassem. Pretendo mantê-la viva enquanto descubro quem são.
Edward se afastou da mesa e caminhou até a janela. Ficou alguns segundos olhando Manhattan antes de se virar.
— Você perguntou quem tentou matá-la.
— Sim.
— Talvez eu saiba quem. Pelo menos sei quem tinha motivos naquela época.
Esperei.
Ele voltou para a cadeira.
— Há mais de vinte anos, cometi um erro.
— Que tipo de erro?
— O tipo que homens como nós não podem desfazer depois que acontece. — Edward apoiou os antebraços nas pernas e entrelaçou as mãos. — Matei o primeiro neto de Falcon Denali.
Aquilo explicava mais do que ele provavelmente imaginava.
— Deliberadamente?
— Sim.
— Por quê?
Edward sustentou meu olhar.
— As circunstâncias importavam naquele momento. Hoje não alteram o resultado. O rapaz morreu pelas minhas mãos e era o primeiro neto de Falcon, o homem que ele preparava para assumir parte da organização. Falcon não quis dinheiro, território ou compensação. Quis sangue Cullen.
— E os Denali abriram guerra.
— Imediatamente.
Edward não tentou se apresentar como vítima. Falou sobre o passado com a objetividade de quem passara duas décadas convivendo com as consequências de uma decisão.
— Perdemos homens, depósitos e rotas. Os ataques começaram em Nova York e se espalharam. Falcon não queria apenas enfraquecer nossa organização. Queria que minha família sentisse cada perda. Quando Isabella engravidou, a guerra já durava tempo suficiente para eu saber que qualquer pessoa ligada diretamente a mim seria um alvo.
— Isabella era sua esposa.
— Bella.
A correção veio automaticamente.
— Quando descobrimos a gravidez, quase ninguém soube. Mantivemos em segredo durante o máximo de tempo possível. Quando já não podíamos esconder, tirei Bella de Nova York. Fomos para a ilha de Esme. Acreditávamos que conseguiríamos proteger a criança ali.
— Mas a informação vazou.
— Dias antes de Bella dar à luz. — A mandíbula dele se contraiu. — Os Denali invadiram a ilha. Conseguimos sair antes que fechassem todas as rotas e voltamos para Nova York. Era contraditório, mas eu ainda tinha mais homens aqui do que em qualquer outro lugar. Meu irmão gêmeo, Elliot, estava recém-casado. Mary já tinha uma filha de outro homem quando se casaram, mas Elliot assumira a menina como família. Quando soube que estávamos de volta, ficou ao meu lado e jurou que protegeria a sobrinha.
— Quem sabia da volta de vocês?
— Pouquíssimas pessoas.
— Quero esses nomes depois.
Edward assentiu.
— Terá.
Recostei-me na cadeira.
— Continue.
— Pretendíamos fazer o parto em uma propriedade particular. Médicos, equipamentos, tudo estava preparado. Bella, porém, entrou em trabalho de parto antes do esperado e começou a sangrar. O médico disse que precisávamos levá-la a um hospital ou perderíamos as duas. Não tive escolha.
A tensão apareceu nas mãos dele.
— Novamente a informação vazou?
— Sim. Os Denali chegaram enquanto Bella estava em trabalho de parto. Meus homens fecharam os acessos, mas Falcon enviara homens suficientes para transformar aquele hospital em uma zona de guerra. Bella deu à luz enquanto eles tentavam chegar ao andar.
— Elizabeth.
Edward assentiu.
— Elizabeth Cullen. Minha filha.
Ele permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.
— Bella estava com uma hemorragia. Elliot e Mary chegaram até nós por uma passagem de serviço. Bella sabia que não poderia ser transportada naquele estado. Pegou Elizabeth, beijou nossa filha e a colocou nos braços do meu irmão. Pediu que ele a levasse embora e a protegesse. Elliot prometeu. Eu deveria ter ido com eles, mas Bella piorou. Não consegui abandonar minha esposa enquanto ela morria.
— Elliot saiu com Elizabeth.
— Ele e Mary. Meu irmão disse que entraria em contato assim que chegasse a um lugar seguro. Foi a última vez que o vi vivo.
— Bella não resistiu.
Edward negou lentamente com a cabeça.
— Morreu algumas horas depois. Eu ainda tentava localizar Elliot quando os ataques simplesmente pararam. Não entendemos no primeiro momento. Depois Falcon apareceu.
O rosto dele endureceu.
— Trouxe três corpos. Elliot, Mary e uma criança. Meu irmão havia sido executado. Mary também. A bebê estava embrulhada na manta de Elizabeth e carregava objetos que tinham saído do hospital com ela. O rosto estava muito machucado. Eu tinha acabado de perder Bella e, poucas horas depois, estava olhando para os corpos do meu irmão, da esposa dele e da criança que eu acreditava ser minha filha.
— Falcon estava presente?
— Estava.
— O que disse?
Edward me encarou.
— “Um neto por uma neta. Um filho por outro.”
A frase permaneceu entre nós.
— E a guerra terminou — concluí.
— Naquela noite. Falcon considerou a dívida paga. Dois dias depois, enterrei Elizabeth ao lado da mãe. Portanto, quando digo que minha filha morreu, Black, não estou repetindo uma história que alguém me contou. Eu coloquei aquela criança em um caixão.
— Mas não viu o rosto dela.
A irritação voltou.
— O rosto estava destruído. A manta era de Elizabeth. Elliot e Mary estavam mortos ao lado dela. Falcon tinha acabado de me dizer que matou minha filha. O que exatamente acha que eu deveria ter concluído?
— Naquela situação, a mesma coisa que você.
Edward me observou, talvez esperando provocação. Não havia nenhuma.
— Agora conte sua parte.
Levantei-me, fui até o armário lateral e trouxe a pasta completa. Quando voltei a me sentar, coloquei-a sobre a mesa.
— Irmã Margaret não sabia quem eram os Cullen, não conhecia Falcon Denali e não fazia ideia de que uma guerra estava acontecendo. Estava no hospital naquela noite porque a sobrinha havia entrado em trabalho de parto. A sobrinha morreu. A criança também.
Edward ficou atento.
— Enquanto o hospital era invadido, Margaret encontrou um casal tentando fugir com uma recém-nascida viva. O homem estava ferido, a mulher desesperada e havia homens procurando especificamente por uma criança. Eles chegaram à área onde estava o corpo da recém-nascida que acabara de morrer e perceberam que tinham uma oportunidade.
Edward ficou imóvel.
— Elliot.
— A descrição corresponde ao seu irmão. A mulher corresponde a Mary.
Ele respirou profundamente.
— Continue.
— O homem estava sangrando e armado. Margaret disse que ele percebeu antes da mulher o que poderia ser feito. Se continuassem carregando Elizabeth, os homens que os perseguiam continuariam procurando por ela. Se fossem encontrados com uma criança morta que pudesse ser apresentada como Elizabeth Cullen, a perseguição terminaria.
Edward se levantou.
— Meu irmão trocou as crianças.
— Tudo indica que sim.
Ele caminhou alguns passos, passou a mão pelo rosto e permaneceu de costas para mim.
— Por isso o rosto...
— Provavelmente garantiram que uma identificação visual fosse impossível. Os objetos, a manta e os corpos de Elliot e Mary fizeram o restante.
Edward virou-se.
— E minha filha?
— Foi entregue a Margaret.
— Elliot entregou Elizabeth a uma desconhecida?
— A única desconhecida naquele hospital que não tinha qualquer ligação com sua família. Margaret disse que a mulher chorava enquanto entregava a criança e pediu que cuidasse dela. Eles não disseram quem eram, não disseram de onde vinham e não deram o nome do bebê. Pediram apenas que ela nunca revelasse que aquela criança estava viva.
Edward apoiou as mãos no encosto da cadeira.
— Meu irmão sabia que seria encontrado.
— É possível.
— Não é possível. — Ele me olhou com firmeza. — Elliot jamais deixaria minha filha se acreditasse que poderia tirá-la dali. Ele sabia que estavam fechando as saídas. Entendeu que a única maneira de Elizabeth sobreviver era fazer Falcon acreditar que já a havia matado.
Não discuti. A lógica era consistente com tudo que havíamos encontrado.
— Margaret levou a criança consigo. Depois a levou para Saint Agnes, próximo a Allentown.
Edward não reconheceu o nome.
— Nunca ouvi falar desse lugar.
— Era exatamente essa a intenção.
Abri a pasta e retirei as fotografias.
— Algumas coisas permaneceram com a criança.
Coloquei a primeira sobre a mesa.
Edward aproximou-se e a pegou.
— Renee.
Coloquei a segunda.
Ele perdeu parte da cor no rosto.
— Esme.
Por fim, mostrei a fotografia do medalhão.
Edward o reconheceu imediatamente.
— Era de Bella.
— Tem certeza?
— Eu dei esse medalhão à minha esposa.
Ele segurou a fotografia por alguns segundos.
— O original?
— Está seguro.
— Quero vê-lo.
— Verá.
Edward colocou a fotografia novamente sobre a mesa.
— E a criança? O que aconteceu com ela?
— Cresceu em Saint Agnes.
— Como?
— Sem saber quem era. Margaret não recebeu documentos nem um nome. Tudo o que possuía eram as fotografias e o medalhão.
— Então como a chamaram?
Chegara ao ponto em que uma informação aparentemente simples passaria a ter um significado muito diferente para Edward.
— Margaret precisou dar um nome ao bebê. No medalhão havia dois nomes.
Ele olhou para a fotografia.
— Renee e Esme.
— Ela juntou os dois.
Edward franziu a testa.
— Juntou?
— Renesmee.
O silêncio foi imediato.
Edward não olhou mais para o medalhão.
Olhou para mim.
Eu vi exatamente o momento em que reconheceu o nome.
Não porque soubesse quem Renesmee Miller era.
Mas porque sabia perfeitamente quem era Renesmee Black.
Minha esposa não era desconhecida no mundo das organizações. Nosso casamento havia reunido representantes de famílias importantes, e embora eu tivesse protegido a história pessoal dela, seu nome circulava desde o anúncio. Os Cullen sabiam que Jacob Black havia se casado. Edward sabia o nome da mulher com quem eu havia me casado.
— O que você disse?
Minha expressão não mudou.
— Renesmee.
Edward permaneceu completamente imóvel.
— Esse é o nome da sua esposa.
Não respondi imediatamente.
Não era necessário.
Ele me encarou.
— Renesmee Black.
— Sim.
A transformação foi brutal.
O choque que o acompanhara desde que começara a considerar a possibilidade de Elizabeth estar viva desapareceu sob uma raiva muito mais imediata.
— Sua esposa é a criança de Saint Agnes?
— Sim.
Edward afastou a cadeira com força.
— Você se casou com a minha filha?
— Casei-me com Renesmee.
— Não tente escolher palavras comigo agora, Black!
Ele ergueu a voz pela primeira vez.
Continuei sentado.
— Abaixe a voz.
— Você se casou com Elizabeth sabendo quem ela era!
— Quando a conheci, não sabia.
— Mas descobriu.
— Sim.
— Quando?
Não respondi.
Edward bateu a mão sobre a mesa.
— Quando descobriu?
— Antes do casamento.
Ele ficou parado.
A resposta pareceu pior do que qualquer coisa que pudesse ter imaginado.
— Antes.
— Sim.
— Você sabia que aquela jovem podia ser minha filha e mesmo assim se casou com ela.
— Sim.
— E não me procurou.
— Não.
— Não contou a ela.
— Não.
Edward soltou uma risada curta, completamente sem humor, e caminhou alguns passos antes de voltar para mim.
— Seu desgraçado.
— Já fui chamado de coisa pior.
— Não faça isso. Não transforme esta conversa em uma disputa de poder para se divertir.
— Não estou me divertindo.
— Então explique.
Levantei-me devagar.
Edward me acompanhou com os olhos.
— Explique por que Jacob Black descobre, dias antes do próprio casamento, que a mulher que está prestes a colocar dentro de sua família pode ser Elizabeth Cullen, mantém essa informação em segredo, casa-se com ela e só depois que Bree se casa com Alec Volturi decide chamar o pai dela para conversar.
A inteligência de Edward era uma das razões pelas quais eu jamais o subestimara.
Ele compreendera depressa.
— Você montou isso.
— Cuidado com a conclusão.
— Não me diga para ter cuidado! — Edward se aproximou da mesa. — Você esperou.
Não neguei.
— Você esperou o casamento dos Volturi.
— Sim.
A resposta o enfureceu ainda mais.
— Então eu estava certo.
— Sobre essa parte.
— Você transformou minha filha em uma peça.
— Não.
— Ela é a herdeira Cullen. Bree acabou de se casar com Alec acreditando que tem acesso a uma posição que não possui. Moretti se aproxima dos Volturi, as organizações menores estão escolhendo lados e, no centro de tudo, descubro que Jacob Black se casou secretamente com a verdadeira descendente da minha linha antes de me contar que ela estava viva. Quer mesmo que eu acredite que isso aconteceu por acaso?
— Eu nunca disse que foi acaso.
Edward me encarou com uma fúria que eu conhecia bem. Não era apenas a raiva de um chefe de organização percebendo uma manobra. Era a de um pai que acabara de descobrir que perdera vinte anos da vida da filha e que outro homem tivera acesso a ela primeiro.
— Você construiu um cerco em volta dela.
— Construí proteção.
— Proteção? Você a colocou dentro da mansão Black, deu seu sobrenome a ela, vinculou Elizabeth legalmente à sua família e esperou Alec cometer o erro de se casar com Bree antes de me dizer qualquer coisa. Isso não é proteção. É estratégia.
— As duas coisas não são incompatíveis.
Edward ficou em silêncio por um segundo.
— Pelo menos admite.
— Nunca tive intenção de insultar sua inteligência.
— Mas não teve qualquer dificuldade em usar minha filha.
Minha expressão endureceu.
— Escolha cuidadosamente a próxima palavra.
— Por quê? Vai me dizer que a ama?
— Vou dizer que você não sabe absolutamente nada sobre meu casamento.
— Sei que você entrou nele sabendo quem ela era enquanto ela não sabia.
Aquilo eu não podia contestar.
— Sim.
— Então você tinha uma vantagem sobre ela desde o primeiro dia.
— Também tinha inimigos procurando por ela desde antes de sabermos seus nomes.
— E isso justifica esconder de uma mulher a própria identidade?
— Justifica não colocar uma informação capaz de provocar uma guerra nas mãos de alguém que sequer sabia que organizações como as nossas existiam poucos meses atrás.
Edward balançou a cabeça.
— Não. Não tente transformar isso em altruísmo. Você descobriu que a mulher com quem pretendia se casar era minha filha, percebeu o que o sangue dela representava e decidiu manter o casamento.
— Eu já iria me casar com ela antes de saber.
— Mas poderia ter parado.
— Poderia.
— E não parou.
— Não.
— Por quê?
Sustentei seu olhar.
Havia várias respostas. Algumas Edward compreenderia. Outras eu não lhe devia.
— Porque, quando descobri, Renesmee já estava sob minha proteção. Havia homens procurando por uma mulher com a idade dela, objetos deixados com ela e registros antigos. Eu ainda não sabia se a ameaça vinha dos Cullen, dos Denali ou de alguém que trabalhava dentro de uma das duas organizações. Entregá-la a você naquele momento seria colocar a única pessoa que não sabia o que estava acontecendo exatamente no centro de uma guerra que começou antes de ela nascer.
— E casar com ela foi mantê-la fora?
— Casar com ela colocou o sobrenome Black sobre ela.
— Exatamente! — Edward apontou para mim. — Esse é o cerco. Você não apenas a protegeu. Você tornou qualquer tentativa de chegar até ela uma declaração contra você.
— Sim.
— E tornou qualquer direito dela sobre os Cullen ligado ao seu casamento.
— Legalmente, algumas consequências são inevitáveis.
— Inevitáveis? — A raiva dele tornou-se quase incrédula. — Você é Jacob Black. Não existe nada de inevitável em uma estrutura jurídica preparada por você.
Não respondi.
Ele percebeu.
— Meu Deus.
— Não envolva Deus. Nenhum de nós construiu a vida contando com a ajuda dele.
Edward me encarou com desprezo.
— Você planejou até isso.
— Planejei garantir que minha esposa estivesse protegida caso sua identidade viesse à tona.
— Sua esposa. — Ele repetiu a expressão como se agora tivesse outro significado. — Você fala isso como se o sobrenome Black tivesse apagado o que veio antes.
— Não apagou.
— Ela é uma Cullen.
— Biologicamente.
Edward deu um passo à frente.
— Ela é minha filha.
— Isso ainda precisa ser confirmado definitivamente.
— Não use a ausência de um exame de DNA como escudo depois de me mostrar tudo isso.
— Não estou usando. Estou dizendo que teremos confirmação antes de tomar qualquer decisão.
— Nós?
— Sim.
— Não existe “nós” quando se trata de eu conhecer minha filha.
— Existe enquanto alguém ainda está procurando por ela.
Edward respirou profundamente e tentou controlar a própria voz.
— Quero vê-la.
— Não.
— Você dorme ao lado da minha filha e acha que pode me dizer que eu não tenho o direito de vê-la?
Meu maxilar se contraiu.
— Não transforme meu casamento em assunto desta reunião.
— Tornou-se assunto no momento em que descobri que sua esposa é Elizabeth.
— Ela se chama Renesmee.
Edward parou.
A frase o atingiu de uma maneira diferente.
— Não — disse ele, mais baixo. — O nome que a freira escolheu para protegê-la é Renesmee. Minha filha nasceu Elizabeth.
— E a mulher que cresceu durante vinte anos, fez escolhas, construiu relações e viveu sem conhecer você atende por Renesmee. Quando chegar a hora, será ela quem decidirá o que fará com Elizabeth.
Edward ficou me olhando.
A raiva continuava ali, mas havia algo dolorosamente humano por baixo dela.
— Ela não sabe nada sobre mim.
— Não.
— Acredita que não tem família.
— Sim.
Ele desviou os olhos.
— Vinte anos.
Não respondi.
Dessa vez, o silêncio não era estratégico.
Edward passou a mão pelo rosto antes de olhar novamente para mim.
— Ela está bem?
— Está.
— É feliz?
A pergunta me surpreendeu mais do que todas as anteriores.
Pensei em Renesmee rindo com Will, discutindo com Claire, reclamando quando eu deixava documentos sobre a mesa durante o jantar. Pensei nela reclamando que havia funcionários demais na mansão, fazendo perguntas sobre pessoas que todos os outros tratavam como invisíveis e me acusando de ter transformado segurança em perseguição pessoal.
— Na maior parte do tempo.
Edward assentiu lentamente.
— Ela se parece com Bella?
Eu sabia que aquela pergunta chegaria.
— Não conheci sua esposa.
— Nas fotografias.
— Há traços.
Ele fechou os olhos por um momento.
Quando voltou a abri-los, a postura havia mudado. Não estava menos furioso. Apenas começara a pensar novamente como Edward Cullen.
— Quero o DNA.
— Terá.
— Quero todas as informações de Saint Agnes.
— O que não colocar Margaret em risco, terá.
— E quero saber quem foi procurar por ela.
— Estamos de acordo nessa parte.
Edward pegou a fotografia do medalhão outra vez.
— Se Falcon souber que ela sobreviveu...
— Descobriremos antes dele chegar perto.
— E se alguém dentro dos Cullen entregou a ilha e o hospital...
— Também descobriremos.
Ele levantou os olhos para mim.
— Não confio em você com minha filha.
— Não preciso que confie.
— Ela confia?
Essa pergunta merecia cuidado.
— Sim.
Edward apertou a mandíbula.
— E quando descobrir que você sabia?
Não respondi imediatamente.
Porque essa era a única parte daquele tabuleiro sobre a qual nem meu dinheiro, meus homens ou meus territórios me davam controle.
— Essa será uma questão entre mim e minha esposa.
Edward soltou a fotografia.
— Não. Quando ela descobrir que você sabia que era Elizabeth Cullen antes de colocá-la diante de um altar, será uma questão entre você e a filha que passou vinte anos acreditando que ninguém a quis.
Edward permaneceu de pé diante da minha mesa, ainda com a fotografia do medalhão entre os dedos. A raiva não havia desaparecido, apenas mudara de forma. Era mais silenciosa agora, menos impulsiva, mas nem por isso menos perigosa. Eu conhecia bem aquele tipo de mudança. Era o momento em que um homem deixava de reagir e começava a calcular. Preferia assim. Gritos serviam para descarregar emoção; decisões eram tomadas quando a voz baixava.
— Precisamos chegar a um acordo — eu disse.
Edward soltou a fotografia sobre a mesa.
— Você fala em acordo depois de admitir que se casou com minha filha sabendo quem ela era?
— Falo em acordo porque, goste ou não, estamos diante do mesmo problema.
— Não temos o mesmo problema.
— Temos exatamente o mesmo problema. Existe uma mulher de vinte anos que não sabe que nasceu Cullen, não sabe por que tentaram matá-la quando era um bebê e não sabe que homens voltaram a procurar rastros dela duas décadas depois. Você pode continuar me odiando pelo casamento, se isso ajudar a organizar seus pensamentos, mas nada disso muda o risco.
Edward me encarou.
— Você simplifica muito bem quando lhe convém.
— E você complica quando está furioso.
— Tenho razões.
— Tem. Não estou negando nenhuma delas.
Aquilo pareceu irritá-lo mais do que uma provocação teria irritado.
— Não tente parecer razoável agora.
— Não estou tentando parecer nada. Estou dizendo que, neste momento, expor Renesmee é uma imprudência.
Edward caminhou alguns passos até a janela e voltou.
— Preciso falar com Carlisle.
Assenti devagar.
— Isso eu esperava.
— Ele precisa saber.
— Talvez.
Edward se virou de imediato.
— Talvez?
— Depende do que Carlisle sabe e de quem tinha acesso às informações naquela época.
— Está insinuando alguma coisa sobre meu pai?
— Estou insinuando que duas localizações sigilosas vazaram. A ilha e o hospital. Até termos nomes, eu não elimino ninguém por vínculo familiar.
— Carlisle jamais entregaria Bella ou Elizabeth.
— Então a investigação provará isso.
Edward fechou o rosto.
— Você não vai decidir sozinho quem da minha família merece ser informado.
— Enquanto minha esposa estiver em risco, vou decidir quem se aproxima dela.
— Sua esposa.
A forma como disse deixou claro que ainda não aceitava a palavra.
— Sim.
— Minha filha.
— As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Edward se aproximou novamente da mesa.
— Carlisle precisa ser informado porque isso muda toda a sucessão Cullen. Muda os acordos internos. Muda Bree. Muda a relação com os Volturi.
— É exatamente por isso que não deve sair daqui anunciando nada.
— Eu não anuncio assuntos da minha família.
— Ótimo. Então estamos começando a concordar.
Edward soltou uma respiração impaciente.
— Aro vai perceber qualquer aproximação incomum entre Cullen e Black. Principalmente agora.
— Sei.
— Você acabou de passar semanas evitando qualquer gesto que pudesse ser interpretado como aliança. Se começarmos a nos encontrar, se homens Cullen entrarem e saírem de territórios Black ou se Carlisle vier até Nova York com frequência, Aro vai exigir explicações.
— Vai.
— E você fala disso como se fosse irrelevante.
— Não é irrelevante. É uma consequência.
Edward me observou por alguns segundos.
— Uma consequência que pode provocar os Volturi.
— Alec já está casado com Bree. Aro já escolheu um lado ao permitir essa união. O casamento aconteceu porque eles acreditam que Bree pode aproximá-los de direitos que não possuem. Quando descobrirem que a verdadeira herdeira está viva, a provocação existirá independentemente de qualquer reunião nossa.
— E quando descobrirem que ela se casou com você antes de sabermos que estava viva?
— A provocação será maior.
Edward soltou uma risada seca.
— Pelo menos você entende a dimensão.
— Entendo melhor do que imagina.
Ele colocou as mãos nos bolsos do paletó.
— Aro não é Alec. Alec é ambicioso. Aro é paciente. Se enxergar Renesmee como ameaça à posição que pretende construir através de Bree, não vai cometer o erro de atacar de frente.
— Eu sei como Aro trabalha.
— Sabe, mas Renesmee não.
Foi a primeira vez que Edward usou o nome sem resistência.
Eu percebi.
— Não — respondi. — Ela não sabe nada.
— Nada?
— Nada sobre os Cullen, nada sobre os Denali, nada sobre a extensão real dos Volturi e muito pouco sobre o que existe além do que ela vê da minha vida.
Edward franziu a testa.
— Você a mantém no escuro.
— Eu a mantenho fora disso.
— Não é a mesma coisa.
— Enquanto ela não precisar entrar, é.
Edward balançou a cabeça.
— E você acha que isso a protege?
— Até agora, sim.
— Também a torna uma presa fácil.
A frase me fez endurecer.
— Eu sei.
— Então não finja que não vê. Ela não saberia reconhecer um homem de Aro, não saberia identificar um nome Denali, não entenderia por que alguém se aproximou dela em um restaurante, em uma loja, em uma universidade, em qualquer lugar. Se você pretende continuar escondendo tudo, precisa aceitar que ela está vulnerável justamente por não saber.
— É por isso que ela nunca está sozinha.
Edward me lançou um olhar carregado de desprezo.
— Segurança não substitui conhecimento.
— Não. Mas conhecimento precipitado pode colocá-la em pânico, fazê-la reagir de forma imprevisível e, pior, fazê-la procurar respostas em lugares errados.
— Então quando pretende contar?
— Quando soubermos quem está procurando.
— Você fala como se pudesse controlar o tempo.
— Não posso. Posso controlar exposição.
Edward se aproximou lentamente.
— Então diga qual é seu acordo.
Entrelacei as mãos sobre a mesa.
— Você fala com Carlisle, se considerar indispensável, mas não com mais ninguém.
— Você não dita minha família.
— Não. Dito as condições de segurança da minha esposa.
Edward sustentou meu olhar.
— Continue.
— Nada de movimentar homens em Allentown. Nada de procurar Saint Agnes. Nada de mandar investigadores particulares atrás de Renesmee. Nada de contato indireto. Se você quiser confirmar qualquer coisa, fazemos juntos.
— E o DNA?
— Será feito discretamente.
— Como?
— Ainda não decidi.
— Você já pensou nisso.
— Sim.
— Então decidiu alguma coisa.
— Pensei em possibilidades. Não vou colocá-la numa sala e pedir sangue explicando que talvez o pai biológico esteja esperando do outro lado.
Edward desviou o olhar.
— Não precisa ser assim.
— Eu sei.
— E depois da confirmação?
— Depois da confirmação, avaliamos a ameaça.
— Não. Depois da confirmação, eu conheço minha filha.
— Depois da confirmação, nós decidimos como apresentá-la à verdade sem destruir a vida que ela conhece.
Edward ficou em silêncio.
— Você fala como se a vida dela fosse sua propriedade.
— Não é.
— Mas você administra tudo ao redor dela como se fosse.
— Porque alguém precisa fazer isso enquanto ela não sabe contra o que está se defendendo.
— E você quer que seja você.
— Sim.
A resposta direta o irritou, mas também encerrou aquela parte da discussão.
— Se Carlisle souber, ele vai querer vê-la.
— Não ainda.
— Não posso prometer que ele aceitará isso.
— Então não conte a ele até poder confiar que aceitará.
Edward me encarou.
— Você realmente acha que pode manter um Cullen longe da própria neta?
— Acho que qualquer homem com inteligência suficiente para sobreviver nesta vida consegue esperar alguns dias se isso mantiver a neta viva.
A frase atingiu o ponto certo.
Edward se calou.
— E Aro? — perguntou depois.
— Deixe Aro perceber o que quiser.
— Isso não é estratégia.
— É. Apenas não é uma estratégia baseada em medo da reação dele.
— Se os Volturi acreditarem que Cullen e Black estão se aproximando, vão acelerar.
— Então aceleram.
— Moretti também.
— Melhor. Homens apressados cometem erros.
Edward me observou por alguns segundos e, pela primeira vez desde que começamos, havia algo próximo de entendimento profissional em sua expressão.
— Você quer que eles se movam.
— Quero ver quem se move quando sentir ameaça.
— E está usando a existência de Renesmee como isca.
Minha voz esfriou.
— Não.
— Parece exatamente isso.
— Não vou expor Renesmee. Vou controlar a informação. Há diferença.
— Para homens como Aro, saber que existe uma herdeira já é informação suficiente.
— Ele ainda não sabe.
— Mas saberá.
— Eventualmente.
Edward se aproximou da mesa.
— E quando souber?
— Quando souber, ela estará preparada.
— Preparada por você?
— Por nós, se conseguir parar de me tratar como o único inimigo da sala.
Edward ficou em silêncio.
— Não confio em você — disse.
— Já estabelecemos isso.
— Mas acredito que quer mantê-la viva.
— Muito.
Ele percebeu a diferença na minha voz.
Não comentou.
— E se eu concordar com suas condições?
— Você recebe tudo que temos sobre Saint Agnes, sobre Margaret, sobre os homens que apareceram lá e sobre qualquer ligação com os Denali. Seus homens podem investigar a partir dos nomes que eu liberar. Sem chegar perto dela.
— E você me informa de qualquer mudança.
— Sim.
— Imediatamente.
— Se for relevante, imediatamente.
Edward quase sorriu de irritação.
— Você não consegue ceder uma frase inteira.
— Não costumo.
— Percebi.
Ele respirou fundo.
— Preciso falar com Carlisle.
— Então fale com Carlisle.
— E, se ele exigir vê-la?
— Diga que Jacob Black disse não.
Edward me encarou.
— Você está provocando meu pai.
— Não. Estou dando uma resposta simples.
Ele passou a mão pelo maxilar.
— E se ele vier mesmo assim?
— Não chegará perto dela sem que eu saiba.
— Isso foi uma ameaça?
— Informação.
Edward soltou um suspiro.
— Você é insuportável.
— Não é a primeira vez que escuto.
Antes que ele respondesse, houve uma batida na porta.
Não uma batida tímida.
Uma batida curta, precisa.
Olhei para a porta.
— Entre.
Sam apareceu.
Meu rosto fechou imediatamente.
— Pedi para não sermos interrompidos.
— Eu sei.
— Então espero que tenha um motivo muito forte para ignorar uma ordem direta.
Sam lançou um olhar breve para Edward antes de voltar para mim.
— Tenho.
Esperei.
— Sua esposa está aí fora.
Por um instante, ninguém falou.
Meu olhar ficou em Sam.
— Renesmee?
— Sim.
Edward virou o rosto devagar para mim.
Eu vi a mudança em sua expressão antes mesmo de ele dizer qualquer coisa. O nome que passara os últimos minutos discutindo deixara de ser uma hipótese, uma fotografia ou uma história de vinte anos. Ela estava do outro lado da porta.
Sam continuou:
— Disse que pode esperar se você estiver ocupado.
Olhei para Edward.
Ele estava completamente imóvel.
Toda a raiva havia cedido lugar a algo muito mais difícil de controlar.
Mantive os olhos nele por alguns segundos.
Depois voltei para Sam.
— Deixe-a entrar.
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