JACOB

Descobrir que eu deixava Renesmee nervosa me agradara mais do que deveria.

Percebi ainda na cozinha, quando me aproximei por trás dela para alcançar o copo. A reação fora imediata. Os ombros ficaram tensos, a respiração mudou e, quando ela se virou e percebeu a pouca distância entre nós, levou alguns segundos a mais do que o necessário para pedir que eu lhe entregasse o copo. Poderia atribuir aquilo ao susto se não tivesse acontecido novamente quando soltei a faixa do robe presa ao puxador. Naquele momento eu já sabia que não era apenas surpresa. Renesmee ficava consciente da minha proximidade, e a constatação despertou em mim uma satisfação silenciosa que carreguei de volta para o quarto.

Eu não tinha intenção de fazer qualquer coisa a respeito.

Essa parte precisava permanecer clara, principalmente para mim.

Havia prometido trinta dias e não quebrava acordos porque me tornavam inconvenientes. Renesmee tinha vinte anos, nenhuma experiência e estava prestes a entrar em um casamento que, para ela, representava uma mudança muito maior do que representava para mim. Eu conhecia casamento, convivência, filhos, responsabilidades e todas as complicações que vinham junto. Ela conhecia um orfanato, alguns empregos, um pequeno círculo de pessoas que considerava família e, até poucas semanas atrás, uma vida na qual homens como eu existiam apenas do lado de fora. Colocá-la dentro da minha casa já era suficiente. Não precisava acrescentar pressão física à equação.

Isso, entretanto, não significava que eu fosse indiferente.

Quando me deitei naquela madrugada, lembrei da imagem dela na cozinha mais vezes do que considerei conveniente. Cabelos soltos, robe sobre a camisola, pés pequenos dentro das pantufas e uma expressão indignada porque os copos estavam altos demais. Não havia produção, maquiagem ou qualquer tentativa de parecer atraente. Talvez justamente por isso eu tivesse reparado tanto. Era a primeira vez que a via inteiramente fora da situação em que nos conhecêramos. Não era a candidata que minha mãe selecionara, a mulher sentada diante de um contrato, a futura senhora Black sendo preparada por Rachel ou a garota que enfrentara uma escola inteira por William. Era apenas Renesmee, sonolenta, irritada e bonita na minha cozinha às três da manhã.

E eu a deixava nervosa.

Sorri antes de fechar os olhos.

Aquilo eu não me importava em saber.

Quando acordei, algumas horas depois, a casa ainda estava começando a se movimentar. Tomei banho e me vesti para o dia. Escolhi uma camisa escura, abotoei os punhos e peguei o telefone sobre a cômoda enquanto terminava de ajeitar o relógio. Havia mensagens de Paul, duas relacionadas aos negócios e outra informando que o trabalho que eu ordenara continuava em andamento. Nenhuma novidade relevante sobre o vazamento interno. Ainda tinham quatro dias para me entregar um nome e eu não pretendia lembrá-los do prazo.

Outra mensagem era de Rebecca.

Chego às dez. Não marque nada para a noiva depois desse horário. Tenho uma cerimônia para organizar e pretendo descobrir se vocês dois pretendem se casar como seres humanos normais ou assinar documentos no meio de uma reunião.

Balancei a cabeça.

Havia deixado Rebecca responsável pela cerimônia justamente porque não tinha qualquer interesse em discutir flores, convites, música, decoração ou a quantidade correta de pessoas necessárias para assistir a duas assinaturas que tornariam legal algo que já fora decidido em um escritório. Minha irmã, por outro lado, tratara minha falta de interesse como uma espécie de ofensa pessoal e informara que nenhum irmão dela se casaria como se estivesse adquirindo uma empresa.

Rachel ficara responsável por Renesmee. Roupas, necessidades pessoais, adaptação à casa e tudo aquilo que eu provavelmente esqueceria até que alguém colocasse diante de mim. O sistema funcionava. Eu cuidaria do casamento; minhas irmãs cuidariam da cerimônia e da noiva.

Guardei o telefone e desci.

Ouvi as vozes antes de entrar na sala de jantar. Minha mãe estava à mesa, Claire olhava o telefone, William parecia consideravelmente melhor do que na noite anterior e Renesmee estava sentada com uma xícara de café diante dela.

Meus olhos foram diretamente para ela.

Parecia cansada.

Interessante.

— Bom dia — cumprimentei.

Minha mãe respondeu primeiro, seguida por William. Claire murmurou o cumprimento sem abandonar completamente o telefone.

Renesmee não disse nada.

Caminhei até meu lugar e olhei novamente para ela.

— Bom dia, Nessie.

A reação foi extraordinariamente satisfatória.

Ela engasgou com o café.

Renesmee começou a tossir, colocou a xícara sobre o pires depressa e levou o guardanapo à boca. Minha mãe inclinou-se ligeiramente na direção dela.

— Está tudo bem?

— Perfeitamente.

Não estava.

William franziu a testa.

— Você está vermelha.

— O café está quente.

Claire olhou para a xícara.

— Você acabou de beber.

— Claire — minha mãe advertiu.

— Só estou falando.

Sentei-me à cabeceira tentando não demonstrar o quanto aquela situação me divertia. Na madrugada, Renesmee ficara nervosa quando me aproximei. Agora bastara chamá-la pelo apelido para que quase morresse engasgada.

Havia definitivamente alguma coisa acontecendo ali.

— Dormiu melhor depois da água? — perguntei.

Ela levou um segundo antes de responder.

— Perfeitamente.

Observei seu rosto. As olheiras discretas contrariavam a resposta.

— Está mentindo.

— Não estou.

— Está com olheiras.

A indignação foi imediata.

— Isso é extremamente indelicado de dizer a uma mulher pela manhã.

Claire finalmente afastou a atenção do telefone.

— Por que você sabe que ela foi beber água?

Vi Renesmee ficar ainda mais desconfortável.

Peguei minha xícara.

— Porque nos encontramos na cozinha durante a madrugada.

Claire ergueu lentamente as sobrancelhas. Minha mãe continuou passando manteiga na torrada com uma concentração exagerada que eu conhecia bem demais para acreditar.

— Ah — Claire disse.

Renesmee virou-se para ela.

— Eu estava com sede.

— Eu não perguntei.

— Mas pensou.

— Pensei o quê?

— Nada.

William acompanhava a conversa como se tentasse compreender por que adultos transformavam água em um assunto tão complicado.

— O que aconteceu na cozinha?

— Nada — Renesmee respondeu depressa.

Tomei um gole de café.

— Ela não conseguia alcançar um copo.

Renesmee virou-se imediatamente para mim.

— Era uma prateleira muito alta.

— Para você.

— Você tem quase dois metros. Sua opinião não conta.

Claire riu.

Minha mãe também sorriu.

William olhou para mim.

— Você pegou o copo para ela?

— Peguei.

— Então por que ela está brava?

Renesmee abriu a boca, aparentemente procurou uma resposta e desistiu.

— Eu não estou brava.

Eu sabia exatamente o que estava.

— Está nervosa.

Ela me encarou.

A reação foi diferente dessa vez. Por alguns segundos, pareceu que eu havia dito alguma coisa muito mais significativa do que aquelas duas palavras justificavam. Os olhos dela se prenderam aos meus e as faces voltaram a ganhar cor.

— Não estou.

— Está.

— Cuide da sua vida, Jacob.

Claire me olhou com uma expressão que quase me fez rir. Poucas pessoas falavam comigo daquela maneira dentro da minha própria casa e, aparentemente, minha filha ainda estava tentando decidir se Renesmee era corajosa ou simplesmente não compreendia completamente com quem iria se casar.

Minha mãe escondeu o sorriso atrás da xícara.

Apoiei a minha no pires.

— Minha futura esposa é parte considerável da minha vida.

Renesmee me encarou novamente.

Dessa vez, sustentei seu olhar.

Ela foi a primeira a desviá-lo.

Pegou o café e bebeu com uma cautela que não demonstrara alguns minutos antes. Voltei minha atenção ao prato satisfeito demais com uma situação que, racionalmente, não deveria ter qualquer importância.

Atração era simples. Eu conhecia atração, sabia lidar com ela e jamais permitira que interferisse em decisões importantes. Mas havia algo particularmente interessante em perceber o momento exato em que Renesmee começava a deixar de me enxergar apenas como o homem que colocara um contrato diante dela.

Não faria nada com aquilo.

Ainda.

O café estava praticamente terminado quando Rachel entrou na sala como se tivesse sido convidada desde o início.

— Bom dia, família.

Minha mãe olhou para o relógio.

— Você tem uma chave e perdeu completamente o hábito de avisar quando vem?

— Tenho uma chave justamente para não precisar avisar.

Rachel beijou o rosto de minha mãe, bagunçou os cabelos de William ao passar por ele e parou atrás da cadeira de Renesmee.

— E eu vim sequestrar a noiva.

Renesmee olhou para cima.

— Outra vez?

— Você ainda precisa de muitas coisas.

— Rachel, você já comprou roupas suficientes para mim sobreviver aos próximos cinco anos.

— Roupa comum. Hoje temos assuntos de casamento.

William ergueu a mão como se estivesse na escola.

— Eu não vou para a escola?

Olhei para ele.

Depois do que acontecera no dia anterior, eu não o colocaria novamente naquele prédio antes de conversar pessoalmente com a direção, revisar as imagens de segurança e decidir se continuaria estudando ali. Mason Carter seria transferido, mas isso não encerrava o problema da instituição.

— Não.

O rosto dele se iluminou.

— Posso jogar?

— Pode.

— Videogame?

— Imagino que seja a única coisa que considera jogar dentro de casa.

— Você joga comigo?

— Tenho compromissos.

A alegria diminuiu imediatamente.

— Então com quem eu vou jogar?

— Peça a um dos seguranças.

William ficou em silêncio.

— Posso mandar um segurança jogar videogame comigo?

— Não vai mandar. Vai pedir.

— E ele tem que aceitar?

— Não.

— Mas eles sempre aceitam quando eu peço.

— Então não vejo o problema.

Will abriu um sorriso enorme.

— Vou chamar o Henry. Ele é ruim.

Rachel riu.

— A pobre equipe de segurança Black finalmente encontrou sua função principal.

— Eles recebem muito bem — respondi.

Claire, que até então parecia pouco interessada na chegada da tia, levantou os olhos.

— Vocês vão ao shopping?

Rachel assentiu.

— Entre outros lugares.

— Com Renesmee?

— Sim.

Claire largou o telefone sobre a mesa.

— Posso ir?

— Não — respondi.

Ela virou o rosto para mim.

— Pai.

— Claire.

— Eu só perguntei.

— E eu respondi.

Normalmente aquilo seria suficiente para iniciar uma discussão. Vi exatamente o instante em que minha filha decidiu mudar de estratégia. Em vez de cruzar os braços, revirar os olhos ou dizer alguma coisa que garantiria mais uma semana de punição, ela respirou fundo.

— Por favor.

Olhei para ela.

— Não.

— Pai, eu vou com a tia Rachel e com a Renesmee. Não vou estar sozinha.

— Isso não altera sua punição.

— Eu sei. — Claire fez um esforço visível para manter o tom controlado. — Mas estou há dias praticamente trancada nesta casa. Não estou pedindo para ir a uma festa, não estou pedindo para encontrar minhas amigas e nem para sair sozinha. Só quero ir ao shopping com elas.

— Não.

— Eu prometo que não vou sair de perto.

— Suas promessas recentes não têm um histórico particularmente confiável.

Ela apertou os lábios.

— Eu sabia que você ia falar isso.

— Porque é verdade.

— Então nunca vou poder fazer nada porque fiz uma coisa errada?

— Não foi apenas uma coisa errada.

— Jacob — minha mãe advertiu discretamente.

Eu não precisava da intervenção dela.

Claire também percebeu e tentou novamente.

— Eu vou com Renesmee. Você vai se casar com ela porque quer que ela faça parte desta família, certo? Então deixe que ela fique comigo.

Vi Renesmee virar lentamente o rosto para Claire, provavelmente tão surpresa quanto eu com a utilização estratégica de seu nome.

— Não coloque Renesmee no meio disso.

— Eu não estou colocando. Estou dizendo que não vou sozinha.

Renesmee olhou para mim.

Eu já sabia que ela falaria antes de abrir a boca.

— Eu posso ficar de olho nela.

— Não.

— Jacob.

— Renesmee.

— Ela vai estar comigo e com Rachel.

— Não é que eu não confie em você.

Claire fez uma expressão ofendida.

— Que ótimo.

Olhei para minha filha.

— Eu não confio em você.

— Pai!

Rachel começou a rir.

— Pelo menos ele é sincero.

— Isso não ajuda, tia Rachel.

Renesmee tentou esconder um sorriso.

— Jacob, ela está pedindo para ir ao shopping. Não para atravessar a fronteira.

— Você conhece Claire há pouco mais de um dia.

— O suficiente para saber que ela não vai conseguir desaparecer de mim e de Rachel ao mesmo tempo.

Claire assentiu imediatamente.

— Exatamente.

Apontei para ela.

— Não ajude.

— Estou quieta.

— Acabou de falar.

— Agora estou quieta.

Fechei os olhos por um instante.

Rachel resolveu participar.

— Eu também estarei lá, Jacob. E podemos levar segurança. Ela não vai sair do nosso campo de visão.

— Você está ajudando Claire a negociar uma punição que eu estabeleci.

— Estou tentando impedir que sua filha desenvolva raízes no sofá.

Claire olhou para a tia com gratidão.

— Obrigada.

— Não agradeça ainda.

Renesmee inclinou-se ligeiramente na minha direção.

— Deixe que ela vá.

Olhei para ela.

Havia algo diferente na maneira como pedia. Não era desafio. Tampouco parecia querer interferir na maneira como eu educava minha filha. Renesmee simplesmente acreditava que aquilo poderia fazer bem a Claire.

— Você ficará responsável por ela.

— Fico.

— Rachel também.

— Naturalmente — minha irmã respondeu.

Voltei a olhar para Claire.

— Não se afaste delas. Não encontre ninguém sem autorização, não desapareça dentro de nenhuma loja e não tente convencer segurança algum de que recebeu minha permissão para fazer qualquer coisa que eu não tenha autorizado.

Claire abriu um sorriso.

— Então eu posso ir?

— Pode.

Ela se levantou tão depressa que a cadeira quase bateu na parede.

— Vou pegar minha bolsa.

— Claire.

Ela parou.

— O quê?

— Não me faça me arrepender.

— Não vou.

Minha filha praticamente correu para fora da sala.

Acompanhei-a com os olhos até desaparecer pelo corredor.

Quando voltei a atenção para a mesa, Renesmee estava olhando para mim com um pequeno sorriso.

Tímido.

O mesmo tipo de sorriso que eu começava a identificar como particularmente perigoso para minha capacidade de manter aquele casamento dentro das linhas simples que originalmente traçara.

— Minha esposa deveria me ajudar com Claire — falei. — Não estragá-la ainda mais.

O sorriso dela aumentou.

— Talvez sua esposa pretenda abordar o problema de uma maneira diferente.

— Você ainda nem é oficialmente minha esposa e já decidiu contrariar minhas decisões.

— Eu não contrariei. Negociei.

Rachel soltou uma risada.

— Ah, isso vai ser maravilhoso.

Olhei para minha irmã.

— Não incentive.

— Jacob, passei anos esperando alguém entrar nesta casa e explicar que nem toda discordância é uma declaração de guerra.

— Ninguém pediu sua análise.

Rachel apoiou as duas mãos nos ombros de Renesmee.

— Está vendo? Essa é a maneira delicada que meu irmão encontrou de dizer que sabe que estou certa.

Renesmee riu.

— Estou começando a aprender o idioma.

— Péssima influência — murmurei.

Rachel ignorou.

— Vamos, noiva. Temos muito trabalho.

Renesmee levantou-se, mas antes de acompanhá-la olhou novamente para mim.

— Eu devolvo Claire inteira.

— Essa é a expectativa mínima.

— E talvez um pouco menos revoltada.

— Não seja ambiciosa.

Ela sorriu e começou a sair.

Meus olhos a acompanharam por tempo demais.

Rachel percebeu.

Minha irmã parou junto à porta e olhou primeiro para Renesmee, que já seguia pelo corredor, depois para mim. Um sorriso lentamente surgiu em seu rosto.

— Nem pense em dizer o que está pensando.

— Eu não disse nada.

— Continue assim.

— Com prazer, irmãozinho.

Ela saiu antes que eu pudesse responder.

Peguei novamente minha xícara, embora o café já estivesse frio.

Minha mãe continuava sentada à mesa.

Quando olhei para ela, encontrei aquela expressão tranquila que conhecia desde criança. A expressão de uma mulher que percebera alguma coisa e estava deliberadamente escolhendo não comentar.

— Nem você — avisei.

Sarah sorriu.

— Eu não disse absolutamente nada.

— Pretendo manter dessa forma.

— Naturalmente.

Ela voltou à própria xícara.

Eu conhecia minha mãe o suficiente para saber que aquele silêncio era muito pior do que qualquer comentário.


Rebecca chegou pouco depois das dez, exatamente como havia anunciado na mensagem, trazendo consigo uma pasta grossa, um tablet e a expressão de quem já havia decidido organizar um casamento muito maior do que eu estava disposto a tolerar. Eu a recebi no escritório depois de resolver duas ligações que não poderiam esperar e, antes mesmo que pudesse oferecer café, minha irmã espalhou sobre a mesa algumas fotografias de propriedades, fornecedores, arranjos e uma lista que, pelo volume de páginas, parecia conter metade da população de Nova York.

— Antes que você comece — falei, fechando a pasta que ela acabara de abrir —, cem pessoas.

Rebecca levantou os olhos lentamente.

— O quê?

— Cem convidados.

— Estou perguntando o que isso significa porque me recuso a acreditar que você esteja falando do seu casamento.

— Significa exatamente o que parece significar. Quero apenas as pessoas mais próximas. Família, alguns amigos e aqueles cuja presença seja realmente necessária. Cem pessoas são suficientes.

Ela me encarou por alguns segundos, provavelmente esperando que eu corrigisse o número.

Não corrigi.

— Jacob, você é Jacob Black.

— Tenho consciência disso.

— Então deveria ter consciência de que cem pessoas não são suficientes nem para começar a lista.

— São suficientes para terminá-la.

Rebecca largou a caneta sobre a mesa.

— Eu passei a manhã inteira organizando isso. Temos parentes, famílias próximas aos Black há décadas, pessoas com quem fazemos negócios, representantes de...

— Não.

— Você nem sabe o que eu ia dizer.

— Se exige mais de cem pessoas, minha resposta continuará sendo não.

Minha irmã fechou os olhos por alguns segundos.

— Às vezes eu entendo perfeitamente por que Rachel prefere simplesmente fazer as coisas sem consultar você.

— E eu entendo por que deixei você responsável pela cerimônia em vez dela.

— Porque eu sou mais organizada.

— Porque você sabe ouvir não.

Rebecca soltou uma risada sem qualquer humor.

— Evidentemente você não conhece sua própria irmã.

Levantei-me e caminhei até o pequeno aparador, servindo café enquanto ela voltava a examinar as listas. Eu conhecia Rebecca o suficiente para saber que ainda estava fazendo cálculos mentais sobre como transformar cem convidados em cento e cinquenta sem que eu percebesse.

— Cem — repeti.

— Cento e vinte.

— Cem.

— Cento e dez.

Olhei para ela.

Rebecca cruzou os braços.

— Você negocia empresas inteiras todos os dias, mas não consegue negociar dez convidados com a própria irmã?

— Posso. Minha oferta agora é noventa.

— Você é insuportável.

— Cem parece uma boa proposta novamente?

— Parece.

Servi outra xícara e coloquei diante dela.

— Ótimo.

Rebecca aceitou o café, mas não abandonou o assunto.

— Renesmee sabe que o casamento será pequeno?

— Ainda não conversei com ela sobre o número de convidados.

— Talvez devesse.

— Pode perguntar o que ela deseja. Se houver alguém que queira convidar, inclua.

Rebecca me observou com mais atenção.

— Você sabe que ela provavelmente terá pouquíssimas pessoas.

Eu sabia.

A informação me incomodou mais do que deveria. Renesmee tinha Emma e as crianças, algumas pessoas ligadas ao orfanato e pouco mais. Não existiria um pai conduzindo-a até mim, uma mãe discutindo o vestido ou irmãos ocupando uma fileira inteira. Do meu lado, mesmo restringindo a lista, haveria uma família que se multiplicava rapidamente quando reunida.

— Então garanta que as pessoas que importam para ela estejam presentes.

Rebecca assentiu.

— Vou conversar com ela.

— Sem transformar isso em um interrogatório.

— Eu sei conversar com pessoas, Jacob.

— Minhas irmãs possuem uma tendência preocupante a esquecer limites quando ficam curiosas.

— E nosso irmão possui uma tendência preocupante a estabelecer limites para tudo.

— Tem funcionado até agora.

Rebecca voltou ao tablet e deslizou algumas páginas.

— Cerimônia aqui?

— Sim.

Ela levantou os olhos.

— Na mansão?

— É o lugar mais seguro.

— Também é sua casa. Não acha que ela merece pelo menos escolher onde vai se casar?

— Se Renesmee disser que não quer aqui, podemos discutir outra propriedade. Mas qualquer lugar escolhido precisa ser controlável.

Rebecca apoiou o tablet sobre a mesa.

— Você está planejando um casamento ou uma operação militar?

— No meu caso, a diferença nem sempre é grande.

Ela ficou séria.

Era exatamente por isso que não pretendia ceder quanto ao número.

— Rebecca, você sabe melhor do que quase qualquer pessoa o que significa carregar meu sobrenome. Sabe quantas pessoas gostariam de chegar até mim e quantas delas escolheriam alguém da minha família se não conseguissem. Renesmee ainda não tem dimensão disso. No momento em que se tornar minha esposa, a situação muda. Publicamente, ela deixa de ser Renesmee Miller e passa a ser a senhora Black. Não vou apresentar minha mulher ao mundo colocando centenas de desconhecidos ao redor dela apenas porque alguém considera isso adequado para uma cerimônia.

— As pessoas da lista não são desconhecidas.

— Para você e para mim, talvez. Para ela são.

Rebecca ficou alguns segundos em silêncio.

— Cem pessoas.

— Cem.

— Segurança em todas as entradas.

— Naturalmente.

— Lista nominal. Ninguém entra como acompanhante sem aprovação prévia.

— Paul cuidará disso.

— Funcionários e fornecedores verificados.

— Também.

Ela respirou fundo.

— Você realmente sabe como tirar qualquer romantismo de um casamento.

— Por isso deixei o romantismo sob sua responsabilidade.

Rebecca sorriu de lado.

— Pelo menos admite que precisa de mim.

— Não exagere.

Ela começou a reunir os papéis, mas parou no meio do movimento. Quando tornou a olhar para mim, havia perdido completamente a irritação de alguns minutos antes.

— Jacob, posso perguntar uma coisa?

— Acabou de perguntar.

— Não comece.

Fiz um gesto para que continuasse.

— Você não vai contar a ela?

Eu sabia exatamente a que Rebecca se referia.

Mesmo assim, perguntei:

— Contar o quê?

— Quem você realmente é.

Não respondi imediatamente.

Rebecca recostou-se na cadeira.

— Renesmee sabe que você é poderoso, sabe que tem empresas, segurança, homens que obedecem às suas ordens e provavelmente já percebeu que sua influência vai muito além de um empresário comum. Mas isso é diferente de saber tudo. Até agora, ela conhece o Jacob desta mansão. O pai de William e Claire. O homem que aparece no café da manhã, discute com a filha, manda um segurança jogar videogame com o filho e fica implicando com ela porque não alcança um copo.

— Eu não estava implicando.

Rebecca ergueu uma sobrancelha.

— Rachel me contou.

— Rachel fala demais.

— Isso é hereditário entre nós. — Ela fez uma pequena pausa antes de recuperar a seriedade. — Ela conhece essa parte de você, Jacob. Não conhece o Don.

Apoiei as costas na cadeira.

— Conhece o suficiente.

— Não, não conhece.

— Sabe que minha vida não é convencional.

— Isso pode significar muitas coisas.

— O contrato estabelece riscos e proteção.

— Um contrato não explica o que significa ser sua esposa.

Eu sabia disso.

Também sabia que Rebecca não estava fazendo aquela pergunta para me provocar. Minha irmã crescera dentro daquela estrutura. Conhecia os homens que entravam e saíam daquela casa, sabia o que nosso nome significava em determinados lugares e entendia perfeitamente por que havia carros blindados, equipes de segurança e homens armados acompanhando meus filhos.

Renesmee conhecia apenas partes.

Coleman havia lhe mostrado uma delas. A escola de William, outra. Ela já vira que eu conseguia movimentar pessoas, empresas e recursos com uma ligação. Ainda não sabia de onde vinha toda aquela autoridade.

— Eu vou contar — respondi.

— Quando?

— Quando ela estiver pronta.

Rebecca permaneceu me observando.

— E quem decide quando ela está pronta?

— Eu.

— Naturalmente.

— Você perguntou.

— E você respondeu exatamente como imaginei.

— Então poupamos tempo.

Ela não sorriu.

— Só tenha cuidado para não confundir protegê-la com decidir o que ela tem direito de saber.

Meu olhar encontrou o dela.

Rebecca não recuou.

Talvez fosse uma das poucas pessoas que podia dizer aquilo dentro do meu escritório sem medir a distância até a porta.

— Eu sei a diferença.

— Espero que saiba.

O silêncio permaneceu entre nós por alguns segundos antes que ela soltasse o ar e pegasse novamente a caneta.

— Certo. Cem pessoas. Cerimônia provavelmente aqui, dependendo do que Renesmee quiser. Vou providenciar tudo e falar com ela sobre vestido, flores e convidados antes que você resolva escolher tudo em preto.

— Não escolheria tudo em preto.

— Cinza?

— Rebecca.

Ela sorriu.

— Estou indo.

Antes que pudesse se levantar, bateram à porta.

— Entre.

Paul apareceu.

Bastou olhar para o rosto dele para saber que não vinha tratar de casamento.

— Don.

Rebecca imediatamente parou de mexer nos papéis.

— O que foi?

Paul fechou a porta atrás de si.

— Não vou precisar dos quatro dias.

Minha atenção se concentrou inteiramente nele.

— Encontraram alguma coisa?

— Uma pessoa.

A expressão de Rebecca também mudou. Ela conhecia Paul há tempo suficiente para entender o peso daquela resposta.

Levantei-me.

— Onde está?

— Foi levado para o interrogatório.

— Quem?

Paul olhou brevemente para Rebecca.

Não respondeu.

Não precisava.

Se ele não queria dizer o nome diante dela, eu não insistiria ali.

Peguei o paletó que havia deixado sobre a cadeira e olhei para minha irmã.

— Cuide do que pedi.

Rebecca franziu a testa.

— Jacob...

— Cem pessoas.

— Eu ouvi na primeira vez.

— Tenho minhas dúvidas.

Passei por ela, mas Rebecca segurou meu braço por um instante.

— Tome cuidado.

Olhei para sua mão e depois para seu rosto.

— Sempre.

Ela soltou meu braço.

Saí do escritório com Paul e esperei até estarmos suficientemente longe antes de voltar a falar.

— O carro está pronto?

— Está esperando.

Seguimos pelo corredor em direção à entrada. Dois dos meus homens se movimentaram assim que me viram, mas fiz um gesto para que permanecessem onde estavam. Paul já teria providenciado quem precisava nos acompanhar.

Enquanto descíamos os degraus da entrada, tirei o telefone do bolso e coloquei no silencioso.

Quatro dias.

Eu havia dado quatro dias para encontrarem o homem que estava entregando informações suficientes para permitir que três cargas minhas fossem interceptadas.

Paul precisara de menos de vinte e quatro horas.

Entrei no carro e esperei que ele ocupasse o lugar ao meu lado. A porta se fechou, isolando-nos do restante da propriedade.

Só então virei o rosto para ele.

— Agora me diga quem encontraram.