A esposa do Don

23 Vestido de noiva


RENESMEE


Se alguém tivesse me dito algumas semanas antes que eu passaria uma manhã em uma das lojas mais caras de Manhattan escolhendo um vestido para me casar com um homem que conhecia havia pouco tempo, enquanto ajudava a vigiar a filha adolescente dele para impedir que ela fugisse, eu provavelmente teria perguntado em que momento minha vida havia se transformado em uma história absurda. Ainda assim, ali estava eu, cercada por vestidos brancos que custavam mais do que provavelmente ganhara em anos trabalhando no Riverside, enquanto Rachel discutia com uma consultora sobre tecidos e Claire caminhava alguns passos atrás de nós com uma bolsa pequena no ombro e uma expressão surpreendentemente comportada.

Desde que saímos da mansão, eu esperava algum problema. Jacob deixara bastante claro que não confiava na própria filha, e a maneira como repetira as regras antes de Claire sair quase me fizera sentir que estávamos transportando uma fugitiva internacional em vez de levando uma garota de quatorze anos ao shopping. Dois homens da segurança nos acompanhavam a uma distância razoável, além do motorista que permanecera com o carro, e Rachel garantira ao irmão que Claire não sairia do nosso campo de visão. Até aquele momento, entretanto, ela não dera qualquer motivo para preocupação. Entrara nas lojas conosco, reclamara apenas duas vezes — um número que Rachel classificou como praticamente milagroso — e não tentara encontrar amigas ou desaparecer pelos corredores.

— Você está me olhando de novo — Claire comentou quando percebeu que eu a observava pelo espelho.

Eu estava diante de um vestido que a consultora acabara de colocar contra meu corpo para termos uma ideia do modelo.

— Estou admirando seu comportamento exemplar.

— Parece mais vigilância.

— As duas coisas podem coexistir.

Claire estreitou os olhos.

— Meu pai pediu para você ficar me espionando?

— Seu pai nem precisou pedir. Você fez um discurso de campanha no café da manhã para conseguir sair de casa e eu coloquei minha reputação em jogo.

Rachel riu do outro lado da sala.

— Sua reputação ainda não vale muito com Jacob. Você chegou há pouco tempo.

— Obrigada pelo apoio.

— Disponha.

Claire tentou esconder um sorriso enquanto mexia em uma arara próxima. Eu já começava a perceber pequenas mudanças nela desde a manhã anterior. Não significava que Claire tivesse decidido gostar de mim. Estávamos muito longe disso. Mas ela já não me olhava como se minha simples presença fosse uma invasão intolerável. Talvez descobrir que eu não pretendia disputar o lugar de sua mãe tivesse ajudado. Talvez ter conseguido convencê-la a sair de casa naquela manhã também tivesse rendido alguns pontos.

A consultora mostrou outro vestido e Rachel imediatamente fez uma expressão de aprovação.

— Esse.

Olhei para ela.

— Você disse “esse” para os últimos quatro.

— Porque você ainda não experimentou nenhum.

— Eu experimentei três.

— E rejeitou todos antes de olhar direito.

— Um deles tinha tantas pedras que eu parecia um lustre.

Claire soltou uma risada.

— Ela tem razão.

Rachel olhou para a sobrinha.

— Ninguém pediu sua opinião.

— Então por que me trouxeram?

— Você implorou para vir.

— Verdade.

Balancei a cabeça, divertindo-me apesar de tudo, e aceitei mais um vestido das mãos da consultora. A experiência ainda parecia estranha. Eu nunca havia imaginado meu casamento. Quando menina, no orfanato, algumas garotas falavam sobre vestidos, cerimônias e homens que um dia apareceriam para buscá-las. Eu normalmente estava mais preocupada em descobrir se haveria sobremesa depois do jantar. Mesmo adulta, casamento nunca ocupara espaço suficiente nos meus planos para que eu soubesse dizer se preferia renda ou seda, véu longo ou curto, mangas ou ombros descobertos.

Agora precisava decidir tudo em quinze dias.

E o noivo era Jacob Black.

Meu cérebro, aparentemente comprometido com a missão de me constranger, escolheu aquele momento para lembrar do sonho.

Jacob sentado na beirada da minha cama.

A mão em meu rosto.

A boca...

— Nessie?

Pisquei.

Rachel estava olhando para mim.

— O quê?

— Onde você foi?

— Lugar nenhum.

Claire inclinou a cabeça.

— Você ficou vermelha.

— Está quente aqui.

— Está com ar-condicionado.

Olhei para ela.

— Você está começando a falar demais.

Claire sorriu.

— Conviver com meu pai faz isso com as pessoas.

— Posso confirmar — Rachel disse.

Aproveitei o vestido que segurava para esconder parte do rosto e fui em direção ao provador antes que qualquer uma das duas resolvesse investigar minha mudança de temperatura.

Experimentamos tantos vestidos durante a hora seguinte que perdi a conta. Alguns eram bonitos, mas não pareciam meus. Outros eram sofisticados demais, volumosos demais ou simplesmente me faziam sentir fantasiada. Rachel insistia para que eu não olhasse preços, porque, segundo ela, aquilo seria problema de Jacob. Quando cometi o erro de verificar discretamente uma etiqueta e quase engasguei, ela arrancou o papel da minha mão e avisou à consultora que nenhum preço deveria permanecer visível.

— Isso é absurdo — reclamei.

— Você vai se casar com Jacob Black.

— Essa frase parece ser a justificativa oficial para todos os absurdos desta família.

— Vai se acostumar.

Claire estava sentada em um pequeno sofá quando o telefone dela vibrou. Vi seus olhos descerem imediatamente para a tela.

Rachel também viu.

— Quem é?

— Ninguém.

— Claire.

— Uma amiga.

— Qual amiga?

Ela suspirou.

— Posso ir ao banheiro sem preencher um formulário?

Rachel olhou para mim.

— Eu vou com ela.

Claire arregalou os olhos.

— Tia Rachel!

— Você prometeu não sair de perto.

— Eu não preciso de acompanhante para fazer xixi.

— Considere uma consequência de ter fugido para uma festa.

Claire murmurou alguma coisa enquanto se levantava.

— Eu ouvi — Rachel avisou.

— Era para ouvir.

As duas saíram discutindo em voz baixa, e eu fiquei sozinha com a consultora por alguns minutos. Ela precisou atender outra cliente e me deixou diante de uma nova fileira de vestidos.

Passei os dedos por alguns tecidos até parar diante de um modelo que chamou minha atenção justamente por não ser exagerado. Era elegante, com linhas mais limpas e detalhes delicados. Afastei-o um pouco da arara para observá-lo melhor.

— Esse é bonito.

A voz feminina surgiu ao meu lado.

Virei o rosto.

A mulher que havia se aproximado era alta, loira e extremamente bonita. Usava roupas elegantes, discretas e caras o suficiente para que até eu, que entendia pouco daquele universo, percebesse. Óculos escuros grandes escondiam parte do rosto, apesar de estarmos dentro da loja, e os cabelos loiros caíam perfeitamente sobre os ombros.

Olhei novamente para o vestido.

— Também achei.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Simples.

— Isso é ruim?

— Pelo contrário. — A mulher tocou delicadamente a manga de outro vestido. — Algumas mulheres escolhem algo tão grandioso que acabam desaparecendo dentro do próprio vestido.

Sorri.

— Esse é exatamente o meu medo.

— Então talvez tenha encontrado o seu.

Olhei novamente para o modelo.

— Ainda não sei.

— Vai se casar em breve?

— Daqui a quinze dias.

A mulher virou o rosto na minha direção.

Mesmo com os óculos, tive a impressão de que me observava com muito mais atenção.

— Quinze dias?

— É.

— Pouco tempo.

— Muito pouco.

Ela soltou uma risada discreta.

— E está nervosa?

A pergunta fez minha mente produzir uma lembrança completamente inconveniente de Jacob dizendo exatamente aquela palavra no café da manhã.

— Um pouco.

— Normal. Casamentos deixam qualquer mulher nervosa.

— Você é casada?

Houve uma pausa.

Pequena, mas suficiente para que eu percebesse.

— Já fui.

— Sinto muito.

A boca dela se curvou num sorriso estranho.

— Não sinta.

Não soube o que responder.

Ela voltou a olhar para o vestido em minhas mãos.

— Às vezes pensamos que conhecemos o homem com quem estamos nos casando porque conhecemos a versão dele que decidiu nos mostrar.

Meu sorriso diminuiu.

A mulher continuou com uma naturalidade que tornou a frase ainda mais estranha.

— Depois descobrimos que casamento não é conhecer alguém. É descobrir quantas coisas aquela pessoa conseguiu esconder antes de colocar uma aliança no seu dedo.

Fiquei olhando para ela.

— Isso foi... específico.

Ela sorriu.

— Experiência.

— Seu casamento terminou mal?

— Pode-se dizer que sim.

Passei os dedos pelo tecido do vestido.

— Acho que qualquer casamento pode terminar mal.

— Pode. Alguns começam mal e levamos tempo demais para perceber.

Havia algo naquela conversa que começava a me incomodar. Não exatamente medo. Era a sensação de que aquela mulher não estava fazendo comentários aleatórios para uma desconhecida.

— Você costuma assustar noivas em lojas de vestidos? — perguntei.

Ela riu.

— Só as que parecem estar pensando demais.

— Eu tenho feito bastante isso ultimamente.

— Então um conselho gratuito não fará mal.

— Depende do conselho.

A mulher inclinou discretamente o rosto.

— Antes de dizer sim, tenha certeza de que sabe exatamente para quem está dizendo.

Fiquei em silêncio.

Ela tocou novamente o vestido.

— Porque, algumas vezes, o homem com quem acreditamos estar nos casando e o homem com quem realmente nos casamos são duas pessoas completamente diferentes.

Meu desconforto aumentou.

— Você conhece meu noivo?

A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar.

Ela ficou imóvel por um segundo.

Então sorriu.

— Por que eu conheceria?

— Não sei. Você parece ter opiniões bastante específicas sobre ele sem sequer saber quem é.

— Eu estava falando sobre casamento.

— Pareceu estar falando sobre o meu.

A mulher me observou em silêncio.

Eu desejaria poder enxergar seus olhos atrás daqueles óculos.

Antes que qualquer uma de nós dissesse outra coisa, ouvi a voz de Claire.

— Eu não fugi!

Virei o rosto.

Rachel voltava acompanhada dela.

— Você andou quase cinquenta metros sem me avisar.

— Eu fui comprar água.

— O banheiro não vende água.

— Eu mudei de ideia no caminho.

— Exatamente por isso seu pai não confia em você.

— Eu voltei!

Quando olhei novamente para a mulher loira, ela já havia dado alguns passos para trás.

— Boa sorte com o vestido — disse.

— Obrigada.

Ela sorriu mais uma vez.

— E com o casamento.

Dessa vez não respondi.

A mulher se afastou entre as araras e seguiu em direção à saída da loja.

Rachel chegou ao meu lado.

— Quem era?

Continuei olhando na direção em que ela desaparecera.

— Não sei.

— Você estava conversando com ela.

— Ela começou a falar sobre o vestido.

Claire pegou uma garrafa de água da bolsa recém-adquirida e abriu.

— Ela conhecia você?

— Não.

Rachel olhou na direção da saída.

— Estranho.

— Foi exatamente o que pensei.

— O que ela queria?

Olhei para o vestido que ainda segurava.

— Dar conselhos sobre casamento, aparentemente.

Claire tomou um gole de água.

— Uma desconhecida?

— Segundo ela, experiência.

Rachel fez uma careta.

— Ignore. Mulher divorciada em loja de vestido de noiva é praticamente uma ameaça à felicidade pública.

Eu ri, mas minha atenção voltou involuntariamente para a entrada.

A mulher já havia desaparecido.

— E você? — perguntei a Claire. — Não deveria estar no banheiro?

Ela apontou para a garrafa.

— Eu queria água.

— Você disse que ia ao banheiro.

— Depois quis água.

Rachel cruzou os braços.

— Está vendo com o que estamos lidando?

— Eu voltei — Claire insistiu.

— Porque eu fui atrás.

— Detalhes.

Balancei a cabeça e finalmente voltei minha atenção para o vestido.

— Acho que quero experimentar esse.

Rachel imediatamente esqueceu Claire.

— Finalmente!

Ela pegou o vestido das minhas mãos antes que eu mudasse de ideia e chamou a consultora. Claire veio atrás de nós, ainda defendendo que não havia quebrado nenhuma promessa porque tecnicamente nunca saíra do shopping.

Entrei no provador sorrindo com a discussão das duas.

Mas, enquanto a consultora fechava a cortina e começava a preparar o vestido, lembrei novamente da voz da desconhecida.

Tenha certeza de que sabe exatamente para quem está dizendo sim.

Olhei meu reflexo no espelho.

Eu conhecia Jacob.

Ou pelo menos começava a conhecê-lo.

O pai que ficara ao lado de Will na enfermaria. O homem que enfrentava Claire no café da manhã. O filho que tolerava as provocações de Sarah. O irmão que aparentemente entregara seu casamento às irmãs porque não queria discutir flores. O homem que me ajudara a alcançar um copo às três da madrugada e percebera imediatamente que sua proximidade me deixava nervosa.

Mas a pergunta daquela mulher permanecera comigo por um motivo que eu não conseguia explicar.

Quanto de Jacob Black eu realmente conhecia?


Quando finalmente saímos do shopping, eu estava cansada de uma maneira que jamais imaginei que escolher um vestido pudesse provocar. Rachel tinha razão sobre uma coisa: experimentar roupas era um trabalho. Especialmente quando cada vestido exigia ajuda para entrar, ajustes provisórios, comentários da consultora, opiniões de Rachel e observações de Claire, que depois de algum tempo abandonara qualquer tentativa de parecer indiferente e começara a participar de verdade. O vestido que chamara minha atenção depois da conversa com a mulher loira acabara entre os finalistas, embora Rachel tivesse insistido que eu experimentasse outros antes de tomar uma decisão. Pela primeira vez desde que soubera que me casaria em quinze dias, consegui olhar para meu reflexo vestida de noiva sem pensar imediatamente no contrato. Por alguns segundos, enxerguei apenas uma mulher prestes a se casar. O problema foi que, quando tentei imaginar o homem que estaria esperando por mim no fim daquela cerimônia, a frase da desconhecida voltou à minha cabeça.

Antes que pudéssemos continuar para as outras lojas que Rachel havia colocado em nossa programação, o telefone dela tocou. Era Rebecca. Não ouvi toda a conversa, mas bastaram alguns minutos para Rachel começar a responder com frases como “Jacob realmente disse cem?” e “não, você não pode convidar cento e cinquenta e fingir que errou a conta”. Quando desligou, informou que os planos haviam mudado. Rebecca precisava dela para resolver algumas questões relacionadas à cerimônia, e aparentemente as duas tinham opiniões bastante diferentes sobre o que era possível organizar em quinze dias. Rachel me perguntou se eu me importava de voltar para a mansão com Claire, e respondi que não. Depois de passar a manhã inteira ajudando a vigiar a adolescente, eu já começava a achar que Jacob exagerara um pouco nas advertências.

Claire cumprira sua promessa.

Quase.

A pequena tentativa de transformar uma ida ao banheiro em uma expedição para comprar água tinha sido a única ocorrência, e eu estava disposta a considerar aquilo uma vitória. No carro, ela passou boa parte do caminho mexendo no telefone, algumas vezes olhando para mim como se quisesse perguntar alguma coisa sobre o vestido e desistisse antes de abrir a boca. Não forcei conversa. Se havia aprendido alguma coisa nas poucas horas que passara com ela, era que Claire se aproximava quando não percebia que alguém estava tentando fazê-la se aproximar.

Quando o carro atravessou os portões da propriedade Black, eu estava distraída olhando algumas fotografias que Rachel havia enviado dos vestidos. Claire, porém, mudou de comportamento quase imediatamente.

Percebi primeiro porque ela parou de mexer no telefone.

Depois porque se endireitou no banco.

— O que foi? — perguntei.

— Nada.

Olhei para ela e depois acompanhei seu olhar através da janela. Havia um veículo estacionado próximo à entrada principal que eu não reconhecia. Não era um dos carros que vira normalmente na propriedade e, pela reação de Claire, certamente não pertencia a um estranho.

— Você conhece esse carro?

Ela bloqueou o telefone e o colocou na bolsa.

— Conheço.

— De quem é?

— De alguém da família.

A resposta veio curta demais.

O motorista parou diante da entrada e um dos seguranças abriu nossa porta. Claire saiu antes de mim.

— Eu vou para o meu quarto.

Peguei minha bolsa e desci atrás dela.

— Claire.

Ela continuou andando.

— Claire, espere.

Ela finalmente parou e olhou por cima do ombro.

— O quê?

A irritação havia surgido tão rapidamente que me pegou de surpresa.

— Você está bem?

— Estou.

— Não parece.

— Você me conhece há dois dias. Não sabe como eu pareço quando estou bem.

A grosseria me fez ficar em silêncio por um instante.

— Certo. Só perguntei porque você ficou estranha quando viu o carro.

— Eu não fiquei estranha.

— Ficou.

— Não preciso que você fique analisando tudo que eu faço.

Respirei fundo. Algumas horas no shopping não haviam apagado o fato de que Claire era uma adolescente irritada com o mundo e, principalmente, comigo.

— Não estou analisando você.

— Então pare de agir como se fosse minha mãe.

A frase veio mais dura.

Não respondi imediatamente.

Claire pareceu perceber, por uma fração de segundo, que passara do ponto, mas não pediu desculpas.

— Eu vou para o meu quarto.

— Está bem.

Ela virou-se e entrou na mansão antes de mim.

Fiquei alguns segundos parada junto ao carro. Não queria transformar aquilo em uma discussão, principalmente depois da manhã relativamente boa que tivéramos. Peguei as sacolas que um funcionário não havia alcançado a tempo de retirar das minhas mãos e entrei.

Assim que atravessei o hall, ouvi uma voz masculina.

— Oi, prima.

Claire parou.

Olhei por cima do ombro dela.

Havia um rapaz na sala.

Ele estava sentado em um dos sofás, mas levantou-se assim que nos viu. Parecia ter pouco mais de vinte anos, talvez vinte e poucos, era alto e tinha cabelos escuros. Havia características nele que começavam a me parecer familiares depois de conviver com os Black: os olhos atentos, a postura segura e aquela maneira de ocupar um ambiente como se tivesse crescido sabendo que pertencia a qualquer lugar onde entrasse.

Claire não respondeu.

Nem sequer olhou direito para ele.

Simplesmente apertou a bolsa contra o corpo e começou a caminhar em direção às escadas.

O rapaz acompanhou-a com os olhos.

— Também senti sua falta.

Claire continuou andando.

— Claire — chamei.

Ela acelerou os passos.

— Eu disse que vou para o meu quarto.

Subiu as escadas quase correndo.

Fiquei olhando até ela desaparecer no andar superior.

Alguma coisa estava definitivamente errada.

— Não se preocupe.

Virei-me.

O rapaz sorria.

— Ela faz isso.

— Isso o quê?

— Age como se metade da família tivesse deixado de existir.

Não gostei da maneira casual como ele falou, principalmente depois de ver a reação de Claire.

— Talvez ela tenha algum motivo.

O sorriso dele aumentou ligeiramente.

— Você deve ser Renesmee.

A forma como disse meu nome me deixou desconfortável. Não porque houvesse algo explicitamente inadequado, mas porque seus olhos passaram por mim de uma maneira lenta demais antes de retornarem ao meu rosto.

— Sou.

Ele se aproximou.

— Imaginei. Meu tio não costuma trazer mulheres para morar aqui.

Não soube se aquilo era uma informação ou uma provocação.

— E você é?

Ele estendeu a mão.

— Simon Black.

Aceitei o cumprimento.

— Muito prazer.

— Filho de Rebecca e Solomon.

Aquilo me ajudou a encaixá-lo na árvore genealógica que eu ainda tentava compreender.

— Então você é sobrinho de Jacob.

— Infelizmente.

Franzi a testa.

Simon riu.

— Estou brincando. Na maior parte do tempo.

Soltei sua mão.

Ele continuou me olhando.

Havia algo naquela atenção que não me agradava. Não era apenas curiosidade por conhecer a mulher com quem o tio se casaria. Eu já havia sido observada por praticamente toda aquela família desde que entrara na mansão e sabia reconhecer curiosidade. Rachel me estudara. Sarah também. Claire fizera isso abertamente durante nosso primeiro café da manhã.

Simon me olhava de outro jeito.

— Então é você — disse.

— Eu?

— A famosa noiva do meu tio.

— Não sabia que era famosa.

— Nesta família? — Ele colocou as mãos nos bolsos. — Nas últimas semanas, bastante.

— Espero que estejam falando bem.

— Depende de quem pergunta.

— Estou perguntando a você.

Ele sorriu novamente.

— Ainda estou formando minha opinião.

A resposta me incomodou.

— Que bom que não preciso dela para me casar.

Por um segundo, Simon pareceu surpreso.

Depois riu.

— Agora começo a entender.

— Entender o quê?

— Por que meu tio escolheu você.

A palavra escolheu me incomodou por razões diferentes. Talvez porque me lembrasse demais de como tudo realmente começara. Jacob havia me escolhido. Sarah apresentara candidatas, existira um contrato e, entre todas as mulheres que poderiam ocupar aquele lugar, ele decidira que eu servia.

Simon voltou a olhar para mim, dessa vez sem qualquer esforço para esconder que me avaliava.

Cruzei os braços.

— Você costuma olhar assim para as pessoas?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Assim como?

— Como se estivesse decidindo se gosta do que está vendo.

O sorriso dele permaneceu.

— E se eu estiver?

— Recomendo encontrar outra coisa para observar.

A expressão de Simon mudou discretamente. Não parecia ofendido. Pelo contrário, pareceu ainda mais interessado, o que me desagradou mais.

— Definitivamente entendo meu tio agora.

— Você repete muito isso.

— Porque estou surpreso.

— Com o quê?

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Você não parece o tipo de mulher com quem Jacob Black se casaria.

A frase me fez lembrar imediatamente da desconhecida na loja.

Tenha certeza de que sabe exatamente para quem está dizendo sim.

Era a segunda vez naquela manhã que alguém falava sobre meu casamento como se soubesse alguma coisa que eu ignorava.

— E qual seria o tipo de mulher com quem ele se casaria?

Simon abriu a boca, mas uma voz masculina surgiu do corredor antes que respondesse.

— Simon.

O efeito foi imediato.

Ele olhou para trás.

Um dos homens da casa estava parado próximo à entrada do corredor, observando-nos. Eu o reconhecia de vista, embora não soubesse seu nome.

Simon soltou um suspiro.

— Parece que minha recepção terminou.

— Talvez seja melhor assim.

Ele tornou a olhar para mim.

— Foi um prazer conhecê-la, Renesmee.

— Igualmente.

Era mentira.

Simon deu alguns passos para trás, mas seus olhos ainda permaneceram em mim por um momento antes que finalmente se afastasse.

Esperei até ele desaparecer pelo corredor.

Então olhei para as escadas.

Claire havia mudado completamente ao ver o carro daquele rapaz. Fora grosseira comigo, ignorara o primo e praticamente fugira para o quarto.

Eu não sabia o que existia entre os dois.

Mas sabia reconhecer quando alguém não queria estar perto de outra pessoa.

E, naquele momento, a curiosidade que Simon despertara em mim era muito menor do que a preocupação que a reação de Claire havia deixado.