A esposa do Don
35 Prelúdio de guerra
JACOB
Alessandro Moretti esperou que eu me acomodasse antes de voltar ao bar. Serviu uma dose para si mesmo e ergueu a garrafa em minha direção, oferecendo-me o mesmo. Recusei com um movimento da cabeça. Eu não havia atravessado Nova York no meio da madrugada para beber com ele, e muito menos pretendia permitir que Leah interpretasse minha presença naquele lugar como uma visita social. Ela havia voltado a se sentar no sofá, cruzando as pernas com uma tranquilidade cuidadosamente construída, desempenhando o papel de Verônica diante de Alessandro como se os últimos oito anos tivessem apagado tudo o que existira antes. Não voltei a encará-la. Revelar que a reconhecera fora suficiente. Se Leah estava esperando uma explosão, uma acusação ou qualquer reação que demonstrasse o efeito de sua presença sobre mim, continuaria esperando. Eu não tinha mais trinta anos e ela já não possuía o privilégio de saber o que acontecia dentro da minha cabeça.
— Imagino que tenha um motivo menos misterioso para aparecer aqui com dois dos seus homens e um pequeno exército na minha porta — disse Alessandro, acomodando-se na poltrona diante de mim. — Você chamou bastante atenção para alguém que costuma prezar pela discrição.
— A quantidade de homens que trouxe foi proporcional à recepção que esperava encontrar.
— Meus seguranças não gostam de comboios desconhecidos entrando no meu território.
— Os meus também não gostam de armas apontadas para mim. Felizmente, todos conseguiram controlar os próprios impulsos e continuamos conversando.
Moretti soltou uma breve risada e tomou um gole da bebida.
— Ainda diplomático.
— Quando a diplomacia funciona, ela custa menos homens.
— E quando não funciona?
— Você já conhece a resposta.
O sorriso dele desapareceu apenas o suficiente para deixar claro que a conversa social havia terminado. Moretti colocou o copo sobre a mesa e se inclinou ligeiramente para a frente.
— Então fale.
Apoiei um braço no encosto da poltrona.
— Nas últimas semanas, três entregas minhas foram interceptadas. Todas seguiram rotas diferentes, todas tiveram alterações de última hora e, ainda assim, alguém conhecia os trajetos com precisão suficiente para colocar homens nos lugares certos. Perdi mercadoria, perdi funcionários e tive de interromper operações que não deveriam interessar a ninguém fora da minha estrutura.
Moretti não demonstrou reação imediata.
— E por que está me contando isso?
— Porque alguns dos homens envolvidos trabalham para você.
Ele franziu o cenho.
Foi um gesto pequeno, mas genuíno.
Eu observara homens mentindo durante tempo suficiente para reconhecer quando alguém precisava construir uma reação. Moretti não construiu a dele. A surpresa veio antes que pudesse escondê-la.
— Meus homens?
— Sim.
— Você tem certeza?
— Eu não costumo atravessar a cidade durante a madrugada baseado em suposições.
Alessandro olhou rapidamente para um de seus seguranças, depois para mim.
— Nenhuma ordem saiu de mim.
— Não disse que saiu.
— Mas veio ao meu território com homens armados.
— Vim ao seu território porque os rastros terminaram aqui.
Ele se recostou.
— Black, posso ser muitas coisas, mas não sou idiota o suficiente para mandar homens roubar suas cargas dentro da toca do lobo e depois deixá-los carregando meu nome. Se eu quisesse atingir seus negócios, você saberia que fui eu.
Assenti lentamente.
— Eu acredito.
Aquilo pareceu surpreendê-lo ainda mais.
— Então por que estamos tendo essa conversa?
— Porque alguém está usando seus homens sem sua autorização. E, se eu descobri, outras pessoas também podem descobrir. A diferença é que nem todas terão interesse em perguntar primeiro.
Fiz um gesto para Sam.
Ele abriu o paletó, retirou um envelope grosso e caminhou até Alessandro. Colocou-o sobre a mesa sem dizer nada e retornou à posição atrás de mim.
Moretti pegou o envelope.
Leah não se mexeu.
Eu a observava pelo reflexo do vidro.
Alessandro abriu o envelope e retirou as primeiras fotografias. Sua expressão endureceu imediatamente. Passou para a segunda, depois para a terceira. Homens mortos. Alguns encontrados próximos às rotas atacadas; outros localizados depois que Embry começara a seguir os pagamentos. Nenhum deles era suficientemente importante para que o desaparecimento provocasse uma reação imediata da família Moretti, mas todos possuíam algum vínculo com aquela estrutura.
— Merda — murmurou.
— Reconhece?
— Todos.
— Imaginei.
Ele continuou olhando as fotografias.
— Este trabalhava em um dos meus depósitos. — Apontou para um homem. — Esse fazia segurança para uma casa em Queens. Os outros dois eram contratados quando precisávamos aumentar equipe. Não estavam próximos de mim.
— Justamente por isso foram escolhidos.
Moretti levantou os olhos.
— Escolhidos por quem?
Por um instante, permiti que meu olhar se deslocasse até Leah.
Ela sustentou-o.
Não alterou a expressão.
Voltei a Alessandro.
— Essa é uma pergunta que você deveria começar a fazer dentro da própria casa.
Ele percebeu o movimento dos meus olhos. Não sabia o significado, mas percebeu. Leah também.
— Está insinuando alguma coisa sobre Verônica?
— Estou dizendo que quatro homens ligados a você participaram de ataques contra meus negócios sem que você soubesse. O significado disso é problema seu.
Leah finalmente falou.
— Talvez o senhor Black esteja acostumado demais a enxergar conspirações.
Olhei para ela.
— Homens que sobrevivem muito tempo no meu mundo geralmente estão.
— E os que enxergam inimigos em todos os lugares acabam criando alguns que não existiam.
— Também é verdade. — Sustentei seu olhar. — Mas os mais perigosos são aqueles que recebem uma segunda oportunidade e confundem misericórdia com esquecimento.
O silêncio que se formou durou pouco, porém foi suficiente.
Moretti olhou de mim para ela.
— Vocês se conhecem?
Leah sorriu antes que eu respondesse.
— O senhor Black aparentemente acredita que sim.
— Conheci muitas pessoas ao longo da vida — respondi. — Algumas tiveram a inteligência de permanecer no passado.
Ela entendeu.
Alessandro não.
Eu não tinha intenção de lhe oferecer gratuitamente a história de minha família.
Moretti recolheu as fotografias e voltou a colocá-las no envelope.
— Vou investigar. Se homens meus participaram disso sem autorização, vou descobrir quem os recrutou, quem pagou e quem abriu acesso.
— É exatamente o que espero.
— E, quando descobrir, entrarei em contato.
Levantei-me.
— Faça isso antes que outro dos seus homens cruze meu caminho.
Alessandro também se levantou.
— Isso parece uma ameaça.
Abotoei o paletó.
— É uma cortesia. A ameaça seria desnecessária entre homens que compreendem as consequências.
Ele permaneceu diante de mim por alguns segundos, claramente decidindo até onde queria levar aquela disputa. Moretti não era estúpido, e aquela era uma das razões pelas quais ainda administrava uma parte importante do Bronx. Entretanto, seu orgulho não permitiria que eu entrasse em seu território, colocasse cadáveres de seus homens sobre sua mesa e saísse sem que tentasse recuperar algum terreno.
— Talvez seja bom lembrar, Black, que algumas coisas mudaram enquanto você estava ocupado protegendo Manhattan.
Parei.
— Imagino que esteja prestes a me contar quais.
— Os Moretti têm novos negócios. Novas alianças. — Ele pegou o copo novamente. — Os Volturi estão ampliando operações em Nova York. Nós temos interesses em comum agora. Seria pouco inteligente transformar uma investigação em provocação.
Então era isso.
Volturi.
Olhei para Alessandro durante alguns segundos, e algumas das peças que ainda estavam fora do lugar começaram a se aproximar. Os Moretti forneciam território. Os Volturi queriam acesso. Leah operava escondida dentro daquela estrutura sem que Alessandro percebesse. Aquilo era maior do que uma mulher tentando me provocar com velhas feridas.
— Você deveria tomar cuidado com a palavra aliança, Moretti.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque negócios criam interesses. Interesses duram enquanto produzem lucro. Alianças exigem lealdade, e homens que chegam oferecendo muito normalmente pretendem levar mais quando saírem.
— Está preocupado com os Volturi?
Quase sorri.
— Não.
— Deveria.
— Se um dia eu começar a aceitar conselhos sobre quem devo temer, prometo considerar sua opinião.
Alessandro endureceu a mandíbula.
— Alec Volturi não é um garoto brincando de poder.
— Nunca disse que fosse.
— Ele está prestes a consolidar uma posição que pode alterar bastante o equilíbrio desta cidade.
Eu sabia exatamente a que se referia.
Alec.
Bree.
O casamento que vinha sendo organizado entre duas famílias que acreditavam estar unindo muito mais do que dois sobrenomes.
— Então aconselho que escolha cuidadosamente onde pretende ficar quando esse equilíbrio mudar — respondi. — Porque, quando homens poderosos descobrem que construíram planos sobre informações erradas, costumam procurar alguém para responsabilizar.
Não lhe dei tempo para perguntar.
Virei-me.
Sam e Solomon imediatamente se moveram comigo.
Antes de alcançar a porta, parei e olhei uma última vez para Leah.
Ela permanecia sentada.
Bonita. Controlada. Confiante demais.
— Boa noite, Verônica.
Houve um pequeno intervalo antes da resposta.
— Boa noite, senhor Black.
Sustentei seus olhos por mais um segundo.
— Aproveite a noite. Algumas oportunidades não se repetem.
Não esperei reação.
Saí da sala.
Descemos pela mesma escada, atravessamos a boate e seguimos até a rua. A música ficou para trás assim que as portas se fecharam, substituída pelo frio da madrugada e pelo movimento discreto dos meus homens. Ninguém havia disparado. Ninguém precisara morrer. Para uma visita aos Moretti, eu considerava aquilo bastante civilizado.
Entrei no SUV.
Sam veio logo depois, seguido por Solomon. Assim que as portas se fecharam e o veículo começou a se afastar, Solomon foi o primeiro a falar.
— O que você acha?
Olhei pela janela enquanto os carros retomavam suas posições ao redor do nosso.
— Alessandro não sabia.
— Também não achei que estivesse mentindo — disse Sam.
— Não estava.
Solomon cruzou os braços.
— Então Leah está operando pelas costas dos Moretti.
— Exatamente. Está usando homens pequenos o bastante para não serem percebidos, dinheiro que passa por intermediários e território que pertence a outra família. Se alguma coisa desse errado antes de chegarmos até ela, eu culparia Alessandro. Se reagisse, os Moretti responderiam. Ela criaria uma guerra sem precisar declarar uma.
Sam assentiu.
— Mas por quê?
— Ainda não sei.
— Você acha que é vingança?
— Vingança é uma palavra confortável demais. Leah não passou oito anos escondida para reaparecer apenas porque sente falta de mim.
Solomon soltou uma respiração curta.
— E os Volturi?
Olhei para ele.
— Estão fechando o cerco.
A frase deixou o interior do carro em silêncio.
Eu já acompanhava os movimentos de Alec havia algum tempo. O casamento com Bree não era romance, e nenhum homem naquela estrutura fingia acreditar que fosse. Os Volturi estavam interessados no que imaginavam que uma união com os Cullen poderia lhes entregar: influência, rotas, acesso a empresas e, sobretudo, uma posição privilegiada sobre o armamento ligado ao patrimônio histórico da família. Carlisle permitira que Bree carregasse o sobrenome Cullen; Emmett e Rosalie haviam lhe dado lugar legítimo dentro da família. Socialmente, isso bastava. Civilmente, Bree poderia receber patrimônio, ações e qualquer coisa que os Cullen decidissem lhe conceder.
O erro de Alec era acreditar que isso lhe entregaria aquilo que realmente queria.
Sam virou o rosto para mim.
— O que pretende fazer?
Permaneci alguns segundos em silêncio.
— Por enquanto, nada.
— Nada?
— Alec está fazendo exatamente o que eu preciso que faça. Está investindo tempo, dinheiro e alianças em uma conclusão falsa.
Solomon compreendeu antes de Sam.
— Bree.
— Sim.
Sam franziu o cenho.
— O casamento.
— Alec Volturi vai se casar com Bree Cullen acreditando que está se aproximando do controle dos armamentos e das estruturas que dependem da linha direta de Edward.
— E não está — disse Solomon.
— Não.
Ele me observou.
— Porque Bree é adotada.
— Porque Bree não é Elizabeth Cullen.
O nome permaneceu entre nós.
Sam passou a mão lentamente pelo queixo.
— E eles ainda não sabem que Elizabeth está viva.
— Não.
— Muito menos onde ela está.
Dessa vez olhei diretamente para ele.
— Exatamente.
Sam ficou em silêncio por alguns segundos antes de completar:
— Na sua casa.
— Na minha cama — corrigi friamente. — Usando meu sobrenome.
Solomon não pareceu gostar da maneira como eu disse aquilo.
— Renesmee não é uma peça no seu tabuleiro, Jacob.
— Não. É minha esposa.
— Que não sabe que é Elizabeth Cullen.
— Ainda não.
— E você pretende continuar permitindo que Alec faça planos sem saber?
— Pretendo permitir que todos façam.
Solomon balançou a cabeça.
— Isso vai explodir.
— Eu sei.
— E Renesmee estará no centro.
Minha mandíbula se contraiu.
— Ninguém toca nela.
— Não estou falando apenas de segurança.
Eu sabia.
Preferi não responder.
Voltei os olhos para as luzes que passavam pela janela. Em algum lugar de Manhattan, Renesmee provavelmente já dormia outra vez, acreditando que o maior segredo entre nós era simplesmente onde eu estava naquela madrugada. Ela não fazia ideia de que Leah estava viva. Não sabia que eu acabara de encontrar a mulher que Claire e William acreditavam estar morta. Não sabia que Alec Volturi construía uma aliança acreditando que Bree lhe abriria portas que jamais lhe pertenceriam.
E, sobretudo, não sabia que o nome capaz de desmontar todos aqueles planos era o dela.
— Alec acredita que vai se casar com uma Cullen e colocar as mãos nos armamentos — disse Sam.
— Sim.
— Quando descobrir a verdade, vai entender que escolheu a mulher errada.
Apoiei a cabeça no encosto e olhei para ele.
— Não apenas a mulher errada.
Sam esperou.
— A verdadeira dona daquilo que ele procura já se casou.
Solomon permaneceu sério.
Eu concluí sem elevar a voz:
— E ela se casou comigo.
O SUV continuou atravessando a madrugada de Nova York enquanto eu pensava em todas as pessoas que ainda acreditavam estar movimentando peças sem perceber que o centro daquele tabuleiro havia mudado um mês antes, diante de testemunhas de quase todas as famílias importantes.
Alec Volturi acreditava que Bree lhe daria acesso ao poder dos Cullen.
Leah acreditava que podia usar os Moretti para me cercar.
E Renesmee ainda acreditava que havia entrado na minha vida sem possuir sobrenome algum.
Dos três, era ela quem tinha mais direito de conhecer a verdade.
Era também a única pessoa para quem eu ainda não estava preparado para contá-la.
Não voltei para casa naquela madrugada. Depois de deixarmos Hunts Point, já passava das três, e retornar à mansão apenas para dormir pouco mais de uma hora antes de sair novamente seria inútil. Além disso, a confirmação de que Leah estava por trás dos ataques mudava algumas prioridades. Eu não pretendia aceitar relatórios enviados para meu telefone e presumir que tudo estava funcionando apenas porque os números pareciam corretos. Se ela tivera acesso suficiente para manipular homens ligados aos Moretti e interferir em três das minhas entregas, eu precisava descobrir até onde aquela infiltração havia chegado antes que ela entendesse que sua presença fora definitivamente descoberta.
Passei o restante da madrugada percorrendo pessoalmente alguns pontos de distribuição. Visitei dois depósitos, acompanhei a chegada de uma carga que deveria seguir para o sul naquela manhã e conferi os registros com Sam enquanto os responsáveis abriam caixas e apresentavam números. Em um dos depósitos encontrei uma diferença pequena entre a quantidade registrada e a mercadoria física. Nada que justificasse uma acusação de roubo; era um erro de lançamento cometido por um funcionário novo. Ainda assim, pedi que toda a contagem fosse refeita. Um homem que administrava negócios daquele tamanho e começava a considerar pequenas diferenças irrelevantes acabava descobrindo tarde demais que alguém havia transformado sua tolerância em oportunidade.
Quando o dia começou a clarear sobre Nova York, eu ainda estava acordado, sustentado por café ruim e pela irritação de quem já tinha assuntos demais para resolver antes das oito da manhã. Embry enviara uma primeira lista de contatos dos homens mortos ligados aos Moretti, e ordenei que investigasse cada nome sem assumir que Leah era a única pessoa envolvida. Eu sabia que ela estava jogando, mas não sabia quantas peças possuía. Também não descartava os Volturi. Alessandro fizera questão de mencionar a aproximação entre as duas famílias, e homens como ele raramente entregavam uma informação daquele tamanho sem desejar produzir algum efeito.
Pouco depois das sete, mandei o motorista seguir diretamente para a Black Holdings.
A empresa ocupava vários andares de uma torre em Manhattan e era, diante do mundo, uma estrutura empresarial absolutamente respeitável. Logística, transportes, imóveis, investimentos, energia e participações em diversas outras empresas formavam uma rede grande o bastante para justificar boa parte do patrimônio que aparecia associado ao meu nome. A Holdings também era uma das estruturas que eu utilizava para lavar parte do dinheiro proveniente dos negócios que jamais constariam em qualquer relatório oficial. Nada era feito de maneira vulgar. Dinheiro demais atraía atenção quando tentava parecer limpo depressa demais, por isso existiam camadas, empresas, contratos, operações legítimas misturadas às demais e profissionais suficientemente bem pagos para compreender que determinadas perguntas não faziam parte de suas funções.
Cheguei ao meu andar pouco depois das oito. Helena estava me esperando quando as portas do elevador privativo se abriram. Minha secretária me acompanhou pelo corredor enquanto consultava o tablet, aparentemente decidida a fingir que não percebia que eu vestia a mesma roupa da noite anterior.
— Bom dia, senhor Black. O senador confirmou a reunião para as nove. Ele virá acompanhado apenas do assessor-chefe e pediu que nenhuma outra pessoa participe.
— O assessor pode entrar. Mais ninguém.
— Eles solicitaram quarenta e cinco minutos.
— Terão trinta.
Helena fez uma anotação.
— Deseja café?
— Forte.
Ela me examinou discretamente antes de voltar os olhos para a tela.
— Posso pedir que tragam alguma coisa para o café da manhã também.
— Está tentando me dizer que estou com uma aparência péssima, Helena?
A expressão profissional dela quase falhou.
— Eu estava tentando dizer que o senhor parece ter trabalhado a noite inteira.
— Essa foi uma versão bastante diplomática.
— É uma das razões pelas quais o senhor me paga.
— Continue usando-a.
Ela sorriu discretamente.
— Sua roupa reserva está no closet. Pedi que verificassem ontem.
— Obrigado.
Entrei no escritório e fui diretamente ao banheiro privativo. Tomei um banho rápido, fiz a barba e troquei a roupa da madrugada por um dos ternos que mantinha ali justamente para situações como aquela. Quando terminei de ajustar os punhos da camisa diante do espelho, pelo menos minha aparência não denunciava que eu estava acordado desde a manhã anterior. O cansaço continuava presente, mas eu aprendera muito cedo que homens na minha posição não tinham o privilégio de parecer cansados diante das pessoas erradas.
Quando retornei ao escritório, o café já estava sobre a mesa.
Meu telefone também.
Havia uma mensagem de Renesmee.
Peguei-o e abri a conversa.
Renesmee:
— Você não cumpriu o que disse.
Olhei para o horário. Ela estava acordada havia poucos minutos. Sentei-me e respondi:
Jacob:
— Eu disse que voltaria inteiro. Continuo inteiro.
A resposta apareceu quase imediatamente.
Renesmee:
— Você também disse que voltaria. Acordei, olhei para o seu lado da cama e encontrei apenas um travesseiro. Ele não é tão interessante quanto você.
Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto.
Jacob:
— Precisei vir para a empresa. Tenho uma reunião com um senador às nove.
Os três pontos apareceram na tela e permaneceram alguns segundos antes da resposta.
Renesmee:
— Então meu marido me abandonou na cama e foi trabalhar? 🥺
Balancei a cabeça.
Eu já conseguia imaginar perfeitamente a expressão que acompanhava aquela mensagem.
Jacob:
— Você sobreviveu vinte anos sem mim. Tenho razoável confiança de que sobreviverá até o almoço.
Renesmee:
— Cruel.
Poucos segundos depois, chegou outra.
Renesmee:
— Eu estava com saudade.
Parei com a xícara próxima à boca.
Era impressionante como aquela mulher conseguia escrever três palavras e produzir em mim uma reação maior do que homens armados haviam conseguido poucas horas antes. Renesmee não sabia onde eu estivera, não sabia quem eu encontrara e não fazia ideia de que a mulher que Claire e William acreditavam estar morta estivera diante de mim naquela madrugada. Para ela, eu era apenas o marido que prometera voltar para casa e não aparecera.
Respondi:
Jacob:
— Vou compensá-la.
A resposta veio depressa.
Renesmee:
— Não precisa. Vou fazer isso com seu cartão de crédito.
Recostei-me na cadeira.
Jacob:
— Use o que não tem limite. Se pretende me punir, senhora Black, ao menos faça isso de maneira digna do meu sobrenome.
Renesmee:
— Isso não funciona se você incentiva.
Jacob:
— Não estou incentivando. Estou evitando a humilhação de descobrir que minha esposa tentou me levar à falência comprando sapatos e fracassou.
Renesmee:
— Você é insuportável.
Jacob:
— E ainda assim sentiu minha falta.
Os três pontos apareceram e desapareceram duas vezes.
Renesmee:
— Infelizmente.
Passei o polegar lentamente pela lateral do telefone antes de responder.
Jacob:
— Então guarde essa disposição para quando eu voltar. O cartão pode satisfazer sua vontade de vingança. O restante da sua insatisfação eu prefiro resolver pessoalmente.
Dessa vez a demora foi maior.
Então a mensagem apareceu.
Renesmee:
— Jacob Black!
Sorri.
Jacob:
— Algum problema, senhora Black?
Renesmee:
— Você sabe muito bem o que está fazendo.
Jacob:
— Sei. Foi justamente por isso que escrevi.
Renesmee:
— Vá cuidar do seu senador.
Jacob:
— Está me expulsando?
Renesmee:
— Estou tentando preservar o pouco de dignidade que ainda tenho depois de um mês casada com você.
Aquela resposta arrancou de mim uma risada baixa.
Jacob:
— Tenha um bom dia, minha esposa.
Ela respondeu imediatamente.
Renesmee:
— Tenha uma boa reunião, meu marido. E volte para casa.
Meu sorriso desapareceu devagar.
Fiquei olhando para aquela última frase durante alguns segundos.
Volte para casa.
Durante muitos anos, aquelas palavras significaram apenas retornar a um endereço. A mansão era minha antes de Leah, continuara minha depois dela e permaneceria minha independentemente das pessoas que entrassem ou saíssem. Mas voltar para casa e voltar para alguém eram coisas muito diferentes. Claire e William haviam mantido uma parte disso viva mesmo nos anos em que eu transformara trabalho e ausência em rotina. Meus filhos sempre me esperavam, embora eu tivesse falhado mais vezes do que gostaria em chegar para o jantar, para uma conversa ou simplesmente antes que dormissem.
Agora havia Renesmee.
Uma mulher que chegara à minha vida como solução temporária para um problema familiar e que, em pouco mais de um mês, conseguira fazer minha ausência parecer estranha até para mim.
Bloqueei o telefone e o coloquei sobre a mesa.
Não gostei da facilidade com que estava me acostumando àquilo.
Também não gostei de perceber que pretendia voltar para ela assim que aquela reunião terminasse.
Duas batidas soaram na porta.
— Entre.
Helena apareceu.
— Senhor Black, o senador chegou. O assessor está com ele.
Olhei para o relógio. Oito e cinquenta e sete.
— Leve-os para a sala de reuniões. Estarei lá em dois minutos.
— Sim, senhor.
Ela se preparou para fechar a porta, mas a interrompi.
— Helena.
— Senhor?
— Cancele meus compromissos depois do meio-dia.
Ela consultou o tablet.
— O senhor tem duas reuniões e um almoço com o conselho financeiro.
— Remarque todos.
— Devo colocar algum compromisso particular na agenda?
Pensei na mensagem que ainda estava no telefone sobre minha mesa.
— Não.
Helena assentiu.
— Certo.
Ela saiu e fechou a porta.
Levantei-me, abotoei o paletó e peguei o telefone antes de seguir para a sala de reuniões. Ainda precisava descobrir quanto os Volturi haviam avançado politicamente, entender o que Leah pretendia conseguir ao operar escondida dentro do território Moretti e decidir por quanto tempo conseguiria manter Renesmee afastada de um passado que começava a se aproximar perigosamente da minha família.
Mas ao meio-dia eu estaria a caminho de casa.
Não porque minha esposa tivesse pedido que eu voltasse.
Apenas porque eu decidira.
E, enquanto caminhava pelo corredor, concluí que ainda possuía orgulho suficiente para continuar contando essa mentira a mim mesmo.
A reunião com o senador ultrapassou os trinta minutos que eu havia concedido, não porque ele tivesse algo particularmente interessante a dizer, mas porque homens acostumados à política raramente chegavam ao ponto quando podiam envolver uma proposta simples em discursos sobre desenvolvimento, geração de empregos e responsabilidade social. Eu o ouvi durante algum tempo sem interromper, sentado à cabeceira da mesa enquanto ele e o assessor apresentavam números que eu já conhecia. A campanha para a reeleição precisaria de recursos consideravelmente maiores do que os inicialmente previstos, sobretudo porque pesquisas internas haviam mostrado crescimento de um adversário que começava a conquistar empresários menores. Nada daquilo me preocupava. O que me interessava era o que o senador poderia oferecer em troca sem jamais utilizar palavras tão inconvenientes quanto troca.
— A Black Holdings tem uma presença muito forte no estado — disse ele, fechando uma das pastas diante de si. — Um apoio público seu teria um impacto que vai muito além da contribuição financeira.
— Meu nome não aparecerá em palanque.
Ele juntou as mãos sobre a mesa.
— Não estou pedindo que apareça.
— Está sugerindo.
— Estou dizendo que empresários importantes demonstrando confiança em um projeto político produzem estabilidade.
— Estabilidade para quem?
O senador sorriu discretamente.
— Para todos que possuem interesses legítimos em Nova York.
Eu me recostei na cadeira e o observei durante alguns segundos. Ele era inteligente. Essa era uma qualidade necessária em homens com os quais eu aceitava fazer negócios, embora inteligência política frequentemente viesse acompanhada da ilusão de que palavras cuidadosamente escolhidas impediam os outros de compreender o que realmente estava sendo dito.
— Vamos evitar a parte em que fingimos que estamos discutindo princípios, senador. O senhor precisa de dinheiro para sua campanha. Eu estou disposto a financiar parte dela pelos meios legais permitidos e apoiar projetos vinculados às empresas do grupo. Em contrapartida, espero que as políticas de infraestrutura que discutimos nos últimos meses não desapareçam de sua agenda depois da eleição.
O assessor levantou os olhos das anotações.
— Naturalmente, qualquer decisão do senador continuará seguindo todos os procedimentos...
Olhei para ele.
O homem interrompeu a frase.
O senador pareceu conter um sorriso.
— Meu assessor tem obrigação de dizer isso.
— E eu tenho obrigação de não desperdiçar meu tempo ouvindo.
— Justo.
Ele abriu novamente a pasta e retirou um documento.
— O comitê receberá o patrocínio dentro das regras eleitorais aplicáveis. Os eventos empresariais serão separados da campanha, como seus advogados solicitaram. Quanto ao plano de infraestrutura, ele continua sendo uma prioridade para meu gabinete.
— E continuará depois da eleição.
— Se eu continuar no cargo.
— É justamente para aumentar essa possibilidade que estamos sentados aqui.
Ele sustentou meu olhar antes de assentir.
— Então temos um acordo.
— Temos.
Não havia necessidade de apertar mãos para que eu considerasse a conversa encerrada, mas o senador aparentemente precisava do gesto. Levantei-me e aceitei sua mão quando ele a estendeu.
— Agradeço a confiança, senhor Black.
— Não confunda investimento com confiança.
Ele soltou uma risada curta.
— Sempre direto.
— Economiza tempo.
O assessor recolheu as pastas enquanto Helena entrava para acompanhá-los até o elevador. O senador ainda parou junto à porta.
— Espero vê-lo no jantar beneficente no próximo mês. Sua esposa também será bem-vinda. Ouvi dizer que se casou recentemente.
Meu olhar permaneceu nele.
— Ouviu corretamente.
— Meus parabéns.
— Obrigado.
— Então espero conhecer a senhora Black.
A ideia de levar Renesmee para uma sala cheia de políticos que fariam perguntas sobre uma mulher cuja verdadeira identidade eu ainda tentava manter longe exatamente daquele tipo de atenção não me agradou.
— Verificarei nossa agenda.
Ele compreendeu que aquela era a única resposta que receberia.
— Naturalmente. Tenha um bom dia.
— Senador.
A porta se fechou atrás dele.
Soltei lentamente o ar e afrouxei um dos punhos da camisa antes de olhar para o relógio. Ainda não era meio-dia. Pela primeira vez naquela manhã, pensei seriamente em cumprir a promessa feita a Renesmee e voltar para casa antes do almoço. Talvez encontrasse minha esposa demonstrando a vingança prometida através do cartão de crédito. Conhecendo Rachel, havia uma possibilidade considerável de as duas já terem transformado minha ausência em uma oportunidade de compras.
Peguei o telefone sobre a mesa.
Nenhuma mensagem nova de Renesmee.
Eu estava prestes a escrever para ela quando a porta tornou a abrir.
Embry entrou.
Não bateu.
Meu dedo parou sobre a tela.
Embry jamais entrava daquela maneira em meu escritório durante o horário comercial, principalmente quando sabia que eu acabara de receber um senador. Mais importante, não era a falta de formalidade que chamou minha atenção.
Era sua expressão.
Conhecia aquele homem havia anos. Embry já me entregara informações sobre traições, mortes, desaparecimentos e operações que poderiam nos custar milhões sem alterar o rosto daquela maneira. Naquele momento, porém, havia tensão evidente em sua mandíbula, e ele fechou a porta atrás de si antes de caminhar até minha mesa.
Coloquei o telefone lentamente sobre a superfície.
— O que aconteceu?
— Jacob...
— Não comece uma resposta com meu nome. Diga o que aconteceu.
Ele respirou fundo.
Meu corpo inteiro ficou alerta antes mesmo que ele falasse.
— Um dos seguranças da mansão ligou.
Levantei-me.
— Renesmee?
— Ela está bem.
A resposta deveria ter diminuído a tensão.
Não diminuiu.
— William?
— Também está bem.
Olhei diretamente para Embry.
Restava um nome.
— Claire.
Ele assentiu.
Minha mão ficou imóvel sobre a mesa.
— O que aconteceu com minha filha?
Embry hesitou por um instante, e aquele único segundo foi suficiente para transformar minha preocupação em algo muito mais frio.
— Você precisa ir para casa.
— Embry.
Ele sustentou meu olhar.
— Aconteceu alguma coisa com Claire.
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