A esposa do Don

36 Debaixo do meu teto


JACOB

Não me lembrava de grande parte do caminho entre a Black Holdings e a mansão. Lembrava da voz de Embry dizendo que um dos seguranças havia ligado, que eu precisava voltar para casa e que alguma coisa acontecera com Claire. Tentei arrancar dele uma explicação ainda no elevador, mas Embry sabia apenas o que lhe haviam transmitido: Renesmee pedira que me avisassem pessoalmente e dera uma ordem expressa para que os homens não explicassem a situação por telefone. Aquilo bastou para eliminar qualquer possibilidade de tranquilidade durante o trajeto. Eu conhecia minha esposa havia pouco tempo, mas já conhecia o suficiente de seu comportamento para saber que ela não criava uma emergência por capricho. Renesmee podia ser impulsiva, podia desafiar uma ordem minha com uma facilidade que às vezes me irritava e outras vezes me divertia, mas não utilizaria Claire para me fazer abandonar uma reunião importante no meio da manhã. Se mandara me buscar, alguma coisa séria havia acontecido.

O carro ainda estava parando quando abri a porta. Atravessei os degraus da entrada rapidamente e entrei na mansão com Embry alguns passos atrás. Dois homens da segurança estavam posicionados no hall, ambos tensos, mas não parei para interrogá-los. Se Renesmee havia exigido que eu recebesse a explicação pessoalmente, eu a ouviria dela. Virei em direção à sala principal e encontrei Rachel e Rebecca próximas à lareira. Rachel estava com os braços cruzados e uma expressão que eu conhecia bem demais; Rebecca parecia ainda mais alterada, caminhando de um lado para outro até perceber minha presença. Ela parou imediatamente e veio em minha direção antes que eu tivesse oportunidade de perguntar qualquer coisa.

— Jacob, antes que você tire qualquer conclusão, tudo isso foi um mal-entendido.

Parei diante dela.

— Que mal-entendido?

Rebecca hesitou por uma fração de segundo.

— O que aconteceu com Simon e Claire.

Meu olhar permaneceu nela.

Até aquele momento, ninguém havia pronunciado o nome de Simon.

— Simon? — perguntei. — Que relação Simon tem com o que aconteceu com Claire?

Rachel fechou os olhos por um instante, como se já soubesse que a resposta seria ruim. Rebecca, ao contrário, pareceu perceber tarde demais que acabara de me entregar uma informação que eu ainda não possuía.

— Jacob, apenas me escute antes de ficar furioso. Renesmee encontrou Simon no quarto de Claire. A porta estava trancada, os dois estavam lá dentro e ela interpretou a situação da pior maneira possível. Simon me explicou que estava apenas conversando com a prima, que Claire estava nervosa e...

— Pare.

Rebecca ficou em silêncio.

Eu ainda não sabia o que havia acontecido. Não sabia por que Claire precisava de mim, não sabia por que Renesmee impedira os seguranças de explicar por telefone e, até entrar naquela sala, não sabia sequer que Simon estava envolvido. Mas agora sabia que um homem adulto fora encontrado dentro do quarto da minha filha de quatorze anos, com a porta trancada, e minha irmã parecera considerar mais importante preparar uma defesa antes que eu descobrisse o motivo de tudo aquilo.

— Quero que responda exatamente ao que eu perguntar. Renesmee encontrou Simon trancado no quarto de Claire?

Rebecca respirou fundo.

— Sim, mas isso não significa...

— Eu não perguntei o que significa.

— Ele é primo dela, Jacob.

— Eu sei perfeitamente quem é seu filho.

— Então também sabe que ele cresceu próximo de Claire.

— Não o suficiente para justificar uma porta trancada.

Rebecca passou a mão pelos cabelos, visivelmente frustrada.

— Simon disse que Claire estava alterada. Ele tentou conversar com ela, Renesmee apareceu e começou a fazer acusações. Depois o atacou.

Meu olhar se estreitou.

— Renesmee atacou Simon?

— Ela o chutou.

Aquilo não combinava com nenhuma situação que pudesse ser descrita simplesmente como uma conversa mal interpretada.

— Por quê?

Rebecca abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.

— Porque ela entendeu errado o que estava acontecendo.

— Não foi isso que perguntei. Perguntei por que minha esposa chutou seu filho.

— Simon disse que Renesmee ficou agressiva.

— E eu ainda estou esperando uma resposta.

— Eu não estava lá!

Finalmente havia chegado ao ponto.

Aproximei-me um passo.

— Exatamente.

Rebecca me encarou.

— O quê?

— Você não estava lá. Não viu o que aconteceu, não ouviu Claire, não viu Renesmee entrar naquele quarto e não sabe por que sua sobrinha precisou que eu fosse chamado para casa. Ainda assim, a primeira coisa que fez quando me viu foi declarar que tudo não passou de um mal-entendido.

— Porque eu falei com meu filho.

— E eu ainda não falei com minha filha.

Ela ficou em silêncio.

Minha voz permaneceu baixa.

— Portanto, até que eu saiba o que aconteceu, você não vai decidir por Claire o que ela viveu, nem por Renesmee o que ela viu.

— Jacob, Simon é meu filho.

— E Claire é minha filha.

A frase saiu sem qualquer alteração de volume, mas Rebecca recuou discretamente.

— Eu sei disso.

— Então comporte-se como tia dela por alguns minutos, antes de se comportar apenas como mãe dele.

A expressão de Rebecca mudou.

— Isso é injusto.

— Injusto seria eu chegar aqui e condenar Simon sem ouvir ninguém. Ainda não fiz isso. Você, entretanto, já decidiu que Renesmee mentiu e que Claire apenas participou de uma situação que minha esposa interpretou errado. Não volte a fazer isso diante de mim.

Ouvi passos na escada.

Virei o rosto.

Renesmee estava descendo.

No instante em que a vi, toda a discussão com Rebecca perdeu importância. Minha esposa estava pálida. Havia tensão em seu rosto e uma rigidez incomum em seus movimentos. Ela segurou o corrimão até chegar aos últimos degraus e então veio diretamente em minha direção.

— Jacob, eu preciso conversar com você.

— Não, não precisa — Rebecca se antecipou. — Você já contou a sua versão para todos. Jacob, ela está mentindo sobre Simon.

Renesmee parou.

Eu me virei lentamente para minha irmã.

— Rebecca.

— Meu filho está sendo mantido preso pelos seus seguranças porque ela mandou! Ela não tem o direito de fazer isso simplesmente porque entrou em um quarto e decidiu...

— Cale-se.

Rachel segurou o braço de Rebecca antes que ela respondesse.

Eu raramente falava daquela maneira com minhas irmãs. Talvez por isso Rebecca tenha ficado tão imóvel.

— Você teve a oportunidade de me dizer o que sabia e acabou de admitir que não presenciou absolutamente nada. Não voltará a chamar minha esposa de mentirosa na minha presença apenas porque a versão dela pode ser inconveniente para seu filho.

— Mas...

— Eu não terminei. — Sustentei seu olhar. — Se Simon não fez nada, os fatos demonstrarão isso. Se fez, o fato de carregar o seu sangue e o meu sobrenome não servirá como escudo. Até eu conversar com Claire, você ficará longe dela. Não vai interrogá-la, não vai pedir que explique coisa alguma e, principalmente, não vai tentar convencê-la de que aquilo que aconteceu foi um mal-entendido.

Rebecca parecia prestes a chorar.

— Você está falando como se já tivesse condenado Simon.

— Estou falando como pai de uma menina de quatorze anos que ainda nem sequer conseguiu descobrir por que foi chamado às pressas para casa.

Olhei para Rachel.

— Fique com ela.

Rachel assentiu.

Então me voltei para Renesmee.

— Agora me diga o que aconteceu.

Ela olhou rapidamente para Rebecca e depois para mim.

— Não aqui.

— Renesmee, minha paciência não está particularmente generosa hoje.

— Eu sei. Por isso estou pedindo que venha comigo.

Ela estendeu a mão.

Olhei para os dedos dela durante um segundo e os segurei. Estavam frios. Renesmee fechou a mão ao redor da minha e me conduziu em direção à escada. Subimos sem conversar, atravessando o corredor principal enquanto eu esperava que ela começasse a falar. Ela não falou. Aquilo me incomodou mais do que qualquer frase poderia ter feito. Renesmee não era uma mulher que precisava de muito incentivo para dizer o que pensava. Se estava escolhendo cuidadosamente onde me levar antes de contar o que vira, eu não queria imaginar qual seria a explicação.

Entramos no nosso quarto.

Ela fechou a porta.

Soltou minha mão e permaneceu alguns segundos diante de mim.

— O que eu vou contar é difícil.

— Não torne mais difícil demorando para contar.

Ela respirou fundo.

— Jacob...

— Onde está Claire?

— No quarto dela. Sarah está com ela.

— Ela está ferida?

A hesitação de Renesmee fez meu corpo inteiro se enrijecer.

— Eu não sei se está fisicamente ferida. Eu não quis examiná-la, nem fazer perguntas que ela não estivesse preparada para responder.

— Então me diga o que você sabe.

Renesmee passou as mãos uma pela outra.

— Eu estava almoçando com Emma. Will estava comigo e as crianças também. Claire me mandou uma mensagem.

— O que dizia?

— “Por favor, venha para casa.”

Meu maxilar se contraiu.

— Ela explicou por quê?

— Não. Eu liguei e ela não atendeu. Tentei de novo. Nada. Deixei Will com Emma e os seguranças e vim imediatamente. Quando cheguei, Sarah não estava em casa e você também não. Subi para procurar Claire e não havia segurança no corredor dela.

— Não havia segurança?

— Não.

Eu guardaria aquela informação.

— Continue.

— Fui até a porta do quarto. Estava trancada. Chamei Claire, bati algumas vezes e ninguém respondeu. Depois...

Ela parou.

— Depois o quê?

Renesmee ergueu os olhos para mim.

— Simon abriu a porta.

Aquela informação eu já recebera de Rebecca, mas ouvi-la de Renesmee produziu um efeito diferente.

— Ele estava sozinho com Claire?

— Sim.

— O que estava fazendo lá?

— Eu não sei tudo o que ele tinha feito antes de eu chegar.

Minha voz tornou-se mais dura.

— Renesmee, diga exatamente o que você viu.

Ela respirou profundamente.

— Ele abriu a porta e me puxou para dentro. Disse que eu ficaria quieta. Claire estava na cama.

Esperei.

Renesmee desviou os olhos.

— Ela estava chorando.

Alguma coisa fria percorreu minha coluna.

— E Simon?

— Tentou agir como se não fosse nada. Eu perguntei o que estava acontecendo e ele disse que Claire estava fazendo drama. Depois disse que ela sempre quis aquilo, que só estava daquele jeito porque tinha ciúmes do interesse dele por mim.

Minha mandíbula travou.

— Daquilo o quê?

Renesmee não respondeu.

— O que ele quis dizer com “aquilo”?

— Eu não sei exatamente.

— Renesmee.

Ela finalmente olhou para mim, e vi que seus olhos estavam úmidos.

— Jacob, eu não consigo afirmar até onde ele foi porque Claire ainda não me contou. Eu não vou inventar o que não vi. Mas eu sei como ela estava. Sei que a porta estava trancada. Sei o que ele disse. Sei que ele tentou me impedir de sair e, quando eu o afastei, veio para cima de mim e tentou me agarrar. Eu o chutei. Claire conseguiu sair e começou a gritar por ajuda.

O restante deixou de ser necessário.

A expressão de Claire nas últimas semanas surgiu em minha memória com uma clareza que me revoltou. Ela evitando determinados corredores, ficando mais tempo no quarto, mudando de comportamento desde que Simon começara a trabalhar na segurança da mansão. Eu vira algumas daquelas mudanças e as atribuíra ao temperamento de uma adolescente que ainda testava limites. Renesmee as percebera. Renesmee, criada em um lugar onde aprendera cedo a observar portas, mãos e comportamentos, percebera que alguma coisa estava errada dentro da minha própria casa antes de mim.

Saí do quarto.

— Jacob!

Não parei.

Atravessei o corredor rapidamente e abri a porta do quarto de Claire.

Sarah estava sentada na cama com minha filha nos braços.

Parei na entrada.

Claire estava encolhida contra minha mãe, o rosto inchado, os cabelos desalinhados e os olhos vermelhos. Quando levantou a cabeça e me viu, alguma coisa em sua expressão se rompeu.

— Pai...

Fechei a porta atrás de mim.

Claire começou a chorar.

— Eu não queria. Pai, eu não queria.

Meu peito subiu e desceu enquanto eu tentava controlar uma fúria que já não tinha relação com negócios, território, Leah, Moretti ou Volturi. Aquilo estava acima de qualquer estrutura que eu comandasse. Minha filha estava olhando para mim como se precisasse convencer o próprio pai de que não consentira com alguma coisa que jamais deveria ter sido colocada sobre os ombros dela.

Caminhei até a cama.

Sarah me olhou em silêncio e afrouxou os braços.

Ajoelhei-me diante de Claire.

— Olhe para mim, filha.

Ela chorava demais para conseguir imediatamente.

Passei a mão pelos cabelos dela.

— Claire, olhe para mim.

Ela finalmente ergueu o rosto.

Não perguntei o que Simon fizera. Não naquele momento. Eu precisava de uma única resposta antes de qualquer outra coisa.

— Isso aconteceu apenas hoje?

Claire congelou.

A reação atingiu meu estômago antes que sua voz chegasse aos meus ouvidos.

Ela negou lentamente com a cabeça.

— Não.

Minha mão permaneceu nos cabelos dela.

— Não foi a primeira vez?

O choro aumentou.

— Não.

Por alguns segundos, eu não consegui pensar em nada além do fato de que Simon estivera circulando pela minha casa sob minha autorização. Rebecca e Solomon haviam pedido que eu lhe desse responsabilidade, que o colocasse próximo aos meus homens, que permitisse que aprendesse. Eu permitira. Dei-lhe acesso à propriedade, aos corredores e à minha família enquanto me ocupava em impedir que ameaças externas chegassem até eles.

E minha filha estivera tentando evitar um perigo que eu próprio deixara entrar.

Claire cobriu o rosto.

— Eu devia ter contado.

Estendi os braços e a puxei para mim.

Ela veio imediatamente.

Sentei-me na beirada da cama e a abracei contra o peito. Claire agarrou meu paletó com as duas mãos e enterrou o rosto em mim. Passei uma das mãos pelos cabelos dela, lentamente, enquanto a outra a mantinha protegida contra meu corpo.

Beijei sua cabeça.

— Não. Você não vai assumir essa culpa.

— Eu fiquei com medo.

Fechei os olhos.

— Eu sei.

— Ele disse que ninguém ia acreditar.

Minha mão parou por um instante.

Sarah baixou o rosto.

Eu afastei Claire apenas o suficiente para vê-la.

— Escute com atenção. Eu acredito em você.

Ela chorou ainda mais.

— Mesmo sendo o Simon?

— Não existe um sobrenome nesta família que seja mais importante do que aquilo que aconteceu com você.

— A tia Rebecca...

— Sua tia não decide no que eu acredito.

Passei o polegar cuidadosamente pelo rosto dela.

— Eu sou seu pai. E eu acredito em você.

Claire voltou a se agarrar a mim.

Abracei-a com força e beijei seus cabelos novamente. Minha raiva continuava crescendo, mas eu não permitiria que ela a visse como mais uma coisa da qual precisasse ter medo. Aquele não era o momento de perguntar quantas vezes, quando começara ou até onde Simon havia ido. Haveria tempo para descobrir tudo, respeitando o que Claire conseguisse contar e sem transformar minha necessidade de respostas em mais uma violência contra ela.

— Eu falhei com você — disse, mantendo a voz baixa. — Eu coloquei homens em cada entrada desta propriedade, acompanho carros, horários e rotas porque passei anos acreditando que proteger minha família significava impedir que alguém chegasse até vocês. E não percebi que precisava olhar para quem eu mesmo permitia entrar.

Claire levantou o rosto.

— Pai, não foi culpa sua.

Beijei sua testa.

— Não cabe a você me absolver. Cabe a mim garantir que isso nunca aconteça novamente.

Ela respirou com dificuldade e tornou a encostar a cabeça em meu peito.

Continuei acariciando seus cabelos enquanto encontrava o olhar de Sarah por cima dela. Minha mãe conhecia aquele silêncio. Conhecia o filho que criara e sabia que a tranquilidade da minha voz não significava ausência de fúria. Significava apenas que eu ainda estava sentado ao lado da pessoa que importava mais naquele momento.

— Ele vai pagar? — Claire perguntou baixinho.

Minha mão continuou deslizando por seus cabelos.

— Sim.

Ela apertou meu paletó.

Inclinei-me e beijei novamente sua cabeça.

— Eu falhei em protegê-la antes, filha. Não vou cometer esse erro duas vezes. O que aconteceu não será enterrado, não será chamado de mal-entendido e ninguém nesta família vai obrigá-la a carregar a culpa para proteger Simon. Ele vai responder pelo que fez.

E, enquanto segurava minha filha nos braços, eu soube que Rebecca ainda não compreendia a gravidade do erro que cometera ao me receber tentando proteger o filho antes mesmo de perguntar o que havia acontecido com Claire. Simon havia confiado no sangue, no sobrenome e no fato de ser meu sobrinho.

Ele ainda não compreendera que nenhuma dessas coisas o protegeria de mim.


Permaneci com Claire por mais alguns minutos sem fazer novas perguntas. Não precisava saber naquele instante quantas vezes Simon entrara em seu quarto, quando aquilo começara ou de que maneira conseguira mantê-la em silêncio. Minha necessidade de compreender tudo era menor do que a necessidade dela de perceber que finalmente estava segura. Claire continuava abraçada a mim, os dedos ainda presos ao tecido do meu paletó, enquanto eu passava lentamente a mão por seus cabelos. Aos poucos, o choro perdeu força e se transformou em uma respiração irregular. Eu conhecia minha filha como uma menina que respondia antes de pensar, discutia regras, batia portas quando estava furiosa e conseguia transformar qualquer punição em uma negociação exaustiva. Vê-la tão quieta era mais perturbador do que qualquer grito teria sido.

— Você não precisa me contar mais nada agora — falei, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto. — Quando quiser falar, eu vou ouvir. Se preferir falar primeiro com sua avó, com Renesmee ou com outra pessoa, também vou respeitar. Não existe nenhuma obrigação de me explicar tudo hoje.

Claire limpou o rosto com as costas da mão.

— Você está bravo comigo?

A pergunta me atingiu de uma maneira que precisei de alguns segundos para responder.

— Com você?

Ela assentiu timidamente.

— Porque eu não contei.

Segurei seu rosto entre as mãos.

— Não. Estou furioso porque você passou por isso acreditando que precisava esconder de mim. Essa diferença é importante. Você não me deve um pedido de desculpas, Claire. Se alguém falhou nesta relação, fui eu.

— Eu achei que você ia fazer alguma coisa muito ruim.

— Eu vou resolver o que aconteceu.

— É diferente.

Apesar de tudo, quase reconheci ali a Claire que eu conhecia. Inteligente demais para aceitar uma resposta cuidadosamente construída.

— É — admiti. — É diferente. Mas não é uma preocupação que vou colocar sobre você agora.

A porta se abriu discretamente e Renesmee apareceu.

Ela não entrou de imediato. Primeiro olhou para Claire, como se pedisse permissão sem palavras. Minha filha estendeu a mão para ela. Renesmee atravessou o quarto e se aproximou da cama, segurando os dedos dela.

— Will ainda está com Emma — disse em voz baixa. — Mandei avisarem que ele pode ficar lá mais um pouco. Ele não sabe o que aconteceu.

Assenti.

— Melhor assim.

Claire olhou para Renesmee.

— Obrigada por ter vindo.

Minha esposa apertou sua mão.

— Você me chamou. Eu sempre vou vir.

Baixei os olhos por um instante.

Havia um mês, aquela mulher era uma desconhecida contratada para ocupar uma posição dentro da minha família. Claire passara os primeiros dias deixando bastante claro que não precisava dela. E, quando realmente tivera medo, fora para Renesmee que minha filha mandara uma mensagem.

Beijei a testa de Claire antes de me levantar.

— Vou sair por alguns minutos.

Ela imediatamente segurou minha mão.

— Pai...

Parei e a olhei.

— Eu volto. E ninguém vai entrar aqui sem que você queira.

Sarah se levantou da poltrona.

— Eu fico com ela.

Olhei para minha mãe.

— Não a deixe sozinha.

— Não deixarei.

Sarah esperou que Claire voltasse a se acomodar na cama e então veio até mim. Tocou meu braço e falou baixo o suficiente para que minha filha não precisasse ouvir.

— Jacob, antes de sair daqui, pense no que vai fazer.

Meu olhar encontrou o dela.

— Mãe.

— Estou falando como avó de Claire, não apenas como avó de Simon. O que ele fez precisa ter consequências. Se isso aconteceu como Claire está dizendo, eu não quero ninguém tentando protegê-lo. Mas ele é filho de Rebecca. Ela também é sua irmã. Você está furioso e eu conheço você o suficiente para saber o que isso significa.

— Sei exatamente de quem ele é filho.

— Então pense antes de agir.

Minha mandíbula se contraiu.

— Eu sei o que faço.

Sarah sustentou meu olhar por alguns segundos. Não parecia satisfeita, mas também sabia que insistir diante de Claire seria inútil.

— Eu espero que saiba.

— Cuide da minha filha.

— Vou cuidar.

Saí do quarto e Renesmee veio atrás de mim e fechou a porta cuidadosamente. Dei apenas alguns passos pelo corredor antes de parar. Havia uma pergunta que começara a me incomodar desde que ela contara que Simon mencionara interesse por ela.

— Renesmee.

— O quê?

— Simon alguma vez incomodou você?

Ela não respondeu imediatamente.

Aquilo já era uma resposta.

— Estou perguntando se, antes de hoje, ele já fez alguma coisa que a deixou desconfortável.

Renesmee baixou os olhos.

— Sim.

Fiquei imóvel.

— Quantas vezes?

— Jacob...

— Não estou perguntando para culpá-la. Quero saber.

Ela respirou fundo.

— Algumas. Antes do casamento, ele me encontrou no corredor e ficou fazendo comentários. Claire apareceu e me ajudou a sair da situação. Na noite do casamento ele estava bêbado, me parou no corredor e disse que você era velho demais para mim. Disse que eu deveria escolher alguém mais jovem.

Eu já sentia a raiva retornando.

— Continue.

— Eu perguntei se ele estava falando dele. Simon disse que nós dois poderíamos tirar uma vantagem muito grande da situação. Rachel apareceu antes que ele explicasse. Depois que ele começou a trabalhar aqui, eu tentei evitar ficar sozinha com ele.

— Por quê?

Renesmee finalmente me olhou.

— Porque eu sabia que ele estava interessado em mim e não queria que você descobrisse.

— Por que não?

Ela soltou o ar.

— Porque conheço você.

— Evidentemente não o suficiente, porque está sugerindo que eu a responsabilizaria.

— Não pensei que você me responsabilizaria. Pensei que faria alguma coisa com ele. Simon é seu sobrinho, Rebecca é sua irmã, e eu não queria causar um problema na sua família por causa de comentários idiotas. Eu achei que conseguiria lidar com ele.

A palavra família teve um gosto particularmente desagradável naquele momento.

— E Claire?

Os olhos dela se encheram novamente.

— Eu não sabia. Juro que não sabia. Se tivesse imaginado que ele estava fazendo alguma coisa com ela...

— Eu sei.

— Eu devia ter contado. Talvez você tivesse tirado Simon daqui antes e...

Ela baixou a cabeça.

— Desculpe.

Coloquei dois dedos sob seu queixo e ergui seu rosto.

— Não faça isso.

— Jacob...

— Não carregue o que pertence a ele. Você não sabia o que estava acontecendo com Claire.

— Mas eu sabia que havia alguma coisa errada com Simon.

— E eu sou tio dele há toda a vida. Sou pai de Claire há quatorze anos. Se começarmos a distribuir culpa entre as pessoas que deveriam ter percebido, você estará muito longe do primeiro lugar.

Ela me olhou em silêncio.

Passei o polegar pela linha de seu queixo e me inclinei, selando seus lábios em um beijo breve. Não havia provocação ou desejo naquele gesto. Apenas a necessidade de fazê-la entender que eu não permitiria que transformasse a própria intervenção em culpa.

Quando me afastei, mantive a mão em seu rosto.

— Onde está Simon?

Renesmee engoliu em seco.

— Na sala dos fundos, perto do depósito. Mandei os seguranças ficarem com ele.

— Certo.

Retirei a mão.

— Fique aqui. Ajude minha mãe com Claire.

Ela segurou meu braço antes que eu me afastasse.

— O que você vai fazer com ele?

Olhei para seus dedos em meu braço e depois para seu rosto.

— Não pense nisso.

— Essa resposta não me tranquiliza.

— Não foi feita para tranquilizá-la.

— Jacob...

Cobri a mão dela com a minha e a retirei cuidadosamente do meu braço.

— Claire precisa de você. Eu preciso que esteja com ela agora.

Renesmee percebeu que não conseguiria outra resposta.

— Está bem.

Afastei-me e segui pelo corredor.

Quanto mais me aproximava da escada, mais difícil se tornava manter a mesma contenção que eu tivera no quarto de Claire. Lá dentro, minha filha precisava de um pai. Fora dali, eu podia voltar a ser o homem responsável por garantir que determinadas coisas não acontecessem duas vezes.

Desci as escadas e Solomon havia chegado.

Ele estava no centro da sala com Rebecca diante dele. Rachel permanecia próxima, e Paul estava alguns metros atrás. Embry também estava ali. Rebecca chorava enquanto falava rapidamente com o marido.

— Solomon, faça alguma coisa. Por favor. Jacob não está pensando direito. Eles estão mantendo Simon preso como se ele fosse um criminoso e ninguém está ouvindo o que ele tem para dizer.

Solomon estava pálido.

Ele me viu descendo e Rebecca também.

— Jacob, por favor...

Continuei até o último degrau.

— Ela contou?

Minha irmã ficou imóvel.

— Quem?

— Claire.

— Eu não falei com ela. Você disse que...

— Então não sabe.

Solomon olhou para mim.

— Jacob, o que aconteceu?

Parei diante dele.

Durante todo o tempo em que estivera com Claire, eu mantivera a voz baixa. Contivera cada impulso porque minha filha não precisava assistir à minha fúria. Mas agora ela estava no andar superior, protegida por Sarah e Renesmee, e diante de mim estava a mãe do homem que passara sabe-se lá quanto tempo fazendo minha filha acreditar que ninguém acreditaria nela.

Rebecca começou novamente:

— Simon disse que Renesmee entendeu tudo errado. Ele jamais faria alguma coisa com Claire. Eles são primos, cresceram juntos, ele...

— SEU FILHO TEM ABUSADO DA MINHA FILHA DEBAIXO DO MEU TETO!

Minha voz atravessou a sala e Rebecca parou.

Rachel deu um passo para trás.

Eu raramente gritava. Talvez por isso o silêncio que veio depois tenha sido absoluto.

Solomon não se moveu e Rebecca levou a mão à boca.

— Não.

— Claire acabou de me dizer que hoje não foi a primeira vez.

As pernas de Rebecca pareceram perder força, e Rachel segurou seu braço.

— Não... Jacob, não. Deve haver alguma explicação.

— Existe. Seu filho encontrou uma menina de quatorze anos que tinha medo suficiente para permanecer em silêncio e acreditou que meu sobrenome o protegeria quando a verdade aparecesse.

— Ele é primo dela...

— Pare de repetir isso como se tornasse o que ele fez menos grave.

Solomon fechou os olhos por alguns segundos.

Quando tornou a abri-los, não olhou para Rebecca. Olhou para mim.

— Claire disse que aconteceu outras vezes?

— Sim.

O rosto dele mudou e Rebecca segurou o braço do marido.

— Solomon, ele é nosso filho.

Solomon olhou finalmente para ela.

Havia uma frieza em sua expressão que eu conhecia. — Ele não é mais meu filho.

Rebecca recuou como se tivesse sido atingida.

— Não diga isso.

— O homem que faz isso com uma menina não entra novamente na minha casa como meu filho.

— Solomon!

Ele retirou a mão dela de seu braço.

Não houve violência no gesto. Apenas decisão.

Voltei-me para Paul.

— Leve Simon para o depósito do Sul.

Rachel imediatamente olhou para o marido.

Paul encontrou os olhos dela por um instante. Vi o conflito atravessar o rosto da minha irmã, mas ela não disse nada.

Paul voltou a atenção para mim.

— Sim, Don.

Em seguida saiu.

Rebecca começou a chorar com mais força.

— Jacob, por favor. Por favor, ele é meu filho. Eu sei que você está com raiva, mas não faça isso. Não mate meu filho.

Olhei para ela.

Por alguns segundos, pensei em Claire agarrada ao meu paletó, perguntando se eu estava bravo porque ela não havia contado. Pensei em minha filha dizendo que Simon lhe garantira que ninguém acreditaria nela. Pensei em Renesmee baixando a cabeça e pedindo desculpas porque também havia sido incomodada por ele e acreditara que o silêncio protegeria minha família de um conflito.

— Eu não vou matar Simon.

Rebecca ergueu os olhos imediatamente. A surpresa apareceu antes do alívio.

Solomon também me observou, embora não dissesse nada.

Caminhei até minha irmã.

— Não interprete isso como misericórdia.

O alívio desapareceu.

— Jacob...

— Seu filho continuará respirando porque Claire já carregou peso suficiente. Não vou acrescentar à vida dela a morte de um homem e permitir que, algum dia, alguém insinue que ele morreu por causa do que ela contou. Ela não será responsabilizada pelas minhas decisões.

Rebecca chorava em silêncio.

— Então o que você vai fazer?

Meu olhar permaneceu no dela.

— Simon vai responder pelo que fez.

— Como?

— Você não precisa saber agora.

— Eu sou mãe dele.

— E eu sou pai dela.

Aproximei-me apenas o suficiente para que ela compreendesse cada palavra sem que eu precisasse elevar novamente a voz.

— Eu disse que não vou matá-lo, Rebecca. Não disse que vou perdoá-lo. Não disse que ele continuará fazendo parte desta família. E certamente não disse que sairá desta situação sem pagar pelo que fez com Claire.

Ela fechou os olhos enquanto as lágrimas desciam.

Eu não desviei o olhar.

— Seu filho apostou que o sangue o protegeria de mim. Ele estava errado.