A esposa do Don
1 Prólogo
Renesmee
Aos vinte anos, eu já tinha entendido que algumas perguntas simplesmente não recebiam respostas, por mais tempo que passássemos esperando por elas. Quem eram meus pais era uma dessas perguntas. Por que haviam me abandonado era outra. Durante boa parte da infância, inventei possibilidades para preencher os espaços vazios da minha história, mas, conforme cresci, percebi que imaginar uma família não faria uma aparecer diante de mim.
Eu tinha poucos meses quando fui deixada na entrada do Saint Agnes, um orfanato católico nos arredores de Allentown, na Pensilvânia. Estava enrolada em uma manta clara e havia um pequeno pedaço de papel junto às minhas roupas com apenas uma palavra escrita à mão: Renesmee. Nenhum sobrenome, nenhuma data, nenhum pedido para que cuidassem de mim e nenhuma explicação. As freiras precisaram registrar a criança que alguém deixara naquela madrugada e escolheram Miller por ser simples e comum.
Foi assim que me tornei Renesmee Miller.
As freiras nunca esconderam de mim a maneira como eu havia chegado até elas. Também nunca permitiram que eu crescesse acreditando que havia alguma coisa errada comigo por não ter uma família. O Saint Agnes não era um lugar triste como os orfanatos dos filmes que assistíamos escondidas depois do horário. Havia regras demais, orações demais e uma quantidade absurda de sopa às quartas-feiras, mas também havia cuidado. Cresci dividindo quartos, roupas, brinquedos e atenção com outras crianças, e talvez por isso tivesse aprendido tão cedo a me virar com pouco.
Saí de lá quando completei dezoito anos levando uma mala, algum dinheiro que as irmãs haviam conseguido guardar para mim e a certeza de que precisaria trabalhar se quisesse continuar estudando algum dia.
Dois anos depois, a faculdade continuava sendo apenas uma ideia distante.
Eu trabalhava no Riverside Diner, uma pequena lanchonete perto da Hamilton Street, em Allentown. O estabelecimento tinha bancos vermelhos diante de um balcão comprido, mesas junto às janelas e um letreiro luminoso que piscava de maneira irritante havia meses. O cheiro de café e fritura parecia ter penetrado definitivamente nas paredes, e eu chegava em casa todas as noites carregando o mesmo cheiro nos cabelos e nas roupas.
Não era exatamente a vida que eu havia imaginado quando deixei o orfanato, mas pagava meu aluguel, colocava comida na geladeira e ainda permitia que eu guardasse alguns dólares no fim do mês. Para alguém que não tinha uma família para pedir ajuda quando as coisas davam errado, aquilo significava muito.
Naquela sexta-feira, eu atravessava o salão equilibrando dois pratos quando encontrei o senhor Patterson olhando para o relógio como se os três minutos que havia esperado pelo café da manhã fossem uma ofensa pessoal.
— Ovos mexidos, torradas e bacon — anunciei enquanto colocava o prato diante dele e puxava a cafeteira da bandeja. — E antes que reclame, pedi ao cozinheiro que deixasse o bacon bem passado.
Patterson examinou o prato com uma seriedade que normalmente seria reservada a uma cirurgia.
— Isso não está bem passado, Miller — reclamou enquanto espetava um pedaço de bacon com o garfo.
— Se passar mais do que isso, senhor Patterson, vou precisar entregar as cinzas em uma urna — respondi enquanto enchia sua xícara.
O velho tentou manter a expressão séria, mas o canto da boca se levantou.
— Você está ficando atrevida.
— Culpa da convivência com o senhor — respondi antes de colocar a cafeteira novamente sobre a bandeja.
— Está dando atenção demais ao Patterson — comentou Emma assim que me aproximei do balcão, pegando duas xícaras limpas para colocá-las na prateleira. — Daqui a pouco ele vai acreditar que é seu cliente favorito.
— Ele deixa boas gorjetas — respondi enquanto conferia os pedidos presos diante da cozinha.
Emma soltou uma risada.
— Ele deixa um dólar e cinquenta.
— Exatamente. Boas gorjetas.
Emma trabalhava comigo havia quase um ano. Tinha vinte e três anos, cabelos castanhos que passavam a maior parte do expediente presos em um coque e uma facilidade impressionante para conversar enquanto atendia três mesas ao mesmo tempo. Fora a primeira pessoa que eu realmente podia chamar de amiga desde que deixara o orfanato.
— Você precisa aumentar suas expectativas, Renesmee — disse ela enquanto pegava a cafeteira da minha mão.
— Minhas expectativas pagam o aluguel no fim do mês?
— Infelizmente, não.
— Então continuarei valorizando o dólar e cinquenta do senhor Patterson.
Emma riu enquanto servia café em uma das xícaras.
— Você ainda está naquele quarto?
— Se está falando da minha residência extremamente sofisticada, sim.
— Aquilo não é uma residência. É um armário com banheiro — respondeu ela, apoiando uma das mãos no balcão.
— Existe uma janela.
— Que dá para uma parede.
— Não podemos exigir demais de uma janela, Emma.
Ela estava prestes a responder quando sua expressão mudou. Os olhos dela passaram por cima do meu ombro e imediatamente perderam o humor.
Não precisei perguntar quem estava atrás de mim.
— Miller — chamou Richard Coleman em um tom que eu já conhecia bem.
Virei-me e encontrei o proprietário do Riverside parado a poucos passos. Richard tinha pouco mais de quarenta anos e herdara a lanchonete do pai. Durante os primeiros meses em que trabalhei ali, nossa relação havia sido estritamente profissional. Depois vieram os elogios. Primeiro sobre meu cabelo, depois sobre meu corpo e, finalmente, sobre como o uniforme ficava em mim. Quando os comentários deixaram de provocar qualquer reação, começaram os toques aparentemente acidentais.
Eu já havia pedido que parasse.
Mais de uma vez.
— Senhor Coleman — respondi enquanto mantinha uma distância segura entre nós.
Os olhos dele desceram lentamente pelo meu corpo antes de voltarem ao meu rosto.
— Quero que organize meu escritório antes de ir embora hoje — ordenou enquanto colocava as mãos nos bolsos.
— Posso fazer isso amanhã pela manhã. Meu turno termina às seis — respondi, tentando manter a voz tranquila.
Richard arqueou uma sobrancelha.
— Não perguntei quando seria mais conveniente para você.
Emma parou de organizar as xícaras ao meu lado.
Eu poderia discutir. Poderia dizer que organizar o escritório dele não fazia parte das minhas funções. Também poderia tirar o avental, colocá-lo sobre o balcão e procurar outro emprego.
Só que meu aluguel venceria na segunda-feira.
— Está bem. Faço antes de ir embora — concordei, segurando a bandeja contra o corpo.
Richard sorriu.
— Sabia que acabaria entendendo.
Ele se afastou em direção à cozinha, e esperei que desaparecesse antes de voltar a respirar normalmente.
— Não fique sozinha com ele — disse Emma imediatamente, aproximando-se de mim.
— Vou apenas organizar o escritório — respondi enquanto pegava outro pedido.
— Renesmee, olhe para mim.
Virei o rosto na direção dela.
— Eu vejo como esse homem olha para você — continuou Emma, diminuindo o tom para que os clientes não ouvissem. — E também vejo como ele encontra qualquer desculpa para encostar em você.
— Eu sei.
— Então por que continua fingindo que não está acontecendo?
Suspirei enquanto apoiava a bandeja no balcão.
— Porque preciso deste emprego, Emma.
— Existem outros empregos.
— E até encontrar um deles, quem paga meu aluguel?
— Você poderia ficar alguns dias comigo.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Você divide um apartamento de dois quartos com sua irmã e duas crianças. Não vou dormir no seu sofá e aumentar suas despesas.
— Prefiro você dormindo no meu sofá a continuar suportando esse homem.
A preocupação no rosto dela me fez suavizar a expressão.
— Eu sei, e agradeço. Mas consigo cuidar de mim.
Emma cruzou os braços.
— Essa é exatamente a frase que as pessoas dizem antes de fazer alguma coisa terrivelmente imprudente.
Sorri discretamente.
— Vá atender a mesa quatro.
— Está me mandando cuidar da minha vida?
— Com muita educação.
— Precisa melhorar a técnica — respondeu ela antes de pegar o bloco de pedidos e se afastar.
Passei o restante da tarde tentando não pensar em Richard. O movimento começou a diminuir depois das quatro, e às seis restavam apenas alguns clientes. Emma terminou o turno alguns minutos depois de mim e apareceu diante do balcão com a bolsa pendurada no ombro.
— Venha comigo — pediu enquanto me observava guardar algumas xícaras.
— Preciso terminar o escritório.
— Deixe para amanhã.
— Ele pediu hoje.
Emma olhou na direção da porta que levava aos fundos.
— Não estou gostando disso.
— Você está preocupada demais.
— E você está preocupada de menos — rebateu ela, segurando meu braço. — Se ele fizer qualquer coisa, me ligue.
Peguei o celular do bolso do avental e mostrei a ela.
— Está vendo? Tenho um telefone e sei usar perfeitamente.
— Estou falando sério.
— Eu também. Se acontecer alguma coisa, ligo para você.
— Prometa.
— Prometo — respondi, apertando carinhosamente a mão dela antes de me afastar.
Emma me abraçou rapidamente.
— Até amanhã.
— Até amanhã — respondi enquanto observava minha amiga atravessar a porta de vidro.
Eu realmente acreditava que a encontraria ali na manhã seguinte.
Pouco depois das seis e meia, o último cliente foi embora. Um dos cozinheiros encerrou o expediente alguns minutos depois, e o silêncio tomou conta da lanchonete. Eu poderia ter ido embora naquele momento. Cheguei a pegar minha bolsa, mas me lembrei do aluguel, das contas acumuladas e dos cento e oitenta e sete dólares que representavam todas as minhas economias.
Deixei a bolsa novamente no armário e caminhei até o escritório.
A porta estava aberta e Richard estava sentado atrás da mesa, olhando alguns papéis.
— Senhor Coleman, o que exatamente precisa ser organizado? — perguntei da entrada, sem fazer qualquer movimento para entrar.
Richard ergueu os olhos.
— Entre e feche a porta.
Meu corpo inteiro ficou em alerta.
— Posso trabalhar com a porta aberta — respondi enquanto permanecia onde estava.
Richard se levantou lentamente.
— Feche a porta, Renesmee.
Foi a primeira vez que ouvi meu primeiro nome na boca dele, e alguma coisa naquele tom me deixou ainda mais desconfortável.
— Prefiro deixar aberta. Se me disser o que precisa ser feito, termino rapidamente e vou embora.
Richard contornou a mesa.
— Você tem sido bastante difícil comigo.
Dei um pequeno passo para trás.
— Não sei do que está falando.
— Sabe perfeitamente.
— Se não precisa que eu organize nada, então vou embora — respondi enquanto me virava em direção ao corredor.
Não consegui dar dois passos.
Richard segurou meu braço.
— Solte-me — ordenei enquanto tentava afastar a mão dele.
— Pare de fazer drama — respondeu ele, apertando meus dedos contra meu braço.
— Tire a mão de mim agora.
Tentei puxar o braço novamente, mas Richard me trouxe para mais perto.
— Você sabe há quanto tempo estou tentando ser gentil com você?
— Isso não é gentileza. Eu já pedi várias vezes que não tocasse em mim — respondi enquanto tentava manter a voz firme, apesar do medo que começava a crescer.
Richard soltou uma risada curta.
— Você precisa muito deste emprego, não precisa?
A pergunta fez meu estômago se contrair.
Ele sabia.
Talvez tivesse ouvido alguma conversa com Emma ou simplesmente percebido que eu aceitava qualquer turno extra e nunca reclamava dos horários. Não importava como havia descoberto. O sorriso em seu rosto mostrava que ele acreditava que minha necessidade lhe dava algum poder sobre mim.
— Isso não lhe dá o direito de encostar em mim — respondi enquanto tentava me afastar.
— Você poderia tornar as coisas muito mais fáceis para si mesma se parasse de agir como uma menina difícil.
— E o senhor poderia tornar as coisas muito mais fáceis soltando meu braço.
Richard aproximou o rosto.
— Não precisa continuar fingindo que não percebe o que existe entre nós.
Senti nojo.
— Não existe nada entre nós.
O sorriso dele desapareceu.
— Sua ingrata.
Consegui arrancar meu braço da mão dele e imediatamente me virei para a porta. Richard me alcançou antes que eu pudesse sair e segurou minha cintura por trás, puxando meu corpo contra o dele.
O medo que senti naquele instante foi diferente de qualquer coisa que já experimentara. Não havia mais dúvida sobre suas intenções.
— Solte-me! — gritei enquanto tentava afastar os braços dele.
— Fique quieta e pare de dificultar as coisas — rosnou Richard enquanto aumentava a força ao redor da minha cintura.
— Eu disse para me soltar!
Acertei meu cotovelo contra ele e ouvi um palavrão. Richard afrouxou os braços por um segundo, tempo suficiente para que eu conseguisse me virar e empurrá-lo com toda a força.
Ele cambaleou para trás.
Corri em direção à porta, mas seus dedos agarraram meus cabelos e me puxaram novamente.
Gritei.
Richard tentou me prender contra a mesa enquanto eu me debatia. Minhas mãos procuraram qualquer coisa que pudesse usar para afastá-lo, e meus dedos tocaram um objeto frio e pesado.
Era um porta-canetas de metal.
Segurei-o.
— Pare de lutar! — Richard gritou enquanto tentava imobilizar meu braço.
— Saia de cima de mim!
Não pensei no que estava fazendo. Apenas ergui o objeto e bati.
O som do impacto me fez congelar.
Richard me soltou imediatamente e cambaleou para trás, levando uma das mãos à lateral da cabeça.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
Então o sangue apareceu entre seus dedos.
— Meu Deus... — murmurei enquanto ainda segurava o porta-canetas.
Richard olhou para mim com uma expressão de espanto e ódio.
— Sua desgraçada...
Ele tentou dar um passo na minha direção, mas perdeu o equilíbrio e se apoiou na mesa. As pernas cederam logo depois e ele caiu no chão.
O porta-canetas escapou dos meus dedos.
Fiquei imóvel por alguns segundos, olhando para Richard enquanto tentava entender o que havia acabado de acontecer. Quando finalmente consegui me mover, aproximei-me o suficiente para perceber que ele respirava.
— Senhor Coleman? — chamei enquanto mantinha distância. — Está me ouvindo?
Ele não respondeu.
Peguei meu celular e quase disquei para a polícia.
Era o certo.
Eu deveria chamar uma ambulância, esperar a polícia e contar exatamente o que acontecera. Richard havia me atacado. Eu havia me defendido. Não existia motivo para fugir.
Então meus olhos percorreram o escritório.
Não havia ninguém ali.
Nenhuma testemunha.
Richard Coleman era conhecido na cidade. Tinha dinheiro, amigos influentes e um irmão que trabalhava no tribunal do condado. Eu era uma jovem de vinte anos que crescera em um orfanato, não tinha família, não tinha dinheiro para contratar um advogado e acabara de acertar o próprio patrão na cabeça com um objeto de metal.
Ele poderia contar qualquer história quando acordasse.
E haveria a palavra dele contra a minha.
Guardei o telefone com as mãos trêmulas, peguei minha bolsa e saí do escritório. Atravessei a lanchonete rapidamente e empurrei a porta de vidro, sentindo o ar frio da noite atingir meu rosto.
Caminhei depressa durante os primeiros quarteirões e depois comecei a correr.
Só diminuí o ritmo quando cheguei ao prédio onde alugava um pequeno quarto. Subi as escadas quase sem sentir as pernas, entrei e tranquei a porta atrás de mim. Encostei as costas na madeira enquanto tentava controlar a respiração, mas foi inútil. As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir.
Eu estava com medo.
Também estava com raiva.
Mas não me arrependia de ter me defendido.
Se pudesse voltar alguns minutos e tivesse que escolher entre permitir que Richard fizesse o que pretendia ou acertá-lo novamente, eu escolheria o porta-canetas.
Meu celular começou a tocar dentro da bolsa.
Emma.
Fiquei olhando para o nome dela na tela até a chamada terminar. Poucos segundos depois, ela ligou novamente.
Eu não consegui atender.
Talvez devesse ter feito isso. Emma era minha amiga e certamente acreditaria em mim, mas eu estava assustada demais para pensar com clareza.
Coloquei o telefone sobre a cama e puxei minha pequena mala de dentro do armário. Enquanto guardava algumas roupas, documentos e os poucos objetos que possuía, o celular continuou recebendo chamadas e mensagens.
Quando terminei, sentei-me na beirada da cama e finalmente criei coragem para olhar.
Sete chamadas de Emma.
Duas mensagens.
Onde você está?
A segunda havia chegado poucos minutos antes.
Renesmee, Coleman foi levado para o hospital. A polícia esteve aqui perguntando por você. Por favor, me ligue.
O alívio por saber que ele estava vivo durou pouco.
A polícia estava me procurando.
Passei as mãos pelo rosto e tentei pensar. Poderia voltar. Poderia contar a verdade. Talvez acreditassem em mim.
Talvez não.
Eu não estava disposta a descobrir enquanto Richard tinha a oportunidade de construir a própria versão da história.
Levantei-me e terminei de fechar a mala. Antes de sair, peguei uma pequena caixa guardada no fundo do armário. Dentro dela estavam a manta com a qual eu havia sido encontrada e o pedaço de papel que as freiras conservaram durante todos aqueles anos.
Abri a caixa e passei os dedos pelo papel envelhecido.
Renesmee.
Aquela única palavra era tudo o que meus pais haviam deixado para mim.
Guardei a caixa entre as roupas e saí do quarto sem saber se algum dia voltaria.
Quando cheguei à rodoviária, havia vários destinos disponíveis nos painéis. Philadelphia, Harrisburg, Newark e Nova York estavam entre eles. Fiquei alguns minutos olhando para os horários enquanto tentava decidir para onde uma mulher de vinte anos, com uma mala e pouco mais de cem dólares, deveria ir quando precisava desaparecer.
Nova York tinha milhões de habitantes.
Ninguém me conhecia lá.
Ninguém sabia quem era Renesmee Miller.
Aproximei-me do guichê e coloquei o dinheiro sobre o balcão.
— Uma passagem para Nova York, por favor — pedi enquanto a atendente digitava algumas informações no computador.
— Só ida? — perguntou a mulher sem tirar os olhos da tela.
Olhei para a mala ao meu lado e pensei no quarto que acabara de abandonar, no emprego que certamente havia perdido e na única amiga que deixaria para trás.
Eu não tinha uma casa esperando por mim em Allentown. Não tinha pais preocupados com meu desaparecimento nem parentes que pudessem me esconder até tudo se resolver.
Na verdade, nunca tivera nada que realmente me prendesse àquela cidade.
— Só ida — respondi enquanto entregava o restante do dinheiro necessário.
Quarenta minutos depois, eu estava sentada junto à janela de um ônibus que seguia para Nova York. Mantive a testa apoiada no vidro enquanto as luzes de Allentown ficavam cada vez mais distantes.
Eu não sabia o que encontraria quando descesse daquele ônibus. Não tinha emprego, endereço ou alguém para telefonar quando chegasse. Depois de pagar a passagem, restara tão pouco dinheiro que eu provavelmente conseguiria me manter por apenas alguns dias.
Mesmo assim, enquanto a cidade desaparecia atrás de mim, senti que permanecer ali teria sido muito mais assustador do que partir.
Passei vinte anos sem saber de onde tinha vindo.
Naquela noite, pela primeira vez, também não fazia ideia de para onde estava indo.
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