A esposa do Don
2 Nova York
Renesmee
Nova York não se parecia em nada com aquilo que eu imaginava.
Talvez o problema estivesse justamente nas minhas expectativas. Durante anos, tudo o que eu conhecera da cidade vinha de filmes, fotografias e revistas antigas que apareciam no Saint Agnes. Eu imaginava prédios iluminados, pessoas elegantes atravessando avenidas movimentadas, táxis amarelos e vitrines que permaneciam acesas durante a madrugada. Ninguém parecia interessado em mostrar a parte da cidade onde uma garota de vinte anos, com pouco mais de cem dólares na bolsa e nenhuma ideia do que faria no dia seguinte, poderia realmente morar.
Cheguei à cidade no início da manhã depois de passar praticamente toda a viagem acordada. Sempre que fechava os olhos, voltava ao escritório de Richard Coleman. Sentia novamente a mão dele prendendo meu braço, ouvia sua voz e, principalmente, lembrava do som do porta-canetas atingindo sua cabeça. Então abria os olhos e olhava pela janela, tentando convencer a mim mesma de que ele estava vivo e que eu apenas havia me defendido.
Eu repetira aquilo tantas vezes durante a madrugada que as palavras já deveriam ter perdido o efeito.
Não perderam.
Desci do ônibus carregando minha mala em uma das mãos e a bolsa na outra. O movimento ao meu redor era tão intenso que precisei parar por alguns segundos para decidir para onde ir. Pessoas passavam apressadas sem sequer olhar umas para as outras, carros disputavam espaço nas ruas e vozes se misturavam ao barulho constante da cidade. Eu estava cansada, com fome e ainda usava a mesma roupa com que havia saído de Allentown.
A primeira coisa que fiz foi comprar um café e alguma coisa para comer. Arrependi-me quase imediatamente quando percebi quanto havia gastado. Passei os minutos seguintes sentada diante de uma pequena mesa, contando discretamente o dinheiro que restava dentro da bolsa e chegando à conclusão de que minha permanência em Nova York poderia ser muito mais curta do que eu esperava.
Precisava encontrar um lugar barato para dormir antes de qualquer outra coisa.
Perguntei a algumas pessoas e recebi respostas tão diferentes que fiquei ainda mais confusa. Depois de conversar com uma mulher que trabalhava em uma pequena loja perto do terminal, segui a indicação dela e fui para o Bronx. Acabei chegando a uma região de Mott Haven, onde os prédios luxuosos que eu associava a Nova York deram lugar a construções antigas, lojas pequenas, oficinas, mercados e edifícios residenciais espremidos uns contra os outros.
Ainda havia movimento por toda parte, mas aquele lugar parecia mais próximo da realidade que eu podia pagar.
Caminhei por quase uma hora arrastando a mala pelas calçadas enquanto procurava alguma placa oferecendo quartos. Entrei em dois lugares e saí assim que ouvi os valores. No terceiro, uma mulher atrás de um balcão me informou que poderia alugar um quarto por semana, mas exigia pagamento adiantado. Quando disse o preço, calculei rapidamente quanto sobraria e percebi que teria dinheiro suficiente para comer durante alguns dias, desde que não fosse exigente.
Eu nunca tivera o privilégio de ser exigente.
A proprietária se chamava senhora Alvarez e devia ter pouco mais de sessenta anos. Ela me entregou uma chave presa a uma pequena placa de plástico com o número do quarto e apontou para uma escada estreita.
— Segundo andar, última porta à esquerda — explicou enquanto guardava o dinheiro dentro de uma gaveta. — O banheiro fica no corredor e é compartilhado. A cozinha fica no primeiro andar, mas não deixe comida na geladeira sem colocar seu nome.
— Certo. Obrigada — respondi enquanto segurava a chave.
Ela olhou para minha mala. — Vai ficar muito tempo?
A pergunta me deixou desconfortável porque eu não sabia responder.
— Ainda não sei. Estou procurando trabalho.
— Então procure rápido — aconselhou ela enquanto fechava a gaveta. — Nova York é uma cidade maravilhosa quando se tem dinheiro. Quando não se tem, ela perde o encanto depressa.
Sorri discretamente. — Vou me lembrar disso.
A senhora Alvarez apontou novamente para a escada e voltou sua atenção para uma pequena televisão atrás do balcão.
Subi carregando a mala, e quando finalmente encontrei o número indicado na chave, precisei empurrar a porta com o ombro para fazê-la abrir. O quarto era pequeno, embora não muito diferente daquele que eu alugava em Allentown. Havia uma cama de solteiro encostada na parede, uma cômoda antiga, uma cadeira e uma pequena janela com uma cortina amarelada. As paredes precisavam de pintura, e o piso de madeira fazia barulho a cada passo.
Coloquei a mala sobre a cama e abri a janela.
A vista não era exatamente inspiradora. Eu podia ver a lateral de outro prédio, uma escada de incêndio e algumas roupas penduradas para secar em uma janela do outro lado. O barulho da rua entrava facilmente no quarto, acompanhado por uma discussão que acontecia em algum apartamento próximo e pelo som distante de uma sirene.
Ainda assim, eu tinha uma porta que podia trancar.
Naquele momento, era suficiente.
Tirei o casaco e sentei-me na beirada da cama. Meu corpo finalmente começava a cobrar pela noite sem dormir. Eu poderia deitar e descansar algumas horas, mas sabia que não conseguiria. Precisava encontrar trabalho antes que o pouco dinheiro restante desaparecesse.
Antes disso, havia uma coisa que eu precisava fazer.
Eu desligara meu celular ainda durante a viagem porque estava com medo de que pudesse ser localizada por ele. Talvez fosse uma preocupação exagerada, mas eu não entendia o suficiente sobre tecnologia para saber o que a polícia poderia ou não fazer. Preferia não correr riscos.
Desci novamente e encontrei a senhora Alvarez organizando alguns papéis atrás do balcão.
— Senhora Alvarez, posso lhe pedir uma coisa? — perguntei enquanto me aproximava.
Ela ergueu os olhos. — Depende.
— Preciso fazer uma ligação. Meu telefone ficou sem bateria durante a viagem.
A mentira saiu facilmente, e isso me incomodou.
A mulher olhou para o aparelho antigo sobre o balcão.
— É ligação local?
— Não. Para a Pensilvânia.
Ela fez uma expressão pouco satisfeita. — Isso vai me custar.
Abri a bolsa e retirei algumas notas. — Eu pago.
A expressão dela melhorou imediatamente. — Seja rápida.
Agradeci e peguei o telefone. Eu sabia o número de Emma de memória e disquei devagar, sentindo meu coração acelerar a cada toque.
Ela atendeu no terceiro.— Alô?
Ouvir sua voz quase desfez todo o esforço que eu havia feito para permanecer calma.
— Emma, sou eu.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Renesmee?
Afastei um pouco o telefone quando a voz dela aumentou.
— Sim, sou eu.
— Onde você está? Meu Deus, Renesmee, onde você está? Eu estou tentando falar com você desde ontem!
— Emma, fale mais baixo — pedi enquanto olhava discretamente para a senhora Alvarez.
— Falar mais baixo? Você desapareceu! A polícia esteve na lanchonete, Coleman está no hospital e ninguém sabe onde você está. Eu fui até o seu prédio pela manhã e disseram que você saiu com uma mala.
Fechei os olhos por um instante.— Eu estou bem.
— Isso não responde à minha pergunta. Onde você está?
— Não posso dizer.
— Renesmee, não faça isso comigo.
A preocupação na voz dela me atingiu com força.
— Eu não queria preocupar você. Foi por isso que liguei.
— Então me diga onde está e eu vou buscar você.
— Não.
— Por quê?
Segurei o telefone com mais força.
— Porque Coleman vai dizer que eu o ataquei.
— Ele atacou você primeiro!
Abri os olhos. — Como sabe?
— Porque eu conheço aquele homem. Porque vi como ele tratava você. E porque quando voltei à lanchonete depois que você não respondeu às minhas ligações, encontrei seu avental no chão perto do escritório. Não sou idiota, Renesmee.
Engoli em seco. — A polícia sabe disso?
— Eu contei que ele vinha assediando você.
Aquilo me surpreendeu.— Você contou?
— Claro que contei. Também disse que pedi para você não ficar sozinha com ele. Mas eles precisam ouvir sua versão. — E Coleman?
Emma demorou um pouco antes de responder.
— Está vivo.
Meu peito relaxou.
— Ele acordou?
— Não sei. Ouvi dizer que levou alguns pontos e ficou em observação. Renesmee, você precisa voltar.
Passei a mão pela testa.
— Não posso.
— Você se defendeu.
— Nós duas sabemos disso. Não significa que todo mundo vai acreditar.
— Fugir também não vai ajudar.
Eu sabia. Essa era a pior parte.
— Preciso de algum tempo.
— Para quê?
Olhei através da porta de vidro para a rua movimentada. — Para pensar no que vou fazer.
— Pelo menos me diga onde você está.
— É melhor que você não saiba.
— Melhor para quem?
— Para você. Se alguém perguntar, poderá dizer que realmente não sabe.
Emma ficou em silêncio por alguns segundos. Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Você está segura?
Olhei ao redor.
O lugar não era bonito. Não era confortável. Eu não conhecia absolutamente ninguém naquela cidade.
Mas Richard Coleman não sabia onde eu estava.
— Estou.
— Tem onde dormir?
— Tenho.
— Tem dinheiro?
Hesitei.
— Tenho algum.
— Isso significa não.
— Significa que preciso encontrar um emprego.
Ouvi Emma suspirar do outro lado.
— Você é a pessoa mais teimosa que conheço.
— Cresci em um orfanato. Aprendemos cedo a resolver nossos próprios problemas.
— E também deveria ter aprendido que pedir ajuda não é crime.
Sorri pela primeira vez desde que chegara à cidade.
— Vou ficar bem.
— Ligue novamente.
— Assim que puder.
— Prometa.
— Prometo.
Emma respirou fundo antes de continuar.
— E, Renesmee, se ficar com medo ou precisar de qualquer coisa, ligue para mim. Não importa onde esteja ou que horas sejam.
Meus olhos arderam.
— Obrigada.
— Cuide-se.
— Você também.
Encerrei a ligação antes que minha voz denunciasse o quanto aquela conversa havia mexido comigo.
Devolvi o aparelho à senhora Alvarez e paguei pela chamada. Ela contou as notas antes de guardá-las e voltou aos papéis que estava organizando.
Eu estava prestes a subir quando percebi um jornal dobrado sobre uma das cadeiras próximas à entrada.
Parei diante dele. A seção de classificados estava aberta.
— Esse jornal é seu? — perguntei enquanto apontava para ele.
A senhora Alvarez ergueu os olhos rapidamente.
— É de ontem. Pode pegar se quiser.
— Obrigada.
Sentei-me na cadeira e abri o jornal sobre o colo. Passei diretamente para os classificados e comecei a procurar anúncios de emprego.
Havia vagas para atendentes, recepcionistas, auxiliares de cozinha, funcionários de limpeza e vendedores. Circulei mentalmente algumas possibilidades, embora boa parte exigisse experiência ou referências que eu não tinha. Uma loja procurava uma atendente, mas o endereço ficava longe. Um restaurante precisava de garçonete para o turno noturno. Aquilo eu sabia fazer.
Continuei lendo até que um pequeno anúncio chamou minha atenção.
FAMÍLIA PROCURA BABÁ RESIDENTE.
Li o restante com mais atenção
Procuravam uma mulher maior de dezoito anos, com disponibilidade integral para morar na residência da família e cuidar de uma criança de sete anos. Experiência profissional não era obrigatória. Alimentação e moradia estavam incluídas, além de um salário que fez com que eu aproximasse o jornal do rosto para ter certeza de que não havia lido errado.
Era muito dinheiro.
Dinheiro demais para cuidar de uma criança.
Li novamente.
O anúncio não mencionava o nome da família. Havia apenas um endereço para seleção de candidatas e uma informação dizendo que as entrevistas aconteceriam naquele mesmo dia.
Olhei para o relógio atrás do balcão.
Eu ainda tinha tempo.
— Senhora Alvarez, a senhora conhece este endereço? — perguntei enquanto me levantava e levava o jornal até ela.
A mulher colocou os óculos e observou o local indicado.
— Conheço a região.
— É longe?
— Daqui, um pouco. Por quê?
Mostrei o anúncio.
Ela leu rapidamente e franziu a testa.
— Babá?
— Preciso trabalhar.
— Esse salário é alto para uma babá.
— Também achei.
— Pode ser alguma família muito rica.
— Melhor ainda.
A senhora Alvarez me devolveu o jornal.
— Ou pode ser gente complicada.
— Neste momento, gente complicada pagando em dia parece uma melhora considerável na minha vida.
Ela me observou por alguns segundos, talvez tentando decidir se eu estava brincando.
Peguei uma caneta sobre o balcão.
— Posso?
— Pode.
Anotei o endereço no verso de um recibo e guardei o papel dentro da bolsa.
Se conseguisse aquele trabalho, resolveria meus dois problemas mais urgentes de uma única vez. Teria um salário e, principalmente, um lugar para morar. Eu crescera cercada de crianças no Saint Agnes. Trocara fraldas, ajudara nas refeições, acompanhara noites de febre, separara brigas e passara horas tentando convencer crianças pequenas a dormir. Talvez não tivesse experiência registrada em carteira, mas sabia cuidar de uma criança.
Pela primeira vez desde que saíra de Allentown, alguma coisa parecia estar a meu favor.
Subi rapidamente para o quarto, lavei o rosto, escovei os cabelos e troquei a blusa amarrotada por uma das poucas que ainda estavam apresentáveis dentro da mala. Não havia tempo para fazer muito mais. Coloquei os documentos dentro da bolsa, conferi o endereço outra vez e desci as escadas.
A senhora Alvarez ainda estava atrás do balcão quando passei por ela.
— Já vai? — perguntou enquanto observava minha pressa.
— Se eu esperar mais, posso perder a entrevista.
— Sabe chegar lá?
— Ainda não.
Ela balançou a cabeça.
— Então comece perguntando antes de entrar no transporte errado.
Sorri enquanto ajustava a bolsa no ombro.
— Vou fazer isso. Obrigada pelo jornal e pelo telefone.
— Boa sorte, menina.
— Estou precisando.
Saí para a rua e procurei alguém que pudesse me orientar sobre o endereço. Eu não sabia quem era a família que havia colocado aquele anúncio, por que oferecia tanto dinheiro ou por que uma simples vaga de babá exigia uma seleção presencial em um endereço que, segundo a senhora Alvarez, ficava em uma das regiões mais caras da cidade.
Naquele momento, nenhuma dessas perguntas me pareceu importante.
Eu precisava de um emprego.
E, depois de tudo o que acontecera nas últimas vinte e quatro horas, cuidar de um menino de sete anos parecia ser o problema mais simples que poderia aparecer na minha vida.
Conseguir chegar ao endereço foi mais complicado do que eu havia imaginado. A senhora Alvarez me explicou qual ônibus deveria pegar e onde precisaria fazer a troca, mas eu ainda confirmei o caminho duas vezes antes de sair. Não podia me dar ao luxo de gastar dinheiro entrando no transporte errado, muito menos chegar atrasada a uma entrevista que talvez fosse minha única oportunidade de conseguir trabalho antes que minhas economias terminassem.
Durante boa parte do percurso, permaneci sentada perto da janela com o papel do endereço entre os dedos. A cada parada, conferia os nomes das ruas e observava a cidade mudar diante de mim. Os prédios antigos e as pequenas lojas de Mott Haven deram lugar a avenidas mais movimentadas, construções maiores e uma parte de Nova York muito mais próxima daquela que eu conhecia pelas fotografias. Havia pessoas por toda parte, carros demais e uma pressa que parecia comum a todos, como se cada pessoa tivesse um compromisso importante esperando por ela em algum lugar.
Eu não tinha um compromisso importante.
Tinha uma entrevista para ser babá e dinheiro suficiente para sobreviver por poucos dias.
Naquele momento, entretanto, aquilo era importante o bastante.
Voltei a olhar para o anúncio que havia arrancado cuidadosamente do jornal antes de sair. A informação sobre o salário continuava parecendo absurda. Talvez a criança tivesse alguma necessidade especial que não mencionaram ou a família exigisse disponibilidade durante as vinte e quatro horas do dia. Também poderia ser simplesmente uma família rica para quem aquela quantia não significava muito.
Essa última possibilidade começou a parecer bastante provável conforme me aproximava do destino.
O endereço ficava no Upper East Side, em uma área próxima à Quinta Avenida, onde as ruas pareciam pertencer a uma cidade diferente daquela onde eu havia alugado meu quarto naquela manhã. Eu sabia pouco sobre os bairros de Nova York, mas até alguém que acabara de chegar conseguiria perceber que dinheiro não era exatamente um problema para quem vivia ali.
Desci do ônibus algumas quadras antes do endereço e consultei novamente o pequeno papel.
— Com licença, poderia me dizer se estou indo na direção certa? — perguntei a uma mulher que esperava para atravessar a rua enquanto lhe mostrava o endereço.
Ela leu rapidamente e apontou para a direção oposta àquela que eu estava prestes a seguir.
— Duas quadras por ali e depois vire à direita. Você vai encontrar facilmente.
— Muito obrigada — respondi enquanto guardava o papel dentro da bolsa.
— De nada — disse ela antes de atravessar assim que o sinal abriu.
Segui na direção indicada e logo percebi que dificilmente precisaria perguntar novamente.
As vitrines eram elegantes, os edifícios tinham porteiros uniformizados diante das entradas e os carros estacionados nas ruas pareciam custar mais do que eu conseguiria ganhar trabalhando durante muitos anos no Riverside. Vi mulheres carregando bolsas que provavelmente valiam mais do que todas as minhas economias e homens de terno saindo de prédios cuja aparência lembrava hotéis.
Diminuí o passo enquanto observava tudo.
Eu me sentia completamente deslocada.
Minha blusa era simples, minha calça já tinha alguns anos e os sapatos haviam sido comprados em uma promoção. Não havia nada de errado com minhas roupas, mas naquele lugar eu tinha a impressão de que todos poderiam perceber, apenas olhando para mim, que eu carregava praticamente tudo o que possuía dentro de uma mala deixada em um quarto barato no Bronx.
Continuei a caminhar.
Precisava daquele emprego muito mais do que precisava me sentir confortável naquele bairro.
Quando virei na rua indicada no papel, comecei a procurar os números dos imóveis. Passei por dois edifícios residenciais, uma construção cercada por muros altos e uma propriedade tão grande que precisei caminhar alguns metros para chegar ao fim de suas grades.
Conferi o endereço.
Depois conferi novamente.
Era mais adiante.
Quanto mais eu avançava, mais silenciosa a rua parecia ficar. O movimento de pedestres diminuíra, e as propriedades eram maiores, protegidas por grades, câmeras e portões que pareciam capazes de impedir a entrada de qualquer pessoa que não tivesse sido previamente autorizada.
Aquilo definitivamente não combinava com uma vaga comum de babá.
Parei diante de uma esquina e retirei novamente o papel da bolsa. O número que procurava deveria estar a poucos metros dali.
Atravessei a rua.
Foi então que percebi a quantidades de mulheres. Primeiro vi algumas próximas ao portão de uma propriedade. Depois notei outras espalhadas pela calçada. Continuei caminhando e finalmente consegui enxergar a extensão da fila.
Meu passo diminuiu.
— Não pode ser — murmurei enquanto comparava o número do endereço com o que estava escrito no papel.
Podia.
A fila era para a mesma entrevista.
Haviam tantas mulheres que, por alguns segundos, pensei que algum evento estivesse acontecendo naquela propriedade. A fila começava diante de um enorme portão de ferro e seguia pela calçada, dobrando parcialmente a esquina. Algumas candidatas conversavam entre si, outras mexiam no celular e várias seguravam pastas com currículos e documentos.
Devia haver quase cem mulheres ali.
Olhei para o anúncio dentro da minha mão e depois para a fila novamente.
Eu havia imaginado encontrar talvez dez ou quinze candidatas. Vinte, se o salário tivesse atraído muita atenção. Aquilo, porém, parecia uma seleção para algum cargo importante, não para cuidar de um menino de sete anos.
A maioria das mulheres também parecia muito mais preparada do que eu. Algumas usavam roupas formais e carregavam pastas organizadas. Vi uma candidata conversando com outra e mostrando certificados, enquanto uma mulher alguns lugares adiante parecia preencher um formulário.
Eu não tinha certificados.
Não tinha formação específica.
Nem sequer havia levado um currículo porque meu último emprego tinha terminado comigo acertando um objeto de metal na cabeça do meu patrão e fugindo para outro estado.
Respirei fundo enquanto guardava o papel na bolsa.
Talvez eu devesse voltar.
O dinheiro da passagem até ali já havia sido gasto, mas pelo menos evitaria passar horas esperando por uma entrevista que provavelmente terminaria no momento em que perguntassem pelas minhas referências.
Olhei mais uma vez para aquela fila enorme.
Então me lembrei do quarto no Bronx, do dinheiro que restava na bolsa e da mensagem de Emma dizendo que a polícia havia perguntado por mim.
Voltar não resolveria nenhum dos meus problemas.
Ajustei a bolsa no ombro, caminhei até o fim da fila e parei atrás da última candidata.
A mulher à minha frente olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para o celular.
Eu observei novamente a quantidade absurda de mulheres esperando diante daquela propriedade e soltei discretamente o ar.
Havia quase cem candidatas disputando uma única vaga.
Minha chance de conseguir aquele emprego parecia ter acabado antes mesmo de eu atravessar o portão.
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