A esposa do Don
3 Entrevista de emprego
O tempo passou devagar enquanto eu permanecia no fim daquela fila, tentando não pensar demais na quantidade de mulheres que ainda estavam diante de mim. Nos primeiros minutos, tive a impressão de que demoraria o restante do dia para conseguir atravessar aquele portão, mas logo percebi que o processo era muito mais rápido do que uma entrevista de emprego deveria ser. Algumas candidatas entravam e retornavam menos de dez minutos depois, quase todas com expressões que variavam entre irritação e perplexidade.
A fila avançava com frequência.
Eu também comecei a perceber outra coisa estranha. Algumas mulheres que saíam da propriedade pareciam perfeitamente normais, apenas decepcionadas por terem sido eliminadas, enquanto outras retornavam em condições que despertavam imediatamente a atenção de todas nós.
Uma jovem loira atravessou o portão com passos rápidos, segurando uma pasta contra o peito. Ela parecia ter pouco mais de vinte anos e estava visivelmente irritada. Uma das candidatas que aguardava perto da entrada aproximou-se dela.
— Como foi? — perguntou a mulher enquanto tentava acompanhá-la.
A jovem parou e virou-se para observar a propriedade.
— Aquela criança é um demônio — respondeu enquanto ajeitava a bolsa no ombro. — Não existe salário que me faça entrar novamente nessa casa.
Algumas mulheres riram, acreditando que ela exagerava.
Eu não achei graça.
A candidata que havia feito a pergunta pareceu ainda mais curiosa.
— O que ele fez?
— Pergunte a quem entrar depois de mim — respondeu a jovem antes de continuar andando. — Eu só quero ir embora.
Observei-a desaparecer na esquina e voltei os olhos para o portão.
Crianças podiam ser difíceis. Eu sabia disso melhor do que muitas mulheres naquela fila. Crescera cercada por elas no Saint Agnes e havia ajudado as freiras com os menores desde que tivera idade suficiente para carregar uma criança no colo. Conhecera crianças que gritavam, mordiam, chutavam e faziam verdadeiras batalhas para evitar um banho. Também conhecera crianças que passavam horas sem dizer uma palavra quando estavam assustadas.
Nenhuma delas era um demônio.
Alguns minutos depois, outra candidata apareceu.
Dessa vez, ninguém riu.
A mulher estava com a parte da frente da blusa coberta por alguma coisa que parecia molho. Havia ainda pequenos pedaços de comida presos em seus cabelos, e sua expressão demonstrava uma mistura de indignação e constrangimento.
— Meu Deus, o que aconteceu? — perguntou uma candidata próxima ao portão enquanto lhe oferecia um lenço.
— Ele jogou o prato em mim — respondeu a mulher enquanto tentava limpar a blusa. — Eu apenas pedi que comesse duas colheradas.
Uma das candidatas arregalou os olhos.
— A criança fez isso?
— Fez, e ninguém naquela casa pareceu particularmente surpreso — respondeu ela enquanto devolvia o lenço. — Se vocês forem inteligentes, vão embora antes de chegar a vez de vocês.
Aquela recomendação teve algum efeito.
Duas mulheres deixaram a fila poucos minutos depois.
Eu continuei onde estava.
Não porque tivesse uma confiança especial na minha capacidade de lidar com aquela criança. Eu simplesmente não tinha muitas alternativas. Se aquele emprego incluía moradia e pagava o salário indicado no anúncio, eu precisava pelo menos tentar.
A fila continuou avançando.
Uma terceira candidata saiu chorando.
Dessa vez, ela não quis conversar com ninguém. Passou pelo portão com uma das mãos cobrindo o rosto e seguiu pela calçada sem olhar para trás. Uma mulher que estava alguns lugares à minha frente observou a cena e retirou-se da fila imediatamente.
— Não preciso tanto de um emprego — declarou enquanto guardava o currículo dentro da bolsa.
Outra candidata foi com ela.
Pouco depois, mais três desistiram.
O que começara como uma fila de quase cem mulheres diminuía rapidamente, e eu já não sabia se aquilo deveria me deixar aliviada ou ainda mais preocupada.
As histórias começaram a circular entre as candidatas. Uma dizia que o menino havia chutado uma mulher. Outra afirmava que ele quebrara um copo durante uma tentativa de fazê-lo comer. Alguém comentou que a família já havia contratado seis babás naquele ano e nenhuma permanecera por mais de algumas semanas.
Eu não sabia quanto daquilo era verdade.
Mesmo assim, começava a compreender por que o salário era tão alto.
— Você não vai embora? — perguntou uma mulher à minha frente enquanto virava parcialmente o corpo em minha direção.
Ela devia ter pouco mais de trinta anos e carregava uma pasta cheia de documentos.
— Ainda não — respondi enquanto observava outra candidata atravessar o portão.
— Você viu como elas estão saindo?
— Vi.
— E continua querendo entrar?
Pensei alguns segundos antes de responder.
— Preciso saber o que acontece lá dentro antes de decidir que não consigo fazer.
A mulher me analisou com curiosidade.
— Você tem experiência?
— Cresci em um orfanato. Havia muitas crianças menores do que eu e ajudávamos a cuidar umas das outras.
— Isso não é experiência profissional.
— Não disse que era.
Ela pareceu surpresa com minha resposta, mas não insistiu.
Cerca de vinte minutos depois, chegou a vez dela.
A mulher entrou pelo portão demonstrando confiança e retornou pouco tempo depois segurando os próprios documentos contra o peito.
— Boa sorte — disse ao passar por mim.
— Obrigada — respondi enquanto observava sua partida.
Não perguntei o que havia acontecido.
Preferia descobrir sozinha.
Quando percebi, restavam poucas candidatas na calçada. Algumas haviam sido eliminadas, outras desistiram depois de ouvir os relatos das mulheres que saíam. Eu estava cansada de permanecer em pé e começava a sentir fome, mas não pretendia abandonar a fila depois de esperar tanto.
Foi então que o portão se abriu novamente.
Uma senhora apareceu acompanhada por um dos homens que controlavam a entrada.
Ela chamou imediatamente minha atenção.
Devia ter pouco mais de sessenta anos e possuía uma elegância que não dependia das roupas caras que vestia. Os cabelos escuros, marcados por alguns fios grisalhos, estavam cuidadosamente arrumados, e sua postura era tão firme que as poucas candidatas restantes imediatamente interromperam as conversas.
A mulher segurava uma pequena pasta.
Consultou uma folha antes de erguer os olhos.
— Renesmee Miller?
Meu coração acelerou.
Dei um passo à frente.
— Sou eu — respondi enquanto ajeitava a bolsa no ombro.
Os olhos dela passaram rapidamente por mim, sem demonstrar aprovação ou desaprovação.
— Acompanhe-me, senhorita Miller.
Passei pelo portão.
O homem que estava próximo à entrada fechou-o atrás de mim, e por algum motivo o som do ferro se encontrando pareceu muito mais alto do que deveria.
Segui a senhora por um caminho largo cercado por jardins perfeitamente cuidados. Foi somente naquele momento que consegui observar a propriedade com atenção.
Chamar aquilo de casa parecia inadequado.
A mansão ocupava boa parte do terreno e possuía uma arquitetura imponente, com paredes claras, grandes janelas e colunas que sustentavam parte da entrada. Havia carros escuros estacionados próximos a uma garagem lateral e homens de terno espalhados discretamente pela propriedade. Alguns conversavam entre si, enquanto outros apenas observavam os arredores.
Não pareciam funcionários comuns.
Eu não sabia exatamente o que faziam ali, mas ninguém precisava me explicar que eram responsáveis pela segurança.
Subimos alguns degraus até a entrada principal. Um homem abriu a enorme porta antes mesmo que chegássemos a ela.
Entrei e precisei controlar a vontade de parar.
Se o exterior já havia me impressionado, o interior tornou evidente que eu não compreendia a dimensão da riqueza daquela família.
O hall era maior do que o refeitório inteiro do Saint Agnes. O piso de mármore claro refletia a luz de um enorme lustre suspenso no teto, e uma escadaria se dividia em duas direções no andar superior. Havia quadros nas paredes, móveis escuros cuidadosamente distribuídos e arranjos de flores que pareciam ter sido colocados ali naquela mesma manhã.
Nada estava fora do lugar.
O silêncio também me chamou atenção.
Uma casa daquele tamanho deveria ter sons. Pessoas conversando, portas abrindo, passos, televisão ou qualquer indicação de que uma família realmente vivia ali.
Naquela mansão, entretanto, até os funcionários pareciam ter aprendido a caminhar sem fazer barulho.
— Por aqui, senhorita Miller — disse a mulher enquanto seguia por um corredor.
Apressei o passo.
— Desculpe.
Ela olhou discretamente para mim.
— Pela casa?
Senti meu rosto aquecer.
— É difícil não olhar.
Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
— Você se acostuma.
Aquilo pressupunha que eu permaneceria tempo suficiente para ter essa oportunidade.
Seguimos até uma sala elegante, mas muito menos intimidadora do que o hall. Havia duas poltronas diante de uma pequena mesa, uma estante com livros e grandes janelas voltadas para o jardim.
A senhora apontou para uma das poltronas.
— Sente-se, por favor.
— Obrigada — respondi enquanto me acomodava e colocava a bolsa sobre o colo.
Ela sentou-se diante de mim e abriu a pasta.
— Meu nome é Sarah Black.
Black.
Guardei o sobrenome imediatamente. O anúncio não mencionava o nome da família.
— É um prazer conhecê-la, senhora Black.
— Sarah é suficiente — respondeu ela enquanto consultava a ficha que eu havia preenchido do lado de fora. — Renesmee Miller, vinte anos.
— Sim.
Sarah levantou os olhos.
— Você é muito jovem.
Eu não sabia se aquilo era uma observação ou uma crítica.
— Tenho idade suficiente para trabalhar.
Um sorriso discreto apareceu novamente.
— Não duvido disso. Onde estão seus pais, senhorita Miller?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Não tenho pais.
Sarah permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Eles faleceram?
— Não sei.
Ela franziu levemente a testa.
— Não sabe?
Apertei as mãos sobre a bolsa.
— Fui abandonada quando era bebê. Cresci em um orfanato católico na Pensilvânia e nunca soube quem são meus pais.
A expressão de Sarah mudou.
Não havia pena, o que agradeci.
Eu detestava quando as pessoas me olhavam daquela maneira depois de conhecer minha história.
— Entendo — disse ela enquanto fazia uma pequena anotação. — E possui experiência cuidando de crianças?
— Não profissionalmente. No orfanato, entretanto, as crianças mais velhas ajudavam com as menores. Fiz isso durante muitos anos.
— Que tipo de ajuda?
— Alimentação, banho, tarefas escolares e algumas vezes colocávamos as crianças menores para dormir. As freiras estavam conosco, naturalmente, mas havia muitas crianças e poucas adultas.
Sarah assentiu.
— Então sabe lidar com comportamentos difíceis?
Pensei nas mulheres que haviam saído daquela propriedade cobertas de comida.
— Depende do que considera difícil.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Uma criança que se recusa a obedecer, grita, quebra objetos e pode reagir fisicamente quando é contrariada.
— Eu tentaria descobrir por que ela está fazendo isso.
Minha resposta pareceu interessá-la.
— Não acredita que uma criança simplesmente possa ser malcriada?
— Acredito. Conheci muitas — respondi enquanto permitia um pequeno sorriso. — Mas uma criança que chega ao ponto de reagir dessa maneira geralmente está tentando dizer alguma coisa que não consegue explicar.
Sarah ficou alguns segundos me observando.
— Você estudou psicologia infantil?
— Não.
— Então como chegou a essa conclusão?
— Convivi com crianças durante quase toda a minha vida.
Ela fechou a pasta.
— Por que quer este emprego?
Aquela era uma pergunta mais complicada.
Eu não poderia dizer que estava fugindo depois de ferir meu antigo patrão.
— Preciso trabalhar e o anúncio oferece moradia. Acabei de chegar a Nova York e isso resolveria dois problemas ao mesmo tempo.
— Você não tem residência fixa na cidade?
— Aluguei um quarto no Bronx por uma semana.
— E por que veio para Nova York?
Mantive o rosto tranquilo.
— Procurava novas oportunidades.
Não gostei de mentir para ela, mas Sarah não precisava saber mais do que aquilo.
Os olhos da mulher permaneceram sobre mim por alguns segundos. Não consegui descobrir se acreditara.
— Você tem namorado? Marido? Algum compromisso que possa impedir que permaneça na residência durante longos períodos?
— Não tenho ninguém.
As palavras saíram naturalmente, embora depois de pronunciá-las tenham parecido mais tristes do que eu pretendia.
Sarah tornou a abrir a pasta e escreveu alguma coisa.
— O trabalho exige disponibilidade integral. A criança mora nesta casa, portanto você também precisará morar aqui caso seja escolhida.
— Isso não seria um problema.
— Existem regras.
— Imagino que sim.
— Muitas regras — acrescentou ela enquanto levantava os olhos.
— Cresci com freiras. Estou familiarizada com regras.
Dessa vez, Sarah riu discretamente.
— Talvez isso seja útil.
A porta se abriu e uma mulher de uniforme escuro apareceu.
— Senhora Black?
Sarah olhou para ela e depois voltou sua atenção para mim.
— Martha, leve a senhorita Miller até a sala de jantar.
A empregada assentiu.
— Claro.
Olhei para Sarah sem compreender.
— A entrevista terminou?
— Esta parte, sim — respondeu ela enquanto fechava definitivamente a pasta. — Agora precisamos descobrir se você consegue fazer o trabalho.
Levantei-me.
— Existe algum teste?
Sarah se levantou também.
— Existe.
Lembrei imediatamente das candidatas que haviam saído cobertas de comida.
— Tem alguma coisa que eu deva saber antes?
Sarah ajeitou discretamente a manga do vestido.
— Conheça William antes de formar qualquer opinião.
William.
Finalmente eu tinha o nome da criança.
— Certo.
— E, senhorita Miller — acrescentou Sarah antes que eu acompanhasse a empregada. — Não tente obrigá-lo a fazer nada.
Aquilo parecia um conselho importante.
— Vou me lembrar.
Martha saiu da sala e eu a acompanhei pelo corredor. Passamos novamente pelo hall e seguimos para outra parte da mansão. Quanto mais caminhava, mais eu percebia que poderia passar dias naquela casa e ainda não conhecer todos os cômodos.
— A senhora Black é a avó dele? — perguntei enquanto acompanhava Martha.
— É — respondeu ela sem diminuir o passo.
— E os pais?
Martha olhou rapidamente para mim.
— A senhora Black explicará o necessário caso você passe pelo teste.
Aquilo encerrou a conversa.
Continuamos em silêncio até chegarmos diante de duas grandes portas de madeira. Martha segurou uma delas e me fez sinal para entrar.
— Ele está esperando.
A sala de jantar era enorme. Uma mesa comprida ocupava o centro do ambiente e poderia acomodar facilmente mais de vinte pessoas, embora apenas um lugar estivesse sendo utilizado.
Foi então que o vi.
Um garotinho estava sentado sozinho diante de um prato de comida.
Devia ter aproximadamente sete anos, exatamente como dizia o anúncio. Tinha cabelos escuros, expressão fechada e os braços cruzados diante do peito. O prato estava afastado para a outra extremidade da mesa, como se ele próprio o tivesse empurrado para longe.
O menino levantou os olhos quando percebeu minha presença.
Eu ainda não havia dito uma única palavra.
Mesmo assim, pela maneira como William Black me encarou, tive a impressão de que ele já havia decidido que não gostava de mim.
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