A esposa do Don
45 Parte da verdade
JACOB
Esperei Renesmee subir com Sarah antes de entrar no escritório. O médico havia terminado os pontos no meu braço, colocado um curativo e recomendado repouso como se existisse alguma possibilidade de eu dormir depois do que acabara de acontecer. Renesmee também não queria subir. Ficou diante de mim por alguns segundos, com o pequeno curativo na testa, as mãos cobertas por gaze e os olhos ainda vermelhos pelo choro, perguntando se eu realmente estava bem. Respondi que sim, prometi que iria para o quarto assim que resolvesse algumas coisas e observei Sarah levá-la. Só depois que o elevador se fechou mandei chamarem Paul e Rachel.
Entrei no escritório e fui diretamente até o bar. O braço latejava sob o curativo, mas aquela dor não chegava perto da raiva que eu vinha contendo desde o instante em que ouvira pelo comunicador que minha esposa estava no meio daquele tiroteio. Servi bourbon, tomei metade de uma vez e ouvi a porta se abrir atrás de mim. Rachel entrou primeiro, Paul logo depois. Minha irmã ainda estava com o vestido da boate, o cabelo desarrumado e os pés descalços, porque aparentemente perdera ou abandonara os sapatos durante a fuga. Paul fechou a porta e permaneceu próximo dela.
Coloquei o copo sobre o balcão.
— Em que porra você estava pensando?
Rachel parou.
— Jacob...
— Não. Eu quero saber em que porra você estava pensando quando tirou Renesmee desta casa, levou minha esposa para uma boate e decidiu que ninguém precisava me informar onde ela estava.
— Eu a levei para sair, não para uma zona de guerra.
— Não me interessa como você chama.
— Eu não sabia que alguém atacaria a boate!
Bati a mão sobre o balcão com força suficiente para o copo estremecer.
— E é exatamente esse o problema, Rachel. Você não sabia de porra nenhuma!
Paul imediatamente avançou um passo, mas Rachel ergueu a mão antes que ele interferisse.
— Não grita comigo.
— Eu grito com quem eu quiser dentro da minha casa quando acabei de encontrar minha mulher ajoelhada atrás de um balcão, coberta de sangue, com uma arma apontada para o peito!
Minha voz saiu mais alta do que costumava, mas não fiz qualquer esforço para controlá-la. A imagem ainda estava nítida demais. Renesmee encurralada. O sangue na testa. As mãos cortadas. O homem levantando a arma enquanto ela não conseguia sequer se mover.
Rachel engoliu em seco.
— Eu estava com ela.
— Até não estar.
A frase atingiu onde eu pretendia.
— Isso é injusto.
— Eu não estou interessado em ser justo esta noite.
— Eu corri porque achei que ela estava atrás de mim!
— E ela não estava.
— Eu sei!
— Então não venha me dizer que estava com ela!
Paul se colocou ao lado da esposa.
— Chega, Jacob. Rachel não abandonou Renesmee. Houve uma nova troca de tiros e elas se separaram. Eu estava lá. Eu fui quem encontrou as duas antes e coloquei os homens com elas.
Virei o rosto para ele.
— Dois homens. Um terminou com uma bala no corpo e o outro ficou preso tentando mantê-lo vivo. Excelente resultado.
— Eles fizeram o trabalho deles. Mantiveram as duas vivas até a equipe chegar.
— Eu mantive Renesmee viva quando um filho da puta apontou uma arma para ela.
O escritório ficou em silêncio.
Paul sustentou meu olhar.
— E você conseguiu chegar até ela porque a equipe segurou o salão. Não desconte na Rachel uma coisa que ela não tinha como prever.
— Ela tinha como me informar.
Rachel soltou o ar com irritação.
— E aí você faria o quê? Diria que ela não podia sair?
— Eu teria colocado segurança adequada com ela.
— Renesmee não sabia que precisava de “segurança adequada” para sair comigo numa sexta-feira à noite!
— Então você me ligava!
— Para pedir permissão?
Bati a mão na mesa dessa vez.
— PARA ME INFORMAR!
Rachel se calou.
Aproximei-me dela.
— Não confunda as coisas. Renesmee não precisa pedir minha autorização para sair desta casa. Mas eu preciso saber onde ela está. Se você não consegue entender a diferença depois desta noite, então não volte a levá-la a lugar nenhum.
Rachel ficou vermelha de raiva.
— E sabe por que nenhuma de nós entende essa diferença? Porque você não conta nada para ela! Renesmee acredita que se casou com um empresário. Um homem absurdamente rico, controlador, cercado de seguranças e com negócios que ela nem tenta compreender. É isso que ela sabe. Então por que diabos ela imaginaria que sair para dançar exige avisar uma equipe armada?
— Eu sei o que estou fazendo.
— Não parece!
Meu olhar endureceu.
— Cuidado.
— Não. Você quer descarregar tudo em mim porque está apavorado com o que quase aconteceu com ela, mas isso não muda o fato de que Renesmee está vivendo dentro de uma realidade que não conhece. Ela viu você matar um homem esta noite, Jacob. Viu você levar um tiro e continuar atravessando aquela boate como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Depois você trouxe a garota para casa e ela descobriu uma enfermaria escondida no subsolo. E ainda acha que pode continuar dizendo “eu explico depois”?
— Eu não disse que vou continuar.
— Está fazendo isso desde que ela entrou nesta família!
— Porque existem coisas que ela não precisava saber!
— Precisava saber o suficiente para entender que a vida dela corre perigo!
Minha mão fechou-se ao lado do corpo.
— Você não faz a menor ideia do perigo que ela corre.
Rachel ficou em silêncio.
Paul percebeu a mudança antes dela.
— O que isso significa?
Olhei para os dois. Eu não pretendia contar a Rachel daquela maneira. Na verdade, não pretendia ampliar o círculo de pessoas que conheciam a identidade de Renesmee antes de decidir como lidar com Edward e com a ameaça que ainda não conseguíamos identificar. Mas minha irmã acabara de levar minha esposa para uma boate sem segurança planejada porque não compreendia que Renesmee não podia mais ter a liberdade anônima que tivera durante vinte anos.
Ela precisava entender.
— A presença dela naquela boate foi uma coincidência — Paul disse, agora mais calmo. — Você decidiu aparecer lá hoje. Rachel decidiu sair com Renesmee hoje. Ninguém podia prever que as duas coisas aconteceriam ao mesmo tempo que um ataque.
Olhei para ele.
— O ataque pode ter sido planejado antes. O que aconteceu com Renesmee lá dentro não foi coincidência.
Rachel franziu o cenho.
— O que você está dizendo?
— Eu vi o homem.
— Qual homem?
— O que eu matei.
Ela ficou imóvel.
— Havia gente correndo em todas as direções. Ele podia ter atirado em qualquer pessoa. Não atirou. Viu Renesmee, mudou de direção e avançou para ela. A arma estava apontada para o peito dela quando eu cheguei.
Paul ficou sério.
— Você acha que ela era um alvo.
— Eu não acho. Eu sei o que vi.
— Por quê? — Rachel perguntou. — Quem teria motivo para querer matar Nessie?
Fui até a mesa, apoiei as mãos sobre a madeira e encarei minha irmã.
— Porque Renesmee Miller nunca deveria ter existido.
Rachel piscou.
— O quê?
— Miller foi o sobrenome que as freiras deram a uma criança que chegou a Saint Agnes sem documentação. Renesmee foi um nome criado pela mulher que recebeu essa criança. Não é o nome que os pais dela escolheram.
— Jacob, do que você está falando?
— Ela nasceu Elizabeth Cullen.
O silêncio foi absoluto.
Rachel me encarou sem reação.
Paul demorou alguns segundos para falar.
— Cullen?
— Filha de Edward Cullen e Isabella.
Rachel simplesmente ficou olhando para mim.
— Não.
— Sim.
— A filha de Edward morreu.
— Foi o que ele acreditou durante vinte anos.
Minha irmã aproximou-se lentamente da mesa.
— Renesmee é a filha que Edward Cullen acreditava estar morta?
— É.
— Como?
— Durante o ataque ao hospital onde Isabella deu à luz, Elliot e Mary fugiram com Elizabeth. Encontraram outra recém-nascida que havia morrido e fizeram a troca para despistar quem estava atrás deles. Levaram o corpo da criança morta e deixaram Elizabeth viva com uma mulher que acabou ligada a Saint Agnes. Elliot e Mary foram encontrados e mortos. O corpo que chegou aos Cullen estava identificado como Elizabeth. Edward enterrou a criança acreditando que era a própria filha.
Rachel levou a mão à boca.
— Meu Deus.
— A mulher que ficou com o bebê não sabia o nome verdadeiro. Encontrou os nomes Renee e Esme entre as coisas deixadas com ela e criou Renesmee. Depois as freiras acrescentaram Miller aos documentos.
— E ela não sabe.
— Não.
— Você sabe há quanto tempo?
Minha expressão foi suficiente.
Rachel arregalou os olhos.
— Antes do casamento?
— Sim.
Ela recuou um passo.
— Filho da puta.
Paul olhou para a esposa.
— Rachel.
— Não, ele é! — Ela voltou os olhos para mim. — Você sabia quem ela era e casou com ela mesmo assim?
— Sim.
— Edward sabe?
— Sabe agora.
— Foi por isso que ele estava na sua empresa?
— Sim.
Rachel começou a andar pelo escritório, tentando organizar as informações.
— Então Renesmee entrou naquela sala e conheceu o próprio pai sem saber?
— Sim.
Ela parou.
— Você é inacreditável.
— Não estamos discutindo minhas escolhas agora.
— Claro que estamos!
— Não. Estamos discutindo por que minha esposa quase recebeu uma bala no peito esta noite.
Minha voz voltou a endurecer e Rachel se calou.
Paul se aproximou da mesa.
— Se ela passou vinte anos sendo Renesmee Miller e todo mundo acreditava que Elizabeth Cullen estava morta, por que alguém iria atrás dela agora?
— Porque alguém começou a procurar.
— Quem?
— Ainda não sei.
— Denali? — Paul perguntou.
Não respondi imediatamente.
— É uma possibilidade. Não uma certeza.
Rachel olhou para mim.
— O que os Denali têm a ver com ela?
Peguei o copo de bourbon e terminei o que restava.
— Vinte anos atrás, Edward Cullen matou o primeiro neto de Falcon Denali.
Paul conhecia o suficiente daquela história para mudar de expressão.
Rachel não.
— Por quê?
— Os motivos não importam agora. O que importa é que Falcon não aceitou a morte. Houve guerra. Quando Isabella engravidou, os Cullen tentaram esconder a gravidez, mas alguém vazou informações. Os Denali chegaram primeiro à ilha onde Edward tentou protegê-la e, depois, ao hospital onde Elizabeth nasceu.
Rachel compreendeu aos poucos.
— Eles queriam o bebê.
— Queriam a vingança.
— Uma criança não tinha nada a ver com o que Edward fez.
Dei um sorriso sem humor.
— Você está tentando aplicar justiça a uma guerra entre famílias que construíram impérios sobre cadáveres.
Ela não respondeu.
— Quando Elliot e Mary foram encontrados, Falcon recebeu o corpo da criança trocada acreditando que fosse Elizabeth. Depois entregou os três corpos aos Cullen e encerrou a guerra.
Paul apoiou uma mão na cadeira.
— A dívida estava paga.
— Era o que Falcon acreditava.
Rachel franziu o cenho.
— Que dívida?
Olhei diretamente para ela.
— Um neto por uma neta.
O rosto dela perdeu a cor.
— Então, se os Denali descobrirem que Elizabeth está viva...
— A vingança que encerrou aquela guerra deixa de estar concluída.
— Você acha que Falcon descobriu?
— Eu não disse isso.
— Mas acha possível.
— Homens apareceram em Saint Agnes fazendo perguntas sobre meninas que chegaram sem documentação há vinte anos e sobre objetos deixados com elas. Agora alguém entra em uma propriedade minha e, no meio do ataque, um homem identifica Renesmee e aponta uma arma diretamente para ela. Não sei quem mandou. Ainda. Mas alguém sabe que existe alguma coisa para procurar.
Paul ficou pensativo.
— E Cody?
Olhei para ele.
— Não envolva Ateara nisso sem prova. Cody é meu amigo há muitos anos e, até que eu encontre algo que diga o contrário, continua sendo aliado. O fato de ele ter voltado para Nova York e estar na boate esta noite não transforma o homem em traidor.
— Foi uma noite infernal para reaparecer — Rachel murmurou.
— Foi. E ele quase morreu nela como todo mundo.
Paul assentiu.
— Então começamos pelos homens que atacaram.
— Sam já está fazendo isso. Quero cada rosto identificado, cada arma rastreada, cada veículo, telefone, transferência e câmera num raio de cinco quarteirões. Quem morreu continua útil. Quem sobreviveu é ainda mais útil.
Rachel me olhou.
— E Nessie?
— A partir de agora, não sai desta propriedade sem escolta.
— Ela vai odiar.
— Não me importa.
— Jacob...
— Eu disse que não me importa, Rachel. — Bati a mão sobre a mesa novamente. — Hoje eu vi uma arma apontada para a cabeça da mulher que amo. Então, se Renesmee quiser me chamar de controlador, autoritário, filho da puta ou qualquer outra coisa que encontrar no vocabulário dela, pode fazer isso viva. Eu sobrevivo à raiva dela. Não vou enterrá-la porque estava preocupado em parecer um marido razoável.
Minha irmã ficou imóvel.
Eu também percebi o que tinha dito.
Não voltei atrás.
Rachel me conhecia bem demais para fingir que não ouvira.
— Você ama ela.
Olhei para minha irmã.
— Isso também não está em discussão.
— Para você talvez não.
— Rachel.
Ela ergueu as mãos.
— Está bem.
Paul quase sorriu, mas teve inteligência suficiente para esconder.
Rachel permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de voltar ao assunto que realmente importava.
— Você vai contar para ela que é Elizabeth?
— Vou decidir como.
— Não foi isso que perguntei.
— E eu não tenho obrigação de responder a você.
— Tem quando acabou de me colocar dentro desse segredo.
— Eu coloquei você dentro porque preciso que entenda que Renesmee não pode mais simplesmente pegar um carro e desaparecer por Nova York.
— Eu entendi. Mas você ainda está fazendo a mesma coisa.
— Que coisa?
— Decidindo sozinho o que ela pode saber sobre a própria vida.
Minha paciência já estava no limite.
— Não comece de novo.
— Vou começar, porque agora eu sei por que ela corre perigo. Ela não sabe nem por que quase morreu.
— Eu vou contar.
— Quando?
— Quando ela não estiver tremendo, coberta de cortes e perguntando se eu vou morrer por causa de uma bala de raspão.
Rachel sustentou meu olhar.
— Então conte quando ela estiver em condições de ouvir. Mas conte tudo que importa.
Minha mandíbula se contraiu.
— Não me ensine a lidar com minha esposa.
— Alguém precisa, porque você transformou segredo em método de casamento.
Paul fechou os olhos por um segundo.
— Rachel...
— O quê? Estou mentindo?
Aproximei-me dela.
— Você tem uma habilidade impressionante para esquecer com quem está falando.
Rachel não recuou.
— Não. Eu sei exatamente com quem estou falando. Esse é o problema.
Ficamos nos encarando.
Então ela apontou discretamente para o andar superior.
— Ela não sabe.
Não respondi.
— Renesmee acha que Jacob Black é um empresário poderoso com seguranças demais, propriedades demais e uma família complicada. Esta noite ela viu outra coisa. Viu você atravessar uma boate no meio de um tiroteio, matar um homem sem hesitar e continuar andando depois de levar um tiro. Depois descobriu que existe uma enfermaria escondida embaixo da casa. Você acha mesmo que amanhã ela vai acordar e aceitar outra explicação pela metade?
— Não.
Rachel respirou fundo.
— Então está na hora.
— De contar sobre Elizabeth.
— Também. Mas não é só isso.
Eu já sabia o que viria.
Rachel se aproximou da mesa e sua voz perdeu a agressividade, embora continuasse firme.
— Está na hora de Renesmee saber quem realmente é Jacob Black.
Dessa vez não mandei minha irmã calar a boca.
Porque eu sabia que ela estava certa.
Eu havia passado meses mantendo Renesmee na parte da minha vida que podia ser explicada por empresas, dinheiro e segurança privada. Ela conhecia Jacob, o homem que dormia ao lado dela, o pai de Claire e Will, o marido com quem discutia, provocava e dividia uma cama. Não conhecia o homem diante do qual pessoas como Paul, Sam, Embry e Solomon abaixavam a voz quando usavam uma palavra que ela ainda tratava como um título estranho.
O Don.
Depois daquela noite, continuar escondendo isso não seria apenas difícil.
Seria impossível.
JACOB
A mansão estava silenciosa quando deixei o escritório. Já passava da meia-noite, e a movimentação dos homens da segurança havia sido concentrada no exterior e nos níveis inferiores para não acordar as crianças. Sarah me mandara uma mensagem informando que Will continuava dormindo e que Claire permanecia no quarto. Rachel e Paul tinham ido para a ala deles depois da nossa discussão, enquanto Sam e Embry continuavam trabalhando com as equipes que permaneceram na boate. Eu deveria estar com eles. Em qualquer outra circunstância estaria. Um ataque dentro de uma propriedade minha exigia minha presença até que cada homem envolvido tivesse nome, origem e destino conhecidos, mas havia uma conversa esperando no andar superior que eu já adiara por tempo demais.
O braço incomodava a cada movimento, uma dor constante que o analgésico ainda não havia conseguido eliminar completamente. Ignorei. Tinha passado por ferimentos piores e, naquela noite, o corte da bala era a última coisa que me preocupava. Enquanto caminhava pelo corredor, as palavras de Rachel voltaram à minha cabeça. Ela tinha uma capacidade irritante de dizer exatamente aquilo que eu não queria ouvir, e talvez por isso tivesse conseguido sobreviver tantos anos sendo minha irmã sem aprender a manter a boca fechada. Renesmee precisava saber. Não necessariamente tudo naquela noite, muito menos a verdade sobre Elizabeth Cullen enquanto ainda estava abalada, mas não havia mais como voltar ao quarto e sustentar a ficção confortável de que ela havia se casado apenas com um empresário.
Abri a porta sem fazer barulho.
Renesmee não estava na cama.
Ela permanecia diante da grande janela, olhando para o jardim escuro. Havia trocado o vestido por uma camisola preta de tecido fino e parcialmente transparente, e o cabelo caía solto pelas costas, ainda um pouco úmido nas pontas. O pequeno curativo na testa destoava da delicadeza da roupa, assim como as faixas menores em algumas partes das mãos. Durante alguns segundos fiquei parado observando-a. Horas antes, eu a tinha visto naquele mesmo quarto lendo um romance enquanto Rachel provavelmente planejava arrastá-la para fora de casa. Depois a vira ajoelhada atrás de um balcão, coberta de sangue, diante do cano de uma arma.
A imagem fez minha mandíbula se contrair novamente.
Fechei a porta.
Renesmee ouviu e virou ligeiramente o rosto, mas não saiu de onde estava. Caminhei até ela sem dizer nada e parei atrás de seu corpo. Passei o braço que não estava ferido ao redor de sua cintura e a puxei contra mim, apoiando o rosto por alguns segundos junto ao cabelo dela. Eu precisava sentir que estava ali. Inteira. Respirando. Segura dentro da nossa casa.
Renesmee se virou quase imediatamente entre meus braços.
Seus olhos foram direto para meu braço.
— Está doendo?
— Estou bem.
Ela ergueu o rosto para mim com uma expressão de preocupação que não combinava com a resposta que eu acabara de dar.
— Você não está bem.
— O médico já resolveu o problema.
— Não estou falando do tiro.
Fiquei em silêncio.
Renesmee baixou os olhos por um instante e depois tornou a encará-los nos meus.
— Você matou um homem.
Suspirei devagar.
Eu sabia que chegaríamos àquilo.
— Matei.
— Na minha frente.
— Ele estava apontando uma arma para você.
— Eu sei.
A voz dela ficou mais baixa. Não havia acusação propriamente dita, apenas dificuldade para processar o que tinha visto.
— Eu continuo vendo ele cair, Jacob. Quando fecho os olhos, lembro da arma apontada para mim e depois lembro de você atrás dele. Foi tão rápido. Você nem hesitou.
Não havia resposta delicada que fosse verdadeira.
— Não havia motivo para hesitar.
Renesmee franziu levemente o cenho.
— Você matou uma pessoa.
— Eu matei um homem que estava prestes a matar minha esposa.
— E isso faz diferença para você?
Olhei diretamente para ela.
— Toda.
Ela ficou quieta.
Passei o polegar com cuidado pela lateral de seu rosto, longe do curativo.
— Se tivesse hesitado, talvez estivesse entrando neste quarto sozinho.
A expressão dela mudou.
— Não fala assim.
— É a verdade.
— Eu sei, mas não fala.
Aproximei-a novamente.
— Então não me pergunte se eu me arrependo.
Renesmee engoliu em seco.
— Você não se arrepende?
— Não.
A resposta saiu sem qualquer dificuldade.
— Eu faria outra vez. Faria cem vezes se fosse necessário.
Ela me observou em silêncio.
— Como você consegue dizer isso tão facilmente?
— Porque não existe nada para ponderar. Ele levantou uma arma para você. A partir daquele momento, deixou de existir qualquer dúvida sobre o que eu faria.
Renesmee respirou fundo.
— Por quê?
A pergunta me fez estreitar os olhos.
— Por que o quê?
— Por que você faria qualquer coisa assim por mim?
Quase respondi que ela era minha esposa. Seria fácil, verdadeiro e insuficiente. O contrato explicaria uma obrigação de proteção. O sobrenome Black explicaria por que ninguém poderia atacar uma pessoa sob minha responsabilidade sem resposta. Até a descoberta de quem ela realmente era poderia justificar o nível de segurança que eu colocara ao redor dela.
Nada disso explicava por que eu havia ignorado Embry e Sam e descido aquelas escadas enquanto homens atiravam no salão. Nada explicava a sensação que tive quando vi sangue no rosto dela ou a absoluta ausência de qualquer pensamento além de chegar até ela antes daquele homem.
Eu já sabia a resposta.
Talvez apenas não tivesse dito em voz alta.
Segurei o rosto dela entre as mãos, tomando cuidado com o corte, e mantive os olhos nos seus.
— Porque eu amo você.
Renesmee ficou imóvel.
Por alguns segundos, pensei que talvez não tivesse respirado.
Eu não retirei as palavras.
— Não fazia parte do acordo — continuei, mais baixo. — Não fazia parte dos meus planos e certamente não era o que eu pretendia quando coloquei aquele contrato diante de você. Mas aconteceu. Eu amo você, Renesmee. E hoje eu cheguei perto demais de descobrir como seria perder você.
Os olhos dela se encheram de uma emoção diferente daquela que carregara desde a boate. Um sorriso pequeno apareceu lentamente em seus lábios, tímido de uma maneira que eu raramente via nela.
— Eu também amo você.
Dessa vez fui eu quem ficou em silêncio.
Renesmee soltou uma pequena respiração.
— Eu já sabia há algum tempo. Só não sabia se devia dizer.
— Por quê?
— Porque você é você.
Uma sobrancelha minha se ergueu.
— Excelente explicação.
O sorriso dela aumentou um pouco.
— Você entende.
— Infelizmente, entendo.
Passei a mão pela nuca dela e a beijei.
Não houve pressa. Depois de tudo que acontecera naquela noite, eu não queria nada dela além da certeza de que estava ali. A boca de Renesmee encontrou a minha com uma hesitação que durou apenas o primeiro instante, antes de ela se aproximar e apoiar cuidadosamente as mãos em meu peito para não tocar meu braço ferido. O beijo aprofundou-se devagar, carregado de uma intimidade que não tinha relação com desejo imediato. Havia medo ainda preso nela e uma tensão que eu também não conseguira abandonar, mas, entre uma respiração e outra, senti o corpo de Renesmee relaxar contra o meu.
Passei o braço pela cintura dela e a mantive perto. Sua boca se afastou apenas o suficiente para respirar antes de voltar à minha, e eu senti um sorriso breve contra meus lábios. Beijei-a novamente, mais lento, deslizando a mão por seus cabelos até a nuca. Não havia contrato naquele momento, nem sucessão, Cullens, Denali ou qualquer uma das decisões que eu havia tomado antes que ela compreendesse o tabuleiro em que entrara. Havia apenas a mulher que eu quase perdera naquela noite me dizendo que me amava.
Quando o beijo terminou, mantive minha testa encostada à dela por um instante, tomando cuidado para não tocar o curativo. Renesmee ainda tinha os olhos fechados e respirava devagar. Eu poderia ter encerrado a noite ali. Poderia colocá-la na cama, esperar que dormisse e empurrar a conversa para o dia seguinte.
Era exatamente o que eu vinha fazendo desde que ela entrara na minha vida.
Adiar.
Escolher quanto ela podia saber.
Controlar a verdade da mesma forma que controlava todo o resto.
Afastei-me apenas o suficiente para olhá-la.
— Não vou mais adiar isso.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto dela.
— Adiar o quê?
Segurei sua cintura quando percebi a preocupação voltando.
— A conversa que você tentou ter comigo na enfermaria.
— Sobre o que Rachel disse que você precisava me contar?
— Sim.
Renesmee observou meu rosto.
— Tem a ver com a boate?
— Tem a ver com quase tudo que aconteceu esta noite.
— Jacob, você está começando a me assustar de novo.
— Não precisa ter medo de mim.
— Eu vi você matar um homem algumas horas atrás. Descobri uma enfermaria escondida embaixo da minha casa e sua irmã praticamente disse que eu não conheço meu próprio marido. Acho que tenho direito de estar um pouco assustada.
Não podia discordar.
Peguei sua mão com cuidado para não pressionar os cortes e a conduzi até a pequena sala diante da janela. Sentei-me no sofá e esperei que ela se acomodasse ao meu lado. Renesmee continuava me observando, cada vez mais desconfiada.
— O que você vai me contar?
Apoiei os antebraços sobre as pernas, ignorando a dor que o movimento provocou.
— Primeiro preciso que entenda que tudo que conhece sobre mim é verdadeiro. A Holdings existe. Meus negócios existem. As empresas, propriedades, investimentos, transportadoras, portos e contratos são reais. Eu não inventei uma identidade para me casar com você.
— Isso não está me tranquilizando.
— Não deveria.
Ela ficou quieta.
Virei o rosto para encará-la.
— O que você conhece é apenas a parte da minha vida que pode existir publicamente.
Renesmee franziu o cenho.
— E a outra parte?
Sustentei seu olhar.
— Você já ouviu meus homens me chamarem de Don.
— Sim. Achei que fosse alguma coisa da família. Um título antigo, talvez.
— É um título.
— De quê?
Eu não suavizei.
— Da organização que eu comando.
Ela demorou alguns segundos.
— Que organização?
— A família Black não construiu tudo que possui apenas através das empresas que aparecem nos relatórios da Holdings. Há gerações existe uma estrutura paralela. Nós controlamos rotas, portos, territórios, homens e negócios que não passam por conselhos administrativos nem aparecem em balanços. Existem outras famílias como a nossa, algumas aliadas, outras inimigas. Cullen, Denali, Volturi, Hale, Moretti. Os nomes que você pode ter ouvido como famílias ricas ou grupos empresariais significam outra coisa no mundo ao qual eu pertenço.
A expressão de Renesmee começou a mudar.
— Você está falando de crime?
— Sim.
Ela ficou imóvel.
— Crime organizado?
— Sim.
Renesmee me encarou como se esperasse que eu corrigisse a resposta.
Não corrigi.
— Jacob...
— Eu sou o chefe da família Black. Quando meus homens me chamam de Don, não estão usando um apelido e não estão sendo excessivamente formais.
A compreensão chegou devagar.
Seus olhos se arregalaram.
— Você está dizendo que...
— Eu sou o Don de Nova York, Renesmee.
O silêncio entre nós pareceu ocupar o quarto inteiro.
Ela se levantou do sofá.
Caminhou dois passos e virou-se para mim.
— Você é...
Não completou.
— Diga.
— Mafioso?
— Se essa palavra torna mais fácil compreender, sim.
Renesmee passou uma das mãos cuidadosamente pelos cabelos, lembrando-se tarde demais dos curativos nos dedos.
— Meu Deus.
Eu permaneci sentado.
— É por isso que vocês têm homens armados em todo lugar.
— Sim.
— É por isso que Paul, Sam, Embry e Solomon obedecem você daquela maneira.
— Sim.
— É por isso que existe uma enfermaria embaixo da casa.
— Sim.
Ela começou a andar lentamente pelo quarto.
— É por isso que você sabia o que fazer quando começaram os tiros.
— Sim.
Renesmee parou e me encarou.
— E quantas pessoas você já matou?
A pergunta veio sem preparação.
Eu poderia mentir.
Não faria isso agora.
— Algumas.
Ela ficou pálida.
— Algumas?
— Não mantenho uma contagem para oferecer em conversas.
— Jacob!
— Você pediu a verdade.
— Isso não é uma verdade normal!
Levantei-me.
— Nunca disse que seria.
Ela recuou um passo quando me aproximei.
Eu parei imediatamente.
Aquilo doeu mais do que o ferimento no braço.
Renesmee percebeu.
— Eu não... — Ela fechou os olhos por um instante. — Eu não sei o que fazer com isso.
— Não precisa fazer nada esta noite.
— Você acabou de me dizer que é o chefe da máfia e acha que eu vou dormir?
— Não.
— Então por que contar agora?
— Porque você viu demais para eu continuar escondendo. Porque hoje você quase morreu dentro de uma parte da minha vida que eu mantive longe de você. E porque, se vai continuar sendo minha esposa, tem o direito de saber com quem está casada.
Renesmee respirou fundo e me olhou novamente.
Havia medo.
Confusão.
Mas também havia outra coisa.
— Se eu sou sua esposa... isso faz de mim o quê?
Eu a encarei.
— Minha esposa.
— Jacob.
— Não vou atribuir a você crimes que não cometeu nem obrigações que nunca aceitou. O que eu sou não transforma você automaticamente no que eu sou.
Ela permaneceu em silêncio.
Fale com o autor