RENESMEE

Jacob dormia ao meu lado como se não tivesse acabado de desmontar, em poucas horas, quase tudo o que eu acreditava saber sobre ele. Eu estava deitada de lado, com a cabeça apoiada no travesseiro e os olhos presos em seu rosto havia tempo suficiente para já ter perdido a noção das horas. O quarto permanecia escuro, iluminado apenas pela claridade discreta que entrava pelas cortinas, e o silêncio da mansão tornava ainda mais estranho pensar que, em algum ponto do terreno, havia homens armados circulando enquanto nós dormíamos. Ou enquanto Jacob dormia, porque eu não conseguira fechar os olhos por mais de alguns minutos. Observei as linhas fortes do rosto dele, a barba curta sombreando o maxilar, as sobrancelhas espessas e aquela expressão naturalmente séria que nem o sono parecia apagar completamente. Havia alguns fios desalinhados caindo sobre a testa, e por alguns segundos era fácil esquecer tudo. Ali, deitado de lado, respirando devagar, Jacob parecia simplesmente o homem com quem eu vinha dividindo a cama. O homem que implicava comigo, que sabia exatamente como me irritar, que cuidava dos filhos com uma rigidez que às vezes escondia o quanto os amava, que havia colocado uma rosa em minhas mãos no jardim e que, naquela madrugada, finalmente olhara nos meus olhos e dissera que me amava.

Só que aquele mesmo homem havia matado alguém diante de mim poucas horas antes.

E não hesitara.

Fechei os olhos por um instante, mas a imagem retornou imediatamente, tão nítida que voltei a abri-los. Eu ainda conseguia ouvir os tiros, o vidro quebrando, os gritos e o som das pessoas correndo. Ainda conseguia sentir minhas pernas recusando-se a obedecer quando vi aquele homem vindo em minha direção. Depois Jacob apareceu. Eu lembrava da arma em sua mão, do disparo e do corpo caindo antes mesmo de compreender que ele havia atirado. Lembrava principalmente de seus olhos quando chegou até mim. Não havia pânico neles. Havia raiva, concentração e uma segurança assustadora, como se atravessar um salão sob tiros fosse uma situação para a qual ele tivesse sido preparado durante toda a vida. Naquele momento, eu achara que a segurança vinha simplesmente do homem que ele era. Agora sabia que existia uma explicação muito maior.

Don.

Ainda parecia absurdo dentro da minha cabeça.

Meu marido era o Don de Nova York.

Eu quase ri, mas não havia nada engraçado naquilo. Jacob Black não era apenas um empresário poderoso com dinheiro suficiente para comprar prédios, empresas e provavelmente metade das coisas que eu nem sabia que podiam ser compradas. As empresas eram reais, a Black Holdings era real, os negócios que apareciam nos jornais eram reais, mas existia outro império escondido atrás daquele que todos podiam ver. Rotas, portos, territórios, alianças, famílias e homens que obedeciam a Jacob não porque ele assinava os salários deles, mas porque ele ocupava uma posição que eu ainda tentava compreender. Paul, Sam, Embry e Solomon não eram simplesmente funcionários ou seguranças. A enfermaria escondida sob a mansão não existia por excesso de precaução de um milionário paranoico. Os homens armados nos portões não estavam ali apenas porque Jacob era rico.

Eu estava casada com um mafioso.

Pior.

Eu estava casada com o homem que comandava os outros.

Passei as mãos pelo rosto e tomei cuidado ao sentir os pequenos curativos nos dedos. Qualquer mulher sensata deveria estar apavorada. Qualquer mulher minimamente equilibrada provavelmente esperaria Jacob dormir, pegaria uma mala, colocaria dentro dela qualquer coisa que encontrasse e desapareceria antes do café da manhã. Talvez nem levasse a mala. Eu deveria estar calculando qual porta tinha menos seguranças, qual cartão ainda funcionaria sem que Jacob pudesse rastreá-lo e quanto tempo demoraria para chegar a uma rodoviária.

Mas não estava.

E talvez aquela fosse a parte mais perturbadora de tudo.

Dois meses antes, eu não tinha ninguém. Não tinha marido, família, casa ou sobrenome que significasse alguma coisa. Tinha aprendido muito cedo que ninguém apareceria para resolver meus problemas e que sobreviver era uma habilidade que precisava ser desenvolvida antes mesmo de eu ter idade suficiente para entender por que algumas crianças tinham pais esperando por elas e outras não. Eu crescera sem enxergar o mundo como um lugar bonito. Não havia cores demais na vida que eu conhecia. Havia dias bons, pessoas boas, pequenas alegrias, Emma e as crianças, mas também existiam contas, medo, trabalho, homens como Coleman e a certeza de que uma porta trancada nem sempre era suficiente para impedir alguém de entrar. Eu nunca fora ingênua a ponto de acreditar que o perigo existia apenas em filmes.

Só não imaginava que um dia dormiria abraçada ao homem mais poderoso de Nova York e descobriria que parte daquele poder era obscura, ilegal e provavelmente construída sobre coisas que eu ainda não tinha coragem de perguntar.

O mais sensato seria sentir repulsa.

Eu sentia medo, sim.

Mas não dele.

Aquilo me confundia.

Olhei novamente para Jacob. Sabia que deveria enxergá-lo de maneira diferente depois daquela conversa, mas continuava vendo o homem que segurara minhas mãos quando eu tremia dentro do carro, impedindo que eu apertasse os pedaços de vidro presos na pele. O homem que, ferido, mandara a enfermeira cuidar primeiro de mim. O homem que atravessara tiros para chegar até onde eu estava. Saber que ele comandava uma organização criminosa deveria ter apagado essas coisas, mas não apagava. Apenas acrescentava uma camada que eu não conhecia.

E, para minha própria vergonha, havia alguma coisa excitante naquela descoberta.

Não na morte daquele homem. Aquilo ainda embrulhava meu estômago e provavelmente continuaria aparecendo nos meus sonhos por muito tempo. O que me perturbava era perceber que o poder de Jacob, que antes eu imaginava limitado ao dinheiro e à influência empresarial, era muito maior. Eu tinha passado semanas provocando um homem que provavelmente fazia pessoas muito mais perigosas do que eu pensarem duas vezes antes de contrariá-lo. Tinha discutido com ele, batido portas, debochado de suas ordens, entrado em seu escritório sem cerimônia e dormido em seus braços sem saber que, fora daquele quarto, pessoas o chamavam de Don e esperavam sua autorização antes de tomar determinadas decisões.

E eu queria saber mais.

Aquilo deveria ser um sinal de que havia alguma coisa profundamente errada comigo.

Soltei um suspiro e afundei um pouco mais no travesseiro. Talvez fosse apenas curiosidade. Talvez, quando o choque passasse, eu percebesse que tinha enlouquecido temporariamente e começasse a procurar a saída mais próxima. Naquele momento, porém, eu não queria fugir. Queria entender. Queria saber quem eram aquelas famílias que Jacob mencionara, por que homens armados tinham entrado em sua boate, quem havia apontado uma arma especificamente para mim e, principalmente, por quê. Jacob dissera que ainda não sabia se eu havia sido realmente o alvo do ataque, mas eu lembrava daquele homem olhando para mim. Lembrava da maneira como ele avançara mesmo enquanto todos os outros corriam.

Alguém tentara me matar.

Essa ideia deveria me fazer desejar distância daquele mundo.

Em vez disso, despertava uma pergunta atrás da outra.

Quem?

Por quê?

O que eu tinha feito?

Eu era uma órfã criada em Saint Agnes. Até dois meses atrás servia mesas e contava dinheiro antes de comprar qualquer coisa que não fosse essencial. Não possuía inimigos, território, rotas, empresas ou qualquer outra coisa que justificasse alguém atravessar uma boate durante um tiroteio para colocar uma bala em mim. Se aquilo tivesse relação com Jacob, eu conseguiria compreender. Mas a expressão dele quando eu perguntara no carro por que aquele homem estava vindo na minha direção não fora de alguém que conhecia a resposta.

E eu queria essa resposta.

Talvez aquele fosse o problema. O perigo não estava me empurrando para longe. Estava me puxando para dentro.

Voltei a olhar para Jacob e percebi alguma coisa diferente. Havia um leve vinco entre suas sobrancelhas, e sua respiração parecia um pouco mais pesada. Estendi a mão e afastei cuidadosamente os fios de cabelo que caíam sobre sua testa. Assim que minha palma tocou sua pele, franzi o cenho.

Ele estava quente.

Mantive a mão por alguns segundos para ter certeza e depois toquei seu pescoço. A temperatura estava claramente acima do normal.

— Ótimo — murmurei, olhando para o curativo no braço dele. — O homem mais poderoso de Nova York consegue enfrentar um tiroteio, mas aparentemente não consegue obedecer a um médico.

Jacob não acordou. Apenas mexeu ligeiramente o rosto contra o travesseiro, e aquilo me fez suspirar. Eu poderia acordá-lo, mas sabia exatamente o que aconteceria. Ele diria que estava bem, mandaria chamar alguém e provavelmente tentaria transformar uma febre em uma questão de segurança nacional. Preferi levantar.

Peguei o robe que estava sobre a poltrona e o vesti por cima da camisola, apertando a faixa na cintura antes de sair do quarto. O corredor estava quase completamente escuro, iluminado pelas luzes discretas próximas ao chão. Caminhei em silêncio até as escadas e desci. Ainda era estranho perceber a mansão daquele jeito depois de saber a verdade. Antes, quando via um segurança ao longe, pensava apenas que Jacob era exagerado. Agora me perguntava se o homem carregava uma arma e quantas pessoas já tinha matado por ordem do meu marido.

Aquilo definitivamente levaria algum tempo para se tornar normal.

A cozinha estava vazia quando entrei. Acendi apenas a luz sobre a bancada e comecei a abrir os armários, procurando alguma caixa de medicamentos. Encontrei temperos, xícaras, chá, café, uma quantidade absurda de utensílios e absolutamente nada que parecesse útil para uma febre. Abri outra porta, depois uma gaveta e estava inclinada tentando enxergar o fundo quando uma voz surgiu atrás de mim.

— Senhora Black?

Dei um pulo e me virei tão rápido que bati o quadril na bancada.

— Meu Deus!

Embry parou imediatamente e ergueu as mãos.

— Desculpe. Não quis assustá-la.

Levei a mão ao peito.

— Você aparece silenciosamente atrás das pessoas às quatro da manhã e não queria me assustar?

Ele tentou manter a expressão séria, mas percebi o esforço para não rir.

— Eu achei que tivesse me ouvido entrar.

— Não ouvi. Pelo visto vocês são treinados para andar como criminosos também.

Embry tossiu para esconder uma risada.

Eu estreitei os olhos.

— Isso foi uma piada ruim?

— Eu não diria isso para a esposa do Don.

— Inteligente.

Voltei-me para os armários, ainda com a mão sobre o peito.

— Ninguém dorme nesta casa?

— Depois desta noite, pouca gente.

— E você?

— Depois que virei seu segurança particular, aparentemente eu não posso mais dormir.

Parei e virei lentamente o rosto para ele.

— Meu segurança particular?

— Ordem do Don.

Fechei os olhos por um segundo.

— Claro que foi.

Embry finalmente sorriu.

— Ele estava particularmente... comunicativo quando deu a ordem.

— Comunicativo?

— Estou escolhendo palavras que preservem meu emprego.

— Ele estava furioso.

— Muito.

Apoiei as mãos na bancada.

— E o que exatamente significa você ser meu segurança particular?

— Significa que, quando a senhora sair, eu vou junto.

— Para todo lugar?

— Para todo lugar em que houver possibilidade de alguma coisa tentar matá-la.

— Isso reduz bastante as opções.

Embry abriu um sorriso.

— Depois desta noite, o Don provavelmente considera até uma padaria território hostil.

Balancei a cabeça.

— Eu estou na cozinha, Embry. Vai me proteger das facas?

Ele soltou uma risada baixa.

— Se alguma delas fizer um movimento suspeito, eu intervenho.

Acabei rindo também, embora imediatamente levasse um dedo aos lábios ao lembrar que havia gente dormindo.

— Vocês são todos malucos.

— Essa informação não fazia parte da revelação do Don?

— Ele teve muita coisa para explicar. Talvez tenha esquecido essa parte.

A expressão de Embry mudou discretamente. Não foi suficiente para apagar o sorriso, mas percebi que ele entendeu exatamente o que eu quis dizer.

— Ele contou?

— Que é o Don? Contou.

Embry assentiu devagar.

— Então algumas coisas devem fazer mais sentido agora.

— Algumas. Outras fizeram nascer umas cinquenta perguntas novas.

— Imagino.

Olhei para ele.

— Você trabalha com ele há muito tempo?

— Tempo suficiente.

— Isso foi uma resposta treinada?

— Foi uma resposta de alguém que pretende continuar respirando.

Soltei uma pequena risada.

— Acho que vou ter que me acostumar com isso.

— Com o quê?

— Fazer uma pergunta sobre Jacob e receber uma resposta que não responde absolutamente nada.

Embry sorriu.

— A senhora aprende rápido.

— Renesmee.

Ele franziu o cenho.

— Como?

— Você está me seguindo até a cozinha no meio da madrugada. Se continuar me chamando de senhora Black a cada três palavras, vou começar a achar que tenho cinquenta anos. Pode me chamar de Renesmee quando estivermos assim.

Embry pareceu considerar aquilo.

— O Don não vai gostar.

— O Don está dormindo.

— Esse argumento nunca me tranquilizou.

Revirei os olhos.

— Então Nessie.

— Isso provavelmente é ainda pior.

— Embry!

Ele riu.

— Está bem. Vou tentar.

— Obrigada.

Voltei a abrir uma gaveta.

— Agora, já que aparentemente ganhei um segurança particular que não dorme, talvez ele possa ser útil. Onde ficam os medicamentos?

— O que está procurando?

— Alguma coisa para dor e febre. Jacob está quente.

Embry ficou sério imediatamente.

— O ferimento?

— Não sei. Ele estava dormindo e percebi que está febril. Não parece uma febre muito alta, mas o braço deve estar doendo e ele obviamente vai dizer que está bem se eu acordá-lo.

— Vai.

— Pelo menos nisso já conheço meu marido.

Embry aproximou-se de um dos armários altos, abriu uma pequena porta lateral que eu nem havia percebido e retirou uma caixa.

— O Don costuma tomar este quando precisa. O doutor Marshall deixa alguns medicamentos aqui para emergências, mas, se a febre subir ou o ferimento mudar de aparência, precisamos chamar o médico. Não dê qualquer coisa diferente sem falar com ele.

Peguei a caixa e li o nome.

— Esse é o que ele costuma tomar para dor e febre?

— Sim.

— Certo.

Embry pegou uma garrafa de água na geladeira e colocou diante de mim.

— Leve isso também.

— Obrigada.

— É meu trabalho.

— Seu trabalho é impedir que alguém me mate. Entregar água é um bônus.

— Considerando que o Don provavelmente me mataria se a senhora desidratasse sob minha vigilância, prefiro não separar as funções.

Eu ri novamente.

— Você exagera.

Embry apenas me olhou.

O sorriso desapareceu devagar do meu rosto.

— Você não está exagerando.

— Não.

Olhei para a caixa de medicamento em minha mão e depois para ele.

— Ele estava realmente tão furioso?

Embry demorou um instante antes de responder.

— Eu conheço Jacob há muitos anos. Já o vi com raiva por coisas que fariam outras pessoas perderem completamente o controle. O Don não costuma perder o controle. Essa é uma das razões pelas quais continua onde está.

— Mas hoje?

Embry respirou fundo.

— Hoje foi diferente.

— Porque levaram um tiro nele?

Ele quase sorriu.

— O tiro nele foi provavelmente a coisa que menos o incomodou esta noite.

Não precisei perguntar o que havia sido a maior.

Baixei os olhos.

Horas antes, Jacob havia segurado meu rosto e dito que me amava. Eu também dissera. Naquele momento, de pé na cozinha, usando um robe por cima de uma camisola no meio da madrugada, com um medicamento na mão e um homem armado provavelmente a poucos metros de mim, percebi que aquela declaração tinha adquirido um peso completamente diferente.

Eu havia me apaixonado por Jacob antes de conhecer Jacob inteiro.

Talvez devesse estar arrependida.

Ainda não estava.

— Boa noite, Embry.

— Boa noite, senhora Black.

Parei na porta e olhei por cima do ombro.

— Renesmee.

Ele sorriu.

— Ainda estou avaliando o risco.

Balancei a cabeça e saí da cozinha levando o medicamento e a água. Enquanto subia as escadas, a casa continuava parecendo a mesma mansão onde eu vinha morando havia semanas, mas eu já não conseguia enxergá-la da mesma forma. Havia portas que eu não conhecia, homens cujas funções eu nunca compreendera e segredos escondidos literalmente sob meus pés. Talvez qualquer mulher sensata desejasse continuar ignorando tudo aquilo.

Eu não.

Eu queria abrir cada uma daquelas portas.

Quando voltei ao quarto, Jacob continuava dormindo exatamente onde eu o deixara. Fechei a porta, coloquei a água e o medicamento sobre a mesa de cabeceira e fiquei alguns segundos observando-o outra vez. Meu marido era perigoso. Poderoso. Um homem capaz de matar sem hesitar quando julgava necessário. E, em algum lugar entre o medo que eu deveria sentir e a curiosidade que não conseguia controlar, uma certeza começava a se formar.

Saí da cozinha com a garrafa de água em uma mão e o medicamento na outra, ainda pensando na conversa com Embry e na naturalidade com que ele falava de coisas que, para mim, tinham acabado de adquirir significados completamente diferentes. A mansão permanecia mergulhada naquele silêncio estranho da madrugada, mas agora eu sabia que o silêncio não significava ausência de movimento. Havia homens acordados, câmeras funcionando, armas sendo carregadas e decisões sendo tomadas enquanto Claire e Will dormiam em seus quartos sem imaginar metade do que acontecia sob o mesmo teto. Subi o primeiro degrau da escada e parei quando ouvi um ruído vindo da parte posterior da casa. Não era alto, apenas o som abafado de uma porta sendo aberta, seguido por passos rápidos e alguma coisa que pareceu bater contra uma superfície. Meu primeiro pensamento foi que Embry tinha razão e ninguém naquela casa realmente dormia. O segundo foi que aquilo não era problema meu. Eu tinha ido buscar um medicamento para Jacob, deveria voltar para o quarto, acordá-lo, fazê-lo tomar e tentar dormir pelo menos algumas horas antes que o sol nascesse.

Subi mais um degrau.

Parei novamente.

— Não — murmurei para mim mesma, apertando os dedos ao redor da garrafa. — Nem pense nisso.

A curiosidade era uma coisa terrível.

Caminhei até uma das janelas laterais e afastei a cortina apenas o suficiente para olhar para fora. A iluminação do jardim era discreta naquela parte da propriedade, mas consegui distinguir quatro homens atravessando uma passagem lateral em direção aos fundos da mansão. Dois deles eu já tinha visto circulando com Sam e Paul, embora não soubesse os nomes. Os outros caminhavam atrás. No centro do grupo havia um quinto homem, mas ele definitivamente não estava ali por vontade própria. Tinha as mãos presas atrás do corpo e um capuz preto cobrindo completamente a cabeça. Um dos homens de Jacob o segurava pelo braço enquanto outro o empurrava pelas costas sempre que diminuía o passo.

Meu coração acelerou.

Aquilo não parecia uma reunião de negócios.

Fiquei observando até eles desaparecerem atrás de uma fileira de árvores e, por alguns segundos, apenas encarei o vidro. Eu tinha acabado de descobrir que meu marido comandava uma organização criminosa. Encontrar homens levando alguém encapuzado para os fundos da propriedade deveria ser exatamente o tipo de coisa que eu não gostaria de investigar.

Olhei para a escada e depois para a janela.

Aquela parte sensata da minha cabeça que ainda funcionava me disse para subir. A outra lembrou que eu passara semanas vivendo naquela casa sem saber que havia uma enfermaria inteira debaixo dela.

Coloquei o medicamento e a garrafa de água sobre uma pequena mesa próxima à escada.

— Eu só vou olhar — sussurrei, embora não houvesse ninguém para ouvir. — Olhar não mata ninguém.

A ironia da frase só me atingiria alguns minutos depois.

Atravessei o corredor e abri cuidadosamente uma das portas que davam acesso ao jardim. O ar frio da madrugada atingiu imediatamente minha pele, fazendo-me apertar o robe sobre o corpo. Olhei para os dois lados antes de sair. Não vi Embry, o que considerei uma sorte extraordinária, já que meu recém-nomeado segurança particular provavelmente me carregaria de volta para dentro se me encontrasse seguindo um prisioneiro encapuzado pela propriedade às quatro da manhã. Tirei os chinelos e os segurei em uma das mãos para evitar qualquer ruído enquanto caminhava descalça pela parte de pedra do jardim.

Eu estava sendo ridícula.

Sabia disso.

Também sabia que continuaria.

Mantive distância suficiente para que os homens não me percebessem e aproveitei a vegetação e as áreas mais escuras do jardim para me esconder. Quanto mais avançava, mais distante ficava da parte da propriedade que eu conhecia. A mansão desapareceu parcialmente atrás das árvores, e o jardim elegante deu lugar a uma área mais fechada, cercada por muros altos e vegetação densa. Eu quase perdi o grupo quando eles fizeram uma curva, mas consegui ver um dos homens segurando o braço do prisioneiro e levando-o até o que, à primeira vista, parecia simplesmente uma extensão do muro de pedra.

Parei atrás de uma árvore.

O homem encapuzado tentou resistir.

— Ande — ouvi um dos seguranças ordenar.

Ele disse alguma coisa que não consegui compreender e recebeu um empurrão mais forte. Meu estômago apertou. Pensei em voltar, mas então um dos homens de Jacob aproximou-se do muro, afastou parte da vegetação e puxou alguma coisa. Ouvi um mecanismo pesado funcionar. Uma seção inteira da parede moveu-se para dentro, revelando uma passagem escura.

Meus olhos se arregalaram.

— É claro — sussurrei. — Porque uma enfermaria secreta não era suficiente.

Os quatro homens entraram levando o prisioneiro.

A parede fechou-se novamente.

Esperei.

Não sabia exatamente quanto tempo. Talvez um minuto, talvez dois. Meu coração batia tão forte que eu tinha a impressão de que qualquer segurança próximo conseguiria ouvi-lo. Olhei ao redor mais uma vez e, quando tive certeza de que ninguém apareceria, saí detrás da árvore.

Eu poderia voltar.

Ainda podia fingir que não tinha visto nada.

Mas alguma coisa dentro de mim já tinha mudado desde a conversa com Jacob. Antes, eu teria considerado aquela passagem apenas mais um dos assuntos dele nos quais não deveria me envolver. Agora sabia que esses assuntos eram parte da vida do homem com quem eu dormia. O mesmo homem que dissera que, se eu continuaria sendo esposa dele, tinha direito de saber com quem estava casada.

Pois bem.

Eu pretendia descobrir.

Aproximei-me do muro e passei os dedos pela superfície de pedra. À primeira vista não havia nada ali. Afastei algumas folhas, procurei exatamente no ponto em que vira o homem mexer e encontrei uma pequena alavanca de metal escondida atrás da vegetação.

Fiquei olhando para ela.

— Isso é uma péssima ideia.

Puxei.

Um ruído grave veio de dentro da parede e dei um passo para trás quando a seção de pedra começou a se mover. A abertura revelou um corredor estreito, iluminado apenas por pequenas luzes fixadas próximas ao chão. Entrei rapidamente antes que alguém aparecesse e encontrei outra alavanca do lado interno. A porta começou a fechar atrás de mim.

Quando o último pedaço de luz do jardim desapareceu, minha coragem diminuiu consideravelmente.

O corredor terminava poucos metros à frente em uma escadaria.

Aproximei-me devagar.

As escadas eram de pedra e desciam em linha reta por vários metros antes de fazer uma curva. Depois disso, eu não conseguia enxergar onde terminavam. Pequenas lâmpadas nas paredes iluminavam apenas o suficiente para mostrar os primeiros degraus, e o restante parecia desaparecer em algum lugar sob a propriedade.

Fiquei parada.

A mansão tinha uma enfermaria subterrânea.

Agora aparentemente também tinha um calabouço.

Eu estava começando a reconsiderar seriamente minhas escolhas matrimoniais.

Cheguei à beirada do primeiro degrau e tentei ouvir alguma coisa. Muito abaixo, escutei vozes abafadas. Não conseguia distinguir palavras, mas eram definitivamente os homens que eu havia seguido. Meu coração voltou a acelerar.

Aquele era o momento em que uma pessoa normal voltaria.

Eu coloquei um pé no primeiro degrau.

— A curiosidade matou o gato.

Meu corpo inteiro se assustou.

Virei-me tão rápido que quase perdi o equilíbrio.

Jacob estava encostado na parede atrás de mim.

— Meu Deus, Jacob!

Levei a mão ao peito e dei um passo para trás, mas ele estendeu o braço bom e segurou minha cintura antes que eu pisasse errado na escada. Seu cabelo continuava desalinhado pelo sono, usava apenas uma calça escura e a camisa estava aberta, deixando parte do peito à mostra. O curativo no braço aparecia sob a manga dobrada. A expressão, entretanto, não tinha absolutamente nada do homem febril que eu deixara dormindo.

Ele parecia irritado.

Muito irritado.

— Você quer me matar de susto?

Jacob ergueu lentamente uma sobrancelha.

— Curiosa escolha de palavras para uma mulher que acabou de seguir quatro homens armados e um prisioneiro encapuzado até uma passagem subterrânea.

Abri a boca.

Fechei.

— Eu posso explicar.

— Estou ansioso para ouvir.

Seu tom indicava exatamente o contrário.

— Eu fui buscar seu remédio.

— Percebi que você não estava na cama.

— Você estava dormindo.

— Estava.

— E estava com febre.

— Também percebi.

Franzi o cenho.

— Então por que levantou?

Ele me encarou como se a pergunta fosse absurda.

— Porque estendi a mão, não encontrei minha esposa na cama e descobri que Embry também não sabia onde ela estava.

Meu estômago afundou um pouco.

— Ele estava na cozinha.

— Embry saiu da cozinha acreditando que você voltaria para o quarto. Você decidiu fazer turismo pelas instalações clandestinas da propriedade.

— Eu vi seus homens levando alguém.

— E sua primeira reação foi segui-los?

— Minha primeira reação foi subir.

— Finalmente alguma sensatez.

— Mas depois fiquei curiosa.

— Aí ela acabou.

Cruzei os braços e imediatamente me arrependi porque os pequenos cortes nas mãos reclamaram do movimento.

— Você acabou de me contar que é mafioso. Não pode esperar que eu durma tranquilamente depois disso.

— Posso esperar que não siga homens armados para um lugar que não conhece.

— Você disse que eu tinha direito de saber com quem me casei.

— E isso, na sua cabeça, significou invadir uma área restrita às quatro da manhã usando uma camisola transparente e um robe?

Olhei para baixo.

Eu tinha esquecido completamente da roupa.

Apertei o robe.

— Isso é irrelevante.

— Para mim, não.

— Jacob.

— Renesmee.

O modo como disse meu nome deveria ter servido de aviso.

Não serviu.

Inclinei a cabeça na direção da escada.

— Quem é o homem?

A expressão dele mudou discretamente.

— Volte para o quarto.

— Quem é?

— Não é assunto para você ver.

— Mas é assunto seu.

— Muitas coisas são.

— E eu quero saber.

Jacob me observou por alguns segundos.

— Algumas horas atrás você estava tremendo porque viu um homem morrer.

Aquilo me fez perder parte da firmeza.

— Eu sei.

— Então não tenha pressa em descobrir as partes mais desagradáveis do meu mundo.

Olhei para a escuridão abaixo de nós.

— É isso que existe lá embaixo?

— Uma delas.

Voltei os olhos para ele.

— Você tortura pessoas?

Jacob não respondeu imediatamente.

Isso já foi uma resposta.

— Meu Deus.

— Eu avisei que a verdade não seria confortável.

— Você não respondeu.

— Porque não existe uma resposta que vá fazer você se sentir melhor.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, mas não me afastei da escada.

Jacob percebeu.

— Renesmee, não teste minha paciência esta noite.

— Eu não estou testando você. Estou tentando entender.

— Então comece entendendo isto: há lugares dentro da minha vida nos quais você não entra sozinha. Há homens que eu mantenho longe desta casa justamente para que nunca cheguem perto de você, Claire, Will ou minha mãe. Se algum deles é trazido até uma instalação como esta, existe um motivo. Seguir quatro homens armados no escuro sem que ninguém saiba onde você está não é curiosidade. É imprudência.

— Você sabia.

— Porque acordei.

— E me seguiu.

— Porque percebi rapidamente que minha esposa tem um talento extraordinário para encontrar problemas.

Quase sorri.

Quase.

— Embry disse que agora é meu segurança particular.

— É.

— Você não perguntou se eu queria.

— Não.

— Autoritário.

— Sobreviva tempo suficiente para reclamar disso amanhã.

Revirei os olhos, mas Jacob segurou meu queixo com a mão boa e me fez encará-lo.

— Não estou brincando, Renesmee.

A seriedade em seu rosto apagou qualquer resposta irônica que eu estivesse preparando.

— Alguém apontou uma arma para você esta noite. Eu ainda não sei quem mandou aquele homem, não sei como ele identificou você e não sei se haverá outra tentativa. Enquanto eu não tiver essas respostas, você não desaparece da vista da segurança. Nem dentro desta propriedade.

— Eu só vim até o jardim.

— E encontrou uma instalação que nem deveria saber que existe.

— Tecnicamente, você acabou de me dizer que existe.

— Porque você já estava dentro dela.

Mordi o interior da bochecha para não sorrir.

— Você está com febre e ainda consegue ser irritante.

— E você está de camisola no meio de uma passagem subterrânea tentando descobrir para onde meus homens levaram um prisioneiro. Não sei qual de nós deveria estar mais preocupado.

Toquei a testa dele novamente.

Jacob fechou os olhos por um segundo quando minha mão encostou em sua pele.

— Continua quente.

— Estou bem.

— Foi exatamente o que eu disse para Embry que você responderia.

Ele abriu os olhos.

— Vocês estavam discutindo minha saúde?

— Entre outras coisas.

— Que outras coisas?

— Ele me contou que agora precisa me seguir para todo lugar.

— Vai precisar.

— Inclusive à cozinha, aparentemente.

— Principalmente se você continuar transformando uma ida à cozinha em uma investigação clandestina.

Dessa vez não consegui segurar o sorriso.

Jacob não sorriu.

Apenas me olhou com aquela expressão séria que eu começava a perceber possuir vários significados diferentes.

Voltei a olhar para a escada.

As vozes ainda eram audíveis lá embaixo.

— Você veio me buscar ou veio para falar com aquele homem?

— As duas coisas.

— Então ele tem relação com o ataque.

Jacob permaneceu em silêncio.

Olhei imediatamente para ele.

— Tem.

— Eu não disse isso.

— Também não negou.

— Você está aprendendo rápido demais.

— Com você.

Jacob soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto.

— Volte para o quarto.

— E você?

— Tenho trabalho.

— Com febre?

— Renesmee.

— Jacob.

Ele me lançou um olhar impaciente.

— Eu não vou descer para assistir ninguém ser torturado — esclareci, embora a parte mais curiosa de mim ainda quisesse saber quem estava sob aquele capuz. — Mas você vai tomar o remédio primeiro.

— Não vou.

Cruzei os braços.

— Então eu fico.

— Isso não é uma negociação.

— Ótimo. Estamos de acordo.

A mandíbula dele se contraiu.

Eu quase conseguia enxergar a batalha interna entre o Don de Nova York, acostumado a dar uma ordem e ser obedecido, e o marido que acabara de descobrir que esse método não funcionava particularmente bem comigo.

— Você é uma mulher extremamente difícil.

— Você se casou comigo.

— Estou começando a suspeitar que não fiz uma investigação adequada.

— Peça reembolso aos seus homens.

Dessa vez vi o canto de sua boca ameaçar se mover, embora ele controlasse imediatamente.

Olhei novamente para a escada escura e depois para Jacob. Algumas horas antes, eu não sabia que aquele lugar existia, não sabia quem meu marido realmente era e não sabia que homens eram levados encapuzados para instalações escondidas sob os muros da propriedade. A parte sensata de mim continuava dizendo que eu deveria voltar para o quarto, tomar distância de tudo aquilo e desejar nunca ter visto aquela passagem.

Mas a curiosidade permanecia.

E, quando tornei a encarar Jacob, percebi que ele também já sabia.

Eu não fugiria daquele mundo apenas porque finalmente tinha visto sua escuridão.

Meu problema era justamente o contrário.

Eu queria descobrir o que havia no fim daquela escada.