A esposa do Don
47 Os Cullen
RENESMEE
Despertei devagar, ainda presa àquela sensação confusa de não saber imediatamente se algumas lembranças pertenciam à realidade ou a um sonho particularmente absurdo. Durante alguns segundos permaneci imóvel, com o rosto parcialmente enterrado no travesseiro e os olhos fechados, sentindo apenas o peso agradável dos lençóis e o silêncio do quarto. Então estendi a mão para o outro lado da cama e encontrei apenas o colchão vazio. Abri os olhos. O lugar onde Jacob costumava dormir já estava frio, o travesseiro desalinhado era a única prova de que ele passara parte da noite ali, e imediatamente me lembrei de tudo. A boate, os tiros, o homem caindo diante de mim, o sangue no braço de Jacob, a enfermaria escondida sob a mansão e a conversa que mudara completamente a forma como eu enxergava meu marido. Depois vieram minha incursão pouco inteligente pela propriedade, a passagem secreta, a escadaria subterrânea e Jacob surgindo atrás de mim enquanto eu estava prestes a descobrir até onde aquele caminho levava. Ele acabara tomando o medicamento depois de muita insistência, mas não permanecera comigo por tempo suficiente para que eu soubesse se a febre tinha diminuído. Em algum momento, vencida pelo cansaço, eu havia dormido, e aparentemente ele considerara algumas poucas horas de repouso suficientes para voltar à vida normal de homem que comandava metade de Nova York, legal ou ilegalmente.
Virei-me para alcançar o relógio sobre a mesa de cabeceira e arregalei os olhos quando percebi que já passava das nove da manhã. Eu raramente dormia até aquela hora, hábito que provavelmente nunca perderia depois de anos acordando cedo para trabalhar, e a simples constatação de que Will e Claire provavelmente já estavam de pé me fez sentar rapidamente. A cabeça protestou contra o movimento, não exatamente com dor, mas com o peso de uma noite praticamente sem descanso, e levei a mão à testa antes de lembrar do pequeno curativo. As imagens da boate voltaram por um instante, fazendo meu estômago apertar. Respirei fundo e olhei novamente para o lado vazio da cama. Ainda havia perguntas demais dentro da minha cabeça, e eu suspeitava que Jacob respondera apenas as que considerara inevitáveis. Agora eu sabia que era casada com o Don de Nova York, sabia que existiam outras famílias poderosas operando no mesmo mundo e sabia que o império dos Black possuía uma face que jamais apareceria nos jornais financeiros. Não sabia, porém, quem tentara me matar, por que alguém teria interesse em uma antiga garçonete de vinte anos e quem era o homem encapuzado que os homens de Jacob tinham levado para aquela passagem subterrânea. Conhecendo meu marido um pouco melhor do que na noite anterior, eu duvidava seriamente que ele aparecesse no café da manhã disposto a esclarecer espontaneamente qualquer uma dessas questões.
Ouvi duas batidas discretas na porta e ajeitei o lençol sobre o corpo antes de responder.
— Pode entrar.
A porta se abriu e Jessica entrou com a mesma discrição de sempre. Ela já estava completamente arrumada para o trabalho, o cabelo preso e a expressão tranquila, como se a noite anterior não tivesse envolvido tiros, homens feridos e uma operação inteira de segurança acontecendo dentro e fora daquela propriedade. Talvez aquela fosse outra coisa à qual eu precisaria me acostumar: aparentemente, as pessoas que trabalhavam para os Black tinham uma capacidade extraordinária de retornar à rotina depois de situações que fariam qualquer pessoa comum passar a semana inteira falando sobre o assunto.
— Bom dia, senhora Black — cumprimentou Jessica enquanto abria um pouco mais as cortinas, permitindo que a luz da manhã invadisse o quarto.
— Bom dia, Jessica. — Passei a mão pelos cabelos, tentando colocá-los minimamente no lugar, e olhei mais uma vez para o lado vazio da cama. — Você sabe onde está Jacob?
Ela se virou para mim sem demonstrar qualquer estranheza com a pergunta.
— O Don está no escritório, senhora. Está recebendo algumas visitas desde cedo.
Ainda era estranho ouvir aquele título e compreender o que significava. Na semana anterior, eu provavelmente teria imaginado que “Don” era apenas alguma tradição familiar pretensiosa, algo compatível com homens ricos que possuíam sobrenomes antigos e gostavam de lembrar aos outros de sua importância. Agora, toda vez que alguém chamava Jacob daquela maneira, eu enxergava novamente a arma em sua mão.
— Desde cedo quanto?
Jessica pareceu pensar.
— Quando cheguei a esta ala, pouco depois das sete, ele já estava no escritório.
Fechei os olhos por um segundo.
— Claro que estava. Porque dormir depois de levar um tiro seria uma atitude excessivamente razoável para o seu chefe.
Jessica disfarçou um pequeno sorriso.
— O doutor Marshall já veio examiná-lo novamente esta manhã.
Isso me fez olhar imediatamente para ela.
— Veio?
— Sim. Antes das oito.
— E ele está bem?
— Pelo que me disseram, sim. O ferimento está limpo e a febre diminuiu.
Senti meu corpo relaxar um pouco.
— Obrigada. Eu estava preocupada porque ele teve febre durante a madrugada.
— O senhor Black dificilmente permanece deitado quando acredita que existe trabalho esperando por ele.
— Estou começando a perceber que o senhor Black dificilmente faz qualquer coisa que uma pessoa normal faria.
Dessa vez Jessica sorriu abertamente, embora tivesse a prudência de não concordar. Eu me levantei, apertando o robe ao redor do corpo, e imediatamente pensei nas crianças.
— E Will? Ele já tomou café?
— O senhor William e a senhorita Claire foram para a escola.
Parei.
— Foram para a escola?
— Sim, senhora.
Olhei para o relógio novamente, quase ofendida comigo mesma por ter perdido completamente o movimento da casa.
— Eu realmente dormi.
— A senhora precisava descansar. O doutor também recomendou isso ontem.
— Claire estava bem?
Jessica assentiu.
— Parecia bem. Um pouco preocupada quando soube do que aconteceu, mas o senhor Black conversou com ela antes de sair. William também quis entrar aqui para vê-la, porém o pai explicou que a senhora estava dormindo e que não deveria ser acordada.
Aquilo me fez sorrir.
— Aposto que ele não gostou.
— Ele perguntou três vezes se poderia acordá-la apenas para verificar se a senhora continuava dormindo.
Ri baixinho.
— Isso parece exatamente o Will.
Jessica aproximou-se da cama para ajeitar uma das almofadas e perguntou com naturalidade:
— A senhora deseja que eu traga o café da manhã aqui? Posso pedir que preparem o que preferir.
Olhei para a cama e balancei a cabeça. Depois de tantas horas naquele quarto, eu precisava sair dali, respirar e talvez descobrir o que estava acontecendo no restante da casa.
— Não precisa. Vou tomar café na sala de jantar.
— Deseja alguma coisa específica?
— Café forte. Muito forte. Depois disso, qualquer coisa que vocês decidirem colocar na mesa provavelmente vai servir.
— Vou pedir que preparem.
— Obrigada, Jessica.
Ela caminhou até a porta, mas antes de sair voltou-se discretamente para mim.
— Senhora Black?
— Sim?
— Fico feliz que esteja bem.
A simplicidade da frase me surpreendeu. Sorri.
— Obrigada. Eu também.
Jessica saiu e fechou a porta atrás de si. Permaneci alguns segundos parada no centro do quarto antes de caminhar até o banheiro. Tirei o robe e a camisola, observando meu reflexo no espelho enquanto esperava a água aquecer. Havia um pequeno curativo próximo à testa, algumas marcas discretas nos braços e cortes mínimos nas mãos. Não parecia o corpo de uma mulher que estivera no meio de um tiroteio algumas horas antes. Talvez fosse justamente aquilo que tornasse tudo tão estranho. Eu esperava olhar para mim e encontrar alguma transformação visível, alguma prova de que a Renesmee que saíra daquela casa com Rachel na noite anterior não era exatamente a mesma que estava ali pela manhã. Por fora, entretanto, continuava sendo eu. O mesmo rosto, o mesmo cabelo desorganizado ao acordar, as mesmas pequenas imperfeições que eu conhecia havia anos. A diferença estava dentro da minha cabeça.
Entrei no chuveiro e deixei a água quente cair sobre meu corpo por vários minutos. Evitei molhar diretamente o curativo e mantive as mãos afastadas do jato mais forte, mas permiti que o calor aliviasse a tensão acumulada nos ombros. Pensei novamente em Jacob. Mafioso. Don. As palavras continuavam parecendo incompatíveis com determinadas lembranças e perfeitamente compatíveis com outras. A maneira como ele entrava em qualquer ambiente e parecia imediatamente assumir o controle agora fazia sentido. A obediência quase automática de homens como Paul, Embry e Sam fazia sentido. Até sua necessidade irritante de saber onde todos estavam começava a ganhar uma explicação diferente. Eu não gostava de descobrir que havia passado tanto tempo sem conhecer uma parte fundamental do homem com quem me casara, mas também não conseguia fingir que nossa relação tinha começado como um casamento convencional. Eu assinara um contrato com um desconhecido para proteger Emma e as crianças. Talvez tivesse sido ingenuidade imaginar que um homem capaz de resolver problemas que a polícia, advogados e pessoas comuns não conseguiam resolver fosse apenas um empresário particularmente influente.
Quando terminei o banho, escolhi uma calça de tecido claro e uma blusa simples, deixando o cabelo solto depois de secá-lo parcialmente. Não queria nada apertado sobre os pequenos arranhões e muito menos estava disposta a me vestir como se tivesse algum compromisso formal. Passei um pouco de hidratante, observei o curativo na testa com irritação e decidi deixá-lo onde estava. O médico havia dito que poderia retirar depois, e eu não pretendia começar a manhã contrariando uma segunda recomendação médica depois de passar a madrugada obrigando Jacob a obedecer às dele.
Saí do quarto e caminhei pelo corredor em direção às escadas. Durante o dia, a mansão parecia muito menos ameaçadora do que durante minha aventura noturna. A luz entrava pelas grandes janelas, funcionários circulavam discretamente e, em algum ponto do andar inferior, ouvi o som de louça sendo organizada. Ainda assim, agora eu reparava em detalhes que antes ignorava. Um homem parado próximo à entrada não era simplesmente um segurança. Outro que conversava ao telefone perto do corredor interrompeu a fala quando passei e fez um aceno respeitoso. Eu me perguntei quantos deles sabiam que eu passara semanas vivendo naquela casa sem compreender absolutamente nada.
Desci os últimos degraus e segui em direção à sala de jantar. O cheiro de café recém-passado chegou até mim antes mesmo de eu entrar, e meu estômago lembrou que a última coisa decente que eu havia comido fora muitas horas antes. Vi parte da mesa já preparada e estava prestes a caminhar até minha cadeira quando ouvi passos vindos do corredor lateral.
Então veio uma voz feminina.
— Interessante. Pelo visto as babás desta casa agora têm o privilégio de acordar fora de horário.
Parei.
Havia alguma coisa naquela voz que eu conhecia.
Não precisei de mais do que um segundo para lembrar.
Virei-me lentamente.
Bree estava parada na entrada da sala de jantar.
Por um instante, nenhuma de nós disse nada. Ela continuava tão impecável quanto da primeira vez em que eu a vira naquela mansão, com os cabelos loiros perfeitamente arrumados, roupas elegantes e aquela postura de quem entrava em qualquer lugar convencida de que lhe pertencia. Seus olhos percorreram meu rosto, detiveram-se por um instante no pequeno curativo em minha testa e depois desceram pela minha roupa antes de retornarem aos meus, carregados da mesma superioridade que eu lembrava muito bem.
Eu a encarei em silêncio.
De todas as pessoas que eu poderia encontrar naquela manhã, a antiga amante do meu marido certamente não estava entre as que eu esperava ver tomando liberdade dentro da minha casa.
Durante alguns segundos, limitei-me a olhar para Bree, tentando decidir se valia a pena responder ou se deveria simplesmente ignorá-la e tomar meu café. A noite anterior já tinha consumido energia suficiente para uma vida inteira, e eu definitivamente não estava disposta a começar aquela manhã discutindo com uma mulher que parecia ter transformado a hostilidade gratuita em traço de personalidade. Ainda assim, havia alguma coisa particularmente irritante na maneira como ela permanecia na entrada da sala, observando-me como se eu fosse uma intrusa na casa em que morava. Talvez, antes, a palavra babá tivesse me incomodado mais. Agora, depois de descobrir que meu marido comandava uma organização criminosa, que havia homens sendo levados encapuzados para passagens subterrâneas e que alguém possivelmente tentara me matar, ser chamada de babá por uma mulher ressentida parecia um problema pequeno demais para realmente me atingir.
Sorri com educação e caminhei alguns passos em sua direção antes de responder.
— Sinto decepcioná-la, Bree, embora eu não veja motivo algum para considerar babá uma ofensa. É uma profissão honrada, exige responsabilidade e muita paciência, especialmente quando se cuida de crianças difíceis. — Mantive o sorriso enquanto os olhos dela se estreitavam discretamente. — Entretanto, se pretende se dirigir a mim nesta casa, receio que precise usar o título correto. É senhora Black. Curiosamente, um título que, pelo que entendi, você desejou durante bastante tempo e nunca conseguiu ter.
Bree não respondeu.
Eu quase me surpreendi.
Esperava uma provocação imediata, talvez alguma frase cruel ou uma tentativa de diminuir meu casamento como fizera na primeira vez em que nos encontramos. Em vez disso, ela permaneceu imóvel, mantendo o rosto perfeitamente controlado. Apenas a rigidez discreta do maxilar revelou que eu havia acertado onde pretendia. Seus olhos continuaram presos aos meus durante alguns segundos, frios e calculados, antes de ela desviar a atenção como se minhas palavras não tivessem importância. Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Passara anos atendendo pessoas que acreditavam que dinheiro lhes dava o direito de tratar funcionários como inferiores; algumas gritavam quando eram contrariadas, outras sorriam e guardavam a humilhação para devolver depois. Bree claramente pertencia ao segundo grupo.
Não esperei que ela encontrasse uma resposta. Virei-me e fui até a mesa.
Um dos funcionários aproximou-se imediatamente e puxou minha cadeira. Agradeci antes de me sentar, e ele começou a servir o café. O aroma forte foi suficiente para melhorar um pouco meu humor. Peguei a xícara com cuidado por causa dos pequenos curativos nos dedos e tomei o primeiro gole, fechando os olhos por um instante. Depois da madrugada que tivera, eu estava convencida de que café deveria ser considerado medicamento.
Bree entrou na sala logo depois, mas não se sentou. Caminhou até uma das janelas e permaneceu ali como se estivesse esperando alguém. Aquilo despertou minha curiosidade. Ela não apareceria na mansão Black às nove da manhã apenas para me chamar de babá, por mais que eu não duvidasse de sua capacidade de atravessar Manhattan exclusivamente para ser desagradável. Eu estava prestes a perguntar o que fazia ali quando ouvi passos no corredor e a voz de Sarah.
— Bom dia, querida.
Virei-me imediatamente.
— Bom dia.
Sarah entrou na sala acompanhada de uma mulher que eu nunca havia visto. Levantei os olhos com curiosidade enquanto as duas se aproximavam. A desconhecida era elegante de uma maneira muito diferente de Bree. Não havia arrogância em sua postura, embora fosse evidente que pertencia ao mesmo universo de riqueza e influência das pessoas que circulavam naquela casa. Seus cabelos tinham uma tonalidade castanha caramelizada, perfeitamente arrumados, e seu rosto carregava uma delicadeza que me chamou a atenção imediatamente. Ela parecia mais velha que Sarah, embora fosse difícil determinar exatamente quanto, e havia alguma coisa estranha em seus olhos quando me encontrou do outro lado da mesa.
Ela parou por uma fração de segundo.
Foi tão rápido que eu poderia ter imaginado.
Sarah percebeu minha expressão e sorriu.
— Que bom que acordou, Nessie. Eu já estava pensando em subir para verificar como estava se sentindo.
— Estou bem. Um pouco dolorida, mas inteira.
Os olhos de Sarah passaram rapidamente pelo curativo na minha testa.
— Considerando o que aconteceu, inteira é uma excelente condição.
— Concordo.
Ela então se voltou para a mulher que a acompanhava.
— Quero apresentar alguém. Esta é Esme Cullen. Esme, esta é minha nora, Renesmee Black.
Cullen.
O sobrenome imediatamente chamou minha atenção.
Depois da conversa com Jacob, eu não conseguia mais ouvir aqueles nomes com a mesma naturalidade. Cullen fora uma das famílias mencionadas quando ele me explicara sobre o mundo que comandava. Além disso, eu já havia conhecido Edward Cullen alguns dias antes no escritório de Jacob. Bree também era Cullen, embora agora fosse casada com Alec Volturi. De repente, parecia que metade daquela família tinha decidido aparecer na minha casa na mesma manhã.
Afastei a cadeira e me levantei.
— É um prazer conhecê-la, senhora Cullen.
Estendi a mão.
Esme segurou-a entre as suas.
O gesto me surpreendeu porque não foi o cumprimento breve e formal que eu esperava. Ela envolveu minha mão com cuidado, provavelmente percebendo os pequenos curativos, e ficou me olhando com um sorriso que parecia conter muito mais emoção do que seria razoável entre duas pessoas que acabavam de se conhecer.
— Esme, por favor — corrigiu ela com suavidade. — E o prazer é meu, Renesmee.
— Nessie, se preferir.
O sorriso dela aumentou.
— Nessie.
Por alguma razão, ouvir meu apelido na voz daquela mulher me causou uma sensação estranha que eu não soube explicar.
Esme continuou segurando minha mão.
— Você é ainda mais bonita pessoalmente.
Piscar foi a única reação que consegui ter.
— Obrigada.
— Edward não exagerou.
Meu olhar mudou imediatamente.
— Edward falou sobre mim?
Houve uma pausa pequena.
Esme soltou minha mão devagar.
— Comentou que havia conhecido a esposa de Jacob.
Aquilo fazia sentido, embora a maneira como ela continuava me olhando não fizesse tanto.
Bree finalmente resolveu participar.
— Vovó tende a exagerar quando gosta de alguém. Não se impressione.
Olhei para Bree.
Então para Esme.
Vovó.
Aquilo esclarecia pelo menos uma relação naquela reunião cada vez mais estranha.
Esme dirigiu à neta um olhar tranquilo.
— E você tende a considerar exagero qualquer elogio que não seja dirigido a você, querida.
Quase engasguei com a vontade de rir.
Bree manteve o rosto impassível.
Sarah, por outro lado, não fez o menor esforço para esconder o sorriso.
— Eu estava mostrando meu jardim a Esme — explicou Sarah enquanto se aproximava da mesa. — Ela sempre teve muito interesse por plantas e praticamente me obrigou a prometer algumas mudas.
— Não precisei obrigá-la — Esme respondeu, ainda olhando para mim com uma frequência que começava a me deixar consciente demais de mim mesma. — Sarah apenas tem dificuldade em admitir que gosta de exibir aquele jardim.
— Trabalhei anos nele. Tenho todo direito de exibir.
— Então finalmente admite.
As duas sorriram, e por alguns segundos consegui imaginar que aquilo era simplesmente uma visita entre duas mulheres que se conheciam havia muito tempo. Entretanto, Esme tornou a olhar para mim e novamente tive a impressão de que havia alguma coisa diferente naquele interesse. Não era invasivo nem desagradável. Era quase afetuoso, o que tornava tudo ainda mais estranho.
Voltei a me sentar.
— Já tomaram café?
— Eu tomei antes de sair de casa — Esme respondeu.
— Isso não significa que não possa tomar novamente. A mesa está grande demais para mim e, aparentemente, meu marido decidiu substituir o café da manhã por reuniões.
Sarah soltou uma pequena risada.
— Essa é uma reclamação que conheço há quase quarenta anos.
— Então já perdeu a esperança?
— Com Jacob? Há muito tempo.
— Excelente. Pelo menos sei o que me espera.
Esme sorriu.
— Aceito um café.
— Ótimo.
Sarah se sentou à minha esquerda, e Esme escolheu a cadeira diante de mim. Bree permaneceu de pé por alguns segundos antes de ocupar outra cadeira, um pouco afastada. Um funcionário começou a servir as duas, e aproveitei para colocar alguma coisa no prato, embora minha atenção continuasse voltando para Esme. Ela fazia perguntas simples sobre como eu estava depois do ataque, sem pressionar por detalhes, e eu respondia da mesma forma. Ainda assim, de tempos em tempos, eu a encontrava me observando quando acreditava que eu não estava prestando atenção.
— Tem certeza de que está bem? — Esme perguntou quando percebeu que eu usava os dedos com cuidado para segurar a xícara.
— São apenas pequenos cortes. O vidro quebrou muito perto de mim e alguns fragmentos ficaram nas mãos. A enfermeira retirou tudo ontem.
A expressão dela mudou.
— Deve ter sido assustador.
— Foi.
Por algum motivo, não quis fingir que não.
— Eu nunca tinha ouvido tiros daquele jeito. Muito menos visto alguém...
Parei antes de completar.
Sarah tocou meu braço discretamente.
— Não precisa falar sobre isso agora.
Assenti.
— Acho que ainda estou organizando algumas coisas.
Bree tomou um gole do café.
— Imagino que tenha sido uma introdução bastante eficiente à vida dos Black.
Sarah imediatamente voltou os olhos para ela.
— Bree.
— O quê? Estou mentindo?
Antes que eu pudesse responder, vozes masculinas chegaram do corredor.
Reconheci a de Jacob primeiro.
Meu corpo reagiu antes mesmo de eu olhar.
Ele entrou na sala acompanhado de dois homens.
Meu olhar foi imediatamente para o braço ferido. Jacob já estava completamente vestido, usando calça social escura e camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços, embora o curativo ainda fosse perceptível sob o tecido. Parecia irritantemente saudável para um homem que tivera febre poucas horas antes. Seus cabelos estavam arrumados e não havia qualquer sinal do cansaço que eu vira durante a madrugada.
Depois olhei para os homens que o acompanhavam.
Reconheci um deles.
Edward Cullen.
Era impossível esquecer aquele rosto depois do nosso encontro na Black Holdings. Ele estava tão elegante quanto naquele dia, embora parecesse menos confortável agora. Quando seus olhos encontraram os meus, houve novamente aquela mesma reação estranha. Um breve silêncio, um endurecimento no rosto e uma emoção que desapareceu rápido demais para que eu conseguisse identificá-la.
O outro homem era mais velho.
Tinha cabelos grisalhos, postura impecável e uma serenidade que contrastava com a tensão quase invisível de Edward. Seus olhos passaram por Sarah e Esme antes de chegarem até mim.
E pararam.
Mais uma vez.
Comecei a me perguntar se havia alguma coisa no meu rosto além do curativo.
Jacob percebeu minha expressão e veio diretamente até mim. Parou ao lado da minha cadeira, pousou a mão em meu ombro e inclinou-se para beijar meus cabelos.
— Bom dia.
Inclinei o rosto para olhá-lo.
— Para alguém que estava com febre às quatro da manhã, você parece irritantemente funcional.
— Estou bem.
— Essa resposta está começando a me irritar.
— O doutor já me examinou.
— Jessica me contou.
— Então não há motivo para preocupação.
Olhei para o curativo escondido sob a manga.
— Vou decidir isso depois.
O canto da boca dele se moveu discretamente. Jacob deslizou os dedos por meus cabelos antes de se endireitar e olhar para os homens atrás dele.
— Você já conhece Edward.
Levantei-me por educação.
— Senhor Cullen.
Edward se aproximou.
— Renesmee.
Dessa vez ele não estendeu imediatamente a mão. Apenas me olhou durante um segundo longo demais, até parecer se lembrar de que outras pessoas estavam observando.
— Fico aliviado em vê-la bem depois do que aconteceu ontem.
— Obrigada.
Jacob então indicou o homem mais velho.
— Quero apresentar Carlisle Cullen.
O homem avançou.
— É um grande prazer finalmente conhecê-la, Renesmee.
Finalmente.
A palavra me chamou a atenção.
Franzi levemente o cenho enquanto estendia a mão.
— O prazer é meu, senhor Cullen.
Carlisle segurou minha mão.
E, pela terceira vez naquela manhã, um Cullen me olhou como se estivesse diante de alguma coisa que procurava havia muito tempo.
Foi nesse momento que comecei a desconfiar de que aquela visita não tinha absolutamente nada a ver com o jardim de Sarah.
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