A esposa do Don

27 Mudança de planos


JACOB


Encontrei Renesmee alguns metros além da varanda, onde a iluminação da casa já se tornava mais discreta e as vozes da minha família chegavam apenas como um ruído distante. Ela estava de costas para a porta, observando o jardim enquanto mantinha os braços cruzados sobre o corpo numa tentativa pouco eficiente de se proteger do frio. O vestido que escolhera para aquela noite fora claramente pensado para um ambiente aquecido, não para uma noite no jardim, e a pele descoberta dos ombros já denunciava que ela começava a sentir a queda de temperatura. Por alguns segundos permaneci apenas observando-a, tentando conciliar aquela imagem com a conversa que tivera poucos minutos antes com Solomon e Embry. Eu sabia quem estava diante de mim. Ou, pelo menos, sabia muito mais do que ela própria. Renesmee acreditava que aquela noite representava apenas sua entrada oficial na família Black; não fazia ideia de que eu passara boa parte dela discutindo as consequências de outra família que poderia reivindicá-la.


Aproximei-me sem anunciar minha presença, retirei o paletó e o coloquei sobre seus ombros. Renesmee se sobressaltou discretamente antes de reconhecer meu toque e segurou as lapelas para impedir que a peça escorregasse.


— Obrigada.


— Você desapareceu.


Ela virou o rosto para mim com uma expressão levemente contrariada.


— Eu estava no jardim.


— Isso se enquadra razoavelmente bem na definição de desaparecer quando deveria estar dentro da casa.


— Sua família fala demais.


A reclamação conseguiu arrancar de mim um princípio de sorriso.


— Finalmente concordamos em alguma coisa.


Ela também sorriu, mas logo voltou a olhar para o jardim. Permaneci ao lado dela sem exigir explicações. Eu já havia percebido durante a noite que, apesar de Renesmee ter lidado bem com todos, alguma coisa mudara conforme as horas passavam. No começo ela participara das conversas, respondera às provocações de Rachel, rira com Emily e tentara memorizar uma quantidade desnecessária de nomes. Depois começara a observar mais do que participar. Eu conhecia suficientemente o comportamento humano para perceber quando alguém precisava de alguns minutos longe de uma sala cheia.


— Eles são muito unidos — ela comentou depois de algum tempo.


— São.


— Dá para perceber.


A maneira como falou me fez olhar para ela com mais atenção.


— Isso incomoda você?


— Não. Acho que é o contrário.


— Explique.


Renesmee apertou meu paletó ao redor do corpo e demorou um pouco antes de responder.


— Não sei explicar.


— Tente.


Ela respirou profundamente antes de voltar os olhos para as janelas da mansão, através das quais ainda podíamos enxergar algumas pessoas circulando pela sala.


— Todo mundo lá dentro tem alguma história com todo mundo. Vocês falam de coisas que aconteceram dez, quinze, vinte anos atrás. Rachel sabe como você era quando criança. Rebecca sabe quais histórias você odeia que contem. Sarah sabe exatamente quando todos estão mentindo. Os filhos cresceram juntos. Até quando vocês discutem, parece que existe alguma coisa por baixo que mantém todo mundo no mesmo lugar.


— Família.


— É.


Havia uma melancolia discreta na maneira como ela respondeu, e eu compreendi antes mesmo que precisasse perguntar.


— E você nunca teve isso.


Ela me olhou por alguns segundos. Não havia necessidade de repetir a história de Saint Agnes; eu a conhecia melhor agora do que ela imaginava.


— Não.


Aquela única palavra assumia um significado muito diferente para mim naquela noite. Renesmee acreditava que nunca tivera uma família porque fora abandonada e ninguém a escolhera. Eu sabia que existia outra possibilidade. Talvez ela tivesse sido amada o suficiente para que duas pessoas arriscassem a própria vida, trocassem seu corpo pelo de uma criança morta e a entregassem a uma desconhecida para mantê-la viva. Talvez Edward Cullen tivesse passado vinte anos acreditando que enterrara a filha enquanto ela crescia a poucas horas de distância.


Eu poderia ter contado naquele momento.


Não contei.


Olhei para a casa antes de responder:


— Em cinco dias terá.


Renesmee virou o rosto para mim.


— Você fala como se fosse tão fácil.


— Não disse que será fácil.


— Só colocar uma aliança no dedo não vai fazer todas aquelas pessoas se tornarem minha família.


— Não.


Ela pareceu surpresa com a concordância.


Voltei a atenção para ela.


— Mas fará de você minha esposa. O restante eles terão de construir com você, e você com eles. Não espero que acorde na manhã seguinte ao casamento sentindo vinte anos de intimidade com pessoas que conheceu há uma semana.


O sorriso dela surgiu lentamente.


— Isso foi surpreendentemente sensato.


— Tenho momentos ocasionais.


Ela riu, e eu fiquei observando-a por mais tempo do que deveria. A mesma mulher que, alguns minutos antes, eu tratara com Embry e Solomon como uma vantagem estratégica estava diante de mim usando meu paletó e preocupada porque não sabia como pertencer à minha família. Havia algo desagradavelmente contraditório naquela situação. Eu acabara de decidir que não permitiria que o contrato determinasse automaticamente o fim do nosso casamento depois de três anos, enquanto Renesmee ainda acreditava que conhecia exatamente as condições sob as quais se tornaria minha esposa.


Eu sabia que Solomon tinha razão em pelo menos uma coisa.


Ela não aceitaria facilmente.


Meu olhar desceu para o paletó e percebi que começava a escapar de um dos ombros dela. Levei a mão até o tecido e o ajeitei, mas meus dedos tocaram sua pele antes de se afastarem.


Renesmee ficou imediatamente tensa.


Não o suficiente para recuar.


Apenas o suficiente para que eu percebesse.


— Está nervosa outra vez.


Ela fechou os olhos por um instante.


— Jacob...


— Eu não disse nada.


Ela abriu os olhos e me encarou.


— Você acabou de dizer.


— Apenas fiz uma observação.


— Você gosta disso.


— Do quê?


— De me deixar nervosa.


Dessa vez não encontrei qualquer razão para negar. Havia algo particularmente interessante em ver uma mulher que me enfrentava sem hesitação perder parte daquela segurança apenas porque eu diminuía a distância entre nós.


— Estou começando a gostar.


O efeito foi imediato.


Ela desviou os olhos, e eu vi sua mão apertar um pouco mais a lapela do meu paletó. Não precisava perguntar se era medo. Eu já conhecia a diferença. Renesmee me dissera na cozinha que tinha algum receio de mim, e eu não era arrogante o suficiente para fingir que minha reputação não justificava isso. Mas aquilo era outra coisa.


Atração.


Eu também sentia.


Esse era justamente o problema.


— Cinco dias — ela murmurou depois de algum tempo.


— Sim.


— Ainda prefiro quando eram quinze.


— O resultado seria o mesmo.


— Para alguém que gosta de controlar tudo, você subestima muito o efeito psicológico de dez dias.


— Não estou subestimando. Apenas não posso acrescentá-los novamente ao calendário para deixá-la confortável.


Ela virou-se um pouco mais para mim.


— Poderia adiar.


— Poderia.


— Mas não vai.


— Não.


— Naturalmente.


— Você já sabia a resposta antes de perguntar.


— Às vezes ainda tenho esperança de descobrir que existe alguma flexibilidade escondida em você.


— Existe.


Ela ergueu as sobrancelhas.


— Onde?


— Você conseguiu tirar Claire de casa hoje.


— Depois de uma negociação.


— Exatamente. Antes de você, minha resposta era não.


— Então estou fazendo progresso.


— Não se entusiasme.


Renesmee sorriu e, por alguns segundos, voltamos a ficar em silêncio. Minha mão permanecia próxima ao ombro dela e eu poderia simplesmente tê-la retirado. Em vez disso, deixei os dedos deslizarem brevemente pelo tecido do paletó até alcançar a parte superior de seu braço.


Ela olhou para minha mão.


Depois para mim.


Não se afastou.


A lembrança da cozinha voltou com precisão suficiente para me fazer recordar a conversa que tivera com ela naquela madrugada. Eu lhe dera trinta dias. Não como concessão, mas porque aquela condição era justa. Renesmee entraria num casamento com um homem que mal conhecia, sendo virgem e tendo assinado um contrato que previa um filho. Eu deixara claro que nenhuma cláusula retirava dela o direito de decidir quando alguém tocaria seu corpo.


Continuava sendo verdade.


Mas havia uma diferença entre respeitar aqueles trinta dias e desejar que fossem necessários.


Depois de Allentown, tempo havia adquirido outro valor.


Se Renesmee fosse realmente Elizabeth Cullen, o casamento por si só já mudaria consideravelmente a posição entre nossas famílias. Uma certidão me tornaria marido da herdeira que Edward julgava morta. Porém, uma união efetivamente consolidada — e, no futuro, o filho previsto no acordo — tornaria qualquer tentativa dos Cullen de desfazer aquela ligação infinitamente mais difícil. Um herdeiro nascido de Renesmee uniria duas linhas que jamais deveriam ter sido unidas e colocaria sob meu teto uma criança com direitos que atravessariam estruturas Black e Cullen.


Eu não precisaria obrigá-la a nada.


Não faria isso.


Mas também não precisava permanecer passivo durante trinta dias esperando que Renesmee decidisse sozinha que estava pronta.


Ela já reagia à minha proximidade. Já me olhava de uma maneira diferente. O que existia entre nós não precisava ser inventado; precisava apenas de espaço para crescer.


Renesmee finalmente se afastou alguns centímetros e olhou em direção à casa.


— Acho que precisamos voltar antes que Rachel venha procurar por mim novamente.


— Provavelmente.


Ela começou a retirar meu paletó.


— Fique com ele.


— Você vai sentir frio.


— Eu sobrevivo até a porta.


— Que cavalheiro.


— Faço o possível.


Ela riu e começou a caminhar. Acompanhei-a de volta, mantendo um passo de distância enquanto observava o tecido claro do vestido acompanhar seus movimentos.


Minha decisão se formou sem qualquer necessidade de pressa.


O acordo de trinta dias continuaria existindo porque eu dera minha palavra, e Renesmee continuaria tendo a decisão final sobre quando permitiria que nossa relação avançasse. Mas eu não pretendia passar esse período fingindo que não a desejava ou evitando a atração que já existia entre nós. Se conseguisse fazer com que ela me quisesse antes, a escolha ainda seria dela.


Eu apenas faria questão de tornar essa escolha muito mais provável.


Porque, quando Edward Cullen finalmente descobrisse que Elizabeth estava viva, eu não queria que encontrasse uma filha esperando para ser levada de volta.


Queria que encontrasse minha esposa.


E, se Renesmee decidisse por vontade própria consumar aquele casamento antes dos trinta dias, a única herdeira legítima dos Cullen deixaria de ser apenas a maior surpresa que o destino colocara em meu caminho.


Ela se tornaria a vantagem mais poderosa que eu já tivera contra eles.