A esposa do Don

21 Madrugada ( parte final)


RENESMEE

Virei lentamente o rosto sobre o ombro e encontrei Jacob atrás de mim.

Por alguns segundos, esqueci completamente o copo.

Eu já havia estado perto dele antes. Jacob segurara minha cintura no jardim quando Emma estava na mansão, aproximara-se durante nossas conversas e tinha o péssimo hábito de invadir meu espaço quando queria me provocar, mas aquela situação era diferente. Talvez porque fossem quase três horas da manhã e não houvesse mais ninguém por perto. Talvez porque eu estivesse usando apenas uma camisola coberta por um robe fino, com os cabelos soltos e provavelmente desarrumados depois de quase três horas rolando de um lado para o outro na cama. Ou talvez porque ele também estivesse diferente. Não havia terno, paletó, gravata ou qualquer uma das roupas impecáveis que pareciam fazer parte da imagem de Jacob Black. Ele vestia uma camiseta escura simples e uma calça de tecido igualmente escuro, estava descalço e tinha os cabelos ligeiramente desalinhados. Pela primeira vez desde que o conhecera, não parecia o homem diante de quem todos mediam cuidadosamente as palavras. Parecia apenas um homem que acordara no meio da madrugada e encontrara a futura esposa lutando contra um armário.

O problema era que aquela versão parecia perigosamente mais interessante.

Jacob retirou o copo da prateleira, mas não se afastou imediatamente. Seu braço continuava próximo ao meu rosto, o peito quase tocava minhas costas e eu conseguia sentir o calor do corpo dele mesmo através do robe. Prendi a respiração sem perceber. Quando ele finalmente baixou o braço, virei-me para agradecer e descobri tarde demais que não havia espaço suficiente para fazer aquilo sem ficarmos frente a frente.

Muito perto.

Tive de erguer o rosto para olhá-lo.

Os olhos de Jacob passaram pelo meu rosto, demorando-se por um instante em meus cabelos antes de descerem. Foi um movimento breve, mas não breve o suficiente para que eu não percebesse. O olhar dele alcançou o robe fechado sobre meu corpo e depois minhas pernas descobertas antes de retornar ao meu rosto. Não havia vulgaridade naquele gesto, tampouco o descaramento de alguns homens que eu aprendera a reconhecer muito cedo. Ainda assim, havia alguma coisa diferente na maneira como ele me observava, uma consciência silenciosa que fez minha pele se aquecer.

Estendi a mão.

— O copo.

Ele olhou para a própria mão, como se apenas naquele momento lembrasse que ainda o segurava.

— Naturalmente.

Entregou-o a mim.

Nossos dedos se tocaram.

Foi apenas um toque, mas retirei a mão depressa demais e quase deixei o copo cair. Consegui segurá-lo antes que escapasse completamente, e Jacob arqueou uma sobrancelha.

— Cuidado.

— Eu sei segurar um copo.

— Acabei de testemunhar evidências em contrário.

— A culpa é sua.

— Minha?

Afastei-me dele e fui até a ilha, satisfeita por colocar alguma distância entre nós. Peguei a jarra e servi água.

— Você apareceu atrás de mim sem fazer barulho.

— Esta é minha casa.

— Agora também é minha. Você mesmo fez questão de lembrar isso hoje.

— Então deveria aprender onde ficam os copos.

Olhei para ele por cima do ombro.

— Estou aqui há pouco mais de um dia.

— Tempo suficiente para descobrir a cozinha.

— Passei parte desse tempo impedindo seu filho de apanhar na escola. Minha agenda ficou um pouco comprometida.

O semblante dele mudou discretamente com a referência a Will. A provocação desapareceu por um instante, substituída por algo mais sério.

— Justo.

Levei o copo aos lábios, tentando ignorar que ele permanecia parado a poucos passos de mim. Jacob abriu a geladeira, retirou outra garrafa de água e bebeu diretamente dela antes de se apoiar na bancada do outro lado. Observei-o sem querer. Era estranho vê-lo daquela maneira, tão diferente do homem que eu conhecera até então. Eu já sabia que Jacob era bonito. Seria ridículo fingir o contrário. Desde a primeira vez que o vira, tivera olhos suficientes para perceber isso. Mas reconhecer objetivamente que um homem era bonito era muito diferente de ficar em uma cozinha às três da manhã reparando em seus braços porque uma camiseta deixava à mostra muito mais do que seus ternos costumavam permitir.

Desviei os olhos imediatamente.

Jacob percebeu.

Claro que percebeu.

Aquele homem parecia perceber tudo.

— Não consegue dormir? — perguntou.

— Essa pergunta não deveria ser minha? Você também está aqui.

— Eu dormi.

— Então por que acordou?

— Sede.

Ergui meu copo.

— Pelo menos temos alguma coisa em comum.

— Parece preocupada.

— Não estou preocupada.

Ele me olhou em silêncio.

— Está bem. Talvez um pouco.

— Com Will?

Balancei a cabeça.

— Ele está bem. Eu passei no quarto antes de descer e não ouvi nada. Imagino que esteja dormindo.

Jacob assentiu.

— Está.

— Como sabe?

— Passei lá alguns minutos antes de vir para cá.

Aquilo me fez sorrir discretamente. Era interessante descobrir essas pequenas coisas sobre ele. O homem que comandava uma organização que eu preferia não compreender completamente acordava no meio da madrugada e passava no quarto do filho para verificar se ele estava bem.

— Então qual é o problema? — perguntou.

Olhei para a água dentro do copo.

— Quinze dias.

Jacob não precisou perguntar ao que me referia.

— Algumas horas atrás os lençóis de seda eram excelentes.

Ergui os olhos, surpresa por ele ter lembrado.

— Algumas horas atrás eu ainda não estava deitada sozinha pensando que vou me casar em quinze dias.

— Você já sabia disso quando entrou no quarto.

— Saber e ficar olhando para o teto às duas da manhã pensando nisso são experiências completamente diferentes.

Ele cruzou os braços.

— Está arrependida?

A pergunta veio direta, sem qualquer mudança no tom, mas percebi a atenção com que esperou minha resposta.

— Não.

Jacob permaneceu me observando.

— Mas?

Suspirei.

— Mas estou assustada.

Ele descruzou lentamente os braços.

— Comigo?

A pergunta me pegou desprevenida. Pensei em mentir, mas não havia razão para isso. Jacob provavelmente perceberia de qualquer maneira.

— Um pouco.

Nenhuma irritação apareceu no rosto dele.

— Compreensível.

Franzi a testa.

— Só isso?

— O que esperava que eu dissesse?

— Não sei. Que eu não tenho motivos para ter medo de você.

— Isso seria mentira.

Fiquei olhando para ele.

Jacob sustentou meu olhar com absoluta tranquilidade.

— Existem motivos para muitas pessoas terem medo de mim, Renesmee. Seria absurdo fingir que você desconhece isso.

— Você pretende me dar algum?

— Não.

A resposta veio imediatamente.

Alguma coisa dentro de mim relaxou, embora eu não soubesse que estivesse esperando por aquilo.

— Então acho que estou mais assustada comigo mesma.

Dessa vez, consegui realmente despertar a curiosidade dele.

— Explique.

— Não.

— Você introduziu o assunto.

— E agora estou retirando.

— Conversas não funcionam assim.

— As suas talvez não.

— Noventa e nove por cento delas funcionam exatamente assim.

Sorri ao reconhecer a referência à nossa conversa no escritório.

— E lá está você pontuando outra conversa.

— Alguém precisa manter alguma ordem.

— Às três da manhã?

— Especialmente às três da manhã.

Ri baixinho e bebi mais um pouco de água. A conversa deveria estar me deixando mais tranquila, mas havia outra coisa acontecendo que não tinha relação alguma com o casamento em si. Eu estava consciente demais dele. Da voz mais baixa naquela cozinha silenciosa, da proximidade, da forma como a camiseta acompanhava seus ombros quando ele cruzava os braços. Aquilo era absurdo. Eu me casaria com aquele homem em quinze dias e, até então, conseguira pensar em nosso casamento como um acordo complexo, uma solução para problemas ainda mais complexos. Naquela madrugada, porém, meu cérebro parecia determinado a me lembrar de uma parte muito simples da situação.

Eu me casaria com um homem.

Com aquele homem.

E eu era virgem.

A lembrança do nosso acordo de trinta dias surgiu imediatamente. Jacob não me pressionara uma única vez desde aquela conversa. Nem sequer mencionara novamente a intimidade ou a cláusula do herdeiro. Eu deveria me sentir mais segura por causa disso.

Sentia.

O problema era outro.

— Renesmee.

Pisguei.

— O quê?

— Você parou de me ouvir.

— Não parei.

— O que eu disse?

Abri a boca.

Não fazia ideia.

Jacob arqueou uma sobrancelha.

— Exatamente.

— Estou com sono.

— Você desceu porque não conseguia dormir.

— Estou cansada. É diferente.

Ele me observou por alguns segundos, e tive a impressão incômoda de que sabia exatamente que alguma coisa havia mudado.

Decidi voltar para o quarto antes que ele descobrisse o quê.

— Acho que a água resolveu meu problema.

— Impressionante.

— Boa noite, Jacob.

Peguei o copo e me virei para colocá-lo na pia. Depois dei um passo em direção à saída.

Não cheguei muito longe.

Alguma coisa me puxou pela cintura.

Soltei uma exclamação assustada e parei imediatamente.

— O que foi?

Olhei para baixo, tentando descobrir o que havia acontecido. A faixa do meu robe estava presa no puxador de uma das portas inferiores do armário. Provavelmente acontecera quando me afastara da bancada.

— Perfeito.

Tentei puxá-la.

Não soltou.

— Espere — Jacob disse.

— Eu consigo.

— Naturalmente.

Olhei para ele.

— Não comece.

— Não disse nada.

— Seu rosto disse.

Ele se aproximou.

Meu corpo percebeu antes da minha cabeça.

A brincadeira desapareceu de mim quando Jacob parou diante do armário e olhou para a faixa presa. Ele poderia simplesmente ter dito como soltá-la. Em vez disso, inclinou-se e segurou a extremidade do tecido.

Seus dedos ficaram perigosamente próximos à minha cintura.

Prendi a respiração.

Jacob passou a faixa cuidadosamente pelo puxador, desfazendo a pequena volta que se formara. O movimento durou poucos segundos, mas pareceu muito mais longo porque eu conseguia sentir seus dedos roçarem de leve o tecido sobre minha cintura. Quando terminou, ele não soltou a faixa imediatamente. Levantou os olhos para mim enquanto ainda segurava a ponta.

Eu não consegui desviar.

Estávamos próximos novamente.

Próximos demais.

Ele estendeu a mão e me entregou a faixa.

Quando meus dedos tocaram os dele, meu coração acelerou de uma maneira tão evidente que tive a impressão absurda de que ele poderia ouvir.

Jacob olhou para meu rosto.

Depois para minha mão.

E novamente para mim.

— Você fica nervosa quando eu chego perto.

Meu estômago se contraiu.

— Não fico.

— Fica.

— Você tem o péssimo hábito de chegar perto demais.

— Não foi uma negação.

— Foi praticamente uma.

— Não existe “praticamente” nesse caso.

Apertei a faixa entre os dedos.

— Talvez eu não esteja acostumada.

A expressão dele mudou.

Não foi muito. Com Jacob, quase nunca era. Mas o humor desapareceu de seus olhos e deu lugar a uma atenção diferente, mais séria. Ele sabia exatamente ao que eu me referia.

— Eu sei.

Meu rosto aqueceu.

— Não precisava dizer desse jeito.

— De que jeito?

— Como se estivesse lembrando que sou...

Parei antes de terminar.

— Virgem? — ele perguntou.

Fechei os olhos por um segundo.

— Obrigada por falar em voz alta.

— Estamos sozinhos.

— Ainda assim.

— Renesmee, sua virgindade não é um problema que precisa ser mencionado em voz baixa.

— Para você é fácil falar.

— Por quê?

Olhei para ele como se a resposta fosse evidente.

— Porque você claramente não tem nenhuma.

Jacob ficou em silêncio.

Demorei dois segundos para perceber o que acabara de dizer.

Levei a mão à boca.

— Eu não acredito que falei isso.

O sorriso que surgiu no rosto dele foi pequeno, mas verdadeiro.

— Eu entendi o que quis dizer.

— Ótimo. Vamos fingir que essa parte da conversa nunca aconteceu.

— Não prometo.

— Jacob.

— Renesmee.

Balancei a cabeça, tentando controlar o constrangimento.

— Você é muito mais velho do que eu.

— Dezoito anos.

— Não precisava saber de cabeça.

— Claire fez questão de calcular durante o café.

— É verdade.

A lembrança me fez sorrir, mas o sorriso desapareceu quando percebi que Jacob ainda estava perto. Ele não tocava em mim. Não fazia qualquer movimento para diminuir novamente a distância. Ainda assim, alguma coisa entre nós parecia ter mudado.

— Você tem experiência — continuei, mais baixo. — Eu não tenho. Para você, tudo isso provavelmente é simples.

— Não presuma o que é simples para mim.

Ergui os olhos.

A forma como ele me olhava fez meu coração acelerar novamente.

— Nosso acordo continua exatamente como foi estabelecido — Jacob disse. — Casar comigo daqui a quinze dias não muda os trinta dias que você pediu. Não haverá qualquer expectativa de intimidade antes disso.

— Eu sei.

— E depois dos trinta dias também não haverá nada enquanto você não estiver pronta.

Aquilo me surpreendeu.

— Mas o contrato...

— O contrato estabelece que teremos um filho. Não estabelece que você perde o direito de decidir quando alguém toca seu corpo.

Fiquei em silêncio.

Ele continuou:

— Eu aceitei sua condição sabendo exatamente o que significava. Não vou pressioná-la porque existe uma cerimônia marcada.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer por isso.

O silêncio que se formou não foi desconfortável. Pela primeira vez naquela madrugada, consegui respirar normalmente.

Ou quase.

Porque então Jacob olhou para mim de uma maneira diferente.

Não para o robe.

Não para minhas pernas.

Diretamente para meus olhos.

E foi muito pior.

— Entretanto — ele disse — isso não responde à minha pergunta.

— Que pergunta?

— Por que está mais assustada consigo mesma do que comigo?

Meu coração voltou a acelerar.

— Eu disse que não explicaria.

— Eu lembro.

— Então não insista.

Ele ficou me observando por alguns segundos.

— Está bem.

Pisquei, surpresa.

— Só isso?

— Você pediu que eu não insistisse.

— Você geralmente é mais difícil.

— Também sei escolher minhas batalhas.

— Claire herdou isso de você?

— Infelizmente.

Sorri.

Jacob finalmente se afastou, e o ar que entrou entre nós deveria ter sido um alívio.

Não foi.

Eu não gostei da constatação.

Peguei novamente o copo e terminei a água, mais para ter alguma coisa para fazer com as mãos do que por sede. Quando o coloquei na pia, Jacob passou por mim para chegar ao outro lado da cozinha. O espaço entre a ilha e onde eu estava não era pequeno, mas ele ainda colocou a mão em minha cintura ao passar.

Foi um toque breve.

A palma quente pousou sobre o robe por apenas um instante, guiando-me alguns centímetros para o lado enquanto ele passava atrás de mim.

Meu corpo inteiro reagiu.

Não de medo.

Esse era o problema.

Meus músculos ficaram tensos e senti um arrepio subir pelas costas. Jacob percebeu. Vi quando ele parou depois de passar por mim e olhou sobre o ombro.

— Viu? — perguntou.

— O quê?

— Nervosa.

— Você fez isso de propósito.

— Fiz o quê?

— Tocou em mim.

— Precisava passar.

Olhei para o espaço enorme ao lado dele.

— Claro.

Jacob acompanhou meu olhar e depois voltou a encarar meu rosto.

— Boa noite, Nessie.

Havia uma provocação discreta na voz dele.

— Boa noite, Jacob.

Comecei a caminhar para a porta, mas antes de sair olhei para trás, isso foi um erro.

Jacob continuava junto à bancada, olhando para mim.

Não para alguma coisa atrás de mim. Não distraidamente.

Para mim.

Dessa vez, não desviei imediatamente. Sustentei o olhar durante alguns segundos, sentindo aquele mesmo frio estranho na barriga que começara quando ele dissera que nos casaríamos em quinze dias. Só que agora eu compreendia que aquilo não tinha relação apenas com ansiedade.

Jacob foi o primeiro a quebrar o contato visual.

Não porque parecesse constrangido. Simplesmente pegou a garrafa de água e bebeu novamente, como se tivesse decidido encerrar alguma coisa que nenhum dos dois havia colocado em palavras.

Saí da cozinha praticamente correndo, subi as escadas mais devagar do que havia descido, tentando organizar os pensamentos. Quando cheguei ao corredor dos quartos, percebi que estava segurando a faixa do robe com uma das mãos exatamente no ponto onde os dedos dele haviam estado.

Soltei-a imediatamente e entrei no quarto, fechei a porta e encostei as costas nela.

Meu problema continuava sendo que eu me casaria com Jacob Black em quinze dias. Havia um contrato entre nós, uma família que eu ainda precisava conhecer, uma vida completamente diferente daquela que tivera até algumas semanas atrás e uma cláusula sobre um filho que continuava assustadora quando eu pensava nela por tempo demais.

Mas agora havia outro problema, um que não constava em nenhuma página do contrato e que eu definitivamente não havia considerado quando aceitei aquela proposta.

Eu começava a sentir atração pelo meu futuro marido.

E, pela maneira como Jacob me olhara naquela cozinha, começava a desconfiar que não era a única.


Depois que saí da cozinha, voltei para o quarto tentando me convencer de que havia transformado um encontro absolutamente banal em alguma coisa muito maior do que realmente fora. Jacob me ajudara a alcançar um copo, soltara a faixa do meu robe quando ela ficou presa no puxador e tocara minha cintura por alguns segundos ao passar por mim. Era tudo. Nenhuma daquelas coisas deveria ser suficiente para fazer uma mulher adulta subir as escadas sentindo o coração acelerado, muito menos para fazê-la lembrar da forma como ele a observara antes de desejar boa-noite. Ainda assim, quando entrei no quarto, fechei a porta e encostei as costas nela, percebi que meus dedos haviam voltado exatamente ao ponto da cintura onde a mão dele estivera.

Afastei a mão imediatamente e balancei a cabeça para mim mesma. Aquilo estava começando a ficar ridículo. Eu já sabia que Jacob era um homem atraente; qualquer pessoa com olhos perceberia. Também sabia que ele era muito mais velho, experiente e acostumado a mulheres que provavelmente não ficavam sem saber onde colocar as mãos porque um homem se aproximara demais. O problema não era Jacob. O problema era que eu nunca precisara lidar com aquele tipo de atração de forma tão concreta. Nunca havia dividido uma casa com um homem com quem sabia que, em algum momento, teria intimidade. Nunca tivera uma data de casamento marcada e muito menos uma cláusula contratual estabelecendo que, em algum ponto daquele casamento, nós teríamos um filho. Tudo aquilo que conseguira tratar de maneira racional durante as negociações começava a ganhar rostos, mãos, voz e proximidade demais.

Tirei as pantufas, mas mantive o robe sobre a camisola quando me deitei. Apaguei o abajur e puxei o lençol, determinada a dormir. Não pensaria em Jacob. Não pensaria na cozinha, na camiseta escura, na mão dele soltando a faixa presa ou naquele olhar antes de eu sair. Também não pensaria na pergunta que ele fizera. Você fica nervosa quando eu chego perto. Definitivamente não pensaria nisso.

Fechei os olhos e, depois de algum tempo, o cansaço finalmente venceu.

Não soube quanto tempo havia passado quando despertei novamente.

O quarto continuava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que atravessava as cortinas. Permaneci imóvel por alguns segundos, ainda presa entre o sono e a consciência, tentando descobrir o que me acordara. Então senti o colchão ceder levemente ao meu lado.

Abri os olhosbe meu coração disparou. Jacob estava sentado na beirada da cama.

Levei a mão ao peito e me ergui rapidamente, apoiando as costas na cabeceira.

— Meu Deus, Jacob.

Ele permaneceu olhando para mim.

— Desculpe.

— Você quase me matou.

— Não era minha intenção.

Demorei alguns segundos para controlar a respiração. Ele ainda usava a camiseta escura e a calça que vestira na cozinha, mas parecia diferente sob a pouca luz do quarto. Mais sério. Os cabelos estavam ligeiramente desalinhados e uma das mãos descansava sobre o colchão, próxima à minha perna, sem tocá-la.

Minha primeira preocupação surgiu imediatamente.

— Aconteceu alguma coisa com Will?

— Não.

— Tem certeza?

— Ele está dormindo.

— Claire?

— Também.

Franzi a testa.

— Sarah?

— Renesmee, todos estão bem.

Respirei aliviada, mas a tranquilidade durou pouco porque isso deixava uma pergunta bastante óbvia.

— Então o que você está fazendo no meu quarto?

Jacob me observou durante alguns segundos.

— Você não respondeu minha pergunta.

— Que pergunta?

— Por que fica nervosa quando eu chego perto.

Fiquei olhando para ele.

— Você entrou no meu quarto no meio da madrugada por causa disso?

— Sim.

— Isso é completamente normal para você?

— Não particularmente.

— Que bom. Por um momento achei que precisaria começar a trancar a porta.

— Se quiser trancá-la, tranque.

A resposta me fez hesitar.

— Você conseguiria entrar de qualquer maneira.

— Conseguiria.

— Isso não foi tranquilizador.

— Não tentei tranquilizá-la.

Revirei os olhos, mas percebi que estava apertando o lençol entre os dedos. Jacob também percebeu. Seus olhos desceram até minha mão e depois retornaram ao meu rosto.

— Está fazendo de novo.

— O quê?

— Nervosa.

— Você está sentado na minha cama às três da manhã.

— Isso explica parte.

— Parte?

— Na cozinha também estava.

Senti meu rosto aquecer.

— Talvez eu não esteja acostumada com você tão perto.

— Eu sei.

— Então deveria facilitar.

— Posso sair.

A resposta veio sem provocação.

Olhei para ele.

Jacob não fez qualquer movimento para se aproximar. Apenas permaneceu sentado, esperando.

— Você disse que me daria trinta dias — lembrei.

— E vou dar.

— Então por que está aqui?

— Porque estar no seu quarto não muda o acordo.

— Depende do que pretende fazer no meu quarto.

A expressão dele mudou discretamente.

Meu coração bateu mais forte assim que percebi o duplo sentido das minhas próprias palavras.

— E o que acha que pretendo fazer? — perguntou.

— Não sei.

— Está com medo de descobrir?

Deveria ter respondido sim.

Em vez disso, fiquei em silêncio.

Jacob se virou um pouco mais na minha direção.

— Eu disse que lhe daria trinta dias, Nessie. Por isso ainda estou esperando você me mandar sair.

O apelido, dito daquela maneira, produziu a mesma reação que tivera na cozinha, só que mais intensa. Eu estava na minha cama. Ele estava a poucos centímetros. Não havia ninguém por perto, nenhuma mesa com um contrato entre nós e nenhuma conversa sobre Will, Coleman ou casamento para servir de distração.

— E se eu não mandar? — perguntei.

Jacob sustentou meu olhar.

— Então teremos outro problema.

— Qual?

Ele levantou lentamente a mão e afastou uma mecha do meu cabelo que havia caído sobre meu rosto.

— Eu vou querer beijar você.

Meu estômago se contraiu. Seus dedos permaneceram próximos à minha face.

— Você sempre avisa antes?

— Não.

— Então por que está avisando agora?

— Porque você nunca foi beijada por mim.

Prendi a respiração.

Havia alguma coisa estranha naquela resposta. Eu sabia disso. Deveria ter pensado melhor sobre ela, mas a mão de Jacob deslizou lentamente pela lateral do meu rosto e qualquer pensamento sensato desapareceu.

— Isso é muita confiança — murmurei.

— Não é confiança.

— O que é?

— Aviso.

Minha boca ficou seca.

Jacob aproximou-se apenas o suficiente para que eu sentisse sua respiração, mas parou antes de me tocar.

— Quer que eu saia?

Olhei para a porta e depois para ele.

— Não.

A resposta saiu baixa.

A expressão dele permaneceu controlada, mas alguma coisa mudou em seus olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

Jacob não me beijou imediatamente. Seu polegar passou lentamente pela minha face, e aquele pequeno gesto pareceu muito mais íntimo do que deveria. Ele se aproximou até sua testa quase tocar a minha e permaneceu assim por alguns segundos, como se ainda estivesse me dando tempo para mudar de ideia.

Mas não mudei.

Quando sua boca tocou a minha, foi de maneira cuidadosa. O primeiro beijo foi tão leve que eu quase poderia ter acreditado que o imaginara. Jacob se afastou alguns centímetros e olhou para mim.

Meu coração batia tão depressa que eu mal conseguia respirar.

— Tudo bem? — ele perguntou com os lábios próximos aos meus.

— Você pretende fazer perguntas depois de cada beijo?

Um pequeno sorriso apareceu.

— Posso.

— Então vai estragar tudo.

Dessa vez fui eu quem diminuiu a distância.

Segurei a camiseta dele e o beijei.

Não sabia exatamente o que estava fazendo, mas Jacob parecia não se importar. Sua mão deslizou até minha cintura e permaneceu sobre o tecido do robe enquanto o beijo se prolongava. A insegurança dos primeiros segundos começou a desaparecer, substituída por uma sensação completamente nova. Eu estava consciente de tudo: da mão quente em minha cintura, do corpo dele próximo ao meu, da respiração que se misturava à minha e do fato de que, em vez de querer distância, eu estava segurando sua camiseta para impedir que ela existisse.

Quando Jacob se afastou, mantive os dedos presos ao tecido.

— Ainda nervosa?

— Você realmente escolheu agora para perguntar isso?

— Parece um momento adequado.

— Você é insuportável.

— Não respondeu.

— Talvez.

Ele sorriu discretamente.

— Melhor.

— Melhor por quê?

— Porque agora sei que não é medo.

Não consegui responder.

Jacob aproximou o rosto novamente, mas dessa vez sua boca tocou minha face antes de alcançar meu pescoço. Fechei os olhos quando senti o beijo abaixo da orelha e apertei involuntariamente a camiseta entre os dedos. A sensação fez um arrepio percorrer minhas costas, e ele percebeu. Claro que percebeu.

— Jacob...

— Quer que eu pare?

Abri os olhos. Ele havia interrompido imediatamente.

Olhei para o rosto dele, tão próximo do meu, e balancei a cabeça.

— Não.

Jacob voltou a me beijar, e dessa vez fui eu quem passei os braços ao redor de seus ombros. Ele me puxou um pouco mais para perto, sem pressa, e senti o robe se mover em minha cintura. Quando nos afastamos novamente, minha respiração estava acelerada e a dele já não parecia tão perfeitamente controlada quanto de costume.

Isso me deu uma satisfação que eu não soube explicar.

— Então você também fica nervoso — o provoquei.

— Não.

— Sua respiração discorda.

— Não confunda coisas diferentes.

— Que coisas?

Jacob me olhou.

Senti meu rosto esquentar antes mesmo que ele respondesse.

— Acho melhor não perguntar.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Ele baixou os olhos para minha cintura.

Só então percebi que a faixa do robe estava torta.

Jacob tocou a ponta.

— Ainda está presa?

Sorri.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Seus dedos seguraram a faixa.

A lembrança da cozinha veio imediatamente. Eu deveria ter afastado a mão dele, mas permaneci imóvel enquanto Jacob puxava devagar uma das pontas do laço. Meu coração começou a bater ainda mais depressa.

Ele parou e olhou para mim.

— Nessie.

— O quê?

— Tem certeza?

Dessa vez compreendi exatamente o que estava perguntando. A faixa continuava entre seus dedos e eu poderia dizer não.

Poderia lembrá-lo dos trinta dias, pedir que saísse e voltar a dormir.

Não fiz nenhuma dessas coisas.

— Tenho.

Jacob puxou a faixa e o laço cedeu lentamente...


Foi quando abri meus olhos e a claridade da manhã atravessava as cortinas.

Fiquei imóvel.

Minha respiração estava acelerada e uma das mãos continuava fechada sobre o lençol. Olhei para o lado e estava vazio.

Pisquei e olhei novamente.

Jacob não estava ali.

Sentei-me depressa e examinei o quarto. A porta permanecia fechada exatamente como eu a deixara. O abajur estava apagado. Não havia qualquer sinal de que alguém tivesse entrado.

Levei a mão à boca.

— Não.

Olhei para o outro lado da cama como se Jacob pudesse surgir por algum milagre.

Nada.

Então baixei os olhos e meu robe continuava perfeitamente amarrado.

Fechei os olhos. — Meu Deus.

Eu havia sonhado.

Jacob nunca estivera no meu quarto.

Nunca sentara na minha cama. Nunca tocara meu rosto. Nunca me beijara. E definitivamente nunca segurara a faixa do meu robe enquanto perguntava se eu tinha certeza.

Tudo acontecera dentro da minha cabeça.

Deixei-me cair novamente sobre o travesseiro e cobri o rosto com as duas mãos. Não sabia o que era pior: ter tido aquele sonho com o homem com quem me casaria em quinze dias ou lembrar com absoluta clareza de que, quando Jacob perguntara se eu queria que ele parasse, eu dissera não.

E havia um problema ainda mais constrangedor.

Eu queria voltar a dormir.

— Isso não está acontecendo — murmurei contra as mãos.

Mas estava.

Levantei alguns minutos depois com a firme decisão de que ninguém naquela casa descobriria o que se passara dentro da minha cabeça. Tomei um banho um pouco mais demorado do que o necessário, arrumei os cabelos e escolhi minhas roupas tentando recuperar alguma dignidade. Quando me olhei no espelho antes de sair, parecia perfeitamente normal. Ninguém olharia para mim e saberia que eu passara parte da madrugada sonhando que meu futuro marido entrava no meu quarto para me beijar.

Era uma informação exclusivamente minha e morreria comigo.

Desci para o café da manhã.

Sarah já estava à mesa quando entrei e me recebeu com um sorriso.

— Bom dia, querida.

— Bom dia.

Claire estava concentrada no celular, mas ergueu os olhos.

— Bom dia.

— Bom dia, Claire.

Will apareceu pouco depois, muito mais disposto. O corte no canto da boca continuava visível e o médico acertara sobre o hematoma, mas ele parecia pouco interessado nisso.

— Nessie!

— Bom dia, campeão.

Ele sentou-se e imediatamente anunciou:

— Eu ganhei de você ontem.

— Eu estava começando a gostar de você, Will.

— Eu disse que ia contar para todo mundo.

— Ainda dá tempo de preservar minha reputação.

— Não.

Sarah riu.

Peguei minha xícara de café e comecei a acreditar que sobreviveria àquela manhã.

Então ouvi passos e meu corpo ficou tenso antes mesmo que eu olhasse.

Jacob entrou na sala de jantar já vestido para o dia, usando calça escura e uma camisa social impecável. O problema foi que meu cérebro retirou imediatamente aquela camisa e colocou nele a camiseta escura do sonho.

Baixei os olhos para o café. Não.

Absolutamente não.

— Bom dia — ele cumprimentou.

Todos responderam e eu fiquei em silêncio.

Jacob caminhou até a cabeceira e, antes de se sentar, olhou diretamente para mim.

— Bom dia, Nessie.

Engasguei com o café.

Tossi, coloquei a xícara sobre o pires e peguei rapidamente o guardanapo enquanto Sarah me observava com preocupação.

— Está tudo bem?

— Perfeitamente.

Minha voz saiu péssima.

Will franziu a testa.

— Você está vermelha.

— O café está quente.

Claire olhou para minha xícara.

— Você acabou de beber.

— Claire — Sarah advertiu.

— Só estou falando.

Jacob sentou-se tranquilamente.

— Dormiu melhor depois da água?

Fechei os olhos por um segundo.

Você não faz ideia.

— Perfeitamente — respondi.

Quando abri os olhos, ele estava me observando.

— Está mentindo.

— Não estou.

— Está com olheiras.

— Isso é extremamente indelicado de dizer a uma mulher pela manhã.

Claire finalmente largou o celular.

— Por que você sabe que ela foi beber água?

Meu coração tropeçou dentro do peito, Jacob pegou a própria xícara com absoluta tranquilidade.

— Porque nos encontramos na cozinha durante a madrugada.

Claire ergueu lentamente as sobrancelhas.

Sarah passou manteiga em uma torrada com uma serenidade suspeita.

— Ah — Claire respondeu.

Não gostei daquele “ah”.

— Eu estava com sede — expliquei.

Claire olhou para mim. — Eu não perguntei.

— Mas pensou.

— Pensei o quê?

— Nada.

Will olhava de um para o outro sem entender.

— O que aconteceu na cozinha?

— Nada — respondi rapidamente.

Jacob tomou um gole de café.

— Ela não conseguia alcançar um copo.

Virei o rosto para ele.

— Era uma prateleira muito alta.

— Para você.

— Você tem quase dois metros. Sua opinião não conta.

Claire soltou uma risada, e até Sarah sorriu.

Will olhou para o pai.

— Você pegou o copo para ela?

— Peguei.

— Então por que ela está brava?

Abri a boca e descobri que não havia resposta razoável para aquilo.

— Eu não estou brava.

Jacob apoiou a xícara no pires.

— Está nervosa.

Meu coração quase parou. Olhei para ele.

Aquela frase, a mesma maldita frase.

Jacob não poderia saber, evidentemente, mas minha cabeça não parecia interessada em lógica. Por um segundo, voltei para o sonho, para a mão em meu rosto e para a voz baixa perguntando se eu ainda estava nervosa.

— Não estou — respondi.

— Está.

Senti minhas faces aquecerem.

— Cuide da sua vida, Jacob.

Claire arregalou discretamente os olhos, provavelmente surpresa por eu falar daquela maneira com o pai. Sarah escondeu o sorriso atrás da xícara.

Jacob, porém, continuou perfeitamente tranquilo.

— Minha futura esposa é parte considerável da minha vida.

O encarei e ele sustentou meu olhar.

E foi nesse momento que tive certeza de uma coisa: o encontro da cozinha havia sido real, o sonho não, mas a atração que o provocara definitivamente não desaparecera quando eu abrira os olhos.

Peguei minha xícara novamente e bebi o café com bastante cuidado.

Ainda faltavam quinze dias para o casamento e não era mais isso que me preocupava, e sim o que viria depois dele.