A esposa do Don

20 Madrugada ( parte 1)


RENESMEE

O carro parecia silencioso demais depois de tudo o que havia acontecido dentro da escola. Will estava sentado ao meu lado, ainda com o pequeno corte no canto da boca e uma expressão cansada que me incomodava mais do que qualquer coisa. Desde que saímos da enfermaria, ele quase não falara. Paul ocupava o banco diante de nós e conversava em voz baixa com um dos homens do lado de fora, enquanto outro segurança permanecia próximo à porta aberta. Eu ainda sentia a adrenalina da discussão percorrendo meu corpo e, embora soubesse que Will estava bem, continuava olhando para ele a cada poucos segundos como se precisasse confirmar.

Passei os dedos pelos cabelos dele, afastando alguns fios da testa.

— Está doendo muito?

— Não.

— Will.

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Só o ombro um pouco.

— E a boca?

— Só quando mexo.

— Então tente não falar.

Ele me lançou um olhar indignado.

— Como eu vou fazer isso?

Sorri apesar de tudo.

— Realmente não pensei nessa parte.

Ele encostou-se um pouco mais em mim, e aproveitei para passar o braço ao redor de seus ombros com cuidado para não tocar onde estava dolorido. Puxei-o de maneira protetora para junto do meu corpo. Will não reclamou. Ao contrário, acomodou a cabeça contra mim, e aquele gesto simples fez a raiva que eu sentia voltar. Não conseguia compreender como alguém podia olhar para uma criança de sete anos e decidir que ela seria um alvo fácil.

Paul terminou de falar com o segurança e se virou para nós.

— Sarah já foi avisada. Ela entrou em contato com o médico da família. Ele estará esperando quando chegarmos à mansão.

Assenti.

— A enfermeira disse que o ombro não parece ter nada sério, mas acho melhor examinarem novamente.

— Será examinado — Paul respondeu. — O doutor acompanha a família há muitos anos.

Will ergueu a cabeça.

— Eu não preciso de médico.

— Precisa, sim — respondi.

— Ele vai colocar injeção?

— Por que colocaria?

— Médicos gostam de injeção.

— Essa é uma acusação bastante grave contra uma categoria profissional inteira.

Paul desviou o rosto para a janela, mas percebi que estava escondendo um sorriso.

— Eles gostam — Will insistiu. — Sempre encontram uma razão.

— Então ficarei ao seu lado e, se ele aparecer com uma seringa sem uma excelente justificativa, nós dois fugimos.

— Você promete?

— Não — Paul respondeu antes de mim. — Porque nenhum dos dois vai fugir.

Olhei para ele.

— Ninguém perguntou sua opinião.

— Estou representando a sensatez neste carro enquanto o Don não volta.

— Você é sempre assim?

Paul me olhou pelo retrovisor.

— Infelizmente.

Will sorriu pela primeira vez desde que saímos da enfermaria.

Continuei acariciando seus cabelos até perceber movimentação do lado de fora. Um dos seguranças se afastou da porta e, quando olhei através do vidro, vi Jacob deixando o prédio.

Ele caminhava em nossa direção acompanhado por outro homem da segurança. Havia alguma coisa na forma como Jacob se movimentava que fazia as pessoas abrirem espaço naturalmente. Ninguém precisava anunciar quem ele era. Ele não caminhava depressa, tampouco parecia preocupado em demonstrar autoridade. Ainda assim, os funcionários próximos à entrada da escola acompanhavam sua passagem com os olhos.

O segurança abriu a porta.

Jacob entrou e sentou-se ao lado de Will, deixando o menino entre nós. A primeira coisa que fez foi olhar novamente para o rosto do filho. Will percebeu.

— Eu estou bem, pai.

— Isso será decidido pelo médico.

Will olhou para mim como se acabasse de receber a confirmação de que os adultos haviam conspirado contra ele.

— Eu falei.

— Seu pai ainda nem mencionou injeção.

Jacob franziu discretamente a testa.

— O que tem uma injeção?

— Nada — respondi rapidamente.

Will se ajeitou entre nós.

Jacob apoiou a mão sobre a perna do filho e então olhou para mim.

— Está tudo resolvido.

Eu ainda tinha muitas perguntas.

— Resolvido como?

— O garoto será transferido de escola.

Arregalei os olhos.

— Jacob...

— Conversaremos melhor em casa.

O tom não foi grosseiro, mas deixava evidente que ele não pretendia explicar aquela conversa diante de Will. Olhei para o menino e compreendi.

— Está bem.

O carro começou a se mover.

Durante o trajeto até a mansão, Will permaneceu entre nós. Em algum momento, deixou a cabeça pender contra meu braço, enquanto uma das mãos descansava sobre a perna de Jacob. Achei curioso como ele parecia precisar manter contato com nós dois. Continuei acariciando seus cabelos devagar, e Jacob permaneceu em silêncio durante boa parte do caminho, observando o filho ocasionalmente.

Eu ainda tentava processar o que acontecera.

Minha primeira noite na mansão Black fora seguida por uma manhã em que descobri que o menino que seria meu enteado sofria agressões na escola, enfrentei um diretor que parecia mais preocupado com autorizações administrativas do que com a segurança de uma criança, derrubei um adolescente de treze anos sem ter pretendido derrubá-lo, quase fui retirada da escola por seguranças, tive a polícia mencionada algumas vezes e terminei o dia dentro de um carro ao lado de um homem que aparentemente conseguira resolver tudo em menos tempo do que eu levaria para preencher um formulário de transferência.

Começava a compreender que viver com Jacob Black talvez exigisse uma definição bastante flexível de normalidade.

Quando atravessamos os portões da propriedade, Will já parecia mais relaxado. O carro parou diante da entrada principal, e Sarah apareceu antes mesmo que conseguíssemos chegar à porta.

— William.

A preocupação em seu rosto desapareceu parcialmente quando viu o neto caminhando.

— Vovó, eu estou bem.

Sarah não pareceu interessada na avaliação dele. Abaixou-se diante do menino, segurou delicadamente seu rosto e examinou o corte.

— Naturalmente. E eu sou uma mulher completamente tranquila.

Will fez uma careta.

— É só um corte.

— Que será examinado.

Ele olhou para mim.

— Todo mundo nessa casa fala igual.

— Não me inclua nisso.

— Você também mandou eu ir ao médico.

— Porque sou inteligente.

Sarah finalmente sorriu e beijou a testa do neto.

— Venha cá.

Will permitiu que ela o abraçasse. Eu me afastei alguns passos, observando os dois, e só então percebi o homem que aguardava no hall com uma pequena maleta médica.

Ele se aproximou assim que Jacob entrou.

— Jacob.

— Doutor.

Os dois apertaram as mãos.

— Sarah me explicou por telefone o que sabia.

— Examine o ombro, principalmente. Ele foi empurrado contra uma árvore. Há também o ferimento na boca.

— Vou verificar tudo.

Jacob olhou para a mãe.

— Pode ficar com ele?

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Você realmente está me perguntando isso?

— Estou sendo educado.

— É uma novidade agradável.

Jacob ignorou a provocação.

— Preciso conversar com Renesmee.

Meu olhar foi imediatamente para ele.

Sarah percebeu.

— Eu cuido de William. Venha, meu amor.

— Renesmee vem?

Will perguntou olhando para mim.

Antes que eu respondesse, Sarah passou o braço pelos ombros dele.

— Renesmee estará aqui quando o médico terminar. Seu pai precisa conversar com ela.

Will olhou desconfiado para Jacob.

— Ela não fez nada errado.

Meu coração apertou.

Jacob também pareceu perceber o significado daquela preocupação.

— Eu sei.

— Ela só me ajudou.

— Eu sei disso também.

Will ficou alguns segundos encarando o pai antes de finalmente aceitar.

— Está bem.

— Vamos — Sarah disse. — E prometo que ninguém lhe dará uma injeção sem necessidade.

Will olhou imediatamente para mim.

— Viu?

— Eu nunca duvidei de você.

O médico acompanhou os dois pelo corredor. Esperei até desaparecerem antes de voltar a atenção para Jacob.

Ele já estava olhando para mim.

— Acompanhe-me.

Assenti.

Seguimos por um dos corredores da mansão. Eu ainda estava começando a aprender a localização de cada ambiente, e aquela casa parecia grande o suficiente para que alguém pudesse morar nela durante meses sem descobrir todos os cômodos. Jacob caminhava alguns passos à minha frente até parar diante de uma porta dupla.

O escritório.

Eu ainda não havia entrado ali.

Ele abriu a porta e esperou que eu passasse primeiro.

Entrei.

O ambiente tinha muito dele. Madeira escura, estantes, uma mesa ampla, poucas peças decorativas e tudo perfeitamente organizado. Não havia objetos espalhados nem papéis fora do lugar. Até os livros pareciam ter recebido instruções específicas sobre onde deveriam permanecer.

Jacob fechou a porta.

Eu me virei para ele, esperando a pergunta óbvia.

O que aconteceu na escola?

Em vez disso, ele caminhou até a mesa e perguntou:

— Como passou sua primeira noite na nova casa?

Pisquei.

— O quê?

— Perguntei como passou sua primeira noite aqui.

Fiquei olhando para ele.

— Seu filho acabou de voltar da escola com a boca machucada e um possível hematoma no ombro.

— Eu sei.

— Um garoto de treze anos estava batendo nele.

— Também sei.

— E você quer saber como eu dormi?

Jacob apoiou uma das mãos sobre a mesa.

— Quero.

— Por quê?

— Porque o problema do meu filho foi resolvido graças a você. Eu chegaria a esse ponto da conversa em seguida.

Cruzei os braços.

— Você sempre pontua os assuntos de uma conversa?

— Em noventa e nove por cento delas.

Não consegui evitar.

Ri.

Foi uma risada curta, mas completamente espontânea. Jacob apenas me observou, e havia alguma coisa discretamente satisfeita em sua expressão.

— Está bem — falei. — Seguindo a pauta do senhor Black, minha primeira noite foi ótima.

— Ótimo.

— Afinal, quem não dorme bem sobre lençóis de seda?

Um canto da boca dele se moveu.

— Fico satisfeito em saber disso.

— Embora eu tenha descoberto que seu closet é maior do que o apartamento onde eu morava.

— Tecnicamente, agora é seu closet.

— Isso não melhora a situação.

— Com o tempo, deixará de parecer exagerado.

— Duvido muito.

Jacob se afastou da mesa e caminhou alguns passos pelo escritório.

— Existe outra coisa que precisamos ajustar.

— Lá vem o item seguinte da pauta.

— Exatamente.

Sorri.

Ele parou diante de mim.

— Estamos morando juntos.

— Percebi.

— E nos casaremos em quinze dias.

Meu sorriso diminuiu.

Quinze dias.

Ouvir aquilo daquela maneira fez a realidade atingir um lugar diferente dentro de mim. Eu sabia que me casaria com Jacob. Havia lido o contrato, negociado condições, assinado documentos, mudado para a casa dele e começado a ocupar um espaço na vida dos filhos. Ainda assim, ouvir quinze dias fez meu estômago se contrair.

Daqui a quinze dias eu seria Renesmee Black.

Esposa de Jacob Black.

O frio percorreu minha barriga antes que eu pudesse impedir.

— Quinze dias — repeti.

— Sim.

— Isso é muito pouco.

— É tempo suficiente para organizar a cerimônia.

— Para você, talvez.

— Minha mãe está organizando a maior parte.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Consideravelmente.

Respirei fundo.

— Certo. Quinze dias.

Jacob me observou por um instante antes de continuar.

— Por essa razão, acredito que podemos abandonar parte da formalidade entre nós. Em breve seremos oficialmente um casal e já dividimos a mesma casa. Não há necessidade de continuar me chamando de senhor Black sempre que deseja manter distância.

— Eu achei que gostasse de “senhor Black”.

— Em determinadas circunstâncias, talvez.

A maneira como disse aquilo provocou outro pequeno frio na minha barriga, e dessa vez tive certeza de que ele percebeu.

Desviei os olhos.

— Então devo chamá-lo apenas de Jacob?

— É meu nome.

— Eu sei. Só parece estranho.

— Por quê?

— Porque todo mundo ao seu redor chama você de Don, senhor Black ou fala com você como se estivesse prestes a receber uma sentença.

— Minha mãe me chama de Jacob.

— Sua mãe também parece ser a única pessoa nesta casa que não tem medo de você.

— Agora existem duas.

Olhei para ele.

— Quem disse que não tenho medo?

— O fato de ter discutido comigo mais vezes em poucos dias do que alguns homens que trabalham para mim em vinte anos.

Sorri.

— Talvez eu só não tenha bom senso.

— Essa possibilidade ainda está sendo analisada.

Balancei a cabeça.

— Certo, Jacob.

Ele pareceu aprovar.

— Melhor.

— E você também vai parar com “senhorita Miller”?

— Sim.

— Porque daqui a quinze dias eu não serei mais senhorita Miller.

— Exatamente.

Outra vez aquele frio.

Eu precisava me acostumar.

Jacob caminhou até uma pequena mesa lateral, serviu água em um copo e me ofereceu. Aceitei.

— Domingo haverá um jantar aqui.

— Que tipo de jantar?

— Familiar.

— Isso deveria soar menos assustador do que soou?

— Provavelmente.

— Quantas pessoas?

— O suficiente.

— Essa não é uma quantidade.

— Você conhecerá o restante da família.

Levei o copo aos lábios.

— Todos?

— Os que importam.

— Jacob, isso também não é uma quantidade.

— Rachel estará aqui. Minha mãe, evidentemente. Alguns parentes próximos e pessoas que fazem parte da família há muitos anos. Nada que exija preocupação.

— Fácil para você dizer. É sua família.

— Em quinze dias também será sua.

Fiquei em silêncio.

Aquela frase era simples, mas me atingiu de uma maneira inesperada.

Minha família.

Eu crescera em um orfanato. Durante toda a vida, família fora uma palavra que eu usava para falar das outras pessoas. Eu tinha Emma. Tinha as crianças dela. Tivera as freiras de Saint Agnes e algumas pessoas que fizeram parte da minha vida por períodos diferentes. Mas nunca tivera aquilo que a maioria das pessoas entendia quando dizia que precisava voltar para casa porque a família estava esperando.

E agora aquele homem falava como se, em quinze dias, uma família inteira viesse junto com uma assinatura.

— Não faça essa cara — Jacob disse.

— Que cara?

— Como se eu tivesse acabado de informar que domingo haverá uma execução coletiva na sala de jantar.

Soltei uma risada.

— Dependendo da sua família, talvez eu preferisse a execução.

— Rachel vai gostar de ouvir isso.

— Rachel provavelmente participaria.

— Esse é precisamente o problema.

Sorri e terminei a água.

Jacob pegou o copo vazio da minha mão e o colocou sobre a mesa.

— Domingo, às oito.

— Estarei aqui.

— Imagino. Você mora aqui.

— Você é insuportável.

— Estou começando a ouvir isso com frequência.

Ele caminhou em direção à porta. Presumi que a conversa tivesse terminado e fui atrás dele, ainda pensando em tudo que acontecera naquele dia. Quando cheguei perto, Jacob abriu a porta para mim.

Passei por ele.

Ouvi sua voz antes de alcançar o corredor.

— Nessie.

Parei.

Ainda não estava acostumada a ouvi-lo usar aquele apelido.

Virei-me.

Jacob passou por mim, mas diminuiu o passo quando ficou ao meu lado. Por alguns segundos, sua expressão perdeu aquela distância controlada que parecia acompanhá-lo em quase todos os momentos.

— Obrigado, Nessie.

Não precisei perguntar pelo quê.

Ele seguiu pelo corredor antes que eu encontrasse uma resposta, e permaneci parada por alguns segundos olhando para suas costas, sentindo novamente aquele frio estranho na barriga.

Quinze dias.

Definitivamente, eu precisaria me acostumar com muita coisa.

O restante da noite foi surpreendentemente tranquilo, considerando a maneira como aquele dia havia começado. Depois que o médico terminou de examinar Will, confirmou o que a enfermeira da escola já havia dito: o corte no canto da boca era superficial, o ombro ficaria dolorido e provavelmente ganharia uma mancha arroxeada nada bonita nos próximos dias, mas não havia sinal de uma lesão mais séria. Sarah ouviu todas as recomendações como se estivesse recebendo instruções para cuidar de alguém em estado crítico, enquanto Will fazia questão de repetir a cada poucos minutos que estava bem. Quando finalmente apareceu para o jantar, parecia muito mais incomodado com a atenção excessiva dos adultos do que com os próprios machucados.

Jacob estava em casa naquela noite, e eu começava a perceber que isso, por si só, alterava o funcionamento da mansão. Não porque ele fizesse alguma coisa especial, mas justamente pelo contrário. A presença dele parecia organizar tudo ao redor sem qualquer esforço. Os empregados entravam e saíam da sala de jantar com discrição, Sarah conversava normalmente, Will parecia satisfeito por ter o pai sentado à mesa e até Claire apareceu no horário sem que ninguém precisasse chamá-la duas vezes. Ela também não me provocou durante todo o jantar, por razões bastante óbvias. Jacob estava sentado à cabeceira, e eu ainda conhecia Claire havia pouco tempo, mas já sabia o suficiente para perceber que ela escolhia cuidadosamente quais batalhas travaria diante do pai. Isso não significava que estivesse feliz com a minha presença. Em determinado momento, nossos olhos se encontraram do outro lado da mesa e ela arqueou uma sobrancelha ao perceber que eu a observava. Esperei algum comentário, mas ele não veio, e considerei aquilo uma pequena vitória.

Will, por outro lado, parecia determinado a compensar o silêncio da irmã. Contou a Sarah que o médico não lhe dera nenhuma injeção, como se tivesse escapado de um procedimento cirúrgico de alto risco, reclamou que todos estavam olhando demais para sua boca e, durante a sobremesa, perguntou se eu ainda cumpriria a promessa que fizera mais cedo.

— Que promessa? — perguntei.

Ele me olhou como se eu tivesse cometido uma ofensa pessoal.

— Videogame.

— Eu prometi?

— Você disse que jogaria comigo.

— Isso não é exatamente uma promessa.

— Para uma criança é — Sarah comentou, levando tranquilamente a taça aos lábios.

Olhei para ela.

— Obrigada pelo apoio.

— Sempre.

Will sorriu, satisfeito por ter encontrado uma aliada.

— Então vai jogar?

— Depois do jantar.

— Até eu ganhar.

— Nesse caso, espero que seu pai não tenha compromissos amanhã, porque podemos passar a madrugada inteira tentando.

— Renesmee! — Will protestou, enquanto Jacob continuava comendo como se não estivesse prestando atenção. Ainda assim, vi o canto de sua boca se mover discretamente e apontei imediatamente para ele. — Não ria.

Jacob ergueu os olhos.

— Não estou rindo.

— Está quase.

— Não sabia que agora também monitorava minhas expressões.

— Estou aprendendo. Você tem umas três.

Claire abaixou o rosto para o prato, mas não rápido o suficiente para esconder o sorriso que surgiu. Jacob olhou primeiro para mim e depois para a filha.

— Fico satisfeito em descobrir que minha presença está servindo de entretenimento para a mesa inteira.

Inclinei-me discretamente na direção de Will.

— Viu? Essa é a expressão número dois.

Will riu, e Jacob apenas balançou a cabeça antes de voltar ao jantar.

Depois que terminamos, cumpri minha palavra e fui com Will para a sala onde ficavam os videogames. Eu deveria ter considerado o ombro machucado uma razão suficiente para escolhermos alguma coisa tranquila, mas ele garantiu que mexer os dedos não tinha qualquer relação com o ombro e apresentou aquela lógica com tanta seriedade que não tive disposição para discutir. Jogamos várias partidas, e, pela primeira vez desde que eu o conhecera, Will ganhou de mim. Ele ficou em silêncio por aproximadamente dois segundos, olhando para a tela como se precisasse confirmar que aquilo realmente acontecera, então levantou os dois braços por puro reflexo e imediatamente se arrependeu quando o ombro protestou.

— Ganhei!

— E quase perdeu o braço comemorando.

Ele abaixou o braço dolorido, mas continuou sorrindo.

— Eu ganhei de você.

— Você está machucado. Fiquei com pena.

O sorriso desapareceu.

— Mentira.

— Jamais saberemos.

— Renesmee!

Ri da indignação dele e finalmente cedi.

— Está bem. Você ganhou.

— Sem deixar?

— Sem deixar.

A satisfação voltou imediatamente ao rosto dele.

— Vou contar para todo mundo amanhã.

— Não precisa transformar isso em um comunicado oficial.

— Vou contar para Claire.

— Isso é humilhação pública.

— E para meu pai.

— Isso já é crueldade.

Will riu novamente, e fiquei observando-o durante alguns segundos. Horas antes, aquele mesmo menino estivera sentado em uma enfermaria com a boca cortada, tentando explicar aos adultos que vinha sendo machucado havia algum tempo. Agora discutia comigo por causa de videogame, comemorava uma vitória e parecia, finalmente, apenas uma criança de sete anos. Eu preferia aquela versão dele e, quando o relógio avançou, levei-o até o quarto mesmo sob seus protestos de que poderia jogar mais uma partida porque havia dormido no carro. Esperei que se acomodasse, ajeitei o cobertor e permaneci sentada na beirada da cama até perceber que seus olhos começavam a fechar.

— Nessie? — ele chamou baixinho.

— Hum?

— Você vai estar aqui amanhã?

A pergunta me surpreendeu.

— Vou.

— Quando eu acordar?

— Provavelmente.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e se acomodou melhor no travesseiro.

— Boa noite.

— Boa noite, Will.

Saí do quarto alguns minutos depois e fechei a porta com cuidado. Minha própria noite, entretanto, não foi tão tranquila. Eu me deitei cedo, cansada o suficiente para acreditar que dormiria imediatamente, mas isso não aconteceu. Virei para um lado, depois para o outro, arrumei o travesseiro, fechei os olhos, abri novamente, puxei o lençol e tentei encontrar uma posição confortável. O problema definitivamente não era a cama. Como eu dissera a Jacob naquela tarde, seria quase ofensivo reclamar de uma cama daquele tamanho e de lençóis de seda. O problema estava dentro da minha cabeça e podia ser resumido em duas palavras que haviam se repetido inúmeras vezes desde que eu saíra do escritório dele: quinze dias.

Eu me casaria em quinze dias. Durante as negociações do contrato, o casamento parecera uma etapa distante, quase administrativa. Primeiro eu precisava decidir se aceitaria aquela loucura. Depois vieram Emma e as crianças, Coleman, minha mudança para a mansão, roupas, documentos, regras, a necessidade de conhecer os filhos de Jacob e compreender qual seria exatamente meu lugar naquela família. Sempre existira alguma coisa entre mim e o casamento, algum problema imediato que ocupava espaço suficiente para que eu não precisasse pensar seriamente no que aconteceria quando chegasse o dia. Agora não havia mais nada entre nós e a cerimônia. A contagem regressiva começara, e em quinze dias eu entraria em algum lugar vestida de noiva e sairia legalmente casada com Jacob Black.

E depois?

Era justamente nessa parte que minha mente começava a criar problemas. Nosso acordo de trinta dias continuava existindo. Jacob havia sido claro e, até aquele momento, não fizera absolutamente nada que me levasse a acreditar que desrespeitaria minha condição. Pelo contrário. Ainda assim, casamento significava convivência, eventos juntos, uma família que eu conheceria no domingo, pessoas olhando para nós como marido e mulher e, provavelmente, perguntas sobre filhos que ninguém saberia fazer parte de um contrato. E havia a cláusula do herdeiro, aquela parte específica do acordo que eu conseguira empurrar para um canto distante da cabeça durante os últimos dias, mas que parecia muito mais difícil de ignorar quando faltavam apenas duas semanas para eu me tornar esposa de Jacob.

Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e descobri que eram duas e quarenta e sete da madrugada. Pensar sobre casamento, intimidade e um futuro filho que existia como cláusula contratual definitivamente não parecia uma atividade saudável para aquele horário. Permaneci mais alguns minutos tentando convencer meu cérebro de que nada precisava ser resolvido naquela madrugada, mas, quando percebi que continuava completamente desperta, desisti de lutar contra o sono que não viria.

Afastei o lençol e saí da cama. O piso estava frio sob meus pés, e peguei o robe que Rachel havia deixado junto com uma quantidade absurda de roupas para dormir. Vesti-o sobre a camisola, amarrei a faixa na cintura, calcei as pantufas e saí do quarto. A mansão parecia completamente diferente durante a madrugada. Durante o dia, sempre havia alguém circulando pelos corredores: empregados, seguranças, Sarah, Rachel quando aparecia, Will atravessando a casa, Claire desaparecendo por alguma porta ou Jacob recebendo pessoas que eu não conhecia. Àquela hora, porém, tudo estava silencioso, e as luzes permaneciam acesas em intensidade baixa, suficientes para iluminar meu caminho sem eliminar completamente as sombras.

Passei diante do quarto de Will e diminuí o passo por instinto. Não ouvi nada e imaginei que estivesse dormindo. Continuei pelo corredor, desci a escadaria segurando levemente o corrimão e cheguei ao andar inferior. Por um momento, considerei voltar para o quarto. Eu ainda não fazia ideia de onde ficavam metade das coisas naquela casa e pedir água a algum funcionário às três da manhã parecia absurdo. Decidi que era perfeitamente capaz de encontrar um copo sozinha e segui para a cozinha.

O ambiente estava vazio quando entrei. Acendi apenas uma das luzes e parei por alguns segundos olhando ao redor. Eu já estivera ali rapidamente, mas nunca prestara atenção suficiente para aprender onde guardavam qualquer coisa. A cozinha era enorme, organizada demais e provavelmente maior do que o salão do orfanato onde eu crescera. Havia uma ilha central, armários claros, equipamentos que eu não saberia utilizar sem consultar um manual e uma geladeira que parecia grande o suficiente para abastecer um pequeno restaurante.

Encontrar a água foi fácil. Retirei uma jarra da geladeira e a coloquei sobre a ilha, mas descobrir onde estavam os copos se mostrou inexplicavelmente mais complicado. Abri o primeiro armário e encontrei pratos. No segundo havia tigelas. O terceiro guardava peças que pareciam caras demais para que eu arriscasse descobrir se serviam para água. Fechei a porta e continuei procurando, já começando a achar ridículo estar perdida dentro da cozinha da casa onde agora morava.

— Onde vocês escondem os copos nessa casa? — murmurei para mim mesma.

Abri outro armário e finalmente os encontrei, mas estavam na prateleira superior. Fiquei na ponta dos pés e estendi o braço. Meus dedos tocaram a base de um deles, sem conseguir segurá-lo. Tentei novamente, apoiando uma das mãos na bancada e me esticando um pouco mais. Dessa vez consegui alcançar a lateral do copo e comecei a puxá-lo cuidadosamente para a borda, concentrada demais na tarefa para perceber que já não estava sozinha na cozinha.

Senti primeiro o calor de um corpo atrás do meu.

Fiquei imóvel por reflexo quando percebi alguém muito próximo, e, antes que pudesse me virar, um braço passou ao lado do meu rosto. Uma mão muito maior que a minha alcançou facilmente a prateleira superior, envolveu o copo que eu tentava pegar havia vários segundos e o retirou do armário sem qualquer esforço.

Meu coração acelerou com o susto e com a proximidade inesperada. Eu conhecia aquela mão, reconheci o relógio preso ao pulso e, quando o perfume familiar me alcançou, já sabia quem estava atrás de mim antes mesmo de olhar.

Virei lentamente o rosto sobre o ombro.

Jacob estava atrás de mim.