A esposa do Don

26 Jantar em família


RENESMEE

Eu já havia me olhado no espelho tantas vezes naquela noite que começava a suspeitar que nenhuma quantidade de observação faria aquela mulher refletida diante de mim parecer mais familiar. Não era exatamente o vestido. Rachel tinha escolhido muito bem, como parecia fazer com tudo que envolvia roupas, e eu precisava admitir que gostara dele assim que o vestira. O tecido em um tom champanhe muito claro acompanhava meu corpo sem o excesso de volume que eu normalmente associava aos vestidos usados em ocasiões formais naquela família. O corpete estruturado tinha pequenos brilhos delicadamente distribuídos, o decote deixava meus ombros descobertos e pequenas mangas drapeadas caíam sobre a parte superior dos braços. A saia longa seguia as mesmas linhas do corpo antes de se abrir discretamente, e uma fenda alta deixava uma das pernas à mostra quando eu caminhava. Era elegante, feminino e provavelmente custava uma quantia que eu preferia continuar ignorando.

O problema era todo o resto.

Aquela não seria apenas mais uma noite em que eu jantaria com Sarah, Claire, William e algumas pessoas que já começavam a deixar de parecer completamente estranhas. Segundo Rachel, aquela era, para todos os efeitos, nossa noite de noivado. Não haveria uma festa formal porque ninguém em sã consciência organizaria uma festa de noivado quando o casamento aconteceria em menos de sete dias, mas a família Black inteira havia sido convocada para o jantar. Inteira. A palavra tinha me acompanhado desde que Rachel aparecera no meu quarto no fim da tarde para verificar se eu tinha entendido que deveria descer no horário e acrescentara, antes de sair, que todos já estavam começando a chegar.

Menos de sete dias.

Até pouco tempo antes eram quinze. Quinze ainda pareciam dias suficientes para que meu cérebro fingisse que aquilo pertencia a um futuro relativamente distante. Menos de sete transformava tudo em realidade. Em menos de uma semana eu seria Renesmee Black. Em menos de uma semana entraria naquela sala como noiva de Jacob e sairia dela com praticamente todos os membros da família dele sabendo quem eu era. Em menos de uma semana haveria uma cerimônia, alianças, documentos e um homem esperando por mim diante de cem convidados, o que aparentemente era a versão Black de um casamento íntimo.

E, para piorar, eu ainda não conseguia esquecer o sonho que tivera com esse homem.

Afastei imediatamente o pensamento antes que meu rosto começasse a denunciar coisas que ninguém precisava saber.

— Você consegue fazer isso — murmurei para meu reflexo e imediatamente achei ridículo estar dando incentivo a mim mesma para descer uma escada.

Peguei a pequena bolsa que Rachel deixara sobre a penteadeira, conferi pela última vez os cabelos soltos sobre um dos ombros e finalmente saí do quarto.

O corredor estava mais silencioso do que o andar inferior. As vozes chegavam abafadas de longe, misturadas ao som de música e ao movimento dos funcionários que haviam passado a tarde preparando a mansão. Caminhei alguns metros tentando não pensar em quantas pessoas estariam esperando lá embaixo e estava próxima da escada quando vi alguém sair de um corredor lateral.

Simon.

Meu humor mudou imediatamente.

Depois do nosso primeiro encontro, eu esperava que a antipatia que sentira tivesse sido apenas uma impressão ruim. Não fora. Havia alguma coisa na maneira como o filho de Rebecca e Solomon me observava que me deixava desconfortável, e eu não pretendia ignorar aquilo apenas porque dentro de alguns dias ele passaria oficialmente a fazer parte da minha família.

Simon diminuiu o passo assim que me viu.

Seus olhos percorreram meu vestido antes de retornarem ao meu rosto, sem qualquer preocupação em disfarçar a avaliação.

— Uau.

Continuei andando.

— Boa noite, Simon.

Ele se colocou no caminho antes que eu alcançasse a escada.

— Isso foi tudo?

— O que mais deveria ser?

— Eu esperava pelo menos que agradecesse.

— Pelo quê?

Simon apontou discretamente para mim.

— Pelo elogio.

— Você disse “uau”.

— Foi um elogio bastante sincero.

— Então agradeço pela sinceridade. Agora pode me dar licença?

Ele sorriu, mas não saiu.

— Você está muito bonita, Renesmee.

— Obrigada.

— Muito mesmo.

A insistência me fez perder a pouca disposição que tinha para ser educada. Cruzei os braços com cuidado para não amassar o vestido e o encarei.

— Simon, você é filho de Rebecca, correto?

Ele pareceu se divertir com a pergunta.

— Até onde sei.

— Rebecca é irmã de Jacob.

— Estou impressionado com sua capacidade de acompanhar nossa árvore genealógica.

— Então talvez você também seja capaz de acompanhar. Jacob é seu tio e eu sou a noiva dele. Acho que isso deveria ser suficiente para que você aprendesse a me olhar e falar comigo com um pouco mais de respeito.

O sorriso de Simon diminuiu, embora não desaparecesse.

— Eu só disse que você está bonita.

— E eu agradeci na primeira vez. Não havia necessidade da segunda nem dessa maneira de me olhar.

Ele ergueu as duas mãos, numa demonstração exagerada de inocência.

— Tudo bem. Não precisa agir como se eu tivesse cometido um crime.

— Não estou agindo assim. Estou estabelecendo um limite.

— Nós praticamente temos a mesma idade.

— E?

— E talvez você pudesse ser um pouco mais simpática comigo. Seria menos estranho do que agir como minha tia.

Aquilo conseguiu me arrancar uma risada sem humor.

— Acredite, Simon, eu não tenho qualquer intenção de agir como sua tia.

— Ótimo. Porque seria muito estranho.

— O fato de termos praticamente a mesma idade não muda quem é seu tio nem com quem ele vai se casar.

O olhar dele voltou a percorrer meu vestido.

— É justamente essa parte que continua interessante.

Minha paciência terminou.

— Saia da minha frente.

Ele inclinou a cabeça.

— Você é sempre tão difícil?

— Quando alguém precisa ouvir três vezes a mesma coisa, sim.

— Ela pediu para você sair da frente.

A voz de Claire surgiu atrás dele.

Simon olhou por cima do ombro.

Claire vinha pelo corredor usando um vestido escuro e tinha uma expressão que eu ainda não havia visto direcionada a nenhum outro membro da família. Não era a irritação adolescente habitual que usava com Jacob, nem a impaciência que demonstrava com Sarah quando recebia uma ordem. O rosto dela havia endurecido assim que viu Simon diante de mim.

E, pela primeira vez, compreendi que o comportamento estranho daquela tarde não tinha sido provocado apenas pela presença inesperada de um primo.

Claire não gostava dele.

Talvez mais do que isso.

Simon soltou um suspiro.

— Boa noite para você também, prima.

Claire ignorou completamente o cumprimento e veio até mim.

— Rachel mandou perguntar por que você ainda não desceu. Ela disse para eu vir buscar você antes que meu pai resolva subir pessoalmente.

— Eu estava indo.

Claire olhou para Simon e depois para mim.

— Eu percebi o problema.

— Não existe problema — Simon respondeu.

Claire ergueu uma sobrancelha.

— Seria até interessante se meu pai viesse.

Simon riu.

— Por quê?

— Para ver você dando em cima da noiva dele.

A frase foi dita com tamanha naturalidade que quase ri.

Simon, porém, perdeu parte do sorriso.

— Eu não estava dando em cima dela.

— Claro.

— Só estava elogiando o vestido.

— Você olha para todas as mulheres da família desse jeito quando elogia a roupa delas?

Simon apertou o maxilar.

— Cuidado, Claire.

A mudança no tom dele foi discreta.

Mas eu percebi.

E Claire também.

A postura dela ficou imediatamente mais rígida.

Dei um passo na direção dos dois.

— Não fale assim com ela.

Simon voltou os olhos para mim.

— Assim como?

— Você sabe exatamente como.

Por alguns segundos, ninguém disse nada. Simon olhou primeiro para mim, depois para Claire, e finalmente pareceu concluir que insistir seria uma escolha ruim. Afastou-se do centro do corredor e fez um gesto elegante demais com a mão.

— Senhoras.

Claire passou por ele sem responder.

Eu comecei a acompanhá-la, mas Simon ainda falou quando estávamos alguns passos adiante.

— Renesmee.

Olhei por cima do ombro.

— Eu realmente estava apenas elogiando você.

— Então aprenda quando um elogio deixou de ser bem-vindo.

Não esperei resposta.

Continuei caminhando ao lado de Claire em direção à escada. Ela permaneceu em silêncio por alguns metros, mas havia alguma coisa diferente em sua expressão. A irritação continuava ali, porém agora estava misturada a uma tensão que eu não conseguia compreender.

— Claire.

— O quê?

— Está tudo bem?

A pergunta fez com que ela me olhasse imediatamente.

— Está.

— Você não parece gostar muito dele.

— Eu não gosto de muita gente.

— Já percebi.

Ela quase sorriu, mas não conseguiu sustentar a expressão.

— Simon é idiota. Só isso.

Não acreditei.

Também não pressionei.

Depois do que acontecera com William na escola, eu havia aprendido uma coisa importante sobre os filhos de Jacob: os dois eram muito bons em esconder problemas quando acreditavam que contar ao pai faria tudo se tornar maior. Will escondera meses de agressões porque temia o que Jacob faria quando descobrisse. Claire era mais velha, muito mais complicada e parecia ter construído defesas ainda maiores.

Quando alcançamos o início da escada, ela segurou discretamente meu braço antes que eu começasse a descer.

— Nessie.

Virei-me.

— Sim?

Claire hesitou, olhando para o andar inferior antes de voltar para mim.

— Não diga ao meu pai que Simon estava dando em cima de você.

— Por quê?

— Porque meu pai é meu pai.

Apesar da resposta, não havia humor suficiente em sua voz para me convencer.

— Ele só fez comentários inconvenientes. Eu consigo lidar com isso.

— Eu sei.

— Então não vou transformar em um problema maior.

Ela soltou meu braço.

— Obrigada.

Começamos a descer juntas, e as vozes vindas da sala ficaram mais nítidas a cada degrau. Eu deveria estar pensando no jantar, nas apresentações que faria, em quantos parentes Black ainda precisaria memorizar ou no fato de que, em menos de sete dias, aquela seria oficialmente minha família.

Em vez disso, continuei pensando na reação de Claire.

Ela não ficara apenas irritada quando vira Simon.

Ela ficara nervosa.

E, depois de tudo que William escondera dos adultos daquela casa, eu já não estava disposta a presumir que aquilo não significava nada.


Quando Claire e eu começamos a descer a escada, compreendi que Rachel havia usado a palavra “família” de maneira bastante generosa. A sala principal estava cheia o suficiente para que, por alguns segundos, eu diminuísse o passo sem perceber. Não era uma multidão, mas havia muito mais pessoas do que nas noites anteriores, distribuídas entre a sala e o espaço que levava à grande mesa de jantar. Conversavam em pequenos grupos, funcionários circulavam com bebidas e, embora todos parecessem perfeitamente à vontade naquele ambiente, eu tive a impressão desagradável de estar entrando em uma reunião para a qual todos haviam recebido instruções, menos eu.

Talvez fosse exatamente isso.

Aquela era a família de Jacob. Pessoas que haviam crescido juntas, trabalhado juntas, criado os filhos juntas e acumulado histórias das quais eu não fazia parte. Eu chegara havia poucos dias e, em menos de uma semana, receberia o sobrenome que todos eles carregavam havia uma vida inteira. Não precisava que ninguém dissesse que minha presença despertava curiosidade. Percebi assim que os primeiros rostos se voltaram para a escada.

Claire continuou descendo como se não houvesse nada de extraordinário acontecendo. Eu invejei a habilidade.

Então encontrei Jacob.

Ele estava próximo ao pé da escada conversando com Paul e um homem que eu ainda não conhecia. Usava um terno escuro perfeitamente ajustado, sem gravata, e mantinha uma das mãos no bolso enquanto ouvia o que lhe diziam. Não sei se alguém avisou que eu estava descendo ou se simplesmente percebeu a mudança no ambiente, mas seus olhos se ergueram e encontraram os meus.

A conversa dele terminou naquele instante.

Jacob não desviou o olhar enquanto eu descia os últimos degraus, e a maneira como me observou produziu em mim uma reação irritantemente parecida com a da madrugada na cozinha. Havia diferença, entretanto, entre o olhar inconveniente de Simon e aquele. Simon me fizera querer cobrir o corpo. Jacob fazia com que eu me lembrasse de cada detalhe do vestido.

Ele se afastou dos homens e veio até a escada.

Quando alcancei o último degrau, estendeu a mão.

Olhei primeiro para ela e depois para ele.

— Preciso de ajuda para descer um degrau?

— Não.

— Então por quê?

Um discreto sorriso apareceu em seu rosto.

— Porque estou tentando ser educado com minha noiva.

— Isso explica.

Coloquei minha mão na dele.

Os dedos de Jacob se fecharam ao redor dos meus e ele me ajudou a completar um último degrau do qual eu definitivamente não precisava de ajuda para descer.

— Obrigada.

— De nada.

Pensei que ele soltaria minha mão.

Não soltou.

Seus olhos percorreram meu rosto e desceram brevemente pelo vestido antes de retornarem.

— Está muito bonita.

Depois de Simon, eu deveria estar cansada de ouvir aquilo. Não estava.

— Obrigada.

— Esse agradecimento pareceu mais sincero que o primeiro.

Olhei para ele.

— Você ouviu?

— Ouvi o quê?

A expressão dele permaneceu perfeitamente tranquila.

— Nada.

Talvez Claire tivesse razão. Era melhor Jacob não saber.

Ele aproximou-se o suficiente para falar mais baixo.

— Está nervosa?

— Você precisa parar de me perguntar isso.

— Portanto está.

— Não estava até começar a descer e perceber que metade de Manhattan aparentemente pertence à sua família.

— Nem todos chegaram.

Encarei-o.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Provavelmente não.

Claire passou por nós.

— Vocês dois são estranhos.

Jacob olhou para a filha.

— Boa noite para você também.

— Boa noite, pai.

Ela seguiu em direção a Sarah, e Jacob finalmente voltou a atenção para mim.

— Venha. Vou apresentá-la antes que minha mãe decida fazer isso por mim.

Ele continuou segurando minha mão enquanto me conduzia pela sala. Eu poderia tê-la retirado. Não retirei. Além de ser aquela uma noite de noivado, havia algo tranquilizador em ter uma pessoa conhecida ao meu lado enquanto uma quantidade preocupante de Black me observava.

— Todos sabem sobre o contrato? — perguntei em voz baixa.

— Não.

— Quem sabe?

— Minha mãe, minhas irmãs e algumas pessoas de confiança.

— Então o restante acredita que nós...

— Nos conhecemos, nos apaixonamos perdidamente e decidimos nos casar em tempo recorde?

Olhei para ele.

— Isso soa ainda mais absurdo quando você diz.

— Concordo.

— E o que contou?

— Que vou me casar.

— Só isso?

— Minha família aprendeu há muitos anos que perguntas demais raramente melhoram minhas respostas.

— Muito saudável.

Ele quase sorriu.

— Renesmee.

Rachel apareceu antes que eu pudesse continuar, acompanhada de Paul e dois adolescentes.

— Finalmente. Eu já estava considerando subir.

— Claire cumpriu a missão — respondi.

— Milagre.

Paul cumprimentou-me primeiro e então Rachel puxou os dois jovens para mais perto. O menino parecia ter aproximadamente a idade de Claire e tinha muitos traços de Paul. A garota era um pouco mais nova ou talvez apenas parecesse por ser menor.

— Estes são nossos filhos — Rachel anunciou e fez as apresentações.

Cumprimentei os dois, tentando associar imediatamente os nomes aos rostos. O menino me recebeu com uma educação um pouco constrangida, enquanto a garota pareceu muito mais interessada em observar meu vestido.

— Você vai mesmo se casar com o tio Jacob? — ela perguntou.

Rachel fechou os olhos.

— Nós conversamos sobre perguntas óbvias no carro.

Eu ri.

— Vou.

A menina olhou para Jacob.

— Por vontade própria?

Paul tossiu para esconder a risada.

Jacob permaneceu impassível.

— Rachel.

— Não fui eu que ensinei isso.

— Foi, sim — Paul respondeu.

— Traidor.

A garota sorriu para mim.

— O vestido é lindo.

— Obrigada.

— Viu? — Rachel disse. — Essa parte eu ensinei.

Continuamos.

Conheci Emily Young, esposa de Sam, uma mulher de presença tranquila que me recebeu com um abraço inesperado e muito mais caloroso do que eu esperava. Ao lado dela estava Ethan Uley, seu filho, que parecia ligeiramente mais velho que Claire e tinha uma postura educada que contrastava bastante com a inquietação dos outros adolescentes espalhados pela sala.

— Finalmente conhecemos você — Emily comentou.

Olhei para Jacob.

— “Finalmente” parece exagerado. Ele me conhece há pouquíssimo tempo.

Emily sorriu.

— Para Jacob Black decidir se casar, alguns dias já constituem um acontecimento histórico.

Sam, que estava ao lado dela, tomou um gole da bebida.

— Emily.

— Estou mentindo?

— Não. Esse é o problema.

Jacob simplesmente continuou andando.

— Estou começando a gostar da sua família — murmurei.

— Ainda há tempo para reconsiderar.

— A família ou o casamento?

Ele me lançou um olhar lateral.

— Ambos.

Não consegui evitar o sorriso.

Embry estava acompanhado da esposa, que me recebeu com simpatia e fez perguntas normais o suficiente para que eu relaxasse um pouco. Ninguém perguntou sobre minha família, o que provavelmente não era coincidência. Rachel ou Sarah devia ter avisado que eu crescera em um orfanato, e fiquei agradecida por não precisar explicar minha vida naquela noite.

Quando chegamos a Rebecca e Solomon, eu já os conhecia, embora ainda não os tivesse visto juntos daquela maneira. Rebecca veio imediatamente me cumprimentar e segurou minhas mãos.

— Antes que diga qualquer coisa: cem convidados. Eu respeitei a ordem daquele tirano.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Está chamando o homem que paga pelo casamento de tirano na frente da noiva?

— Ela descobrirá sozinha.

— Já estou descobrindo — respondi.

Rebecca sorriu.

— Sabia que gostaria dela.

Solomon estava ao lado da esposa com dois rapazes. Reconheci Simon imediatamente. O outro parecia um pouco mais velho, e havia semelhança suficiente entre eles para que eu soubesse que eram irmãos antes da apresentação.

— Renesmee — Solomon disse —, estes são nossos filhos. Jared e Simon.

Jared estendeu a mão primeiro.

— Muito prazer.

— Igualmente.

— Minha mãe fala de você desde que chegou.

Rebecca olhou para o filho.

— Coisas boas.

— Eu não disse que eram ruins.

Sorri.

— Vou acreditar na versão dela.

Então chegou a vez de Simon.

Ele colocou uma das mãos no peito, assumindo uma expressão exageradamente séria.

— Nós já tivemos o prazer de nos conhecer. Duas vezes, na verdade. Estou começando a achar que o destino insiste em nos aproximar.

Meu sorriso desapareceu.

Antes que eu precisasse responder, Solomon virou lentamente o rosto para o filho.

— Simon.

Apenas o nome.

Nada mais.

Mas a postura do rapaz mudou.

— Foi uma brincadeira, pai.

— Então encontre uma melhor.

Simon ainda pareceu disposto a responder alguma coisa, até que seus olhos passaram por cima do meu ombro.

Eu soube exatamente quem estava atrás de mim antes mesmo de olhar.

Jacob não dissera uma palavra.

Não precisava.

Quando virei discretamente o rosto, ele estava observando Simon. A expressão era tão controlada quanto sempre, mas não havia vestígio do pequeno humor que demonstrara durante as apresentações anteriores.

Simon limpou a garganta.

— Desculpe, Renesmee.

— Tudo bem.

Solomon não pareceu satisfeito.

— Quando uma mulher lhe pede distância, você respeita. Não deveria ser necessário seu tio estar presente para que se lembre disso.

Meu olhar foi imediatamente para Simon.

Então Solomon sabia.

Talvez tivesse visto alguma coisa. Talvez Simon já tivesse histórico suficiente para que o pai reconhecesse o comportamento.

— Entendido — Simon respondeu.

Rebecca franziu o cenho.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada importante — respondi antes que aquilo crescesse.

Jacob olhou para mim.

Ignorei.

Simon fez o mesmo.

Agradeci mentalmente quando Sarah chamou todos para a mesa pouco depois.

O jantar foi mais agradável do que eu esperava. A disposição dos lugares não parecia casual, embora ninguém admitisse isso. Jacob ocupou uma das cabeceiras e Sarah a outra, enquanto eu fiquei à direita dele. Will sentou perto de mim e passou boa parte da primeira meia hora tentando me contar alguma coisa sobre um jogo que eu não compreendia. Claire estava entre os adolescentes e parecia muito mais relaxada desde que Simon se sentara longe dela.

A comida surgiu em etapas que eu ainda não sabia identificar adequadamente. Em determinado momento desisti de tentar descobrir qual garfo deveria usar e observei discretamente Jacob.

Ele percebeu.

Claro que percebeu.

— O de fora — murmurou sem olhar diretamente para mim.

— Eu sabia.

— Evidentemente.

— Só estava testando você.

— E eu passei?

— Ainda estou decidindo.

A mão dele repousou por alguns segundos nas costas da minha cadeira enquanto respondia a alguma pergunta de Sam. O gesto era casual, provavelmente esperado de um homem sentado ao lado da própria noiva, mas eu me tornei consciente dele de uma maneira irritante.

Mais tarde, Rebecca começou a falar sobre o casamento. Flores, horário, segurança, lugares à mesa. Quando mencionou que ainda precisava de minha aprovação para algumas coisas, Jacob interrompeu para lembrar que a decisão era minha e não dela.

— Eu sei — Rebecca respondeu. — Estou tentando conseguir uma resposta da noiva, mas toda vez que pergunto o que ela prefere, ela diz “tanto faz”.

— Porque realmente tanto faz — expliquei.

— Não existe “tanto faz” em casamento.

— Existe quando você tem seis dias.

Jacob virou o rosto para mim.

— Cinco.

Quase deixei cair o garfo.

— Como assim cinco?

— Hoje praticamente acabou.

— Não conte dessa maneira.

— É assim que dias funcionam.

— Estou começando a reconsiderar esse casamento.

Will levantou os olhos imediatamente.

— Você não pode.

A mesa ficou em silêncio por um segundo.

Olhei para ele.

— Estou brincando.

— Ah.

Will voltou para o prato.

— Porque meu pai já comprou um monte de coisas.

As risadas vieram de vários lugares da mesa, inclusive de Claire.

Jacob olhou para o filho.

— Obrigado pela análise financeira, William.

— De nada.

Foi provavelmente naquele momento que relaxei de verdade.

Depois do jantar, todos voltaram para a sala. Houve bebidas, sobremesas e conversas que se dividiam em pequenos grupos. Em algum momento Rachel me apresentou a mais duas pessoas cujos nomes eu tive certeza de que esqueceria antes do fim da noite. Rebecca voltou a falar sobre flores. Emily perguntou sobre minha vida em Allentown e conseguiu fazer isso sem transformar minha infância em uma investigação. Will desapareceu com os outros meninos. Claire permaneceu perto da filha de Rachel durante boa parte do tempo.

Eu circulava entre eles, sorria, respondia perguntas e tentava me lembrar de quem era casado com quem.

Mas a sensação começou a mudar.

Não porque alguém tivesse sido desagradável. Pelo contrário. Quase todos haviam feito algum esforço para me receber bem. Era justamente isso que tornava mais difícil explicar por que, depois de algum tempo, comecei a me sentir deslocada.

Eles tinham histórias.

Paul contou alguma coisa sobre uma viagem antiga e metade da sala riu antes mesmo que chegasse ao final. Rachel corrigiu detalhes. Sam acrescentou outros. Rebecca lembrou de alguma coisa que acontecera anos antes. Sarah ameaçou contar uma versão ainda pior. Até os adolescentes conheciam as histórias porque haviam crescido ouvindo-as.

Eu não conhecia nenhuma.

Quando falavam sobre aniversários, férias, antigos jantares, casamentos e acontecimentos familiares, eu apenas escutava. Não era culpa deles. Ninguém poderia incluir vinte anos de memórias em uma noite.

Mas, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, compreendi de maneira muito concreta o tamanho da família na qual estava prestes a entrar.

E o tamanho da família que eu nunca tivera.

Esperei até ninguém estar prestando muita atenção em mim e me afastei da sala. Atravessei uma das portas laterais que davam para o jardim e o ar frio da noite tocou imediatamente meus ombros descobertos.

Foi um alívio.

Caminhei alguns metros pela varanda antes de descer para o jardim. As luzes da mansão iluminavam parte do caminho, mas dali as vozes chegavam baixas, distantes o suficiente para que eu finalmente pudesse respirar sem precisar sorrir para alguém.

Passei os braços pelo corpo quando senti frio.

Talvez devesse ter levado alguma coisa para cobrir os ombros.

Fiquei olhando para o jardim e pensando que, em cinco dias — não seis, obrigada, Jacob — aquela casa seria oficialmente minha também.

A ideia deveria ter me tranquilizado.

Não tranquilizou.

Ouvi a porta se abrir atrás de mim algum tempo depois.

Não precisei olhar para saber quem era.

Os passos eram tranquilos e firmes, sem pressa. Alguns segundos depois, senti algo quente tocar meus ombros. Jacob colocou o próprio paletó sobre mim antes de ficar ao meu lado.

Segurei as lapelas junto ao corpo.

— Obrigada.

— Você desapareceu.

— Eu estava no jardim.

— Isso se enquadra razoavelmente bem na definição de desaparecer quando deveria estar dentro da casa.

Olhei para ele.

— Sua família fala demais.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Sorri e voltei a olhar para a frente.

Jacob permaneceu em silêncio por alguns instantes. Não perguntou imediatamente o que havia acontecido, não insistiu para que voltássemos e não fez nenhuma das coisas que eu esperaria do homem que gostava de controlar cada detalhe ao redor.

Foi justamente isso que me fez falar.

— Eles são muito unidos.

— São.

— Dá para perceber.

Ele colocou as mãos nos bolsos.

— Isso incomoda você?

Pensei antes de responder.

— Não. Acho que é o contrário.

Jacob virou o rosto em minha direção.

— Explique.

Apertei o paletó dele ao redor dos ombros.

— Não sei explicar.

— Tente.

Soltei uma respiração lenta.

— Todo mundo lá dentro tem alguma história com todo mundo. Vocês falam de coisas que aconteceram dez, quinze, vinte anos atrás. Rachel sabe como você era quando criança. Rebecca sabe quais histórias você odeia que contem. Sarah sabe exatamente quando todos estão mentindo. Os filhos cresceram juntos. Até quando vocês discutem, parece que existe alguma coisa por baixo que mantém todo mundo no mesmo lugar.

— Família.

— É.

— E você nunca teve isso.

Não havia pena na voz dele.

Agradeci por isso.

— Não.

Jacob ficou em silêncio por alguns segundos antes de olhar para as janelas iluminadas da mansão.

— Em cinco dias terá.

Olhei para ele.

A frase era simples. Talvez para Jacob fosse apenas uma constatação.

Para mim, não.

— Você fala como se fosse tão fácil.

— Não disse que será fácil.

— Só colocar uma aliança no dedo não vai fazer todas aquelas pessoas se tornarem minha família.

— Não.

A resposta me surpreendeu.

Jacob virou-se um pouco mais na minha direção.

— Mas fará de você minha esposa. O restante eles terão de construir com você, e você com eles. Não espero que acorde na manhã seguinte ao casamento sentindo vinte anos de intimidade com pessoas que conheceu há uma semana.

— Isso foi surpreendentemente sensato.

— Tenho momentos ocasionais.

Ri.

Ele me observou por um instante.

E então a mão de Jacob subiu até meu ombro para ajeitar o paletó que começava a escorregar. Seus dedos tocaram minha pele por tempo suficiente para que eu me lembrasse, contra toda a minha vontade, daquela madrugada.

Do sonho.

Da cama.

Da pergunta que ele nunca fizera de verdade.

Quer que eu pare?

Desviei os olhos.

— Está nervosa outra vez.

Fechei os olhos por um segundo.

— Jacob...

Ouvi o sorriso na voz dele antes mesmo de olhar.

— Eu não disse nada.

— Você acabou de dizer.

— Apenas fiz uma observação.

— Você gosta disso.

— Do quê?

— De me deixar nervosa.

Dessa vez ele não fingiu inocência. A expressão permaneceu tranquila, mas havia uma satisfação discreta em seus olhos.

— Estou começando a gostar.

Meu coração teve a péssima ideia de acelerar.

Apertei o paletó dele um pouco mais ao redor do corpo e olhei novamente para a mansão.

Cinco dias.

Eu definitivamente preferia quando eram quinze.