A esposa do Don
19 Hierarquia
JACOB
A luz do início da tarde atravessava as cortinas do apartamento quando terminei de abotoar a camisa diante do espelho. O relógio sobre a cômoda marcava pouco depois das duas. Eu deveria ter passado em casa ainda pela manhã, mas a sucessão de problemas com as cargas desviadas consumira mais tempo do que eu pretendia, e minha passagem pelo apartamento de Lucy acabara se estendendo além do necessário. Agora já não fazia sentido voltar à mansão antes de seguir para os compromissos do restante do dia.
Peguei o relógio e o coloquei no pulso. Ainda precisava falar com Sam e revisar pessoalmente o que haviam descoberto sobre as interceptações. Três operações comprometidas em sequência deixavam de ser um problema logístico e começavam a se tornar uma afronta. Alguém conhecia nossos horários e trajetos com precisão excessiva para que eu continuasse aceitando explicações sobre vigilância externa ou coincidência.
Meu telefone tocou sobre a cômoda.
Paul.
Atendi enquanto pegava o paletó.
— Fale.
— Os convidados não abriram a boca.
Parei o que estava fazendo.
— Nenhum dos dois?
— Nenhum. Mantivemos separados desde que chegaram. Solomon tentou confrontar as versões, Sam apresentou informações diferentes para ver se algum corrigia o outro e Embry verificou tudo o que conseguimos levantar sobre os dois. Continuam sustentando que receberam apenas instruções fragmentadas.
— Então não sabem nada ou sabem exatamente o suficiente para compreender que falar seria pior.
— Minha impressão é a segunda.
— Impressões não me servem, Paul.
— Eu sei.
Coloquei o paletó sobre o encosto da cadeira novamente.
— Telefones?
— Descartáveis. Documentos falsos. Nenhuma transferência direta. Foram pagos em dinheiro e receberam o local de retirada poucas horas antes. Quem montou isso teve o cuidado de impedir que qualquer um deles conhecesse a operação inteira.
— E sem família?
— Sim.
Aquilo me irritava. Homens sem vínculos eram úteis para trabalhos daquela natureza justamente porque havia pouco que pudesse ser colocado diante deles para alterar prioridades.
— Não conseguiremos mais nada.
— Solomon pensa o mesmo.
Olhei pela janela. Manhattan se movia abaixo de mim sob a claridade da tarde.
— Então limpem a casa.
Paul não perguntou o significado.
— Entendido.
— Quero tudo que possa ser útil entregue a Embry antes. Telefones, documentos, placas, roupas, qualquer objeto que possa apontar para quem os contratou. O caminhão não permanece naquele endereço e ninguém fora do nosso círculo precisa saber que foi recuperado.
— Vou providenciar.
— Depois disso, o lugar deixa de existir para nós.
— Certo.
Consultei o relógio.
— Que horas devo buscá-lo? — Paul perguntou.
— Daqui a trinta minutos.
— Estarei aí.
Desliguei.
Deixei o telefone sobre a cômoda e voltei a vestir o paletó. Foi quando senti as mãos de Lucy deslizarem pelas minhas costas e alcançarem meu peito. Ela se aproximou por trás e encostou o rosto próximo ao meu ombro.
— Você já vai?
Segurei seus pulsos e afastei as mãos.
— Preciso.
Lucy recuou.
— Você chegou aqui de madrugada.
— E já fiquei mais do que deveria.
— Tem alguma reunião?
— Tenho uma empresa para administrar.
Ela se sentou na beirada da cama e puxou o lençol sobre as pernas.
— Você poderia ficar mais um pouco.
— Não.
Peguei a carteira e guardei no bolso interno do paletó. — Além disso, ainda não fui para casa hoje. Preciso ver meus filhos.
— A essa hora Claire provavelmente está ocupada e William ainda está na escola.
— Will sai em breve da escola.
Lucy me observou.
— Então vai buscá-lo?
— Talvez. Ainda não decidi.
A verdade era que eu raramente buscava William pessoalmente. Havia motorista, segurança e uma rotina estabelecida justamente para isso. Mas eu não gostava da constatação de que já era meio da tarde e eu ainda não vira nenhum dos meus filhos naquele dia.
Lucy permaneceu em silêncio enquanto eu terminava de me arrumar.
— Quando vou ver você novamente?
Parei e virei-me para ela.
— Não vai.
Ela demorou alguns segundos para compreender.
— Como?
— Isto termina hoje.
Lucy soltou uma risada curta.
— Você está falando sério?
— Sim.
— Você vem até minha casa, trepa comigo e decide terminar enquanto está colocando o paletó?
— Eu não decidi agora.
— Então já pretendia fazer isso quando veio?
— Pretendia.
Ela se levantou. — Isso é ainda pior.
— Não estou interessado em discutir qual versão lhe parece menos desagradável.
— Claro que não está. Você nunca está interessado em discutir nada que envolva sentimentos de outra pessoa.
— Lucy, não transforme isso em algo que nunca foi.
— E o que exatamente fomos durante todos esses anos?
— Amantes.
Ela ficou imóvel. — Só isso?
— Não coloque desprezo em uma palavra que descreveu perfeitamente nossa relação durante anos. Funcionou porque ambos conhecíamos os limites.
— E agora você simplesmente decidiu que deixou de funcionar.
— Vou me casar.
A expressão dela mudou.
— O quê?
— Vou me casar em breve e estou reorganizando minha vida. Isso inclui encerrar relações que não pertencem à rotina que terei depois do casamento.
— Você vai se casar?
— Foi exatamente o que eu disse.
— Com quem?
— Isso não lhe diz respeito.
— Depois de anos comigo, acha que pode simplesmente anunciar que existe outra mulher e que eu não tenho direito nem de saber quem é?
— Não existe “outra mulher” no sentido que está tentando dar. Existe minha futura esposa e existe uma relação entre nós dois que termina hoje.
Lucy passou a mão pelos cabelos, irritada.
— Então está me dispensando como se eu fosse uma funcionária.
— Funcionários recebem aviso prévio. Não complique a comparação.
Ela me lançou um olhar furioso.
— Você consegue ser um filho da puta até quando tenta fazer uma piada.
— Não estava tentando.
Lucy começou a caminhar pelo quarto.
— Eu estive ao seu lado durante anos, Jacob. Anos. Não foram alguns encontros escondidos quando você estava entediado. Eu estive aqui quando sua vida estava desmoronando, quando você não confiava em ninguém, quando mal conseguia permanecer dentro daquela casa...
— Não continue por esse caminho.
Ela parou. — Por quê? Porque não gosta de lembrar?
— Porque não tem relação com o que estamos discutindo.
— Tem tudo a ver. Eu estive ao seu lado desde aquela época com Leah.
Minha mão parou sobre o botão do paletó. — Lucy.
Ela percebeu a advertência e ainda assim, prosseguiu.
— Eu estava aqui quando você precisava resolver tudo o que ela deixou para trás. Sei o que aconteceu naquela época, sei o que você fez para manter certas coisas longe dos seus filhos e sei muito mais sobre Leah do que Claire imagina.
Olhei para ela.
— Pare.
— Talvez Claire não seja mais uma criança. Talvez esteja na hora de descobrir que a mãe dela não era exatamente a mulher que...
Atravessei o quarto antes que terminasse. Minha mão fechou-se ao redor do pescoço de Lucy e a empurrei contra a parede. Ela soltou um som de surpresa e segurou meu pulso com as duas mãos. Mantive-a imóvel, sem apertar o suficiente para impedir sua respiração, mas com força suficiente para eliminar qualquer dúvida sobre o erro que acabara de cometer.
— Escute com muita atenção.
— Jacob...
— Eu disse para não continuar.
— Está me machucando.
— E você está usando minha filha para tentar me atingir. Portanto, neste momento, sua preocupação deveria ser compreender o que estou dizendo.
Lucy ficou imóvel.
— Pode me odiar por terminar isto. Pode me chamar do que desejar quando eu sair. Pode decidir que desperdiçou anos comigo ou convencer a si mesma de que eu lhe devia alguma promessa que jamais fiz. Nada disso me interessa. Mas Claire não será utilizada para satisfazer seu ressentimento.
— Eu não ameacei Claire.
— Acabou de insinuar que poderia contar a ela coisas sobre a própria mãe que sabe perfeitamente que mantive longe dela.
— Talvez ela tenha o direito de saber.
— Isso não cabe a você decidir.
Lucy apertou os dedos ao redor do meu pulso.
— Ela está crescendo, Jacob. Você não vai conseguir esconder tudo para sempre.
Minha mão apertou um pouco mais.
— Cuidado.
Ela se calou.
— Você sabe certas coisas porque eu permiti que permanecesse perto de mim quando minha vida estava em desordem. Ouviu conversas que não lhe diziam respeito, presenciou situações que nunca deveria ter presenciado e recebeu minha confiança porque, durante anos, demonstrou saber manter a boca fechada. Não confunda o acesso que eu lhe dei com poder sobre mim.
— Não estou tentando ter poder sobre você.
— Então não mencione meus filhos para negociar seu lugar na minha vida.
Os olhos dela encontraram os meus.
— Eu estive ao seu lado quando Leah fez o que fez.
— Ter sido minha amante não lhe dá o direito de fazer cobranças.
— Eu fui mais do que...
— Não.
Minha voz saiu baixa.
— Você foi minha amante, Lucy. Foi uma relação longa, confortável e conveniente para ambos, mas nunca lhe prometi casamento, nunca lhe ofereci lugar na minha família e jamais lhe dei qualquer autoridade sobre meus filhos. Se decidiu esperar que um dia isso mudasse, foi uma expectativa sua. Não uma promessa minha.
A raiva dela voltou.
— E agora uma mulher aparece e recebe tudo isso?
— Minha futura esposa não está em discussão.
— Ela sabe sobre Leah?
Aquilo encerrou definitivamente minha tolerância.
Aproximei meu rosto do dela.
— Ela não ouvirá uma palavra sobre Leah através de você. Claire não ouvirá. William não ouvirá. Você não procurará nenhum deles, não enviará mensagens, não fará insinuações e não tentará usar outra pessoa para levar aquilo que sabe até minha família.
Lucy respirou fundo.
— E se eu decidir que não tenho mais motivo para guardar seus segredos?
Sustentei seu olhar.
— Então grave muito bem o que vou lhe dizer agora.
Ela ficou em silêncio.
— Se abrir a boca sobre aquilo que sabe, Lucy, ela estará cheia de formigas antes mesmo que consiga fechá-la.
A cor desapareceu de seu rosto.
Ela me conhecia havia tempo suficiente para não precisar perguntar o significado.
Mantive-a contra a parede por mais alguns segundos e então soltei seu pescoço. Lucy levou a mão à pele imediatamente, respirando fundo, mas não disse mais nada. O ressentimento continuava ali; a diferença era que agora havia prudência suficiente para mantê-lo onde deveria permanecer.
Voltei até a cadeira, peguei o paletó e o vesti corretamente. Ajustei os punhos da camisa, coloquei o relógio e guardei o telefone no bolso. Paul chegaria em poucos minutos.
Lucy permaneceu junto à parede, observando cada movimento.
— Jacob...
Olhei para ela.
Ela pareceu reconsiderar o que pretendia dizer.
— É melhor assim.
Peguei as chaves.
— O que houve entre nós termina hoje. O que você sabe termina com você. Não volte a confundir essas duas coisas.
Lucy permaneceu em silêncio.
Saí do apartamento e fechei a porta atrás de mim.
Paul estava me esperando quando deixei o edifício. O carro permanecia parado alguns metros depois da entrada, e ele estava do lado de fora, falando ao telefone. Encerrou a ligação assim que me viu e abriu a porta traseira. Entrei sem perguntar quem era. Se fosse importante o suficiente para chegar até mim, ele falaria.
Paul ocupou o banco ao meu lado, e o motorista arrancou. Apoiei as costas no banco e consultei rapidamente as mensagens que haviam chegado durante o tempo em que estivera no apartamento de Lucy. Havia relatórios de Embry, duas mensagens de Sam e uma confirmação de Solomon sobre a limpeza do galpão. Nada que exigisse resposta imediata.
— Para onde? — perguntou o motorista.
— Mansão — respondi.
O veículo entrou no fluxo da avenida. Guardei o telefone e olhei para Paul. Ele estava excessivamente calado, o que, depois da conversa que havíamos tido havia pouco, significava que havia algo que preferira não discutir por telefone.
— O que você deixou de me contar?
Paul virou o rosto.
— Sobre os homens?
— Sobre qualquer coisa que tenha feito você decidir me esperar pessoalmente em vez de mandar o motorista.
Ele permaneceu em silêncio por um instante.
— Sam terminou de cruzar as informações das últimas três cargas interceptadas.
— E?
— Há um padrão.
— Isso eu já sei. Três cargas minhas não desaparecem em sequência por azar.
— Não estou falando apenas das cargas. Estou falando de como chegaram até elas.
Cruzei uma perna sobre a outra.
— Continue.
— Na primeira operação, ainda podíamos considerar vigilância. Na segunda, alteramos parte da rota e mesmo assim estavam posicionados no lugar certo. Na terceira, mudamos horário e trajeto poucas horas antes da saída.
— E eles sabiam.
— Sabiam.
Meu olhar permaneceu nele.
— Quantas pessoas tinham acesso às alterações?
— À rota completa, poucas. Mas informações fragmentadas passaram por setores diferentes. Logística, depósito, transporte e segurança.
— Quantas?
— Ainda estamos fechando a lista.
— Eu não perguntei se fecharam a lista.
Paul respirou fundo.
— Dezesseis homens tiveram acesso a pelo menos uma parte relevante da operação. Oito poderiam reconstruir praticamente tudo. Quatro receberam diretamente a alteração final.
— E três operações foram interceptadas com precisão.
— Sim.
Voltei os olhos para a rua.
Aquilo eliminava uma quantidade considerável de possibilidades. Um rival podia observar meus depósitos. Podia seguir um caminhão, pagar um funcionário de porto ou comprar um motorista. Tudo isso fazia parte do jogo e, em certa medida, era previsível. Saber antecipadamente mudanças feitas dentro da própria operação era diferente.
— Temos alguém dentro.
— É o que acreditamos.
Olhei novamente para Paul.
— Não. É o que sabemos. O que ainda não sabemos é o nome.
Ele assentiu.
— Sim.
— Há quanto tempo vocês consideram essa possibilidade?
— Quatro dias.
Minha expressão não mudou.
— Quatro dias?
— Precisávamos eliminar outras hipóteses antes de colocar nossos próprios homens sob investigação.
— E conseguiram?
— Sim.
— Então existe um traidor na minha organização há pelo menos quatro dias e ninguém ainda foi capaz de me dizer quem é.
— Se eu tivesse um nome, você já o teria.
— Naturalmente.
Paul conhecia o suficiente sobre mim para perceber a diferença entre irritação e fúria. Eu não precisava elevar a voz para que ele soubesse em qual das duas estávamos entrando.
— O que estão esperando para descobrir quem é?
— Certeza.
— Certeza é o que espero antes de condenar um homem. Para investigá-lo, basta que eu tenha motivos.
— E estamos investigando.
— Não com rapidez suficiente.
Paul se acomodou melhor no banco.
— Se começarmos a retirar homens de posições estratégicas, o traidor percebe que sabemos. Se começarmos interrogatórios internos, ele desaparece. Se bloquearmos informações, ele entende que estamos procurando a origem do vazamento. A melhor possibilidade é permitir que continue acreditando que não percebemos.
Aquilo, ao menos, fazia sentido.
— Então alimentem-no.
Paul me observou.
— Com informação falsa?
— Com informações diferentes.
Ele compreendeu.
— Uma rota para cada grupo.
— Não apenas grupos. Homens.
— Isso vai exigir que reduzamos o número de pessoas com acesso direto.
— Já deveria ter sido feito.
— Posso montar isso com Sam.
— Monte hoje. Quero três operações aparentemente legítimas. Horários diferentes, rotas diferentes e destinos diferentes. Cada informação deve chegar a um número limitado de homens, e ninguém recebe o quadro completo sem que saibamos exatamente o que recebeu.
Paul assentiu lentamente.
— Se alguma delas vazar...
— Não teremos um traidor. Teremos um nome.
— Ou um grupo pequeno.
— Então repetimos até sobrar um.
Paul olhou pela janela por alguns segundos.
— Existe outra possibilidade.
— Qual?
— Não ser dinheiro.
— Nunca presumi que fosse.
— Pode ser alguém trabalhando para outra família há anos.
— Nesse caso, temos um problema mais antigo do que três caminhões.
— Exatamente.
Passei o polegar pelo relógio.
— Volturi?
— Não há nada apontando diretamente para eles.
— Hale?
— Também não.
— Cullen?
Paul hesitou.
— Nenhum indício.
— Então não me dê sobrenomes enquanto não tiver provas. Descubra primeiro o homem que está sentado à minha mesa. Depois descobriremos para quem ele se ajoelha quando sai dela.
— Embry já está verificando movimentação financeira.
— Dinheiro não é suficiente. Quero dívidas, mulheres, amantes, filhos, irmãos, vícios, apostas, viagens, mudanças de padrão de consumo. Um homem não acorda depois de dez anos de lealdade e decide vender informações sem que alguma coisa tenha mudado.
— Sam está revendo o histórico de todos que tiveram acesso às rotas.
— Inclua os homens mais antigos.
Paul me lançou um olhar.
— Inclusive os nossos?
— Principalmente os nossos.
— Alguns estão conosco desde o início.
— Tempo não é sinônimo de lealdade.
— Sam não vai gostar de ouvir isso.
— Não pedi que gostasse.
Paul quase sorriu.
— Vou avisá-lo.
— E diga a ele que inclua o próprio nome.
O humor desapareceu imediatamente.
— Jacob...
— O seu também.
Ele me encarou.
— Está desconfiando de mim?
— Se estivesse desconfiando de você, esta conversa não estaria acontecendo dentro de um carro.
Paul ficou em silêncio.
Continuei:
— Estou dizendo que ninguém fica fora da investigação porque é meu amigo, meu homem de confiança ou porque esteve comigo durante vinte anos. Se eu abrir uma exceção, crio exatamente o lugar onde um traidor inteligente escolheria se esconder.
Paul assentiu.
— Justo.
— Não estou interessado em ser justo. Estou interessado em descobrir quem está me traindo.
— Entendido.
— Quanto tempo?
— Jacob...
— Não me diga que não pode estabelecer prazo.
— Sete dias.
— Três.
— É pouco.
— Então durma menos.
Paul soltou o ar pelo nariz.
— Cinco.
Olhei para ele.
— Está negociando comigo?
— Estou tentando impedir que você exija em três dias uma investigação que precisa ser feita sem alertar ninguém.
— Quatro.
Ele me observou por alguns segundos.
— Quatro.
— No quinto dia, quero um nome diante de mim.
— E se não tivermos?
— Teremos.
O celular de Paul tocou antes que ele respondesse.
Ele retirou o aparelho do bolso, verificou a tela e franziu ligeiramente a testa.
— Segurança do Will.
Meu olhar foi imediatamente para ele.
Paul atendeu.
— Fale.
A expressão dele mudou enquanto ouvia. Não foi algo dramático, apenas a rigidez de quem acabara de receber uma informação inesperada.
— Onde ele está agora?
Silêncio.
— E a senhorita Miller?
Outra pausa.
Paul olhou para mim.
— Entendido. Permaneçam com eles. Não façam nada até chegarmos. Eu aviso o Don.
Desligou.
— O que aconteceu?
— Precisamos mudar o destino.
Minha atenção já não estava na investigação.
— Por quê?
Paul guardou o telefone.
— Você precisa ir à escola do seu filho.
Olhei para ele durante um segundo.
— Will está bem?
— Está.
— Então diga ao motorista para ir.
Paul inclinou-se para a frente.
— Escola de William. Agora.
O motorista mudou a rota imediatamente. Eu não fiz outra pergunta. Se Paul tivesse detalhes que precisassem ser dados naquele instante, teria dado. Se William estava bem, eu preferia ver com meus próprios olhos antes de ouvir versões pelo telefone.
Encostei-me novamente no banco, mas a conversa sobre o traidor havia terminado.
Meu filho estava me esperando.
O motorista entrou na rua da escola alguns minutos depois, e eu reconheci imediatamente um dos meus veículos parado próximo à entrada principal. Não era o carro que costumava buscar William no fim das aulas, o que bastou para aumentar meu desconforto. Antes mesmo que o nosso veículo parasse por completo, vi o motorista de Will sair do outro carro e caminhar em nossa direção.
Abri a porta.
— Don.
— Onde está meu filho?
— Ainda dentro da escola.
Olhei para o edifício.
— Por quê?
O homem hesitou, e minha paciência diminuiu.
— A senhorita Miller veio com ele pela manhã. Ela permaneceu na escola durante o dia.
Virei o rosto lentamente.
— Renesmee está aqui?
— Sim, Don.
Aquilo tornou a situação ainda mais estranha. Eu sabia que Renesmee pretendia se envolver mais na rotina das crianças, mas não sabia que ela acompanhara William à escola naquela manhã, muito menos que permanecera ali até a saída.
— Por que ela não voltou para casa?
— Aconteceu um problema com William.
— Que problema?
— Não tenho todos os detalhes, Don. Um dos homens que estava acompanhando a senhorita Miller pode explicar melhor.
Vi o segurança próximo à entrada e caminhei diretamente até ele.
— Onde eles estão?
— Na enfermaria, Don.
Parei.
Enfermaria.
Até aquele momento, Paul dissera que William estava bem. A palavra adquiriu um significado diferente quando ouvi onde meu filho estava.
— Ele está ferido?
— Está consciente. A enfermeira já o examinou.
Não esperei pelo restante.
Atravessei a entrada da escola com Paul atrás de mim. Um dos seguranças da instituição se aproximou quase imediatamente.
— Senhor, preciso que faça sua identificação na recepção antes de entrar.
Continuei andando.
— Senhor!
Ele se colocou parcialmente diante de mim.
Parei e olhei para ele.
— Saia da frente.
— É protocolo da escola. Todos os visitantes precisam se identificar e receber autorização antes de acessar...
— Meu filho está na enfermaria.
— Compreendo, mas preciso que...
— Então compreenda também que esta conversa terminou.
Passei por ele.
Ouvi Paul dizer alguma coisa ao homem atrás de mim, provavelmente explicando quem eu era. Não me interessei. Se a escola desejasse preencher formulários, conferir documentos ou registrar minha presença, poderia fazê-lo depois que eu visse William.
Uma mulher surgiu atrás do balcão da recepção.
— Senhor Black?
Não parei.
— A enfermaria fica...
— Eu sei onde fica.
Não sabia. Um dos meus homens havia apontado o corredor quando entramos, e isso era suficiente.
Segui pela direção indicada enquanto minha irritação aumentava a cada passo. William estava dentro de uma enfermaria, Renesmee estava com ele, um dos meus seguranças considerara necessário telefonar diretamente para Paul e ninguém havia sido capaz de me dar uma explicação completa.
Quando me aproximei do fim do corredor, ouvi vozes.
A primeira era masculina.
— Você não sabe o problema que arranjou para si mesma.
Reconheci a voz de Renesmee em seguida.
— Se o problema foi impedir seu filho de bater em Will, consigo conviver com isso.
Meu passo diminuiu.
Outra voz feminina tentou dizer alguma coisa, mas o homem falou novamente, mais alto.
— Vai se arrepender de ter encostado no meu filho. Eu vou me certificar pessoalmente de que...
Cheguei à porta.
— Isso é uma ameaça?
O silêncio dentro da enfermaria foi imediato.
Entrei.
Havia uma enfermeira próxima a uma bancada, um adolescente sentado em uma das macas com uma bolsa de gelo sobre o pulso, uma mulher ao lado dele e um homem parado diante de Renesmee. Não precisei de muito para concluir que eram os pais do garoto.
O homem virou-se para mim.
Não desviei os olhos dele.
— O senhor estava dizendo que ela se arrependeria de ter encostado no seu filho e que se certificaria pessoalmente disso. Perguntei se devo interpretar suas palavras como uma ameaça.
Ele ficou em silêncio.
Foi então que vi William.
Toda a minha atenção mudou.
Will estava sentado na outra maca. Havia um pequeno corte no canto da boca, uma vermelhidão no rosto e sua postura estava diferente. Tensa. Renesmee permanecia ao lado dele, próxima o suficiente para que William pudesse alcançá-la sem sequer descer da maca.
Olhei novamente para o garoto do outro lado da enfermaria.
Era muito maior que meu filho.
Treze anos, talvez.
William tinha sete.
Durante um instante, agradeci silenciosamente por ter deixado minha arma dentro do carro.
Não porque pretendesse atirar em um adolescente. A ideia sequer me ocorreu.
Mas o homem que acabara de ameaçar Renesmee enquanto meu filho permanecia machucado a poucos metros dele talvez devesse agradecer pela mesma precaução.
— Quem é o senhor? — perguntou ele.
Voltei os olhos para o homem.
— O senhor ainda não respondeu à minha pergunta.
— Eu perguntei quem é você.
Ignorei.
Caminhei diretamente até William.
Ele me observou aproximar.
— Pai.
Parei diante dele e toquei seu queixo com cuidado, virando ligeiramente seu rosto para examinar o corte.
— Olhe para mim.
Will obedeceu.
Passei o polegar próximo à marca, sem tocar diretamente no ferimento.
— Dói?
— Um pouco.
— Algum dente?
— Não.
— Cabeça?
Ele negou.
— Ombro.
Minha mão parou.
— O que aconteceu com seu ombro?
Will olhou rapidamente para Renesmee.
Ela respondeu:
— Ele foi empurrado contra uma árvore.
Minha mandíbula se contraiu.
Toquei cuidadosamente o ombro do menino.
— Aqui?
William fez uma pequena careta.
— Mais atrás.
Não continuei examinando. Se a enfermeira já o avaliara, eu o levaria a um médico de minha confiança assim que saíssemos dali.
Passei a mão pelos cabelos dele.
— Está bem.
Will assentiu.
Então olhei para Renesmee.
Ela parecia irritada, mas não vi qualquer ferimento.
— Alguém encostou em você?
— Não.
A resposta foi imediata.
— Tem certeza?
— Tenho.
Assenti.
Só então voltei minha atenção para o restante da enfermaria.
O homem parecia particularmente incomodado por eu ter simplesmente interrompido a discussão para cuidar do meu filho.
— Já terminou? — perguntou.
Olhei para ele.
— Por enquanto.
— Então talvez possa me explicar quem é e por que entrou aqui como se tivesse algum direito de interromper uma conversa particular.
— Essa moça agrediu meu filho — acrescentou a mulher.
Meus olhos foram até o adolescente.
Ele mantinha a bolsa de gelo no pulso.
— Essa moça? — repeti.
O homem apontou discretamente para Renesmee.
— Ela. Agarrou meu filho e o derrubou no chão. Um adulto agrediu um menor dentro desta escola. A polícia já foi chamada.
Renesmee respirou fundo.
— Eu não o agredi. Ele estava batendo no Will. Quando levantou a mão para bater novamente, segurei o braço dele. Ele tentou se soltar e caiu.
— Isso é o que ela diz — retrucou o homem.
— Eu vi — William falou.
O homem olhou para meu filho.
— Crianças dizem muitas coisas quando estão assustadas.
Meu olhar encontrou o dele.
— Escolha com cuidado a próxima frase.
Ele ficou em silêncio por um instante.
Renesmee tocou discretamente meu braço.
— Jacob...
— Um momento.
Voltei-me para o homem.
— A mulher a quem o senhor se refere como “essa moça” é minha esposa.
Renesmee me olhou de lado.
Tecnicamente, ainda não era.
Não considerei necessário explicar isso.
O homem pareceu finalmente compreender parte da situação, embora sua arrogância não diminuísse.
— Isso não muda o que ela fez.
— Não. Mas muda consideravelmente a conversa que estava tendo quando entrei.
Ele endireitou o paletó.
— Richard Carter.
O sobrenome combinava com o que eu ouvira sobre o garoto. Mason Carter.
— Carter — repeti.
— E não me importa de quem ela é esposa. Meu filho foi agredido, senhor...
Esperei.
Ele percebeu que eu não completaria por ele.
— Ainda não disse seu nome.
— Jacob Black.
A reação foi pequena.
Mas existiu.
Richard Carter me olhou por um segundo a mais do que antes.
— Black.
— Sim.
A esposa dele também mudou de expressão.
Carter recuperou rapidamente a arrogância.
— Seja Black ou qualquer outro sobrenome, isso não ficará assim. Meu filho tem treze anos. Uma mulher adulta colocou as mãos nele e eu pretendo levar isso até as últimas consequências.
— Naturalmente.
Ele pareceu surpresendido pela ausência de discussão.
— Naturalmente?
— Se acredita que seu filho foi vítima de uma agressão, deve procurar as autoridades. Eu faria exatamente o mesmo.
Olhei para William.
— Na verdade, pretendo fazer.
O silêncio voltou.
Virei-me para Renesmee.
— Vá para o carro com Will.
— Jacob, você ainda não sabe tudo o que aconteceu.
— E vou saber.
— O garoto agrediu Will.
Olhei para Mason.
Ele desviou os olhos.
Renesmee continuou:
— Não foi apenas agora. Will me contou que isso já acontece há algum tempo. Ele pega as coisas dele, joga material no lixo, mexe no almoço, empurra. Hoje eu vi. Na hora do recreio ele já tinha empurrado Will e pegado a lancheira. Depois, na saída, levou Will para o outro pátio. Quando cheguei, ele estava com Will contra uma árvore e batendo nele.
Minha atenção permaneceu em Mason.
O garoto apertou a bolsa de gelo contra o pulso.
— Ela está mentindo — murmurou.
William imediatamente reagiu.
— Não está!
Olhei para meu filho.
— Will.
Ele se calou.
Não porque eu duvidasse dele. Justamente porque não queria que precisasse defender a própria palavra diante daquelas pessoas.
— Conversaremos no carro.
Voltei-me para Renesmee.
— Vá com ele.
Ela ainda parecia relutante.
— Jacob...
— Eu vou cuidar disso.
Nossos olhos se encontraram.
Dessa vez ela assentiu.
Olhei para Paul.
— Acompanhe os dois.
— Claro.
William desceu da maca. Quando passou por mim, coloquei a mão sobre sua cabeça por um instante.
— Vá com Renesmee.
— Você vem?
A pergunta me atingiu de uma maneira que não demonstrei.
— Logo atrás.
Ele assentiu e segurou a mão de Renesmee.
Ela passou por mim, mas parou por um segundo.
— Eu só segurei o braço dele, Jacob. Não bati nele.
— Eu ouvi você da primeira vez.
— A polícia foi chamada.
— Melhor ainda.
Renesmee franziu ligeiramente a testa.
— Melhor?
— Haverá um registro oficial.
Ela me conhecia pouco, mas pareceu compreender o suficiente para não insistir.
— Certo.
Paul saiu com ela e William. Esperei até os três desaparecerem pelo corredor.
Depois caminhei até uma das cadeiras próximas à parede.
Puxei-a.
Sentei.
A calma do gesto pareceu incomodar Carter mais do que se eu tivesse permanecido diante dele.
Cruzei uma perna sobre a outra e ajeitei o punho da camisa.
Olhei primeiro para Mason.
Depois para os pais.
Por fim, meus olhos pararam em Richard Carter.
— Senhor Carter.
Ele ergueu o queixo.
— Senhor Black.
— Antes de nos preocuparmos com polícia, advogados e todas as consequências que o senhor parece tão ansioso para produzir, permita-me lhe dar um conselho.
— Não preciso dos seus conselhos.
— Precisa deste.
Carter me encarou.
Permaneci sentado, sem qualquer pressa de encerrar aquela conversa. A polícia podia chegar em cinco minutos ou em vinte. Não fazia diferença. Eu ainda precisava compreender exatamente o que acontecera com William, conversar com Renesmee e descobrir por que uma escola que recebia uma quantia obscena todos os anos permitira que um garoto de treze anos agredisse repetidamente uma criança de sete. Tudo isso seria resolvido. Primeiro, porém, eu queria estabelecer algumas coisas com o homem diante de mim.
— Existe uma hierarquia de prioridades na minha vida, senhor Carter.
Ele franziu a testa.
— Não sei o que isso tem a ver com...
— Minha esposa e meus filhos estão no topo dela.
Carter fechou a boca.
Apoiei um braço sobre o encosto da cadeira.
— Isso significa que negócios, compromissos, alianças e até mesmo problemas que movimentam quantias que provavelmente o senhor consideraria extraordinárias deixam de ter importância quando alguma coisa atinge minha família. Hoje, encontrei meu filho de sete anos com a boca ferida e ouvi o senhor ameaçar minha esposa. Portanto, neste momento, o senhor e seu filho conseguiram ocupar uma posição bastante privilegiada na minha atenção.
— Está tentando me intimidar?
— Estou explicando minhas prioridades. Se estivesse tentando intimidá-lo, o senhor não precisaria perguntar.
A esposa dele lançou um olhar inquieto para Carter, mas ele continuou sustentando a mesma arrogância.
— E o que exatamente espera que eu faça com essa informação?
— Transfira seu filho de escola.
Por alguns segundos, ele apenas me encarou.
Então riu.
Não foi uma risada nervosa. Carter realmente achou graça.
— Você só pode estar brincando.
— Não tenho esse hábito com desconhecidos.
— Acha que pode entrar aqui, dar ordens e decidir em qual escola meu filho vai estudar?
— Não acho. Acabei de decidir.
Ele soltou outra risada e passou a mão pelo paletó, como se finalmente tivesse concluído que eu era apenas algum pai excessivamente arrogante acostumado a conseguir o que desejava.
— Senhor Black, talvez ninguém tenha lhe explicado com quem está falando.
— O senhor teve oportunidade de fazê-lo.
Carter deu um passo à frente.
— Sou diretor executivo da Northstar Global Logistics. Administro operações em quatro estados e respondo por contratos de centenas de milhões de dólares todos os anos. Não sou um funcionário qualquer que o senhor pode assustar porque apareceu acompanhado de alguns seguranças. Portanto, deixe-me facilitar as coisas: você não é ninguém para me dizer onde meu filho vai estudar.
Fiquei olhando para ele.
Northstar Global Logistics.
Aquilo tornou a situação quase divertida.
— Northstar?
— Exatamente.
— Interessante.
Carter abriu os braços discretamente.
— Então talvez agora entenda.
— Entendo perfeitamente.
Retirei o telefone do bolso e o coloquei sobre a perna.
— Melhor ainda.
Ele franziu a testa.
— Melhor?
— Oitenta por cento das ações da Northstar pertencem à Black Holdings.
O silêncio que se seguiu durou pouco.
Então Carter riu.
Dessa vez mais alto.
Olhou para a esposa como se eu tivesse acabado de confirmar que era algum lunático com dinheiro suficiente para andar cercado de homens, mas pouco conhecimento do mundo empresarial.
— Oitenta por cento? — repetiu, ainda rindo. — Da Northstar Global Logistics?
— Foi o que eu disse.
— Isso é absurdo.
— É contabilidade.
Ele balançou a cabeça.
— Eu trabalho naquela empresa há onze anos. Participo das reuniões executivas, conheço o conselho e conheço os principais acionistas. Se Black Holdings tivesse oitenta por cento da Northstar, eu saberia.
— Não necessariamente.
A risada diminuiu.
— Como?
— O senhor conhece os fundos e sociedades que aparecem nos relatórios que chegam à sua mesa. Isso não significa que saiba quem controla cada um deles.
Carter me observou por alguns segundos.
— Está inventando isso.
— Seria uma mentira particularmente fácil de verificar.
Peguei o telefone e procurei o contato de Paul, embora não precisasse ligar. Ele provavelmente ainda nem havia chegado ao carro com Renesmee e William.
— Posso lhe poupar o trabalho.
— De quê?
— De verificar.
Carter continuava sorrindo, embora já houvesse menos convicção.
— Vai ligar para quem? Para o presidente da empresa?
— Não.
Ergui os olhos para ele.
— Para o homem que pode demiti-lo.
A expressão dele endureceu.
— Você não pode me demitir.
— Pessoalmente, talvez não. Seria uma interferência desnecessária na governança de uma empresa que normalmente funciona muito bem sem minha presença. Mas posso convocar o conselho, substituir membros, alterar a direção estratégica e perguntar por que um executivo que representa uma companhia controlada por mim está diante de uma enfermaria escolar ameaçando minha esposa depois que o filho dele agrediu o meu.
Carter parou de rir.
— Está misturando uma questão pessoal com a minha carreira.
— Não fui eu quem decidiu me explicar sua importância profissional quando pedi que transferisse seu filho.
Ele permaneceu em silêncio.
Guardei novamente o telefone.
— Não quero seu emprego, Carter. Também não tenho interesse em destruir a vida profissional de um homem porque nossos filhos tiveram um problema na escola. Seria pequeno, desproporcional e, francamente, tedioso. Quero uma coisa muito mais simples.
Olhei para Mason.
— Seu filho longe do meu.
Voltei os olhos para o pai.
— Transfira-o.
— E se eu não transferir?
A pergunta veio mais baixa.
Inclinei-me ligeiramente para a frente.
— Então descobriremos juntos quantos privilégios um homem consegue conservar depois de transformar a família do acionista controlador da empresa que paga seu salário em um problema pessoal.
Dessa vez, Richard Carter não riu.
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