A esposa do Don

15 Futura senhora Black ( parte final)


Renesmee


O carro atravessou os portões da mansão Black pouco antes do meio-dia, e toda a leveza que Rachel conseguira arrancar de mim durante aquela manhã começou a desaparecer conforme avançávamos pela propriedade. Eu já estivera ali antes, passara praticamente um dia inteiro naquela casa, conhecera Sarah, enfrentara Bree, discutira com William e recebera de Jacob Black a proposta mais absurda da minha vida. Ainda assim, daquela vez tudo parecia diferente. Na primeira vez, eu entrara pelos portões como uma candidata desesperada por um emprego e sem qualquer certeza de que permaneceria por mais algumas horas. Agora, o cartão preto dentro da minha bolsa tinha meu nome, outro veículo vinha atrás de nós carregando uma quantidade constrangedora de compras e, em algum lugar da casa, havia um quarto que fora preparado para mim.

Eu viveria ali.

A ideia se tornou realmente concreta quando o carro parou diante da entrada principal.

Olhei pela janela para a fachada imponente da mansão e senti um frio desagradável percorrer meu estômago. Na noite anterior, sentada diante de Jacob, eu conseguira transformar tudo em cláusulas porque era mais fácil discutir condições do que pensar no significado delas. Fidelidade. Trinta dias de adaptação. Proteção para Emma. Um filho no futuro. Enquanto tudo permanecia escrito em folhas de papel e discutido diante de uma mesa, conseguia tratar aquilo como uma negociação. Agora eu estava diante da casa onde passaria a morar com um homem que conhecia havia poucos dias, duas crianças que mal conhecia e uma família sobre a qual praticamente nada sabia.

Rachel percebeu que eu não me mexera.

— Está arrependida?

Olhei para ela.

— Ainda dá tempo?

— Tecnicamente, sim. O contrato nem foi assinado.

— Péssima resposta. Você deveria dizer que tudo ficará bem.

— Não gosto de prometer coisas que não posso garantir. Posso dizer que minha mãe gostou de você, Will gostou de você e eu gostei de você. Já é uma porcentagem considerável da família.

— E Claire?

Rachel fez uma pequena careta.

— Claire atualmente não gosta nem do oxigênio que respira se ele tiver sido autorizado pelo pai.

Eu ri, apesar do nervosismo.

— Isso não ajuda.

— A intenção era ajudar.

O motorista abriu a porta, e eu respirei fundo antes de sair. O salto tocou o chão e, por um instante, tive a sensação absurda de estar chegando ao lugar errado. Olhei para o conjunto vinho que Rachel me convencera a usar, depois para a mansão e finalmente para o carro atrás do nosso, onde começavam a retirar as primeiras sacolas.

Naquela manhã eu saíra de um quarto alugado no Bronx com uma única bolsa.

Agora funcionários carregavam caixas para dentro de uma mansão onde eu seria apresentada como futura esposa do proprietário.

Minha vida tinha perdido qualquer interesse em mudanças graduais.

— Venha — Rachel disse, aproximando-se. — Antes que comece a pensar demais e resolva fugir.

— Eu não vou fugir.

— Excelente. Meu irmão colocou segurança suficiente ao redor desta propriedade para transformar essa decisão numa atividade física.

Olhei para ela.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Ainda estou aperfeiçoando minha habilidade de receber cunhadas.

Entramos.

Eu ainda não conseguia atravessar aquela casa sem olhar ao redor. Havia uma grandiosidade discreta em tudo, justamente porque nada parecia ter sido colocado ali com a intenção de impressionar visitantes. A mansão simplesmente pertencia a pessoas acostumadas àquilo. Funcionários se aproximaram de Rachel quase imediatamente, e ela começou a dar instruções sobre minhas compras com a naturalidade de quem provavelmente fazia aquilo desde criança.

— Tudo para o quarto da senhorita Miller — disse ela, indicando as sacolas. — As caixas de sapatos podem ir para o closet. Os vestidos que chegarem depois precisam ser pendurados imediatamente.

— Rachel, eu posso ajudar.

Ela virou o rosto para mim.

— Não.

— São minhas coisas.

— E há pessoas cujo trabalho é cuidar delas.

— Eu consigo carregar uma sacola.

— Eu também consigo lavar minha própria roupa e preparar meu jantar. Ainda assim, minha mãe teria um colapso se descobrisse que comecei a dispensar funcionários por uma crise repentina de independência.

— Não estou tendo uma crise de independência.

— Está tentando carregar sacolas para provar alguma coisa.

Abri a boca para responder, mas ela apontou para mim.

— Não comece. Você vai precisar aprender a aceitar ajuda sem interpretar isso como uma dívida.

Fiquei quieta.

Aquela frase me atingiu de uma maneira que ela provavelmente não pretendia.

Durante praticamente toda a minha vida, receber alguma coisa significava saber exatamente quanto custava e o que esperavam de mim em troca. No orfanato, não havia luxo suficiente para desperdícios. Depois que saí, cada refeição, aluguel ou passagem de ônibus tinha um valor que eu precisava calcular. Nos últimos dias, eu chegara ao ponto de contar o dinheiro que restava para saber quantas noites ainda conseguiria pagar no Bronx.

Na casa dos Black, aparentemente, eu teria de aprender uma relação completamente diferente com dinheiro.

Ainda não sabia se gostava disso.

— Onde está Sarah? — perguntei.

Rachel olhou em direção às portas que davam acesso à parte externa.

— No jardim.

— Certo.

— E você tem visitas.

— Visitas?

Ela sorriu.

— Vá descobrir.

— Rachel, quem veio me visitar? Ninguém sabe que estou aqui.

— Agora alguém sabe.

— Quem?

— Se eu contar, estrago.

Estreitei os olhos.

— Sua família tem um problema sério com informações.

— Culpe Jacob. Ele transformou segredo em cultura familiar.

Rachel se afastou antes que eu pudesse insistir.

Segui sozinha pelo corredor que levava ao jardim, ainda tentando descobrir quem poderia estar ali. A senhora Alvarez não sabia onde eu trabalharia. Ninguém do Saint Agnes sabia que eu estava em Nova York. Emma...

Meu passo diminuiu.

Não.

Jacob prometera na noite anterior que começaria a cumprir sua parte do acordo imediatamente, mas não poderia ser tão rápido.

Atravessei as portas.

O jardim se abriu diante de mim, amplo e muito mais bonito à luz do dia do que eu lembrava. Havia uma mesa preparada próxima às árvores, e reconheci Sarah sentada de costas parcialmente para mim, conversando com uma mulher.

Meu coração bateu mais forte antes mesmo de eu conseguir enxergar o rosto dela.

Então ouvi uma voz infantil.

— Tia Nessie!

Virei a cabeça.

Duas crianças correram na minha direção.

Por alguns segundos, simplesmente não consegui me mover.

Depois todo o medo que eu carregara desde a ligação de Coleman desapareceu de uma vez.

— Meu Deus.

Abaixei-me no instante em que elas me alcançaram. Os dois braços pequenos me envolveram, e eu os abracei com tanta força que provavelmente exagerei.

— Tia Nessie! — ouvi novamente, acompanhado de uma reclamação porque eu estava apertando demais.

Afrouxei o abraço imediatamente.

— Desculpem. Desculpem. Deixem eu olhar para vocês.

Segurei os dois pelos ombros e examinei seus rostos, braços, tudo que conseguia enxergar. Estavam bem. Assustados talvez pela mudança repentina, mas bem. Nenhum ferimento, nenhuma marca, nada que lembrasse as imagens horríveis que minha cabeça produzira durante a madrugada.

— Vocês estão bem?

Recebi dois acenos.

— Vieram de avião! — uma das crianças contou, imediatamente mais interessada naquela aventura do que nas circunstâncias que a provocaram. — Tinha comida dentro.

Ri, e meus olhos começaram a arder.

— É mesmo?

— E suco.

— Isso é muito importante.

— E um homem ficou com a gente.

— Dois — a outra criança corrigiu.

— Eram dois.

— Certo. Dois homens.

Passei as mãos pelos cabelos deles e os abracei novamente, dessa vez com cuidado.

— Eu estava com muita saudade.

Não tinha passado tanto tempo assim.

Parecia uma vida inteira.

Quando me levantei, Emma já estava em pé.

Ela permanecia ao lado da mesa, olhando para mim com os braços cruzados e uma expressão que conhecia perfeitamente. Estava cansada. Havia olheiras sob seus olhos, e o cabelo estava preso de qualquer maneira, mas estava ali.

— Emma.

Ela tentou sustentar a expressão séria mas não conseguiu. E eu também não.

Atravessei a distância entre nós praticamente correndo e a abracei.

Emma me apertou com força.

— Sua idiota.

Fechei os olhos.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

— Eu sei, sim.

— Você desapareceu.

— Eu precisava.

— Você não me disse onde estava.

— Eu não podia.

— A polícia apareceu no restaurante, Coleman ficou dizendo que você era criminosa, depois ele apareceu na minha vida, ameaçou meus filhos e, antes do amanhecer, um grupo de homens vestidos de preto bateu na minha porta dizendo que eu precisava entrar num carro porque você tinha mandado nos proteger.

Afastei-me apenas o suficiente para olhar para ela.

— Eu não mandei homens vestidos de preto.

Emma arregalou os olhos.

— Essa é a parte que decidiu corrigir?

Apesar de tudo, ri.

Ela também riu por um instante, mas logo me abraçou novamente.

— Eu estava tão preocupada com você, Nessie.

Minha garganta apertou.

— Eu também estava preocupada com você. Quando Coleman pegou o telefone e começou a falar das crianças, eu... Minha voz falhou.

Emma imediatamente segurou meu rosto entre as mãos.

— Estamos bem. Olhe para mim. Estamos bem.

Assenti.

— Ele não fez nada com vocês?

— Não. Assustou, ameaçou, mandou gente vigiar minha casa, mas não chegou perto das crianças. Os homens que foram nos buscar disseram que havia três pessoas de Coleman observando a casa. Eu nem sabia.

Fechei os olhos por um instante.

Jacob sabia o que estava fazendo quando decidiu tirá-los de lá.

— Sinto muito.

— Não comece.

— Isso aconteceu por minha causa.

— Aconteceu por causa de Coleman. Não coloque aquele homem nas suas costas como se você fosse responsável pelas escolhas dele.

Sarah permanecera discretamente afastada durante nosso reencontro, mas naquele momento aproximou-se.

— Acho que vocês duas precisam conversar com calma. As crianças já comeram e podem brincar aqui. Estarão seguras.

Emma olhou para ela. — Sua sogra é muito eficiente.

Quase engasguei. — Minha o quê?

Sarah sorriu. — Emma recebeu uma versão bastante resumida da situação.

Olhei de uma para a outra. — O que vocês contaram?

— Apenas o necessário — Sarah respondeu.

— Essa frase parece hereditária nesta família.

Ela riu.

Emma, entretanto, voltou a me olhar com uma expressão muito mais desconfiada.

Foi então que percebi que ela havia me examinado dos pés à cabeça. Primeiro o cabelo, depois as roupas e os saltos. A bolsa nova que Rachel praticamente me obrigara a escolher.

Então Emma olhou para a mansão e depois para Sarah. Finalmente voltou para mim.

— Renesmee.

Conhecia aquele tom.

— Emma...

— Você saiu de Allentown com dinheiro suficiente para sobreviver alguns dias e agora estou numa mansão onde todo mundo chama um homem de Don, fui trazida para Nova York num avião particular e você aparece usando uma roupa que provavelmente custa mais do que meu salário.

Olhei para minha roupa.

— Você não tem mais salário.

— Essa não é a questão.

— Emma...

Ela cruzou os braços.

— Quem é Jacob Black?

Meu estômago apertou. Sarah teve a elegância de se afastar alguns passos, chamando as crianças para mostrar alguma coisa mais adiante no jardim. Agradeci silenciosamente.

Emma esperou. — É complicado.

— Imaginei quando homens armados apareceram na minha casa antes do café da manhã.

— Eles estavam armados?

Ela me lançou um olhar. — Nessie.

— Está bem.

Segurei a mão dela e a levei até uma das cadeiras próximas. Sentei-me ao seu lado.

— Primeiro eu preciso saber exatamente o que aconteceu depois da nossa ligação.

— Primeiro eu preciso saber em que problema você se meteu.

— Eu não me meti exatamente...

Ela ergueu uma sobrancelha. Desisti da frase.

— Certo. Talvez eu tenha me metido.

— Talvez?

— Emma, eu vou explicar.

— Tudo?

Hesitei e ela percebeu.

— Renesmee.

— Tudo.

— Inclusive por que a senhora que mora nesta mansão se apresentou como sua sogra?

Meu rosto esquentou.

Emma abriu a boca.

— Meu Deus.

— Não faça isso.

— Você vai se casar?

— Fale mais baixo.

— Você vai se casar!

— Emma!

Ela me encarou completamente incrédula.

— Eu não vejo você por alguns dias e você aparece no jardim de uma mansão dizendo que vai se casar?

— Eu ainda não disse que vou me casar.

— Sua cara disse.

Passei as mãos pelo rosto.

Talvez enfrentar Coleman outra vez fosse mais simples.

— Não é um casamento normal.

— Isso não melhora.

— Eu sei.

— Há quanto tempo conhece esse homem?

Olhei para ela.

Emma ficou imóvel.

— Não.

— Emma...

— Renesmee, há quanto tempo?

— Poucos dias.

Ela fechou os olhos.

— Eu vou desmaiar.

— Não vai.

— Posso escolher.

— Eu tenho motivos.

— Espero sinceramente que tenha vários.

— Tenho.

Ela respirou fundo e segurou minha mão rindo, mas logo a brincadeira desapareceu.

— Então me conte.

Olhei para os filhos dela brincando alguns metros adiante. Depois para a mansão, para os homens discretamente posicionados próximos às entradas e para Sarah, que nos dera privacidade sem realmente deixar de observar as crianças.

Pela primeira vez desde que Coleman pegara o telefone, senti que podia respirar sem imaginar alguma coisa acontecendo com aquelas três pessoas.

Apertei a mão de Emma.

— Eu vou explicar tudo. Desde o começo. Só preciso que prometa me ouvir antes de decidir que enlouqueci.

Emma apertou meus dedos.

— Não prometo não achar que enlouqueceu. Prometo ouvir.

Sorri. — Já serve.

Respirei fundo para começar, mas uma voz masculina vinda de trás de mim interrompeu o momento antes que eu pronunciasse a primeira palavra.

— Renesmee.

Meu corpo reconheceu a voz antes que eu me virasse.

Jacob havia voltado.


Virei-me devagar.

Jacob vinha em nossa direção pelo caminho de pedras que atravessava o jardim, e precisei de apenas alguns segundos para perceber que a manhã fora longa para ele também. Continuava impecável, como se atravessar dois estados durante a madrugada e retornar antes do meio-dia fosse parte de uma rotina perfeitamente comum, mas havia algo mais rígido em sua expressão. O terno escuro estava novamente ajustado ao corpo, os primeiros botões da camisa permaneciam fechados e o passo era tranquilo, sem qualquer pressa, embora dois homens que eu reconhecia da casa tivessem ficado para trás perto das portas. Eu ainda tentava conciliar aquele homem com a informação de que ele estivera em Allentown naquela manhã quando seus olhos encontraram os meus e permaneceram ali. Não foi um olhar casual. Jacob começou pelo meu rosto, demorou-se nos cabelos que eu passara a manhã tentando não tocar para não desfazer o trabalho do cabeleireiro e desceu lentamente pelo blazer vinho, pelo top, pela cintura marcada pelo cinto, pela saia e pelas minhas pernas até os saltos. Depois retornou ao meu rosto com a mesma tranquilidade irritante de quem não considerava necessário disfarçar absolutamente nada.

O calor subiu pelo meu pescoço antes que eu consegíssemos controlar. Eu havia passado horas diante de espelhos naquela manhã e, até então, conseguira me sentir relativamente confortável com a roupa que Rachel escolhera. Bastaram alguns segundos sob o olhar de Jacob para que eu adquirisse consciência de cada centímetro do conjunto.

— Senhor Black — cumprimentei, tentando soar muito mais tranquila do que me sentia.

Ele parou diante de mim e continuou me observando por um instante que pareceu deliberadamente longo.

— Está diferente.

Toquei os cabelos por puro reflexo.

— Isso é um elogio?

O canto da boca dele quase se moveu.

— Ainda estou decidindo.

Estreitei os olhos.

— Então poderia ter esperado terminar de decidir antes de comentar.

— Poderia.

— E por que não fez?

— Porque sua reação tornou a espera mais interessante.

Abri a boca para responder, mas um ruído exagerado de garganta veio ao meu lado.

— Hum-hum.

Fechei os olhos por um segundo.

Emma.

Eu a havia esquecido completamente.

Quando me virei, ela estava sentada com as mãos apoiadas sobre o colo e uma expressão que não deixava qualquer dúvida de que acompanhara toda a troca. Seus olhos foram de mim para Jacob e depois voltaram para mim.

— Desculpe interromper — disse ela, sem parecer nem um pouco arrependida. — Continuem. Posso fingir que não estou aqui.

— Emma.

— O quê? Estou tentando ser educada.

Jacob olhou para ela, e eu me apressei em fazer as apresentações antes que minha amiga dissesse qualquer coisa pior.

— Senhor Black, esta é Emma Bennett. Minha amiga. — Voltei-me para Emma. — Emma, este é Jacob Black.

A expressão dela mudou ligeiramente quando finalmente ficou frente a frente com o homem responsável por tudo que acontecera desde a madrugada. Emma se levantou e estendeu a mão.

— Senhor Black.

Jacob apertou sua mão.

— Senhora Bennett.

— Senhorita — ela corrigiu. — Apenas Emma está ótimo.

— Emma, então.

Ela pareceu surpresa por ele aceitar tão facilmente, mas logo recuperou a compostura.

— Eu queria agradecer pelo que fez em Allentown. Ainda não compreendi exatamente como tudo aconteceu, mas seus homens chegaram antes que Coleman pudesse fazer alguma coisa comigo ou com meus filhos. Disseram que o senhor havia mandado nos buscar.

— Renesmee pediu que eu garantisse a segurança de vocês.

— Ainda assim, o senhor não precisava fazer tudo aquilo.

Antes que eu pudesse acompanhar a resposta dele, senti uma mão pousar em minha cintura.

Congelei.

Jacob não me puxou bruscamente nem fez qualquer movimento que pudesse ser considerado íntimo demais para quem observava. Apenas colocou a mão na minha cintura com uma naturalidade desconcertante, como se já tivesse feito aquilo inúmeras vezes e não como se tivéssemos negociado, menos de vinte e quatro horas antes, um período inteiro justamente porque eu não estava acostumada à proximidade dele.

Meu corpo ficou imediatamente rígido.

Jacob percebeu.

Eu soube porque seus olhos desceram rapidamente até mim, mas sua mão permaneceu onde estava.

Emma também percebeu.

E, para meu absoluto desespero, o canto da boca dela se ergueu.

Jacob voltou a olhar para minha amiga.

— Eu faria qualquer coisa por Renesmee.

Olhei para ele.

A frase saiu com tanta tranquilidade que durante um segundo não consegui decidir se aquilo fazia parte do papel que ele esperava desempenhar como meu futuro marido ou se Jacob simplesmente gostava de me deixar sem saber o que responder.

Ri sem graça.

— Não precisa exagerar.

A mão em minha cintura pressionou discretamente o tecido do blazer.

— Não costumo exagerar.

Emma fez novamente aquele pequeno ruído com a garganta.

Lancei-lhe um olhar de advertência.

Ela fingiu não perceber.

Jacob, naturalmente, percebeu tudo.

— Um dos meus funcionários vai procurá-la ainda hoje, senhora Bennett — disse ele, voltando a atenção para Emma. — Precisamos tratar dos detalhes do seu novo emprego.

Emma piscou.

— Meu novo quê?

— Emprego.

— Eu ouvi essa parte. Só não entendi de onde surgiu um emprego.

Jacob respondeu como se estivesse explicando a parte mais evidente de um planejamento.

— Não seria seguro voltar para Allentown neste momento. Coleman conhece sua residência, o local onde seus filhos estudam e sua rotina. Mantê-la alguns dias em Nova York e depois devolvê-la ao mesmo ambiente não resolveria o problema.

Emma olhou para mim.

Eu também não sabia daquilo.

— Jacob...

Ele me lançou um olhar breve.

— Então providenciei um emprego para a senhora Bennett em uma das empresas do grupo — continuou. — Será uma função compatível com sua experiência. Ela poderá analisar as condições antes de aceitar.

Emma ficou boquiaberta.

— Espere. O senhor providenciou um emprego para mim?

— Sim.

— Em Nova York?

— Sim.

— E eu vou morar onde?

— Um apartamento já foi disponibilizado.

O silêncio de Emma tornou-se ainda mais expressivo.

— Um apartamento.

— Temporariamente. Se decidir permanecer na cidade, depois poderá escolher outra residência.

— E meus filhos?

— Permanecem com você, naturalmente.

— Eu quis dizer a escola.

— Também será providenciada. Minha equipe já levantou algumas opções próximas à residência, mas nenhuma matrícula será feita sem sua autorização.

Emma olhou para mim novamente.

Dessa vez, sua expressão dizia com absoluta clareza que nossa conversa anterior havia acabado de ganhar pelo menos mais uma hora.

— Nessie, nós precisamos conversar.

A mão de Jacob permaneceu em minha cintura, mas senti sua atenção mudar imediatamente.

— Nessie?

Meu coração afundou.

Emma olhou para ele.

— Sim.

Jacob virou o rosto lentamente para mim.

— Nessie?

— É um apelido.

— Percebi.

— Não faça essa expressão.

— Que expressão?

— Essa.

— Não estou fazendo expressão alguma.

— Está, sim.

Emma alternou o olhar entre nós e então franziu a testa.

— Vocês vão se casar e você não conhece o apelido da sua noiva?

Desejei que o jardim se abrisse e me engolisse.

Jacob continuou olhando para mim.

— Minha noiva não contou.

— Não surgiu o assunto — respondi.

— Tivemos conversas consideravelmente extensas.

— Nenhuma delas exigia uma lista dos meus apelidos.

— Discutimos um filho.

Meu rosto pegou fogo.

— Jacob!

Emma arregalou os olhos.

Eu queria matá-lo.

Ele permaneceu perfeitamente tranquilo.

— Apenas estou estabelecendo que tivemos oportunidade para informações pessoais.

— Isso não lhe dá autorização para mencionar determinados assuntos diante da Emma.

— Que assunto? — Emma perguntou imediatamente.

— Nenhum.

— Um filho? — ela insistiu.

— Emma.

— Vocês se conhecem há alguns dias e já estão discutindo filhos?

— Eu vou explicar.

— Você está dizendo isso há dez minutos e cada pessoa que aparece acrescenta uma parte nova à história.

Jacob teve a audácia de parecer discretamente entretido.

Olhei para ele.

— Está se divertindo?

— Um pouco.

— Fico feliz que alguém esteja.

Emma colocou uma mão sobre o braço dele como se, de repente, fossem aliados.

— Senhor Black, talvez o senhor possa me explicar, porque aparentemente minha amiga pretende me contar essa história em parcelas.

— Não incentive.

Jacob baixou os olhos para a mão de Emma em seu braço e depois voltou a olhar para ela. Para minha surpresa, não pareceu incomodado.

— Receio que essa seja uma conversa que Renesmee precisa ter com você.

— Finalmente alguma coisa sensata — murmurei.

— Embora eu também esteja curioso para descobrir como ela pretende explicar algumas partes.

— Pode parar agora.

Ele me olhou.

— Está nervosa, Nessie?

A maneira como pronunciou meu apelido me fez encará-lo.

Não combinava.

Ou talvez combinasse demais, e esse fosse o problema.

— Não use isso.

— Por quê?

— Porque não.

— Excelente argumento.

— Jacob.

Ele quase sorriu.

Antes que eu pudesse continuar, um homem apareceu na entrada do jardim. Não era Paul nem Embry. Eu o reconhecia apenas vagamente como um dos homens que circulavam pela propriedade. Ele não se aproximou demais e esperou até receber a atenção de Jacob.

— Don Black.

A mudança em Jacob foi imediata.

Não fisicamente. Sua mão ainda estava na minha cintura, a postura permanecia a mesma e sua expressão quase não se alterou. Ainda assim, alguma coisa desapareceu. O homem que me provocava por causa de um apelido deu lugar ao homem que eu vira entrar naquela casa na noite anterior e fazer Bree perder a cor do rosto apenas com uma pergunta.

— Estão esperando pelo senhor.

Jacob olhou para ele.

— Todos chegaram?

— Sim, Don. Paul pediu que avisasse assim que o último estivesse na sala.

— Diga que estou indo.

— Sim, Don.

O homem se afastou.

Jacob finalmente retirou a mão da minha cintura, e eu odiei perceber o pequeno alívio que veio acompanhado por uma sensação estranhamente oposta quando o calor da mão dele desapareceu.

Ele ajeitou o paletó.

— Preciso ir.

— Claro — respondi.

Seu olhar permaneceu em mim por alguns segundos antes de passar para Emma.

— Senhorita Bennett, alguém vai procurá-la depois do almoço. Não precisa decidir nada hoje. Leia as condições e faça as perguntas que considerar necessárias.

Emma assentiu.

— Obrigada.

— Seus filhos estarão protegidos enquanto estiverem aqui. Quando forem para o apartamento, a segurança continuará.

— Eu agradeço, senhor Black.

Jacob voltou a me olhar.

— Renesmee.

— Senhor Black.

Ele arqueou discretamente uma sobrancelha.

Eu sabia exatamente por quê.

Depois de chamá-lo de Jacob várias vezes, voltara ao tratamento formal apenas porque estava irritada.

— Aproveite a conversa com sua amiga.

Havia provocação suficiente naquela frase para me fazer estreitar os olhos.

— Pretendo.

— Imagino.

Jacob fez um pequeno aceno para Emma e então se afastou pelo mesmo caminho por onde chegara. Observei-o caminhar até as portas da mansão, onde o homem que viera buscá-lo ainda esperava. Dois seguranças se posicionaram discretamente atrás deles, e os três desapareceram para dentro da casa.

Continuei olhando por alguns segundos.

— Bem.

A voz de Emma me fez fechar os olhos.

Eu sabia o que vinha. Virei-me devagar e ela estava com os braços cruzados.

— Nem comece.

— Eu ainda não disse nada.

— Seu rosto está dizendo.

— Meu rosto tem muitas perguntas.

— Eu percebi.

Emma apontou para a cadeira diante dela.

— Sente.

— Não fale comigo como se eu fosse uma das crianças.

— Então pare de esconder informações como uma adolescente que voltou para casa depois do horário.

Sentei e Emma puxou a cadeira para mais perto da minha.

— Agora você vai me contar tudo. E quando digo tudo, estou incluindo por que vai se casar com um homem que aparentemente pode me mudar de estado antes do café da manhã, por que existem homens armados chamando seu noivo de Don e, principalmente, por que Jacob Black acabou de mencionar um filho como se eu já devesse saber do assunto.

Cobri o rosto com as mãos por alguns segundos, aquela seria uma conversa longa.

Quando tornei a olhar para Emma, ela continuava esperando com a expressão de quem não me permitiria escapar de uma única explicação. Depois de tudo que ela enfrentara por minha causa nos últimos dias, eu não tinha o direito de tentar.

Respirei fundo e comecei pelo único ponto em que toda aquela loucura realmente começara.