Minha primeira noite na mansão Black foi muito menos dramática do que tudo que acontecera até eu chegar ali. Depois que Jacob desapareceu para cuidar dos negócios que aparentemente ocupavam cada intervalo possível do dia dele, consegui finalmente contar a Emma uma versão suficientemente completa dos acontecimentos. Não foi uma conversa simples. Ela me interrompeu diversas vezes, ficou horrorizada quando soube que a vaga de babá nunca fora exatamente uma vaga de babá, levantou-se da cadeira quando mencionei a cláusula do filho e voltou a sentar quando expliquei as condições que eu mesma havia exigido antes de aceitar. Quando terminei, Emma ficou alguns minutos me olhando como se tentasse descobrir se eu continuava sendo a mesma mulher que trabalhara ao lado dela no Riverside Diner. Depois segurou minhas mãos e disse que não gostava da ideia, que confiava ainda menos em um homem capaz de organizar a vida inteira de três pessoas antes do almoço, mas entendia por que eu aceitara quando Coleman ameaçara seus filhos. Eu não esperava aprovação. Saber que ela compreendia já era suficiente.

Emma aceitou o emprego depois de conversar com uma funcionária do setor administrativo de uma das empresas de Jacob e descobrir que não se tratava de uma função inventada apenas para mantê-la sob vigilância. O salário era melhor do que recebia no Riverside, o horário permitiria que continuasse cuidando das crianças e havia benefícios que fizeram Emma perguntar duas vezes se haviam colocado algum zero a mais por engano. A única coisa que ela recusou foi o apartamento providenciado pelos Black. Disse que já estava recebendo ajuda demais e que, se pretendia reconstruir a vida em Nova York, queria começar pagando pelo próprio teto. Eu conhecia Emma o suficiente para saber que discutir seria inútil e, no final da tarde, lembrei-me da senhora Alvarez e da pensão no Bronx.

Foi assim que terminei meu primeiro dia como futura senhora Black voltando exatamente ao lugar de onde havia saído naquela manhã.

A senhora Alvarez ficou surpresa ao me ver novamente tão depressa, ainda mais quando apareci acompanhada de Emma, duas crianças, um motorista e um segurança que permaneceu do lado de fora tentando parecer discreto dentro de um carro que custava provavelmente mais do que o prédio inteiro. Expliquei apenas que minha amiga precisava de um lugar para morar, e a senhora Alvarez imediatamente disse que havia um apartamento maior disponível no segundo andar, com dois quartos pequenos, cozinha e banheiro próprios. Não era luxuoso, mas era limpo, seguro e cabia no orçamento de Emma com o novo salário. Quando as crianças correram para escolher qual cama seria de quem, Emma me olhou e começou a chorar. Eu chorei também. A senhora Alvarez mandou nós duas pararmos porque, segundo ela, já havia mulheres chorando demais naquele prédio por causa de homens e ela não permitiria que aumentássemos a estatística.

No final, tudo deu certo.

Emma tinha emprego, as crianças estavam seguras e a senhora Alvarez ganhou três novos moradores para alimentar sem que ninguém tivesse pedido. Jacob manteve dois homens responsáveis pela segurança deles, apesar de Emma protestar, e dessa vez fui eu quem disse que ela deveria aceitar. Coleman ainda estava em Allentown e ninguém sabia o que faria quando compreendesse que perdera o controle sobre nós. Não havia sentido em transformar independência em imprudência.

Voltei à mansão já à noite.

Jantei com Sarah e Rachel porque Jacob continuava ocupado, Will apareceu apenas durante parte da refeição e Claire não desceu. Sarah explicou, sem entrar em detalhes, que a neta estava cumprindo uma punição e que aquele não era exatamente o melhor momento para tentar uma aproximação. Depois do jantar, uma funcionária me mostrou novamente meu quarto, embora chamá-lo de quarto parecesse quase ofensivo diante do tamanho do lugar.

Dormi ali pela primeira vez.

E, quando acordei na manhã seguinte, levei alguns segundos para lembrar onde estava.

Abri os olhos e fiquei olhando para o teto alto, completamente imóvel. A luz entrava pelas cortinas parcialmente abertas e iluminava um ambiente que ainda não tinha qualquer familiaridade para mim. A cama era tão grande que eu provavelmente poderia dormir atravessada sem alcançar as extremidades, os lençóis eram macios de uma maneira que me fez pensar no colchão fino da pensão, e havia uma pequena sala de estar dentro do próprio quarto, com duas poltronas, uma mesa e uma estante que Rachel prometera ajudar a preencher quando descobrisse que tipo de livros eu gostava.

Virei o rosto para o outro lado.

Minha bolsa velha estava sobre uma cadeira.

Aquilo me tranquilizou mais do que deveria.

No meio de todas as coisas novas, caras e cuidadosamente escolhidas, aquela bolsa era a única coisa no quarto que realmente me pertencia.

Sentei-me na cama e passei as mãos pelos cabelos. O silêncio da casa me confundiu. No Saint Agnes, minhas manhãs sempre haviam começado com crianças, portas abrindo, passos nos corredores e freiras chamando alguém para alguma tarefa. Na pensão, havia canos, carros, vizinhos e a senhora Alvarez falando alto desde cedo. A mansão Black parecia grande o suficiente para absorver todos os sons.

Olhei o relógio.

Pouco depois das sete.

Levantei-me e fui ao banheiro.

Ainda não havia me acostumado àquele lugar.

O banheiro era maior do que o quarto que eu alugara no Bronx. Havia duas pias sobre uma bancada de pedra clara, um espelho enorme, banheira separada e um boxe de vidro tão amplo que tive vontade de perguntar quantas pessoas Rachel imaginava que precisariam tomar banho comigo. Toalhas estavam perfeitamente dobradas, produtos novos haviam sido organizados sobre a bancada e até minha escova de dentes tinha sido providenciada.

Encontrei um bilhete de Rachel perto dos produtos.

Antes que reclame: sim, você precisa de tudo isso. Não, não sei quanto custou. Não, Jacob não vai à falência.

Ri sozinha.

— Insuportável.

Tomei banho e, enrolada no roupão, entrei no closet.

Parei na porta.

As compras do dia anterior estavam organizadas.

Todas.

As roupas penduradas por categoria, sapatos colocados nas prateleiras, bolsas, caixas e acessórios distribuídos de maneira tão impecável que durante alguns segundos tive medo de tocar em qualquer coisa. Minhas poucas roupas antigas estavam numa parte do armário também, cuidadosamente lavadas e dobradas.

Aproximei-me delas primeiro.

Poderia ter escolhido alguma.

Não escolhi.

Se aquela seria minha vida pelos próximos três anos, em algum momento eu teria de parar de tratar cada coisa que Jacob colocava à minha disposição como se fosse proibida.

Escolhi uma calça de alfaiataria clara, uma blusa de tecido leve e um blazer mais simples que Rachel havia insistido que eu levasse. Coloquei sapatos baixos porque não tinha qualquer intenção de começar a usar salto dentro de casa às sete da manhã e deixei os cabelos soltos. Diante do espelho, ainda reconheci a mesma Renesmee do dia anterior.

Isso bastava.

Saí do quarto.

Não sabia exatamente onde Jacob estava. Nem sequer sabia se ele dormira na mansão. Não o vira quando retornara do Bronx na noite anterior, e a casa parecia funcionar ao redor da presença dele mesmo quando ele não estava visível.

Dei poucos passos pelo corredor antes de ouvir uma discussão.

— Eu não vou!

Reconheci imediatamente a voz de Will.

— Senhor William, o carro já está esperando — respondeu uma mulher.

— Então manda o carro ir embora.

— Eu não posso mandar o carro embora.

— Pode, sim. É só falar para ele ir.

— Seu pai...

— Meu pai não está aqui!

Diminuí o passo.

A porta do quarto de Will estava aberta. Uma funcionária que eu ainda não conhecia permanecia no corredor segurando um uniforme escolar enquanto Will estava do outro lado, de pijama, braços cruzados e expressão fechada.

— Bom dia — falei.

A mulher virou-se imediatamente.

— Bom dia, senhorita Miller.

Will também olhou para mim.

A raiva no rosto dele diminuiu por um segundo.

— Renesmee.

— Ouvi uma negociação acontecendo.

A funcionária soltou o ar, visivelmente aliviada por me ver.

— O senhor William precisa se vestir para a escola, mas decidiu que não vai.

— Eu não decidi agora. Já decidi ontem.

— Isso torna a situação muito mais organizada — respondi.

Will franziu a testa.

— Não estou brincando.

— Eu também não.

Aproximei-me e olhei para a funcionária.

— Posso conversar com ele?

Ela hesitou.

— O carro está esperando.

— Eu não vou demorar.

A mulher olhou para Will, depois para mim e finalmente entregou o uniforme.

— Vou avisar que houve um pequeno atraso.

— Obrigada.

Ela se afastou.

Will imediatamente tentou fechar a porta.

Coloquei a mão antes.

— Nem pense.

— É meu quarto.

— Eu sei.

— Então não pode entrar sem eu deixar.

— Excelente argumento.

Ele pareceu satisfeito.

— Então sai.

— Não entrei.

Olhou para meus pés.

Eu ainda estava no corredor.

Will estreitou os olhos.

— Você faz isso de propósito.

— Frequentemente.

Ele tentou fechar novamente.

— Posso pelo menos sentar aí?

Apontei para o chão do corredor.

Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

— No chão?

— É confortável?

— Não.

— Então provavelmente não vou ficar muito tempo.

Sentei-me.

Will ficou parado na porta.

— Você é estranha.

— Já me disseram.

— Meu pai sabe?

— Está começando a descobrir.

Isso quase arrancou um sorriso dele.

Quase.

Coloquei o uniforme dobrado ao meu lado.

— Não vou obrigar você a ir para a escola.

Ele pareceu desconfiado.

— Não?

— Não tenho autoridade para isso.

— Então fala para eles que eu não vou.

— Também não tenho autoridade para isso.

— Então você não serve para nada.

— Isso foi grosseiro.

Ele baixou os olhos.

— Desculpa.

— Aceito.

Permaneci em silêncio por alguns segundos.

Will não fechou a porta.

— Por que não quer ir?

— Porque não.

— Essa resposta funciona com seu pai?

— Não.

— Então provavelmente também não vai funcionar comigo.

— Você disse que não manda em mim.

— Não mando. Posso continuar fazendo perguntas.

Ele revirou os olhos.

— Eu não gosto da escola.

— Você gostava antes?

Silêncio.

— Will.

— Mais ou menos.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

A resposta saiu rápida demais.

Observei-o.

Os braços estavam cruzados novamente, mas já não havia raiva em seu rosto. Havia outra coisa.

Conhecia aquela mudança.

Passei anos convivendo com crianças que diziam estar com dor de barriga quando tinham medo, que começavam brigas para evitar uma atividade e que preferiam ser chamadas de difíceis a admitir que alguma coisa as machucava.

— Alguém está incomodando você?

Will não respondeu.

Meu estômago apertou.

Levantei-me devagar, mas não me aproximei.

— Não vou contar para ninguém sem falar com você primeiro.

Ele finalmente me olhou.

— Meu pai vai mandar homens.

Tive que controlar a reação.

— Homens?

— Ele manda homens para tudo.

Aquilo era tão verdadeiro que não consegui negar.

— Certo. Então vamos evitar começar por essa opção.

Will continuou me olhando.

— Quem está incomodando você?

Ele baixou a cabeça.

— Um menino.

— Da sua turma?

Will negou.

— Ele é maior.

— Quanto maior?

— Está no quinto ano.

Will tinha sete anos.

Senti uma irritação imediata, mas mantive a voz tranquila.

— O que ele faz?

— Nada.

— Will.

— Só coisas.

— Que coisas?

Ele chutou levemente o batente da porta.

— Pega minhas coisas.

Esperei.

— E?

— Esconde minha mochila. Joga meu estojo no lixo.

Minha mandíbula se contraiu.

— Mais alguma coisa?

Will demorou.

— Ele fala da minha mãe.

Aquilo doeu.

— O que ele fala?

— Que ela morreu porque queria fugir da nossa família.

Fiquei imóvel.

— Isso não é verdade.

— Eu sei.

A voz dele ficou menor.

— Ele disse que meu pai é bandido.

Não respondi imediatamente a essa parte.

Eu ainda estava descobrindo exatamente o que Jacob Black era e não pretendia mentir para o filho dele.

— E o que você fez?

— Falei para ele parar.

— Ele parou?

Will negou.

— Ontem ele me empurrou.

A raiva que eu vinha controlando subiu de uma vez.

— Ele machucou você?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Algum adulto viu?

— Não.

— Você contou para alguém?

— Não.

— Por quê?

Will levantou os olhos.

— Porque meu pai vai fazer alguma coisa.

Eu quase disse que esse era justamente o objetivo.

Mas entendi.

Will não estava com medo apenas do menino. Estava com medo do tamanho que o problema ganharia quando chegasse ao pai. Na cabeça dele, contar significava homens, segurança, interrogatórios e talvez deixar a escola.

Ajoelhei-me para ficar na altura dele.

— Escute. Você não fez nada errado.

Ele desviou os olhos.

— Eu devia ter batido nele.

— Não.

— Meu pai fala que eu preciso saber me defender.

— Saber se defender não significa sair batendo em todo mundo.

— Ele é maior.

— Exatamente. E você tem sete anos. Não precisa resolver sozinho um problema criado por alguém mais velho.

Will ficou quieto.

— Olhe para mim.

Ele olhou.

— Eu vou resolver isso.

— Como?

— Primeiro vou descobrir exatamente o que está acontecendo. Depois vamos conversar com a escola.

O pânico apareceu imediatamente.

— Não!

— Will...

— Eles vão contar que eu falei.

— Então vamos deixar claro que isso não pode acontecer dessa maneira.

— Ele vai saber.

— Talvez. Mas ele precisa saber que não pode continuar fazendo isso.

— Você vai contar para meu pai?

Essa era a pergunta difícil.

Eu não poderia prometer esconder de Jacob uma coisa envolvendo a segurança do filho dele. Além de errado, provavelmente seria a maneira mais rápida de destruir qualquer confiança que Jacob começasse a depositar em mim.

— Vou precisar contar.

Will imediatamente fechou a expressão.

— Então não quero.

Segurei gentilmente a mão dele.

— Mas vou conversar com você antes. E não vou simplesmente entrar no escritório do seu pai, dizer que você está sofrendo bullying e sair correndo enquanto ele mobiliza metade de Nova York.

Will me olhou com desconfiança.

— Ele faria isso.

— Estou começando a perceber.

— Vai mandar Paul.

— Talvez possamos convencê-lo de que Paul não precisa invadir uma escola de ensino fundamental.

Um pequeno sorriso finalmente apareceu.

— Paul assusta as pessoas.

— Eu sei.

— Embry também.

— Também sei.

— Meu pai assusta mais.

Dessa vez sorri.

— Definitivamente.

Will pareceu relaxar.

Apertei sua mão.

— Vamos fazer assim: hoje você vai para a escola. Eu vou com você.

Ele arregalou os olhos.

— Vai?

— Vou.

Eu não tinha a menor ideia se poderia.

Resolveria essa parte depois.

— Vou conversar com a direção sem expor você na frente de ninguém. Quero saber quem é esse menino, o que os professores perceberam e por que ninguém viu um aluno mais velho mexendo com uma criança do segundo ano.

— E se não fizerem nada?

— Então nós fazemos outra coisa.

— O quê?

— Ainda não sei. Sou nova nessa família. Preciso descobrir qual é a opção entre conversar educadamente com a escola e seu pai mandar doze homens.

Will riu.

Foi uma risada pequena, mas verdadeira.

— Você promete?

A pergunta me fez ficar séria.

— Prometo o quê?

— Que vai resolver.

Olhei para ele.

Eu sabia que promessas feitas a crianças tinham peso diferente. Um adulto podia compreender atraso, circunstâncias e limites. Uma criança apenas lembrava que alguém disse que faria.

— Prometo que não vou deixar você enfrentar isso sozinho e que vou fazer tudo que puder para resolver da maneira certa.

— Isso é uma promessa grande.

— É a única que posso fazer.

Will pensou por alguns segundos.

Então estendeu o dedo mínimo.

Olhei para ele.

— Sério?

— É mais forte.

— Mais forte do que o quê?

— Do que promessa normal.

Enlacei meu dedo ao dele.

— Certo. Então está prometido.

Ele assentiu solenemente.

Levantei-me e peguei o uniforme.

— Agora temos outro problema.

Will olhou para as roupas.

— Eu ainda não quero ir.

— Eu sei. Mas você vai.

— Você disse que não mandava em mim.

— E não mando. Estou lembrando que acabamos de fazer um acordo. Para eu resolver o problema na escola, seria bastante útil você estar nela.

Ele considerou o argumento.

— Você vai mesmo comigo?

— Vou.

— No carro?

— Sim.

— Até dentro da escola?

— Até onde você precisar.

Will finalmente pegou o uniforme das minhas mãos.

— Está bem.

— Isso significa que vai se vestir?

— Sim.

— Excelente. Estamos progredindo.

Ele entrou no quarto, mas parou antes de fechar a porta.

— Renesmee?

— Sim?

— Não conta para minha avó ainda.

— Will...

— Só até a gente falar com meu pai.

Pensei.

— Até falarmos com seu pai.

Ele assentiu.

— E não deixa ele ficar bravo comigo.

Meu coração apertou.

— Ele não tem motivo para ficar bravo com você.

— Às vezes ele fica bravo quando está preocupado.

Aquilo explicava mais sobre os dois do que Will provavelmente imaginava.

— Então eu lembro isso a ele.

Will pareceu satisfeito.

— Espera aqui?

— Espero.

Ele fechou a porta.

Encostei-me na parede do corredor e soltei lentamente o ar.

Eu chegara à mansão Black para cumprir um contrato que deveria oferecer estabilidade àquela família. Ainda não havia assinado nada, não era esposa de Jacob e certamente não era mãe dos filhos dele. Mesmo assim, na minha primeira manhã naquela casa, um menino de sete anos acabara de me confiar um segredo que tinha medo de contar ao próprio pai.

Olhei para a porta fechada.

Eu havia prometido resolver.

Agora só precisava descobrir como explicaria a Jacob Black que, antes mesmo do café da manhã, eu pretendia acompanhá-lo até a escola para tratar de um garoto mais velho que vinha empurrando seu filho e usando a morte da mãe dele para humilhá-lo.

Pelo pouco que eu conhecia de Jacob, impedir que ele transformasse uma conversa escolar numa operação de segurança talvez fosse a parte mais difícil da promessa.


A porta do quarto de Will tornou a abrir alguns minutos depois, e ele apareceu já uniformizado, embora a aparência deixasse claro que fizera tudo sozinho e com a pressa de uma criança que considerava abotoar corretamente a camisa um detalhe sem importância. A gravata estava torta, um lado da camisa escapava discretamente da calça e os cabelos, que antes pareciam apenas desalinhados pelo sono, agora estavam ainda piores. Ele carregava a mochila por uma das alças e me olhou como se esperasse que eu simplesmente aprovasse o resultado.

— Está pronto? — perguntei.

— Estou.

Olhei para a gravata.

— Tem certeza?

Will baixou os olhos para si mesmo.

— O quê?

— Venha aqui.

Ele fez uma pequena careta, mas se aproximou. Ajeitei primeiro a gola da camisa e depois a gravata, tentando lembrar como fazia aquilo com os meninos mais novos do Saint Agnes. Will ficou parado, embora demonstrasse uma paciência bastante limitada.

— Você demora muito.

— Você colocou a gravata quase de lado.

— Ninguém olha para minha gravata.

— Agora eu olhei.

— Porque você é estranha.

— Já estabelecemos isso.

Coloquei a parte da camisa que escapara de volta no lugar e então passei os dedos pelos cabelos dele, tentando organizar o que era possível sem um pente.

— Pronto.

Will tocou os cabelos.

— Você mexeu.

— Era necessário.

— Estava bom.

— Temos opiniões diferentes sobre a palavra bom.

Ele revirou os olhos, mas havia um princípio de sorriso em sua boca. Quando tentou colocar a mochila nas costas, percebi que uma das alças estava torcida e o fiz parar novamente.

— Espere.

— O que foi agora?

— Sua mochila.

— Renesmee, eu vou me atrasar.

— Há cinco minutos você não queria nem ir.

— Agora eu quero.

— Impressionante como as coisas mudam.

Ajeitei a alça e coloquei a mochila corretamente em seus ombros. O peso me chamou atenção.

— O que você carrega aqui dentro? Pedras?

— Livros.

— Todos os livros da escola?

— Talvez.

— Depois vamos organizar isso.

Will soltou um suspiro dramático.

— Você vai morar aqui mesmo?

A pergunta me fez sorrir.

— Pelo visto, sim.

— Então vou ter que esconder minhas coisas de você.

— Provavelmente.

Saímos juntos pelo corredor e começamos a descer as escadas. Eu ainda precisava prestar atenção aos caminhos naquela casa, mas Will caminhava com a familiaridade de quem poderia atravessar a mansão de olhos fechados. No meio da escada, ele diminuiu o passo e se aproximou um pouco mais de mim. Não falou sobre a escola novamente, porém eu sabia que aquilo continuava na cabeça dele. Estava na maneira como apertava a alça da mochila e como sua disposição diminuíra assim que deixamos o corredor dos quartos.

A funcionária com quem ele discutira antes estava no hall. Quando nos viu descendo juntos, parou.

Primeiro olhou para Will.

Depois para mim.

A surpresa em seu rosto foi quase cômica.

— Senhor William, está pronto.

Will fez uma careta.

— Eu falei que ia me vestir.

A mulher claramente decidiu não lembrá-lo de que, menos de quinze minutos antes, ele anunciava que não pisaria na escola.

— Naturalmente, senhor William.

Assim que chegamos ao último degrau, ela se aproximou e retirou a mochila dos ombros dele.

— Eu levo.

— Eu consigo — Will respondeu.

— Eu sei, mas o carro já está esperando.

Olhei para ela.

— Na verdade, ele vai tomar café primeiro.

Ela hesitou.

— O motorista recebeu orientação para sair às sete e quarenta.

— Então pode esperar alguns minutos. Will não vai para a escola sem comer.

O menino olhou para mim.

— Eu não estou com fome.

— Essa história outra vez?

— Não é história.

— Pelo menos sente à mesa.

A funcionária pareceu indecisa entre seguir minha orientação ou alguma ordem anterior, mas finalmente assentiu.

— Vou avisar o motorista.

— Obrigada.

Seguimos para a sala de refeições, e ouvi vozes antes mesmo de entrar. Sarah estava sentada à mesa, impecavelmente arrumada apesar do horário, com uma xícara de café diante dela e alguns documentos ao lado do prato. Quando nos viu, ergueu os olhos e sorriu.

— Bom dia.

— Bom dia — respondi.

— Bom dia, vovó — Will falou, dirigindo-se imediatamente à cadeira que aparentemente ocupava todos os dias.

Foi então que percebi a outra pessoa à mesa.

Uma jovem estava sentada alguns lugares distante de Sarah.

Não precisei perguntar quem era.

Claire.

Ainda não tínhamos sido apresentadas formalmente. Eu a vira rapidamente na casa, mas nunca estivera diante dela por tempo suficiente para conversar. Rachel já havia me contado o necessário para que eu soubesse que aquela provavelmente não seria uma apresentação simples.

Claire era bonita. Tinha os cabelos bem cuidados, feições delicadas e uma expressão que parecia ter sido cuidadosamente construída para informar ao mundo inteiro que nada naquela manhã despertava seu interesse. Estava vestida para ficar em casa, não para ir à escola, o que confirmava que a punição imposta por Jacob continuava. Havia um telefone sobre a mesa, mas desligado e colocado próximo de Sarah, não dela.

Seus olhos foram diretamente para mim.

Depois para Will.

E novamente para mim.

Não disse nada.

Sentei-me ao lado de Will.

Sarah observou o neto.

— Fiquei sabendo que tivemos alguma dificuldade esta manhã.

Will pegou um pedaço de pão.

— Já passou.

— Passou?

— Sim.

Sarah olhou para mim.

— Renesmee?

— Nós conversamos.

Will me lançou imediatamente um olhar de advertência.

Lembrei-me da promessa.

— Ele decidiu que vai à escola — completei.

Sarah pareceu perceber que havia algo mais, mas teve a delicadeza de não insistir.

— Fico satisfeita.

Uma funcionária se aproximou e perguntou o que eu gostaria. Pedi café e alguma coisa simples, enquanto Will começou a passar manteiga no pão com uma concentração muito maior do que a tarefa exigia.

Claire continuava em silêncio.

Sarah bebeu um pouco do café e finalmente olhou para ela.

— Claire.

A jovem levantou os olhos.

— O quê?

— Não vai dar bom dia para Renesmee?

Claire voltou o olhar para mim.

Havia uma diferença enorme entre ela e Will. Com Will, mesmo quando ele tentava ser difícil, ainda era possível enxergar a criança por trás da provocação. Claire já tinha idade suficiente para saber exatamente como usar palavras para atingir alguém e, pelo modo como me examinou da cabeça aos pés antes de responder, tive certeza de que escolheria as suas cuidadosamente.

— Bom dia.

— Bom dia, Claire.

Ela apoiou as costas na cadeira.

— Então é ela.

Sarah pousou a xícara.

— Ela quem?

— A nova aquisição do meu pai.

Will parou de mastigar.

Eu também fiquei imóvel por um segundo.

Sarah mudou imediatamente de expressão.

— Claire.

— O quê? É mentira?

— Escolha muito bem a maneira como vai falar com Renesmee.

Claire soltou uma pequena risada sem qualquer humor.

— Por quê? Ela já manda na casa também?

— Eu não mando em ninguém — respondi antes que Sarah precisasse fazê-lo por mim.

Claire me olhou.

— Ainda.

— Claire — Sarah advertiu novamente.

A garota ignorou.

— Isso é vergonhoso.

Sarah colocou a xícara sobre o pires com mais força.

— Chega.

— Eu só estou falando o que todo mundo vai pensar quando descobrir. — Claire apontou discretamente para mim. — Olha para ela. Ela tem quase a minha idade.

Eu esperava alguma hostilidade. Ainda assim, a frase me atingiu.

Talvez porque tocasse exatamente numa das coisas que eu tentava não pensar desde que Jacob fizera a proposta. Eu tinha vinte anos. Claire tinha quatorze. Seis anos nos separavam. Eu jamais poderia entrar naquela casa fingindo ser uma figura materna para uma adolescente que poderia facilmente ser confundida com uma irmã mais nova.

Sarah se endireitou na cadeira.

— Você tem quatorze anos. Renesmee tem vinte. Isso não significa que tenham quase a mesma idade e, mesmo que significasse, não lhe daria o direito de tratá-la dessa maneira.

Claire cruzou os braços.

— Ela vai casar com meu pai.

— Sim.

— E ninguém acha isso estranho?

Will ergueu a mão, ainda segurando o pão.

— Eu não acho.

Claire virou-se para o irmão.

— Ninguém perguntou para você.

— Você perguntou se ninguém achava estranho.

Precisei morder a parte interna da bochecha para não rir.

Claire lançou ao irmão um olhar irritado.

— Come seu pão, Will.

— Estou comendo.

— Então fica quieto.

— Claire — Sarah falou com firmeza. — Você já foi advertida.

A adolescente empurrou o prato alguns centímetros.

— Não estou entendendo por que todo mundo está fingindo que isso é normal. Meu pai nunca falou dela. Ontem ela não existia e agora vai morar aqui e casar com ele.

Eu poderia deixar Sarah continuar me defendendo, mas não queria. Coloquei a xícara sobre a mesa.

— Você tem razão em uma coisa.

Claire pareceu surpresa e Sarah também.

— Renesmee — Sarah começou.

Fiz um pequeno gesto para mostrar que estava tudo bem.

— Eu também acharia estranho se estivesse no seu lugar.

Claire me observou com desconfiança.

— Então acha normal?

— Não disse isso. Disse que entendo por que você acha estranho. Eu também conheço seu pai há pouco tempo e minha vida mudou bastante rápido nos últimos dias.

— Então por que vai casar com ele?

A pergunta foi direta.

— Claire.

Dessa vez fui eu quem olhou para Sarah.

— Tudo bem.

Voltei-me para a garota.

— Existem razões que dizem respeito a mim e ao seu pai. Algumas podemos explicar, outras são particulares. Mas não estou aqui para ocupar o lugar de ninguém.

A expressão de Claire mudou muito pouco, porém seus olhos permaneceram atentos.

— Meu pai acha que colocar uma mulher nova dentro desta casa vai consertar tudo?

— Você terá que perguntar isso a ele.

— E você acha?

— Não.

Ela pareceu não esperar a resposta.

— Não acho que pessoas sejam peças que você substitui até uma família funcionar — continuei. — Sua mãe foi sua mãe. Eu não conheci essa mulher e jamais seria arrogante o suficiente para imaginar que posso ocupar o lugar dela.

Claire baixou os olhos por um instante.

Sarah permaneceu em silêncio.

— Também não pretendo ser sua mãe — acrescentei. — Como você gentilmente observou, temos apenas seis anos de diferença. Seria ridículo para nós duas.

Will soltou uma risadinha.

Claire olhou para ele e depois para mim.

— Pelo menos sabe disso.

— Sei fazer contas.

O canto da boca dela se moveu, embora desaparecesse depressa.

— Isso não significa que eu goste de você.

— Não esperava que gostasse antes mesmo do café da manhã.

— Talvez eu nunca goste.

— Também é uma possibilidade.

Sarah me observou com atenção.

Claire pareceu ligeiramente incomodada por eu não discutir.

— E você não se importa?

— Prefiro que não me odeie, mas não vou exigir que sinta alguma coisa só porque seu pai decidiu se casar comigo. Podemos começar sendo educadas uma com a outra. O restante veremos depois.

Claire ficou alguns segundos em silêncio.

Então seus olhos foram para minha roupa, para os cabelos e finalmente voltaram ao meu rosto.

— Você realmente tem vinte?

— Tenho.

— Meu pai tem trinta e oito.

— Eu sei a idade do homem com quem vou me casar.

— São dezoito anos.

— Sua matemática também funciona.

Will riu novamente.

— Ela é engraçada.

Claire revirou os olhos.

— Você gosta de todo mundo que deixa você ganhar.

Will ficou ofendido.

— Ela não deixou! Ela ganhou de mim.

Claire franziu a testa.

— Ganhou o quê?

Percebi tarde demais.

Will começou imediatamente:

— Na queda de braço.

Claire olhou para mim.

Depois para o irmão.

— Você fez uma queda de braço com ela?

— Foi o teste.

— Que teste?

Will pareceu perceber que estava contando demais e enfiou um pedaço de pão na boca.

Olhei para ele.

— Muito discreto.

Claire virou-se para Sarah.

— Que teste?

Sarah tomou café com absoluta tranquilidade.

— Isso é uma história para outro momento.

— Nesta família ninguém responde nada.

— Nisso você tem razão — murmurei.

Claire ouviu. Dessa vez, o sorriso apareceu de verdade por um segundo.

A tensão à mesa diminuiu apenas o suficiente para que eu respirasse melhor. Não imaginava que havia conquistado Claire e seria ingênua se pensasse assim. Ela continuava irritada com o pai, com a punição, comigo e provavelmente com o mundo inteiro. Entretanto, pelo menos não parecíamos mais a poucos segundos de uma guerra durante o café da manhã.

Will terminou o pão e bebeu um pouco do leite.

— Podemos ir?

Olhei para o relógio.

— Agora podemos.

Sarah franziu a testa.

— Podemos?

Will congelou.

Eu também percebi o erro.

— Vou acompanhá-lo à escola.

Sarah pousou lentamente a xícara.

— Vai?

— Sim.

Claire olhou para o irmão e Will olhou para mim.

Sarah nos observou alternadamente e, pela expressão dela, eu soube que acabara de encontrar a parte da manhã que tentávamos esconder.

— Renesmee — disse ela com calma —, existe alguma razão específica para você precisar acompanhar William hoje?

Will apertou os lábios e olhei para ele.

A promessa que fizera não era esconder aquilo dos adultos responsáveis. Era conversar com ele antes de contar a Jacob e impedir que seu medo fosse tratado como mais um ato de desobediência.

Estendi a mão por baixo da mesa e toquei suavemente a dele.

— Existe — respondi. — Mas eu prometi ao Will que primeiro conversaríamos com o pai dele.

Claire soltou uma pequena respiração.

— Boa sorte.

Olhei para ela. — Por quê?

Ela pegou a xícara.

— Porque se envolve escola, Will e algum problema que ninguém contou para meu pai, você está prestes a descobrir por que todo mundo nesta casa escolhe muito bem as palavras quando entra no escritório dele.

Will ficou imediatamente tenso ao meu lado.

Apertei sua mão.

— Então talvez seja uma boa oportunidade para ele descobrir que comigo também funciona assim.

Claire me encaroube Sarah fechou os olhos por um instante, como se já previsse a discussão que estava por vir.

E Will, pela primeira vez desde que descêramos as escadas, sorriu.