Renesmee


A escola de William ficava em uma das regiões mais valorizadas de Manhattan, instalada em um prédio antigo que parecia mais uma universidade particular do que um lugar onde crianças passavam a manhã aprendendo matemática, ciências e história. O carro parou diante da entrada principal alguns minutos depois das oito, e bastou olhar pela janela para perceber que eu provavelmente nunca estivera tão perto de um ambiente como aquele. Havia motoristas abrindo portas de carros importados, crianças descendo com uniformes impecáveis e pais que pareciam conhecer perfeitamente as regras daquele mundo. Eu ainda estava tentando me acostumar ao fato de que agora também chegava em um veículo que chamava atenção, acompanhada de segurança, quando Will soltou um suspiro ao meu lado.

— Eu odeio quando o carro para bem na frente.

Olhei para ele.

— Por quê?

— Porque todo mundo olha.

— Todo mundo está ocupado olhando para si mesmo.

— Não está.

Ele respondeu com a convicção de quem já passara tempo demais naquela escola para saber exatamente como as coisas funcionavam. O motorista abriu a porta, e eu desci primeiro. Will veio logo depois, ajeitando a mochila nos ombros enquanto olhava para a entrada como se estivesse prestes a atravessar uma fronteira hostil. Aquela imagem me incomodou mais do que eu esperava. Um menino de sete anos não deveria entrar em uma escola com aquela expressão.

— Quer que eu vá até a sala?

Ele me olhou rapidamente.

— Você prometeu.

— Então vamos.

Entramos juntos. A recepção era silenciosa e organizada, com funcionários atrás de um balcão de madeira escura e um painel discreto exibindo o nome da instituição. Tudo parecia caro demais para admitir falhas. Will cumprimentou algumas pessoas sem entusiasmo, e eu percebi que vários olhares se voltavam para mim, provavelmente tentando descobrir quem eu era. Não me importei.

Seguimos pelos corredores até a ala do ensino fundamental. Will caminhava cada vez mais devagar conforme nos aproximávamos da sala. Quando chegamos diante da porta, uma professora nos recebeu com um sorriso.

— Bom dia, William.

— Bom dia.

Ela olhou para mim.

— Sou Renesmee Miller. Estou acompanhando o Will hoje.

— Claro.

Will entrou, mas antes de seguir até a carteira se virou.

— Você vai ficar?

— Vou resolver algumas coisas primeiro e depois volto.

— Promete?

— Prometo.

Ele assentiu e entrou.

Esperei a professora fechar a porta antes de retornar ao corredor.

A recepcionista me indicou onde ficava a direção, e fui até lá tentando manter a irritação sob controle. Eu havia prometido a Will que resolveria aquilo da maneira certa. A maneira certa começava pelos adultos responsáveis.

O diretor me recebeu alguns minutos depois.

Era um homem na casa dos cinquenta anos, de terno impecável e expressão profissional. Levantou-se quando entrei e indicou a cadeira diante da mesa.

— Bom dia. Em que posso ajudá-la?

Sentei-me.

— Sou Renesmee Miller. Futura esposa de Jacob Black, pai de William Black.

A reação foi pequena, mas perceptível.

O homem endireitou a postura.

— Senhorita Miller.

— Sim.

— Eu não sabia que o senhor Black estava noivo.

— Ainda não houve anúncio público.

— Entendo.

Ele juntou as mãos sobre a mesa.

— A que devo a visita?

— William me contou esta manhã que está sendo intimidado por um aluno mais velho.

A expressão dele mudou imediatamente para uma neutralidade cuidadosamente treinada.

— Intimidado de que forma?

— Esse garoto pega as coisas dele, esconde a mochila, joga o material fora, fala sobre a mãe dele e ontem o empurrou.

O diretor permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— A escola possui políticas bastante rígidas contra bullying.

— Fico satisfeita em saber.

— Temos programas de prevenção, acompanhamento psicológico e protocolos específicos para situações desse tipo. Qualquer denúncia é tratada com seriedade.

— Então imagino que já tenham percebido o que está acontecendo com William.

Ele hesitou.

— Não posso discutir situações envolvendo outros alunos dessa maneira.

— Não estou pedindo informações pessoais de outra criança. Estou perguntando se a escola sabe que um aluno mais velho vem perseguindo Will.

— Como eu disse, medidas são tomadas sempre que existe uma situação confirmada.

— Talvez essas medidas não estejam fazendo efeito.

A expressão dele endureceu discretamente.

— Senhorita Miller, não acredito que seja apropriado avaliar os procedimentos da escola com base apenas no relato de uma criança.

Senti a irritação subir.

— O relato de uma criança é exatamente o que deveria importar quando essa criança diz que está com medo de vir para a escola.

— Não estou dizendo que não importa.

— Parece.

Ele recostou-se.

— William é um aluno de uma família muito conhecida. Existem circunstâncias específicas ao redor dele e, por isso, somos particularmente cuidadosos para não transformar conflitos comuns entre crianças em acusações graves.

— Um garoto maior empurrar uma criança de sete anos e usar a morte da mãe dela para humilhá-la é um conflito comum?

— Não foi isso que eu disse.

— Foi praticamente isso.

O diretor respirou fundo.

— Senhorita Miller, entendo sua preocupação, mas esse é um assunto que prefiro discutir diretamente com o pai de William.

Fiquei em silêncio.

Ele continuou.

— O senhor Black possui a autoridade legal sobre o aluno. Se desejar apresentar uma reclamação formal ou solicitar uma reunião, ficarei feliz em recebê-lo.

A maneira como falou foi suficiente para me irritar de verdade.

— Então enquanto ele não aparecer pessoalmente, o senhor considera aceitável ignorar o que estou dizendo?

— Não estou ignorando. Estou apenas seguindo os procedimentos.

— Seus procedimentos parecem bastante convenientes.

O homem apertou os lábios.

— Não acredito que esse tom seja necessário.

— Nem eu acreditava que seria necessário até descobrir que uma criança vem sofrendo bullying dentro de uma escola que cobra o suficiente para prometer excelência em tudo.

Levantei-me.

— Senhorita Miller...

— O senhor queria falar com Jacob Black. Imagino que terá essa oportunidade.

Saí da sala antes que minha irritação me fizesse dizer algo pior.

No corredor, parei por alguns segundos e respirei fundo. Minha primeira vontade foi voltar para a mansão, encontrar Jacob e contar tudo imediatamente. Depois lembrei da expressão de Will naquela manhã.

Eu tinha apenas a palavra dele.

E não porque não acreditasse.

Acreditava.

Mas queria ver.

Queria entender exatamente o que estava acontecendo antes que Jacob entrasse naquela escola com o peso do sobrenome dele e transformasse todos os adultos do prédio em pessoas extremamente cooperativas.

Perguntei a uma funcionária que horas começava o intervalo.

Faltava pouco mais de meia hora então aguardei.

Fiquei em uma área reservada próxima ao pátio, observando o movimento da escola. Professores entravam e saíam, funcionários circulavam pelos corredores e nada parecia fora do lugar. Era exatamente o tipo de ambiente onde seria fácil acreditar que problemas não aconteciam porque tudo parecia organizado demais.

Quando o sinal tocou, as crianças começaram a sair.

O pátio se encheu rapidamente, procurei Will entre os uniformes e demorei alguns minutos para encontrá-lo.

Ele caminhava sozinho e aquilo já me incomodou.

Outras crianças formavam grupos, corriam, conversavam, dividiam lanches. Will seguia pela lateral do pátio com a lancheira nas mãos, tentando claramente não chamar atenção.

Então vi o grupo de garotos muito maiores que Will. Três estavam próximos a uma área coberta, e um deles parecia ter pelo menos treze ou quatorze anos. Achei absurdo que estivesse circulando tão perto das crianças menores sem qualquer adulto perceber.

Will também o viu e parou, o menino mais velho sorriu.

Foi o tipo de sorriso que deixou tudo claro antes mesmo de qualquer coisa acontecer. Will tentou mudar de direção, mas o garoto se aproximou.

Vi quando colocou a mão no ombro dele e o empurrou.

Não foi forte o suficiente para derrubá-lo, mas foi deliberado. Depois pegou a lancheira das mãos de Will.

Meu corpo inteiro ficou tenso e caminhei na direção deles. — Devolve.

O garoto olhou para mim.

— O quê?

— A lancheira. Devolve para ele.

Os outros dois pararam de rir e o menino mais velho me analisou. — Quem é você?

— Alguém que acabou de ver você empurrar uma criança de sete anos.

Ele olhou ao redor. — A gente estava brincando.

— Não parecia.

— Ele sabe.

Will não respondeu.

Aproximei-me mais. — Devolve.

O garoto segurou a lancheira por alguns segundos, provavelmente tentando decidir se valia a pena me desafiar. — Eu só peguei.

— Então não deveria ser difícil devolver.

Ele finalmente estendeu a lancheira. Peguei antes que Will precisasse.

— Agora vai embora.

O menino estreitou os olhos.

— Você não manda em mim.

— Não. Mas posso chamar a direção e pedir que expliquem por que um adolescente está intimidando uma criança do segundo ano no pátio.

A expressão dele mudou. — Eu não fiz nada.

— Ótimo. Então não tem motivo para ficar preocupado.

Ele me encarou por mais um instante e depois se afastou com os outros dois.

Esperei até que estivessem longe e então me virei para Will. Ele estava parado exatamente no mesmo lugar.

A raiva que eu sentia desapareceu quando vi seu rosto. — Ei.

Abaixei-me diante dele. — Está tudo bem?

Will deu de ombros. — Ele sempre faz isso.

Aquilo me atingiu. — Há quanto tempo?

— Muito tempo.

— Por que não me disse que eram três?

— Porque ele é o pior.

Olhei para a direção onde os garotos tinham ido— Ele tem quatorze anos?

— Treze.

Aquilo não melhorava nada. — E ele sempre pega seu lanche?

— Às vezes.

— E ninguém vê?

Will olhou para os professores espalhados pelo pátio. — Eles não ficam olhando.

Senti a irritação voltar.

Entreguei a lancheira para ele.

— Vem.

Sentei com ele em um banco afastado.

Will abriu a lancheira, mas não comeu.

— Você entende agora?

Olhei para ele.

— Entendo o quê?

— Por que eu odeio essa escola.


Esperei Will na lanchonete da escola durante o restante da manhã, tentando ocupar o tempo sem olhar para o relógio a cada cinco minutos. Pedi outro suco, folheei algumas revistas que estavam sobre uma mesa próxima e observei o movimento pelos corredores através da parede de vidro, mas minha atenção continuava voltando para a mesma preocupação. A imagem dele sozinho no pátio, tentando evitar os garotos maiores, não saía da minha cabeça. Eu sabia que havia prometido resolver, e naquele momento a promessa parecia ainda maior do que quando eu a fizera no corredor da mansão. A escola inteira transmitia a sensação de segurança, organização e controle, mas eu já tinha visto o suficiente para desconfiar daquela aparência. Havia professores, funcionários, câmeras, regras e protocolos contra bullying, mas nenhuma dessas coisas impedira um garoto quase duas vezes maior que Will de empurrá-lo e pegar seu lanche diante de todos.

Quando o sinal finalmente tocou anunciando o fim das aulas, levantei-me imediatamente. Crianças começaram a surgir pelos corredores em grupos, algumas correndo para os responsáveis, outras seguindo até a área dos transportes. Fiquei próxima à saída da ala de Will, procurando o cabelo escuro dele entre os uniformes. Vi colegas que reconhecia da sala, depois mais alguns alunos, mas Will não apareceu.

Esperei.

Mais crianças saíram.

Nada.

A professora dele surgiu na porta da sala acompanhando dois alunos e conversando com uma mãe. Aguardei apenas o tempo necessário para que ela terminasse e me aproximei.

— Com licença. Onde está William?

Ela me olhou com surpresa.

— William?

— Sim. Ele ainda não saiu.

A professora franziu a testa e olhou para dentro da sala.

— Ele saiu há alguns minutos.

Meu estômago apertou.

— Saiu com quem?

— Achei que estivesse vindo encontrá-la.

— Não veio.

A mulher mudou de expressão.

— Talvez tenha ido ao banheiro.

— Ele sabia que eu estava esperando aqui.

Antes que ela respondesse, uma menina que permanecia próxima à porta, segurando a mochila contra o peito, olhou para nós.

— O Mason levou ele.

Virei-me imediatamente.

— Quem?

A garota apontou para o corredor.

— Mason Carter.

A professora se abaixou um pouco.

— O que quer dizer com levou, Emily?

A menina pareceu hesitar.

— Ele chamou o William e falou para ele ir com ele.

— Para onde? — perguntei.

Ela apontou para o lado oposto ao pátio principal.

— Pra lá. Pro pátio de trás.

Meu coração disparou e a professora se endireitou.

— Eu vou chamar a coordenação.

— Faça isso.

Nem esperei mais.

Atravessei o corredor rapidamente, seguindo a direção que a menina indicara. Passei por uma porta lateral, depois por outro bloco do prédio e cheguei a um segundo pátio que eu ainda não conhecia. Era menor e menos movimentado que o primeiro, cercado por árvores e uma área de bancos de pedra. Algumas crianças já tinham ido embora, e os poucos alunos que restavam estavam longe demais para chamar atenção.

Foi então que vi.

Debaixo de uma árvore, perto do muro lateral. O mesmo garoto que eu vira no intervalo.

Dessa vez não havia dúvida.

Mason segurava Will pela parte da frente do uniforme, empurrando-o contra o tronco da árvore. Will tentava afastar as mãos dele, mas era pequeno demais. O outro garoto tinha praticamente o dobro do tamanho.

Então Mason bateu nele.

Senti alguma coisa dentro de mim desaparecer.

— Ei!

Minha voz atravessou o pátio. Mason virou o rosto na minha direção, mas não soltou Will.

Acelerei os passos.

— Solte ele agora.

— Não se mete — o garoto respondeu.

Will me viu a expressão dele mudou imediatamente.

— Nessie...

Mason puxou Will novamente e ergueu a mão.

Vi o movimento antes que o golpe acontecesse.

Cheguei até eles no instante em que ele tentou acertar Will outra vez, segurei o pulso do garoto no ar.

Ele ficou surpreso. .— Me solta!

Apertei a mão dele com força suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio.

— Eu disse para não encostar nele.

Mason tentou puxar o braço.

— Me larga!

Girei o pulso dele para afastá-lo de Will e, com o movimento, o garoto perdeu completamente o equilíbrio. Caiu no chão, primeiro de joelhos e depois sentado, olhando para mim com uma mistura de susto e raiva.

Will ficou imóvel junto à árvore e me coloquei imediatamente entre os dois.

— Você está bem? — perguntei, sem tirar os olhos de Mason.

Will assentiu, mas havia lágrimas nos olhos.

Mason se levantou rápido.

— Você é maluca!

Virei-me para ele.

— Talvez. Mas você não vai tocar nele outra vez.

— Eu vou contar que você me bateu.

— Conte.

— Meu pai vai acabar com você.

— Excelente. Diga para ele falar comigo.

Mason pareceu não esperar aquela resposta.

— Você nem sabe quem é meu pai.

— E você claramente não sabe quem é o pai dele.

O garoto ficou pálido por um segundo e Will puxou discretamente a manga do meu blazer.

— Nessie.

Olhei para ele.

Havia um pequeno corte no canto da boca, minha raiva aumentou. Ajoelhei-me. — Ele fez isso agora?

Will passou a mão pela boca e olhou os dedos.

— Sim.

Respirei fundo. — Está doendo?

— Um pouco.

Toquei delicadamente o rosto dele. — Vamos cuidar disso.

Atrás de nós, ouvi passos apressados.

A professora apareceu primeiro, seguida por dois funcionários.

Quando viu Mason no chão e Will machucado junto à árvore, ficou completamente imóvel.

— Meu Deus.

Olhei para ela.

— Agora a senhora viu.

A frase saiu mais dura do que eu pretendia.

A professora se aproximou de Will. — William, você está bem?

Ele não respondeu, apenas se escondeu atrás de mim.

Mason apontou imediatamente. — Ela me jogou no chão!

A professora virou-se para mim. — Senhorita Miller...

— Ele estava batendo em uma criança de sete anos.

— Ela me machucou!

Olhei para o garoto.

— Seu pulso está inteiro. Seu orgulho talvez precise de alguns minutos.

A professora me lançou um olhar que provavelmente deveria ser uma advertência, mas não me importei.

Abaixei-me novamente diante de Will.

— Olhe para mim.

Ele obedeceu.

— Acabou.

— Ele vai voltar.

— Não.

— Vai, sim.

— Não enquanto eu estiver aqui.

Will respirou fundo.

— Eu falei que ele fazia isso.

Minha garganta apertou.

— Você falou.

— E ninguém acreditou.

— Eu acreditei.

Ele olhou para mim.

As lágrimas finalmente caíram, o puxei para meus braços.

Will me abraçou com força, escondendo o rosto contra meu ombro. Passei a mão pelos cabelos dele, sentindo toda a tensão do corpo pequeno desaparecer aos poucos.

— Está tudo bem — falei baixo. — Eu estou aqui.