A esposa do Don
14 Futura senhora Black ( parte 2)
Jacob
O jatinho pousou em Nova York pouco antes do horário previsto, e eu passei o trajeto do aeroporto até a mansão trabalhando. Não havia razão para transformar a viagem à Pensilvânia em um acontecimento maior do que fora. Coleman estava sob controle, Emma e os filhos estavam seguros e os advogados assumiriam dali em diante qualquer questão relacionada ao depoimento de Renesmee e às acusações feitas contra ela. Meu interesse precisava voltar para os problemas que já existiam antes de Renesmee Miller atravessar os portões da minha propriedade e, entre eles, havia um que começava a exigir atenção demais.
O carro parou diante da entrada principal, e Paul já estava esperando quando desci. Entreguei o paletó a um funcionário assim que atravessei a porta e continuei caminhando sem reduzir o passo.
— Segui todas as suas orientações, Don — Paul informou enquanto me acompanhava. — A equipe da Pensilvânia permanece no local, Coleman não saiu do galpão até recebermos confirmação de que o avião estava fora do estado e os advogados já receberam a documentação.
— E a amiga de Renesmee?
— Está aqui.
Parei e olhei para ele.
— Aqui na mansão?
— Sarah pediu que a trouxessem antes de encaminhá-la ao apartamento. Disse que seria melhor conversar com ela pessoalmente, principalmente por causa das crianças. Estão no jardim.
Assenti. Minha mãe provavelmente queria avaliar Emma antes de qualquer decisão sobre trabalho, moradia ou proximidade com Renesmee. Não me incomodava. Sarah tinha melhor percepção de pessoas do que muitos homens que eu pagava para investigá-las.
— As crianças estão com ela?
— Sim. Comeram, estão tranquilas e ninguém se aproximou delas desde que saíram da Pensilvânia. Dois homens permanecerão responsáveis pela segurança quando forem para o apartamento.
— Ótimo. Onde está Rachel?
Paul olhou para o relógio.
— Ainda não chegou.
Franzi a testa.
— Ela saiu daqui a que horas?
— Pouco depois das sete.
— Com Renesmee?
— Sim.
— E ainda não voltou?
Paul teve o bom senso de não sorrir.
— Acredito que foram fazer compras.
Retirei o telefone do bolso.
— Acredito que quatro horas sejam suficientes para comprar roupas.
— Eu não tenho opinião sobre esse assunto, Don.
Olhei para ele.
— Decisão inteligente.
Liguei para Rachel.
Ela atendeu depois do segundo toque, e ouvi movimentação ao fundo.
— Jacob.
— Já terminaram?
— Terminamos, sim.
— Ótimo. Chega de compras por hoje. Traga Renesmee para casa.
Rachel ficou em silêncio por um instante.
— Você sabe que poderia ter começado com “bom dia”, não sabe?
— São quase onze e meia.
— Ainda é manhã.
— Rachel.
— Já terminamos, eu disse. Estamos indo agora.
— Quanto tempo?
— Depende do trânsito e de quanto seu motorista está disposto a infringir as leis para satisfazer a impaciência do Don.
— Não estou impaciente.
— Naturalmente.
— Venha para a mansão.
— Estamos indo agora.
Ela desligou.
Olhei para a tela durante um segundo.
Paul continuava ao meu lado com uma expressão cuidadosamente neutra.
— Algum comentário?
— Nenhum.
Guardei o telefone.
— Ótimo.
Voltamos a caminhar, mas antes que eu pudesse seguir para o jardim, Paul mudou de assunto.
— Precisamos acertar a nova entrega e o pagamento que vai para Madri.
Aquilo bastou para devolver minha atenção aos negócios.
— O valor foi confirmado?
— Esta manhã. Eles querem a primeira parte antes de liberar a carga.
— Não.
Paul me acompanhou pelo corredor.
— Foi o que imaginei.
— Trinta por cento quando tivermos confirmação da saída. O restante depois que a carga estiver sob nosso controle. Não pago integralmente por mercadoria que ainda pertence a outro homem.
— Eles alegam que o risco aumentou depois do último ataque.
— O risco é meu a partir do momento em que a mercadoria entra nas nossas rotas. Antes disso, pertence a eles.
Embry apareceu no corredor vindo da direção do escritório. Havia trocado de roupa depois da viagem e carregava uma pasta fina nas mãos.
— Don.
— Alguma novidade?
— Sobre Madri, nenhuma além do que Paul já recebeu. Mas temos confirmação do evento de sábado.
Continuei caminhando.
— A festa do senador?
— Continua de pé.
Eu havia recebido o convite semanas antes e ainda não decidira se compareceria. O senador organizava aquele tipo de evento duas ou três vezes por ano, sempre sob algum pretexto beneficente suficientemente respeitável para reunir empresários, políticos e famílias que, em circunstâncias normais, preferiam fingir que não mantinham relações entre si.
— Quem confirmou presença?
Embry abriu a pasta enquanto caminhávamos.
— Praticamente todos os nomes esperados. Os Volturi enviam representação, os Hale estarão lá e os Cullen também.
Olhei para ele.
— Carlisle?
— Confirmado.
Isso tornava minha presença mais provável.
Carlisle Cullen raramente participava pessoalmente de eventos que não lhe oferecessem alguma vantagem concreta. Quando aparecia, havia negócio sendo construído ou encerrado.
— Interessante.
— Há mais — Embry acrescentou. — Parece que Carlisle finalmente entregou a neta ao filho do senador.
Parei no meio do corredor.
— Bree?
— Sim.
Retomei a caminhada.
— Então ele não perdeu tempo.
Paul abriu a porta do meu escritório, e entramos. Fui diretamente até a mesa enquanto Embry e Paul ocuparam as cadeiras diante dela.
— Oficial? — perguntei.
— Ainda não anunciaram noivado — Embry respondeu. — Mas ela chegará acompanhada dele e aparentemente Carlisle já conversou com o senador. Tudo indica que a intenção é tornar a aproximação pública durante a festa.
Sentei-me.
Bree havia ido à minha casa na noite anterior esperando que eu impedisse aquilo. Queria que eu assumisse publicamente um compromisso que nunca lhe prometera apenas porque Carlisle encontrara outro destino para ela. Aparentemente, meu não fora suficiente para que o velho Cullen seguisse adiante sem perder tempo.
— Deve haver alguma vantagem — Paul comentou.
— Evidentemente.
— Para Bree?
— Para Carlisle.
Embry apoiou a pasta sobre a mesa.
— Ainda é neta dele.
— Socialmente.
Os dois me olharam.
— Bree é filha adotiva de Emmett e Rosalie — expliquei. — É uma Cullen porque foi criada dentro da família e porque Carlisle decidiu lhe dar o sobrenome, mas não existe sangue Cullen nela.
Paul franziu a testa.
— E isso faz diferença para eles?
— Faz quando se trata de sucessão.
Recostei-me na cadeira.
A estrutura dos Cullen era antiga e, como a nossa, misturava empresas legítimas, patrimônio familiar e regras internas que não apareciam em qualquer documento público. Carlisle podia tratar Bree como neta, dar-lhe dinheiro, propriedades e posição social, mas havia limites para aquilo que uma adoção concedia dentro das regras privadas daquela família.
— A chamada legitimidade parental dos Cullen é uma regra interna de sucessão, não a legislação civil — continuei. — Carlisle pode deixar patrimônio pessoal para quem desejar por testamento, mas o controle de determinados ativos familiares, empresas e, principalmente, das rotas tradicionais não passa automaticamente para um descendente adotivo. Se Carlisle morrer sem alterar a estrutura atual, Bree não assume a posição que assumiria um descendente consanguíneo.
Embry assentiu lentamente.
— Então casá-la com o filho do senador garante influência política sem Carlisle entregar nada importante.
— Exatamente. Bree recebe um casamento conveniente, o senador recebe proximidade com os Cullen e Carlisle ganha acesso político através de uma mulher que não ameaça a linha principal de sucessão.
Paul me observou.
— Foi por isso que nunca firmou compromisso com ela?
A pergunta não me incomodou. Paul e Embry sabiam sobre Bree havia tempo suficiente para entender que a relação nunca ultrapassara os limites que eu estabelecera.
— Foi uma das razões.
— Qual era a outra?
— Bree seria um problema, não uma vantagem.
Embry soltou uma pequena risada.
— Imagino que ela ficaria satisfeita em ouvir essa avaliação.
— Ela já ouviu algo suficientemente próximo ontem.
Peguei a pasta que ele trouxera.
— Casar com Bree me colocaria numa posição absurda. Para os Cullen, ela é importante o bastante para que Carlisle use o casamento como aliança, mas não importante o bastante para me entregar aquilo que justificaria assumir o custo político dessa aliança. Eu receberia obrigações com os Cullen, interferência de Carlisle e uma esposa convencida de que o sobrenome Black finalmente lhe dera a posição que sempre quis. Em troca, nenhuma rota, nenhum direito sucessório e nenhuma participação real na estrutura Cullen.
Paul apoiou um braço na cadeira.
— Dito dessa forma, realmente parece um negócio ruim.
— Porque é.
— E Renesmee Miller? — Embry perguntou.
Meu olhar saiu da pasta e encontrou o dele.
Ele não precisava explicar a comparação.
Renesmee não tinha família exigindo participação, não trazia uma organização rival para dentro da minha casa e, segundo tudo que sabíamos até aquele momento, não representava qualquer compromisso político. Era exatamente o oposto de Bree.
Ou deveria ser.
Por um instante, lembrei-me da fotografia do arquivo de Saint Agnes e da sensação incômoda de reconhecer alguma coisa no rosto daquela criança.
Afastei o pensamento.
— Renesmee não faz parte desta conversa.
Embry compreendeu o aviso.
— Certo.
Abri a pasta.
— Voltemos ao que realmente importa. O ataque.
Paul inclinou-se para a frente.
— Recebemos outra informação enquanto o senhor estava em Allentown. O caminhão interceptado não foi escolhido aleatoriamente.
— Eu já presumia isso.
— Agora temos certeza. Eles sabiam qual veículo carregava a mercadoria de maior valor.
Passei os olhos pelos documentos.
— Quantas pessoas tinham acesso ao manifesto?
— Oficialmente, sete.
— Oficialmente não me interessa. Quantas poderiam conseguir a informação?
Paul olhou para Embry.
— Talvez quinze.
— Quero nomes.
— Já estamos levantando.
— E a rota?
Embry colocou outro documento diante de mim.
— Foi alterada seis horas antes da saída. O trajeto original passaria por Newark, mas houve mudança para evitar uma fiscalização inesperada. A emboscada aconteceu na rota nova.
Levantei os olhos.
— Seis horas.
— Sim.
— Então não estão apenas acompanhando nossos caminhões.
— Não.
Paul completou:
— Alguém recebeu a alteração.
Aquilo mudava o problema.
Até então, havia possibilidade de observação externa. Homens posicionados nos pontos certos podiam identificar veículos, acompanhar movimentações e escolher um alvo. Saber qual caminhão transportava a carga mais valiosa já tornava essa hipótese menos provável. Saber uma rota modificada poucas horas antes praticamente a eliminava.
— Quem autorizou a mudança?
— Quil — Embry respondeu. — Depois passou para o coordenador da operação.
— Quil não é o vazamento.
Nenhum dos dois contestou.
Eu confiava em Quil porque ele já tivera oportunidades suficientes para me trair por valores muito maiores e não fizera. Confiança no meu mundo não era construída sobre amizade. Era construída sobre oportunidades de traição recusadas.
— O coordenador?
— Está sendo investigado.
— Família, dívidas, amantes, vícios, movimentação bancária. Quero tudo.
— Já comecei — Paul respondeu.
Passei para a fotografia do caminhão atacado. A lateral estava destruída e havia marcas de tiros próximas à cabine.
Dois homens meus tinham sido emboscados naquela operação. Um ainda estava hospitalizado. A carga desaparecera em menos de quinze minutos.
Aquilo não era roubo oportunista.
— Eles conheciam o horário, a carga e uma mudança de rota feita seis horas antes — falei. — Isso exige informação interna.
Embry concordou.
— É o que pensamos.
— E o homem de Red Hook?
— Continua sem entregar o nome de quem pagou.
— Então parem de perguntar a mesma coisa.
Paul franziu a testa.
— Quer que mudemos a abordagem?
— Quero que descubram por que ele prefere proteger quem o contratou a colaborar conosco. Se for dinheiro, encontrem onde está. Se for família, descubram quem. Se for medo, descubram de quem ele tem mais medo do que de nós.
Embry assentiu.
— Vou cuidar disso.
Fechei a pasta.
— Há quanto tempo começaram os ataques?
— O primeiro incidente menor foi há pouco mais de um mês — Paul respondeu. — Na época pareceu coincidência. Depois tivemos a carga perdida, dois pontos de distribuição observados e agora a emboscada.
— Estão testando a estrutura.
— Parece.
— Não. Estão.
Levantei-me e caminhei até a janela do escritório. Do lado de fora, parte do jardim era visível. Reconheci minha mãe sentada a uma das mesas e, diante dela, uma mulher que imaginei ser Emma. Duas crianças brincavam alguns metros adiante sob a observação discreta dos seguranças.
Aquela parte da promessa que fizera a Renesmee estava cumprida.
O restante da minha vida, entretanto, continuava exatamente tão complicado quanto na noite anterior.
— Quem está fazendo isso não quer apenas mercadoria — falei, ainda olhando pela janela. — Se quisesse dinheiro, teria escolhido alvos mais fáceis. Está atingindo rotas específicas, observando nossos pontos e comprando informação dentro da estrutura. Quer descobrir quanto tempo levamos para reagir, quem muda os trajetos, quem recebe ordens e onde estão nossas vulnerabilidades.
Paul permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Está tentando chegar ao senhor.
Virei-me.
— Finalmente estamos fazendo a pergunta certa.
Embry cruzou os braços.
— Algum nome?
— Muitos. Provas, nenhuma.
Voltei à mesa.
— Até termos, ninguém fora desta sala sabe que confirmamos um vazamento interno. Mantenham as operações normais e preparem três informações diferentes sobre a próxima entrega. Rotas distintas, horários distintos. Cada grupo recebe uma versão.
Paul compreendeu imediatamente.
— E esperamos para ver qual vaza.
— Exatamente.
— Se atacarem uma delas, saberemos de onde saiu a informação.
— Saberemos onde começar.
Embry pegou a pasta.
— E a festa do senador?
— Confirme minha presença.
Paul ergueu as sobrancelhas.
— Vai mesmo?
— Se Carlisle Cullen resolveu aparecer pessoalmente em Nova York justamente quando alguém está testando minhas rotas, quero olhar para ele enquanto conversamos.
— Acha que os Cullen estão envolvidos?
— Acho que suspeitas são gratuitas. Acusações custam caro. Não confundam as duas coisas.
Meu telefone vibrou sobre a mesa.
Olhei para a tela.
Rachel.
Uma única mensagem.
Estamos chegando.
Guardei o aparelho sem responder.
Dentro de poucos minutos, Renesmee Miller atravessaria aquela porta para começar oficialmente sua vida sob meu teto. Em alguns dias, eu provavelmente estaria diante de Carlisle Cullen enquanto sua neta adotiva era apresentada como futura esposa do filho de um senador. Ao mesmo tempo, alguém dentro da minha própria estrutura vendia informações suficientes para colocar meus homens numa emboscada.
Problemas diferentes, aparentemente sem qualquer relação entre si.
Por enquanto, eu pretendia mantê-los assim.
A batida discreta na porta interrompeu a conversa antes que Embry pudesse responder à última instrução. Uma das funcionárias entrou somente depois da minha autorização e permaneceu próxima à entrada.
— Senhor Black, a senhora Lahote acaba de chegar com a senhorita Miller.
Olhei para o relógio. Onze e quarenta e sete.
Rachel conseguira, por algum milagre, retornar antes do meio-dia.
— Obrigado.
A funcionária saiu, e fechei a pasta que estava sobre a mesa.
— Por enquanto é suficiente. Paul, quero as três rotas falsas preparadas antes do fim do dia. Nenhuma delas será compartilhada entre as equipes. Cada grupo acredita que recebeu a informação definitiva.
— Entendido.
— Embry, cuide pessoalmente do coordenador da última entrega. Não quero que ele perceba que está sendo investigado. Se houver dinheiro entrando por fora, descubra a origem antes de abordá-lo.
Embry assentiu.
— E sobre o homem em Red Hook?
— Continue. Sem pressa. Se alguém está pagando para que ele permaneça calado, eventualmente descobriremos onde o dinheiro foi colocado ou quem ele está tentando proteger.
Levantei-me, peguei o paletó que havia deixado sobre uma das poltronas e o vesti enquanto contornava a mesa. Paul abriu a porta, e saímos os três para o corredor.
— Até descobrirmos de onde está saindo a informação, reduzam o número de pessoas com acesso às rotas — continuei enquanto caminhávamos. — Nenhuma alteração passa por telefone particular e ninguém recebe a localização completa antes de precisar dela. Quero também os registros de acesso dos últimos trinta dias.
— Vou providenciar — Paul respondeu.
— E confirme minha presença na festa do senador.
Embry me olhou.
— Com acompanhante?
Não respondi imediatamente.
Em poucos dias Renesmee seria publicamente minha noiva. A apresentação formal precisaria acontecer em algum momento e, considerando a quantidade de pessoas que estariam naquela festa, seria uma oportunidade eficiente. Entretanto, levá-la diretamente para uma sala cheia de políticos, empresários e famílias que sabiam exatamente quem eu era exigiria preparação.
— Ainda não.
— Carlisle vai perceber se aparecer sozinho depois de Bree descobrir que pretende se casar — Embry observou.
— Carlisle percebe muitas coisas. Não significa que precise receber respostas para todas.
Continuamos pelo corredor.
— E Bree provavelmente estará lá com o filho do senador — Paul acrescentou.
— Problema dela.
— Vai ser uma noite interessante.
Olhei para ele.
— Espero que tenha trabalho suficiente para não precisar se divertir com a minha vida pessoal.
Paul sorriu discretamente.
— Sempre tenho, Don.
Quando entramos na sala principal, encontrei Rachel em pé no centro do ambiente falando com dois funcionários. A primeira coisa que percebi não foi minha irmã.
Foram as sacolas.
Havia caixas sobre uma das mesas, sacolas apoiadas perto do sofá e mais coisas entrando pela porta atrás de nós nas mãos do motorista e de outro segurança.
Parei.
Rachel olhou para mim.
— Antes que diga qualquer coisa, você mandou providenciar tudo.
Passei os olhos pelo que estava espalhado na sala.
— Pedi roupas.
— Isso é roupa.
Paul olhou ao redor.
— Parece que compraram o shopping inteiro.
Rachel apontou para ele.
— Ninguém pediu sua opinião.
— Não foi opinião. Foi constatação.
Embry soltou uma risada baixa.
Rachel ignorou os dois e fez um gesto para os funcionários.
— Levem tudo para o quarto da senhorita Miller. As caixas menores também. Os vestidos que serão entregues mais tarde vão direto para o closet, não deixem dobrados porque alguns amassam facilmente.
Observei dois funcionários recolherem parte das compras.
— Quanto você gastou?
Rachel virou-se para mim.
— Você realmente quer saber?
— Não.
— Então nossa relação continua saudável.
— Eu lhe dei um cartão para Renesmee, não autorização para financiar uma pequena economia.
— O cartão está com ela. Foi ela quem pagou.
— Sob sua influência.
— Você está reclamando porque sua futura esposa usou o cartão que mandou entregar?
— Estou avaliando o tamanho da sua influência.
— Minha influência é excelente.
Balancei a cabeça.
— Onde está Renesmee?
— No jardim.
Meu olhar foi automaticamente em direção às portas que davam acesso à parte externa.
— Com minha mãe?
— Com Sarah e Emma. Assim que chegamos, disseram a Renesmee que a amiga estava aqui. Ela praticamente esqueceu que eu existia e foi correndo encontrá-la.
Aquilo explicava por que Rachel estava sozinha.
— Emma contou a ela o que aconteceu?
— Não fiquei para ouvir. Imaginei que fosse algo particular.
Assenti.
— As crianças?
— No jardim também. Mamãe já deu comida para todo mundo, fez perguntas suficientes para assustar uma testemunha e provavelmente decidiu o futuro profissional de Emma sem informar ninguém.
— Então tudo está normal.
Rachel sorriu.
— Exatamente.
Deixei que ela cuidasse das compras e segui para o jardim. Paul e Embry vieram comigo durante parte do caminho, ainda recebendo minhas últimas orientações enquanto atravessávamos o corredor que levava às portas externas.
— Paul, verifique pessoalmente a segurança do apartamento onde Emma ficará. Se Coleman tiver qualquer contato em Nova York, quero saber antes que ele descubra onde ela está.
— Já deixei dois homens responsáveis.
— Quatro durante a primeira semana.
— Certo.
Olhei para Embry.
— E não esqueça Saint Agnes.
— Não vou esquecer.
— Quando irmã Margaret retornar, quero saber no mesmo dia.
Ele assentiu.
— Vou pessoalmente.
Parei diante das portas abertas para o jardim.
— Ótimo. Podem ir.
Os dois se afastaram, e continuei sozinho.
Ouvi as vozes antes de enxergar todos. Minha mãe estava sentada próxima a uma das mesas externas, conversando com uma mulher que reconheci pelas fotografias do relatório como Emma. As crianças brincavam mais adiante, sob a observação de um segurança que mantinha distância suficiente para não parecer parte da conversa.
Então vi Renesmee.
E parei por um instante.
A mulher que estava alguns metros à minha frente não se parecia com a jovem que eu deixara diante de um prédio no Bronx na noite anterior. Ou, mais precisamente, era exatamente a mesma mulher, mas apresentada de uma forma que eu ainda não tinha visto.
Seus cabelos continuavam longos, caindo muito abaixo dos ombros, porém estavam mais alinhados, brilhantes e moldavam seu rosto em ondas suaves. Rachel tivera inteligência suficiente para não permitir que alguém mudasse o que não precisava ser mudado.
A roupa, entretanto, era impossível ignorar.
Renesmee vestia vinho.
O blazer de alfaiataria era comprido e estruturado, ajustando-se à cintura antes de terminar pouco abaixo dos quadris. Por baixo dele, havia um top do mesmo tom, de corte elegante, deixando uma pequena faixa de pele à mostra. A saia curta e pregueada acompanhava o conjunto, marcada na cintura por um cinto preto de fivela dourada. Os saltos escuros alongavam ainda mais suas pernas, e os acessórios eram discretos o suficiente para não disputar atenção com ela.
Rachel havia acertado.
Não a transformara em uma mulher mais velha nem tentara fazê-la parecer alguém pertencente àquele mundo desde o nascimento. Renesmee continuava tendo vinte anos. Continuava jovem, mas já não havia nela a aparência da garota que chegara à minha casa carregando praticamente tudo que possuía dentro de uma única bolsa.
A diferença me incomodou por uma razão que não identifiquei imediatamente.
Talvez porque, pela primeira vez, fosse possível visualizar com facilidade demais a imagem que eu havia construído apenas como uma solução racional.
Minha esposa.
Não uma cláusula.
Não um nome num contrato.
Uma mulher caminhando ao meu lado.
Minha mãe foi a primeira a perceber minha aproximação. Seus olhos encontraram os meus e, pelo sorriso discreto que apareceu em seu rosto, percebeu exatamente onde minha atenção estava.
Renesmee ainda não havia me visto.
Estava diante de Emma, segurando as duas mãos da amiga enquanto conversavam. Não consegui ouvir tudo, apenas o suficiente para perceber que Emma tentava tranquilizá-la. Renesmee disse alguma coisa, e a amiga respondeu balançando a cabeça. Uma das crianças correu até elas, abraçou a perna de Renesmee e recebeu imediatamente um carinho nos cabelos.
A tensão que Renesmee carregara no meu escritório na noite anterior havia desaparecido.
Pelo menos por alguns minutos.
Aproximei-me.
— Renesmee.
Ela reconheceu minha voz e virou-se.
Se eu havia percebido a diferença nela, Renesmee também pareceu precisar de um instante para reagir à minha presença. Seus olhos encontraram os meus e depois passaram rapidamente pelo meu rosto, como se estivesse tentando decidir o que dizer.
— Senhor Black.
A formalidade me divertiu.
Depois de negociar fidelidade, sexo, filhos e proteção comigo na noite anterior, continuava me chamando de senhor Black.
Parei diante dela.
De perto, a mudança era ainda mais evidente. O cabelo havia recebido apenas um corte discreto nas pontas, e não havia maquiagem suficiente para alterar suas feições. Rachel realmente cumprira a única instrução que eu considerava importante: preparar Renesmee para a posição que ocuparia sem tentar fabricar outra mulher.
Passei os olhos pelo conjunto vinho antes de voltar ao rosto dela.
— Está diferente.
Renesmee tocou os cabelos instintivamente.
— Isso foi um elogio?
— Ainda estou decidindo.
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