A esposa do Don
13 Futura senhora Black ( parte 1)
Despedi-me da senhora Alvarez poucos minutos antes das sete, com a mesma bolsa que eu carregava quando chegara a Nova York apoiada ao lado dos meus pés e uma sensação estranha de que estava deixando aquele quarto muito mais depressa do que deveria. Quando aluguei o lugar, paguei uma semana inteira porque precisava acreditar que sete dias seriam suficientes para encontrar algum emprego, organizar minha vida e decidir o que faria depois. Não imaginei que sairia dali antes do fim da semana porque um homem praticamente desconhecido havia me proposto casamento, muito menos que aquela proposta acabaria se tornando a única alternativa capaz de proteger Emma e as crianças de Coleman.
A senhora Alvarez estava diante de mim no corredor, usando um robe florido sobre a camisola e segurando uma caneca que provavelmente continha o primeiro café do dia. Ela olhou para minha bolsa e depois para mim com uma expressão que misturava satisfação e preocupação.
— Então conseguiu mesmo o emprego?
— Consegui. — Sorri, embora a palavra emprego tivesse adquirido um significado bastante questionável nas últimas quarenta e oito horas. — É um trabalho em que vou morar na casa da família, então preciso me mudar hoje.
Não era exatamente mentira. Eu apenas estava omitindo a pequena particularidade de que o trabalho consistia em me casar com o pai das crianças e, eventualmente, ter um filho com ele. Não havia necessidade alguma de explicar aquilo às sete da manhã no corredor de uma pensão no Bronx.
— Tão depressa?
— Eles precisavam de alguém imediatamente.
Ela me examinou por alguns segundos, como se tentasse decidir se acreditava completamente em mim.
— É uma família boa?
A pergunta me pegou desprevenida.
Pensei em Sarah, em William, na breve visão que tivera de Claire, em Bree sendo praticamente expulsa da casa e, inevitavelmente, em Jacob Black sentado atrás de uma mesa enquanto me explicava com absoluta naturalidade que esperava que eu me tornasse sua esposa e lhe desse um filho.
— Ainda estou descobrindo.
A senhora Alvarez estreitou os olhos.
— Essa não é a resposta que uma velha gosta de ouvir.
Sorri.
— Eles me trataram bem.
— Isso é melhor.
Ela colocou a caneca sobre uma pequena mesa encostada na parede e segurou minhas mãos.
— Escute uma coisa, menina. Nova York é bonita quando quer e cruel quando pode. Tem muita gente boa nesta cidade, mas também tem gente que olha para uma moça jovem sozinha e enxerga oportunidade. Não confie em alguém apenas porque tem dinheiro, veste roupa cara ou fala bonito. Dinheiro compra terno, não caráter.
Se ela soubesse.
— Vou me lembrar disso.
— E não deixe ninguém fazer você acreditar que precisa aceitar qualquer coisa só porque está precisando de trabalho. Uma porta fechada não significa que você tem que entrar pela janela de qualquer casa.
Minha consciência imediatamente apresentou a imagem do contrato guardado dentro da bolsa.
Talvez eu devesse ter contado à senhora Alvarez que, tecnicamente, eu não entrara pela janela. Estava prestes a entrar pela porta principal de uma mansão e receber o sobrenome do proprietário.
— Eu prometo tomar cuidado.
Ela apertou minhas mãos.
— Você é uma boa moça, Renesmee. Percebi desde a primeira noite. Estava assustada, tentou esconder e não me deu trabalho algum. Gente que está planejando coisa ruim não fica preocupada em devolver moedas de telefone para uma velha.
— A senhora não é velha.
— Agora sei que também é mentirosa.
Eu ri.
Ela sorriu e então me abraçou. Demorei um instante para reagir, surpresa pelo gesto, mas acabei retribuindo. Fazia pouco tempo que a conhecia, porém aquela mulher havia me dado um quarto sem fazer perguntas demais, permitira que eu usasse seu telefone e respeitara meus silêncios quando teria sido muito fácil tratá-los como motivo de suspeita.
— Obrigada por tudo, senhora Alvarez.
— Volte para me visitar.
— Eu volto.
— Não diga isso apenas porque está indo embora.
— Não estou dizendo. Prometo visitar a senhora.
Ela me soltou e apontou para mim.
— E coma direito.
— Sim, senhora.
— E cuidado com homens bonitos.
Quase engasguei.
— Por que especificamente com os bonitos?
— Porque os feios você enxerga chegando.
Ri novamente, peguei minha bolsa e comecei a descer as escadas antes que ela encontrasse mais alguma categoria de homem sobre a qual precisasse me alertar. Ainda ouvi sua voz desejando boa sorte quando alcancei o primeiro andar.
Assim que saí do prédio, parei e observei o carro preto que estava estacionado exatamente diante da entrada.
Não um carro qualquer. Era o mesmo tipo de veículo que me levara de volta na noite anterior, grande, escuro e caro o suficiente para parecer completamente deslocado naquela rua. Havia outro parado alguns metros atrás e, antes que eu pudesse decidir se ambos estavam ali por minha causa, reconheci Paul aproximando-se.
— Bom dia, senhorita Miller.
— Bom dia.
Ele olhou para a bolsa em minha mão.
— É só isso?
— É.
Paul pareceu esperar por mais alguma coisa.
— Toda a sua mudança?
Olhei para minha bolsa.
— Minha vida cabe aqui dentro, senhor... Paul.
Ele não fez comentário algum. Apenas estendeu a mão.
— Permita.
— Eu consigo carregar.
— Não duvido.
— Então por que está pegando?
— Porque se eu deixar a futura senhora Black carregar a própria bagagem enquanto estou parado ao lado, provavelmente ouvirei reclamações de três mulheres diferentes antes das oito da manhã.
Entreguei a bolsa.
— Três?
— Sarah, Rachel e Rebecca. Talvez quatro, dependendo de quem estiver na casa.
— O senhor Black não reclamaria?
Paul me olhou.
— Ele não reclamaria. Perguntaria por que aconteceu.
Não compreendi exatamente a diferença, mas o modo como Paul falou deixou claro que, para ele, existia uma muito grande.
O motorista já estava ao lado do carro e abriu a porta traseira. Agradeci, inclinei-me para entrar e quase recuei no mesmo instante.
Havia uma mulher lá dentro.
Ela estava sentada confortavelmente no banco do outro lado, segurando um copo de café e olhando para mim com evidente curiosidade. Era bonita, elegante sem parecer ter feito esforço para isso, e seu sorriso surgiu antes que eu tivesse tempo de perguntar qualquer coisa.
— Finalmente.
Fiquei parada.
— Desculpe?
— Entre, Renesmee. Prometo que não mordo.
Atrás de mim, ouvi Paul fechar o porta-malas.
Não havia opção muito digna além de entrar.
Sentei-me e o motorista fechou a porta. A mulher continuou me observando por alguns segundos antes de estender a mão.
— Rachel Lahote.
Apertei sua mão.
— Renesmee Miller.
Ela riu.
— Eu sei.
— Certo.
— Sou irmã do Jacob.
Aquilo explicou sua presença, embora não explicasse por que a irmã de Jacob Black estava dentro de um carro no Bronx às sete da manhã esperando por mim.
— Prazer em conhecê-la.
— Muito formal.
— Desculpe.
— E não peça desculpas por ser formal. Só estou avisando que comigo não precisa disso. Já temos gente formal demais naquela família e meu irmão ocupa a cota de umas cinco pessoas sozinho.
O carro começou a andar.
Rachel tomou um gole do café e voltou a me olhar.
— Então você é minha cunhada.
Engasguei com a própria respiração.
— Eu ainda não sou...
— Futura cunhada.
— Isso também parece estranho.
— Vai se acostumar.
— Não tenho tanta certeza.
— Tem três anos de contrato para tentar.
Virei o rosto imediatamente para ela.
Rachel sorriu.
— Sim, eu sei do contrato.
— Seu irmão contou?
— Minha mãe contou o suficiente para eu entender por que fui acordada com uma ligação do Jacob me informando que a futura senhora Black entraria na mansão hoje e que eu deveria providenciar tudo.
Fechei os olhos por um segundo.
— Ele realmente disse “futura senhora Black”?
— Exatamente assim. Com aquela voz de quem está informando a aquisição de uma empresa.
Não consegui impedir um pequeno sorriso.
Era uma descrição bastante precisa.
— Isso parece com ele.
— Você o conhece há dois dias e já percebeu. Está indo muito bem.
Rachel tinha uma facilidade desconcertante para conversar. Sarah era gentil, mas havia nela uma elegância que me fazia lembrar constantemente de onde eu estava. Jacob fazia qualquer ambiente parecer uma reunião em que eu precisava prestar atenção para não assinar acidentalmente a transferência da minha alma. Rachel, por outro lado, estava sentada ao meu lado tomando café e me chamando de cunhada como se aquele casamento fosse uma situação perfeitamente normal.
— Seu irmão está na mansão? — perguntei.
— Não. Chega por volta do meio-dia.
Pensei na noite anterior.
Jacob havia me deixado no Bronx depois das dez. Não me dissera que sairia de Nova York.
— Ele viajou?
Rachel me lançou um olhar curioso.
— Você não sabia?
— Não.
— Então não sou eu quem vai contar. Uma das primeiras coisas que aprendi sendo irmã do Jacob é que informações que ele decidiu não compartilhar pertencem exclusivamente ao problema dele.
— Isso parece uma regra muito específica.
— Foi desenvolvida depois de muitos anos de experiência.
Olhei pela janela.
Eu ainda pensava em Emma. Acordara duas vezes durante a madrugada e verificara o telefone que a senhora Alvarez me emprestara, embora soubesse que ninguém tinha aquele número além de Emma. Jacob prometera começar a cumprir minha terceira condição naquela mesma noite, mas eu não sabia o que isso significava na prática. Não tivera notícias dela desde a ligação de Coleman.
Talvez Jacob tivesse viajado por causa disso.
A ideia pareceu absurda. Um homem como ele não precisaria sair pessoalmente de Nova York para resolver meu problema. Bastava fazer uma ligação e enviar alguém.
Pelo menos era o que eu imaginava.
— Você está preocupada — Rachel comentou.
— Só tenho algumas coisas na cabeça.
— Imagino. Ontem você morava num quarto no Bronx e hoje está indo morar com meu irmão. Eu teria umas cinquenta coisas na cabeça.
— Cinquenta é uma estimativa baixa.
Ela riu.
— Gosto de você.
— Nós nos conhecemos há cinco minutos.
— Will decidiu que gostava de você depois de uma queda de braço. Minha família aparentemente está acelerando relações esta semana.
Balancei a cabeça, mas sorri.
— Ele contou?
— Will contou para todo mundo, menos para quem pediu que ele não contasse.
— Ele me pediu para não contar ao pai.
— Exatamente. Portanto, Sarah soube, eu soube, Rebecca soube e provavelmente metade da casa soube. Jacob também soube porque Sarah contou. Na cabeça do Will, entretanto, o segredo continua intacto.
Aquilo me fez rir de verdade.
— Eu não vou estragar.
— Excelente. Já está aprendendo a sobreviver à família.
Rachel colocou o copo vazio no suporte e ajeitou-se no banco.
— Agora precisamos conversar sobre nosso cronograma.
Franzi a testa.
— Cronograma?
— Jacob chega ao meio-dia, então temos algumas horas.
— Algumas horas para quê?
O sorriso dela me deixou imediatamente desconfiada.
— Para o seu primeiro dia como futura senhora Black.
— Isso não respondeu à pergunta.
— Respondeu perfeitamente.
— Não para mim.
— Você vai entender.
Observei-a.
— Rachel, eu tenho uma bolsa de roupas, provavelmente preciso conhecer o quarto onde vou ficar, preciso entender a rotina das crianças e ainda tenho que conversar com seu irmão sobre algumas alterações no contrato.
— Tudo isso pode esperar algumas horas.
— Por quê?
— Porque você ainda não conheceu as vantagens.
— Vantagens de quê?
— De se casar com um homem obscenamente rico e controlador.
Meus olhos se arregalaram.
Rachel abriu a bolsa que estava ao seu lado.
— Não faça essa expressão. Ele é meu irmão. Tenho autorização genética para dizer a verdade.
Ela procurou alguma coisa lá dentro e retirou um pequeno envelope preto. Depois abriu e puxou um cartão.
Meu olhar parou nele.
Era preto.
Completamente preto, exceto por detalhes discretos e um nome impresso.
O meu.
Renesmee Miller.
Olhei para Rachel.
— O que é isso?
— Parece um cartão de biblioteca?
— Eu sei que é um cartão de crédito.
— Ótimo. Estava preocupada que as freiras não tivessem ensinado finanças básicas.
— Rachel.
Ela riu e colocou o cartão na minha mão.
— O Don Black, seu futuro marido, mandou entregar isso a você.
Fiquei olhando para o objeto.
— Por quê?
— Porque você vai precisar.
— Para quê?
— Roupas, sapatos, coisas pessoais, o que quiser.
Tentei devolver.
— Eu não preciso disso.
Rachel não pegou.
— Precisa.
— Tenho dinheiro.
— Quanto?
Fechei a boca.
— Foi o que pensei.
— Isso é constrangedor.
— Não deveria ser. Você chegou a Nova York há poucos dias, estava procurando emprego e agora vai entrar numa casa onde provavelmente uma única garrafa de vinho custa mais do que o aluguel daquele quarto. Ninguém espera que tenha aparecido magicamente com um guarda-roupa adequado para a vida que meu irmão está colocando no seu colo.
Olhei novamente para meu nome no cartão.
— Qual é o limite?
Rachel ficou em silêncio.
Levantei os olhos.
Ela estava sorrindo.
— Rachel.
— O quê?
— Qual é o limite?
— Essa é uma pergunta que pessoas com esse cartão geralmente não fazem.
— Eu estou perguntando.
— E eu estou tentando preservar a inocência da minha futura cunhada.
— Qual é o limite?
Ela soltou uma risada.
— Digamos apenas que você não vai conseguir estourá-lo comprando roupas.
— Isso não é uma resposta.
— É a única que você vai receber de mim.
Olhei para o cartão outra vez, sentindo um desconforto que Rachel aparentemente percebeu.
— Não gosto da ideia de gastar o dinheiro dele antes mesmo de assinar o contrato.
— Então pense de outra forma. Ele está exigindo que você assuma uma posição que vem acompanhada de determinada imagem pública. Isso faz parte do acordo tanto quanto morar na mansão e comparecer aos eventos. Se Jacob quer uma senhora Black, é responsabilidade dele fornecer tudo que considera necessário para essa posição.
— Ainda parece que estou sendo comprada.
O sorriso de Rachel diminuiu.
— Então não compre nada que faça você se sentir assim.
Ergui os olhos.
Ela continuou com uma naturalidade que me tranquilizou mais do que eu esperava.
— O cartão não significa que meu irmão comprou você. Significa que ele colocou recursos à sua disposição. Existe diferença, e se em algum momento ele esquecer, você pode lembrá-lo. Pelo pouco que minha mãe me contou, parece que não terá dificuldade.
Sorri discretamente.
— Já discutimos algumas vezes.
— Em dois dias?
— Algumas.
— Definitivamente gosto de você.
Guardei o cartão no envelope, ainda sem saber exatamente o que faria com ele.
— Então vamos para a mansão?
Rachel fez uma expressão quase ofendida.
— Agora?
— Era o que eu imaginava.
— Renesmee, são pouco mais de sete da manhã. Meu irmão só chega ao meio-dia, Will está na escola, Claire está de castigo e minha mãe provavelmente já reorganizou seu quarto três vezes desde que acordou. Nós temos quase cinco horas sem Jacob Black supervisionando nada.
— E isso significa?
O sorriso animado voltou ao rosto dela.
— Significa que vamos fazer compras.
— Rachel...
— Não comece.
— Eu não preciso de...
— Cunhada.
Parei.
Ela apontou para o envelope preto em minhas mãos.
— Você tem cinco horas, um cartão sem um limite que precise conhecer e a autorização expressa do homem mais controlador de Nova York para gastar o dinheiro dele. Seria uma profunda falta de educação desperdiçar uma oportunidade dessas.
Eu ri, apesar de toda a preocupação que ainda carregava desde a noite anterior.
Talvez fosse nervosismo. Talvez fosse a maneira absurda como minha vida mudara em menos de uma semana. Ou talvez Rachel Lahote simplesmente tivesse o estranho talento de fazer um casamento por contrato com um homem assustador parecer, durante alguns minutos, a coisa mais normal do mundo.
Olhei novamente para o cartão preto com meu nome.
Na noite anterior, eu ainda contava as notas que restavam dentro da minha bolsa para descobrir quantos dias conseguiria permanecer naquele quarto.
Naquela manhã, a irmã de Jacob Black estava ao meu lado planejando me levar às compras com um cartão cujo limite aparentemente não deveria ser perguntado.
Eu tinha a impressão de que ainda não compreendia nem metade da vida na qual estava prestes a entrar.
O cartão preto continuava dentro do envelope em minhas mãos quando o carro parou diante de um salão em Manhattan, e levei alguns segundos para perceber que aquele era o primeiro destino. Eu esperava uma loja de roupas depois de toda a empolgação de Rachel, mas ela simplesmente guardou o telefone na bolsa, abriu a porta assim que o motorista se aproximou e desceu como se já soubesse exatamente o que faria comigo durante aquelas horas. Olhei pela janela para a fachada discreta e elegante antes de sair também. Não havia clientes entrando, nenhuma movimentação além de dois funcionários que aguardavam do lado de dentro e, quando atravessei a porta atrás de Rachel, percebi que o lugar estava praticamente vazio.
— Ainda não abriu? — perguntei, olhando ao redor.
Rachel tirou os óculos escuros.
— Abriu para nós.
Parei.
— Como assim?
— Como eu disse. Abriu para nós.
— Rachel, que horas esse lugar normalmente abre?
— Nove.
Olhei para o relógio. Ainda não eram oito.
— Você fez um salão abrir mais cedo?
— Eu não fiz nada. Liguei, disse meu sobrenome e perguntei se poderiam nos receber.
— Isso significa que você fez um salão abrir mais cedo.
— Vai precisar se acostumar com algumas coisas, cunhada.
— Pare de me chamar assim.
— Não.
Antes que eu pudesse responder, um homem alto, muito bem vestido, aproximou-se com um sorriso e cumprimentou Rachel com a familiaridade de quem já a conhecia havia algum tempo. Depois, voltou toda a atenção para mim.
— Então esta é Renesmee.
Comecei a desconfiar de que meu nome havia circulado por Manhattan antes de mim naquela manhã.
— Sou eu.
— Rachel disse que precisava de algo discreto. Venha, quero ver seu cabelo.
Meu primeiro impulso foi tocar os fios.
— Meu cabelo?
Rachel já caminhava em direção às poltronas.
— Relaxe. Ninguém vai transformar você em outra pessoa.
— Isso é exatamente o que alguém diria antes de tentar transformar uma pessoa em outra.
O cabeleireiro riu.
— Gostei dela.
— Eu também — Rachel respondeu.
Sentei-me diante do espelho ainda desconfiada. Meu cabelo sempre fora uma das poucas coisas em minha aparência às quais eu realmente me apegava. Era longo, volumoso e naturalmente ondulado. No orfanato, cortar cabelo significava praticidade, não estética, e depois que saí de lá eu simplesmente deixara crescer. Não frequentava salões regularmente, muito menos lugares como aquele.
O cabeleireiro passou os dedos pelos fios com cuidado.
— Você tem um cabelo maravilhoso.
— Obrigada.
— E não precisa fazer praticamente nada. Eu faria uma boa hidratação, escova e retiraria as pontas.
Imediatamente olhei para ele pelo espelho.
— Cortar?
Rachel riu atrás de mim.
— Ele disse pontas.
— Pontas ainda fazem parte do cabelo.
— Renesmee.
— Eu não costumo cortar.
O cabeleireiro levantou as mãos.
— Então não cortamos.
Aquilo me fez relaxar um pouco.
Rachel se aproximou da cadeira.
— Posso fazer uma sugestão sem você achar que estou tentando transformar você numa boneca?
— Depende da sugestão.
— Deixe ele tirar apenas o necessário. Você vai continuar com o cabelo comprido. Se não gostar, nunca mais sugiro que corte nada.
Olhei para meus cabelos refletidos no espelho.
— Quanto é “apenas o necessário”?
O cabeleireiro mostrou com os dedos uma quantidade tão pequena que minha resistência começou a parecer exagerada.
— Isso.
— Só isso?
— Prometo.
Olhei para Rachel.
— Você também promete?
— Juro pela paciência do meu irmão.
— Isso parece uma coisa que não existe.
Ela começou a rir.
— Você está aprendendo rápido.
Acabei concordando.
A experiência foi estranhamente agradável. Lavaram meu cabelo, fizeram uma hidratação que provavelmente custava mais do que eu gostaria de saber e, quando chegou o momento da tesoura, acompanhei cada movimento pelo espelho como se o homem pudesse subitamente decidir me deixar com os cabelos nos ombros. Ele percebeu e não conseguiu esconder a diversão.
— Você está contando as tesouradas?
— Talvez.
— Eu realmente só estou retirando as pontas.
— Estou vendo.
Rachel estava sentada alguns metros atrás, tomando outro café.
— Se continuar vigiando desse jeito, ele vai começar a ficar nervoso.
— Melhor.
Quando finalmente terminou a escova e virou a cadeira um pouco para que eu pudesse observar melhor, fiquei em silêncio.
Meu cabelo continuava longo. Muito longo. Apenas parecia mais leve, alinhado e brilhante, com as pontas bonitas e o movimento das ondas mais definido depois da escova. Passei os dedos por uma mecha e sorri antes que pudesse evitar.
— Gostou — Rachel afirmou.
— Gostei.
— Eu ouvi alguma coisa parecida com “Rachel estava certa”?
— Não exagere.
O cabeleireiro riu.
— Eu ouvi.
— Vocês dois estão se unindo contra mim.
Rachel levantou-se.
— Espere pelas compras.
Descobri pouco depois que aquilo não fora uma ameaça vazia.
O carro nos deixou em uma região onde praticamente todas as vitrines pareciam ter sido criadas para me lembrar de que eu não pertencia àquele mundo. Na primeira loja, olhei discretamente uma etiqueta e imediatamente devolvi a peça ao lugar.
Rachel percebeu.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Olhar o preço e ficar assustada.
— Eu não fiquei assustada.
— Você colocou a blusa de volta como se tivesse queimado sua mão.
— Rachel, aquela blusa custa mais do que eu ganhava em...
Parei.
— Não quero saber — ela disse. — Hoje não.
— É muito dinheiro.
— Para você, sim. Para Jacob, não. E antes que comece novamente com a história de não querer ser comprada, estamos comprando roupas, não você.
Suspirei.
— Você sempre tem uma resposta?
— Cresci com Jacob. Era isso ou passar a vida perdendo discussões.
Ela não me permitiu permanecer muito tempo desconfortável. Em vez de simplesmente mandar que funcionários colocassem roupas diante de mim, Rachel começou a me ensinar. Mostrou como peças básicas podiam mudar completamente dependendo dos acessórios, explicou que um blazer bem cortado poderia ser usado tanto com calça quanto com saia ou vestido e me fez experimentar combinações que eu jamais escolheria sozinha.
— Você não precisa parecer dez anos mais velha só porque vai se casar com um homem mais velho — disse enquanto segurava dois blazers diante de mim. — Esse é um erro que muita gente comete. Você tem vinte anos. Vista-se como uma mulher de vinte anos.
— Uma mulher de vinte anos que vai se casar com seu irmão.
— Infelizmente isso não tem tratamento.
Eu ri.
Ela escolheu calças de alfaiataria, vestidos, saias, camisas, algumas peças mais simples e outras que eu imediatamente considerei sofisticadas demais. Quando reclamei de um vestido, Rachel concordou comigo e mandou retirá-lo.
— Pensei que você fosse insistir.
— Por quê?
— Porque é caro.
— Preço não torna uma roupa bonita. E você precisa gostar do que veste. Meu irmão está comprando um guarda-roupa, não escolhendo uma fantasia para você.
A frase me fez gostar ainda mais dela.
Passamos por outra loja para sapatos. Foi ali que descobri que Rachel tinha uma relação quase preocupante com saltos.
— Experimente este.
Olhei para a altura.
— Quer que eu morra antes do casamento?
— Você sabe andar de salto?
— Sei.
— Então coloque.
— Saber andar não significa desejar escalar Manhattan sobre isso.
— Renesmee.
— Está bem.
Experimentei.
Infelizmente ficou lindo.
Rachel percebeu minha expressão no espelho.
— Não diga nada — avisei.
— Eu nem abri a boca.
— Seu rosto abriu.
Ela riu e pediu que incluíssem o par.
Aos poucos, comecei a me divertir. Talvez porque Rachel não me tratasse como alguém que precisava ser corrigida. Ela opinava, sugeria, às vezes insistia, mas também ouvia quando eu dizia que determinada peça não combinava comigo. Descobriu rapidamente que eu gostava de tons mais escuros, embora tivesse poucas roupas assim porque durante muito tempo comprara apenas o que podia pagar.
Foi em uma das últimas lojas que encontrei o conjunto vinho.
Eu o vira no manequim e parei por tempo suficiente para Rachel perceber.
— Esse.
— Eu só estava olhando.
— Claro.
Era um conjunto de alfaiataria num tom profundo de vinho, com saia curta pregueada, top estruturado e um blazer comprido que equilibrava perfeitamente o restante. Quando a funcionária trouxe meu tamanho, peguei as peças ainda tentando convencer a mim mesma de que experimentaria apenas por curiosidade.
Rachel escolheu um cinto preto fino com fivela dourada.
— Com isso.
— Você já decidiu tudo?
— Ainda falta o sapato.
— Naturalmente.
Entrei no provador.
Quando saí alguns minutos depois, Rachel estava sentada numa poltrona olhando o telefone. Levantou os olhos e ficou em silêncio.
— O quê?
Ela guardou o aparelho.
— Nada.
— Rachel.
— Estou pensando que meu irmão fez uma escolha perigosamente boa para alguém que insiste que casamento é apenas negócio.
Senti meu rosto esquentar.
— Não comece.
— Eu não disse nada demais.
— Disse exatamente o suficiente.
Ela se levantou e ajeitou discretamente a lapela do blazer.
— Está lindo em você. E continua parecendo você, o que é mais importante.
Olhei para o espelho.
Era estranho.
Eu ainda reconhecia a mulher refletida ali, mas parecia uma versão de mim que nunca tivera dinheiro ou oportunidade para conhecer. O cabelo caía brilhante sobre os ombros, o vinho contrastava com minha pele e o conjunto parecia sofisticado sem me transformar naquela mulher séria e muito mais velha que eu temera parecer quando Rachel começou a falar sobre roupas para a futura senhora Black.
— Vou levar.
— Vai sair vestida.
Olhei para ela.
— Por quê?
Rachel sorriu.
— Porque podemos.
No final, aceitei.
Ela combinou o conjunto com saltos escuros e acessórios discretos, recusando uma joia exagerada que a funcionária sugeriu.
— Não precisa colocar tudo que é caro no corpo ao mesmo tempo — explicou enquanto escolhíamos brincos pequenos. — Elegância também é saber quando parar.
— Essa foi uma dica verdadeira ou uma indireta para alguém?
— Bree.
Soltei uma risada antes que pudesse evitar.
— Rachel!
— O quê? Você vai conhecê-la direito em algum momento. Prefiro que esteja preparada.
— Eu já conheci.
Ela parou.
— Conheceu?
— Ontem.
— Ah.
O modo como disse aquilo me fez desconfiar.
— O que significa esse “ah”?
— Significa que agora entendo por que Jacob fez questão de mencionar que nenhuma antiga relação dele pisaria na casa sem autorização.
Parei de mexer nos brincos.
— Ele contou isso para você?
— Ele pediu que eu ajudasse a preparar sua chegada. Algumas regras precisavam ser esclarecidas.
Não perguntei mais.
Já eram onze e meia quando finalmente voltamos para o carro. Havia tantas sacolas sendo colocadas no segundo veículo que senti vergonha apenas de olhar. Algumas coisas seriam enviadas diretamente para a mansão, e Rachel garantira que o restante já estaria organizado no meu quarto até o fim do dia.
Entrei no carro ainda usando o conjunto vinho e olhei para meu reflexo na tela apagada do telefone.
— Eu pareço outra pessoa.
Rachel sentou-se ao meu lado.
— Não. Parece você com um cartão Black.
— Isso não me tranquiliza.
— Deveria.
O motorista fechou a porta e o carro começou a se mover.
— Que horas são?
Rachel consultou o relógio.
— Onze e meia.
— Então vamos para a mansão agora?
— Agora sim.
Respirei fundo.
A diversão das últimas horas começou a dar lugar à realidade. Eu estava indo morar naquela casa. Não como candidata a um emprego. Não como visitante. Não como babá.
Como a mulher que Jacob Black pretendia transformar em sua esposa.
Minha mão tocou involuntariamente o envelope preto dentro da bolsa.
— Está nervosa? — Rachel perguntou.
— Um pouco.
— É compreensível.
— Você não parece achar nada disso estranho.
— Acho extremamente estranho. Meu irmão decidiu se casar com uma mulher que conheceu há dois dias porque ela venceu meu sobrinho numa queda de braço. Estou apenas escolhendo aproveitar a parte divertida antes que os advogados apareçam.
Eu ri.
O telefone dela tocou naquele instante.
Rachel olhou para a tela e sua expressão mudou imediatamente para uma diversão que não me agradou.
— Quem é?
Ela levantou um dedo, pedindo um instante, e atendeu.
— Sim?
Fiquei observando enquanto ela ouvia.
— Já terminamos... Sim, estamos indo agora.
Pausa.
— Não, ela não fugiu com o cartão.
Arregalei os olhos.
Rachel segurou o riso.
— Eu aviso.
Desligou.
— Era ele?
Ela guardou o telefone e se virou completamente para mim.
— Mudança de planos. Ele chegou mais cedo.
Meu estômago pareceu apertar.
— Jacob?
— Quantos noivos você tem?
— Rachel.
Ela riu e passou os olhos por mim, do cabelo recém-arrumado ao conjunto vinho e aos saltos que ela própria escolhera. Então seu sorriso aumentou de um jeito que me deixou ainda mais desconfortável.
— Respire, cunhada.
— Pare de me chamar assim.
— Impossível.
— O que ele queria?
Rachel se acomodou no banco, satisfeita demais com alguma coisa que só existia na cabeça dela.
— Saber onde estávamos.
— E?
Ela olhou mais uma vez para minha roupa antes de sorrir.
— Seu noivo está à sua espera.
Virei o rosto para a janela enquanto o carro seguia em direção à mansão Black, tentando ignorar o fato de que, depois de passar a manhã inteira aprendendo sobre as vantagens de ser a futura senhora Black, eu estava prestes a reencontrar o homem que vinha junto com o título.
Fale com o autor