A esposa do Don

30 Festa de casamento


JACOB

O juiz ainda não havia terminado de declarar nosso casamento quando percebi que minha atenção já não estava nele. Renesmee estava diante de mim usando minha aliança, e durante alguns segundos todo o planejamento que havia precedido aquele dia perdeu importância. Eu tinha representantes de famílias importantes espalhados pelo jardim, homens com os quais mantinha negócios havia anos, outros que preferia manter próximos o bastante para observá-los e uma quantidade considerável de testemunhas de que Renesmee Miller havia entrado naquela propriedade por vontade própria e saía dela como Renesmee Black. Apenas eu e pouquíssimos homens naquela festa sabíamos o verdadeiro peso do sobrenome que ela carregara ao nascer. Ainda assim, quando o juiz autorizou o beijo, não pensei nos Cullen, nos documentos que meus homens continuavam verificando ou nas consequências que aquele casamento produziria quando Edward descobrisse que a filha que enterrara vinte anos antes estava viva. Eu simplesmente a beijei.

A surpresa de Renesmee durou pouco. Senti suas mãos pousarem sobre meu peito e, logo depois, seus dedos se fecharem no tecido enquanto ela correspondia. Não havia obrigação alguma naquela resposta. Ela poderia ter permanecido imóvel e permitido um beijo protocolar diante dos convidados, mas não fez isso. Quando me afastei, estava sem fôlego e claramente perturbada, enquanto tentava recuperar a compostura sob os aplausos. Aquilo me disse mais do que qualquer conversa que tivéramos sobre os trinta dias. Eu continuaria respeitando o prazo que lhe concedera e não confundiria atração com consentimento para algo além de um beijo, mas já não acreditava que precisaria esperar um mês inteiro para que meu casamento fosse consumado. Renesmee me desejava. Talvez ainda estivesse aprendendo a admitir isso para si mesma, mas o modo como me beijara não deixava muito espaço para dúvidas.

A recepção prosseguiu como Rebecca planejara. Cumprimentamos convidados, cortamos o bolo, brindamos e suportei Solomon anunciando diante de uma quantidade excessiva de pessoas que o Don Black finalmente estava de coleira. Renesmee ainda teve a audácia de dizer que poderia apertá-la depois, o que provocou risadas e me fez concluir que minha esposa estava se adaptando à família depressa demais. Em algum momento da noite nos separamos. Ela disse que precisava retocar a maquiagem e seguiu para dentro da casa, enquanto eu permaneci no jardim conversando com alguns convidados que não encontrava havia meses.

Foi então que me aproximei dos Hale.

Emmett Hale ergueu a taça quando me viu e estendeu a mão.

— Black. Preciso admitir que Rebecca superou as expectativas. Foi uma cerimônia excelente.

Apertei sua mão.

— Vou informá-la de que finalmente recebeu a aprovação que não pediu.

Emmett riu.

— E sua noiva... perdão, sua esposa é uma mulher impressionante. Parabéns.

— Obrigado.

Rosalie estava ao lado dele e me observou com a elegância fria que parecia natural naquela família. Ela havia olhado para Renesmee mais de uma vez durante a noite, embora eu não tivesse qualquer motivo para acreditar que enxergara algo além de uma desconhecida. Aquilo, por si só, era interessante. Renesmee carregava sangue Cullen diante de uma mulher ligada intimamente àquela família e ninguém suspeitava de nada.

— A senhora Black é muito jovem — Rosalie comentou. — Confesso que fiquei surpresa quando soube do casamento.

Não havia ofensa direta na observação, portanto não ofereci uma onde não existia.

— Renesmee tem vinte anos, senhora Hale, e consciência suficiente para tomar as próprias decisões. A diferença de idade certamente chama atenção, mas não foi uma questão entre nós.

Rosalie sorriu discretamente.

— Uma resposta muito diplomática.

— Estamos em um casamento. Estou fazendo um esforço para ser agradável.

Emmett riu novamente e tocou minha taça com a dele.

— Aproveite enquanto dura, Rosalie. Amanhã ele volta ao normal.

— Amanhã estarei ocupado — respondi.

— Imagino. — Emmett bebeu um pouco antes de assumir um tom mais profissional. — Quando voltar a trabalhar, precisamos marcar aquela reunião. Existem alguns pontos das operações portuárias que prefiro discutir pessoalmente. Nada urgente o suficiente para estragar sua lua de mel, mas importante demais para ser tratado por telefone.

— Peça ao seu escritório que fale com o meu. Abrirei espaço na agenda quando retornar.

— Perfeito.

— Espero não estar interrompendo uma negociação.

Reconheci a voz antes de me virar. Jasper Whitlock se aproximava acompanhado de Alice. Cumprimentei os dois, e Jasper apertou minha mão antes de trocar algumas palavras com Emmett. Alice, entretanto, parecia muito mais interessada em observar a festa.

— Eu estava dizendo a Jasper que fazia tempo que não via tantas famílias importantes no mesmo jardim sem que alguém precisasse reforçar as saídas de emergência — comentou ela.

— As saídas estão reforçadas — respondi.

Alice riu.

— É claro que estão. Estamos na casa de Jacob Black.

Rosalie olhou na direção da pista de dança.

— Foi uma bela cerimônia.

— Foi mesmo — Alice concordou antes de voltar os olhos para mim. — Só achei uma pena os Cullen não terem sido convidados. Edward provavelmente teria apreciado a oportunidade de reclamar da decoração.

Emmett soltou uma risada baixa, mas permaneci observando Alice. Não havia razão para que ela soubesse o quanto aquela frase era irônica.

— Não me pareceu prudente convidar um Cullen para assistir ao meu casamento depois de eu quase ter me unido a uma integrante da família.

Alice compreendeu imediatamente a referência a Bree.

— Considerando as circunstâncias, faz sentido. Uma reunião familiar constrangedora não combina muito com casamento.

— Principalmente quando existe bebida disponível — Jasper acrescentou.

— Exatamente.

A conversa poderia ter continuado, mas vi Rachel aproximar-se com passos rápidos. Minha irmã não era uma mulher particularmente discreta quando estava irritada, porém havia alguma coisa diferente em sua expressão. Ela parou ao meu lado e segurou meu braço.

— Jacob, preciso de você.

Olhei primeiro para sua mão e depois para seu rosto.

— Rachel, se pretende me arrancar de uma conversa com três famílias no meio da minha recepção, sugiro que tenha uma razão excepcionalmente boa.

— Tenho.

— Então diga.

— Não aqui.

Emmett percebeu imediatamente que o assunto não lhe dizia respeito e levantou a taça.

— Vá cuidar da sua família. Falamos depois.

Assenti para ele, despedi-me dos demais e acompanhei Rachel. Assim que deixamos o campo de visão direto dos convidados, retirei calmamente a mão dela do meu braço.

— Agora explique por que está me puxando pela minha própria casa como se estivesse pegando fogo.

— Porque falar no meio do jardim não seria exatamente discreto.

— E esse comportamento foi?

Rachel me lançou um olhar impaciente.

— Jacob, desta vez você pode guardar o sermão para depois. Precisa ver pessoalmente.

A maneira como disse aquilo eliminou minha disposição para discutir.

— Onde?

— Na estufa.

Comecei a caminhar ao lado dela.

— Renesmee está envolvida?

Rachel hesitou por uma fração de segundo.

Foi suficiente.

Parei.

— Rachel.

— Ela está bem.

— Não foi o que perguntei.

— Lucy falou com ela.

Meu corpo ficou imóvel, mas minha cabeça já trabalhava muito mais depressa.

— Lucy está nesta propriedade?

— É justamente por isso que estou levando você até lá.

— Como entrou?

— Ainda não sabemos.

— Quem estava responsável pelo acesso oeste?

— Paul já está verificando.

Voltei a andar.

— E Renesmee?

— Encontrou Lucy no banheiro. Quando entrei, as duas estavam discutindo. Nessie saiu antes que eu conseguisse conversar com ela.

— Onde está agora?

— Dentro da casa. Mandei uma das mulheres verificar discretamente.

Não gostei da resposta, mas continuei caminhando. A estufa ficava afastada da área principal da recepção, atrás de uma fileira de árvores e suficientemente longe para que música e vozes chegassem abafadas. Quanto mais nos aproximávamos, mais homens reconheci entre os meus. Aquilo bastou para que eu compreendesse que Rachel não exagerara.

Ela abriu a porta.

Entrei.

Lucy estava no centro da estufa.

Dois dos meus homens permaneciam junto à entrada e outros cercavam o espaço. Ela não estava ferida, mas estava claramente impedida de sair. Paul encontrava-se alguns metros atrás dela, falando baixo com um dos responsáveis pela segurança. Assim que me viu, encerrou a conversa.

Lucy também me viu.

Não disse nada.

Parei diante dela e deixei o olhar percorrer o ambiente antes de voltar para seu rosto. Eu havia encerrado aquela relação de maneira suficientemente clara para não existir possibilidade de mal-entendido. Também havia sido suficientemente claro sobre aquilo que aconteceria se ela aproximasse Renesmee ou meus filhos de assuntos que não lhes diziam respeito.

O fato de estar ali significava que escolhera ignorar ambos os avisos.

— Rachel — falei sem desviar os olhos de Lucy. — Volte para a recepção.

Minha irmã hesitou.

— Jacob...

Olhei para ela.

Rachel conhecia aquele olhar havia anos.

— Volte para a recepção. Minha esposa não pode desaparecer da própria festa ao mesmo tempo que eu sem que alguém perceba. Encontre Renesmee e permaneça com ela até eu chegar.

Ela assentiu e saiu.

Esperei a porta se fechar antes de voltar toda a atenção para Lucy. Não levantei a voz, não precisava. A simples presença dela naquela propriedade já representava uma falha que seria examinada homem por homem antes do amanhecer.

— Eu fui bastante claro na última vez em que conversamos — disse. — Portanto, antes de decidir o que fazer com você, quero apenas uma informação.

Lucy ergueu o queixo.

Mantive a voz baixa.

— Como entrou na minha casa?

Lucy sustentou meu olhar por alguns segundos e, em vez de responder, deixou surgir aquele sorriso irônico que eu conhecia bem demais. Durante anos eu tolerara sua insolência porque nossa relação permitia determinadas liberdades e porque, na maior parte do tempo, ela sabia exatamente onde terminavam. Aquela noite era diferente. Ela entrara sem autorização na propriedade Black, atravessara um esquema de segurança montado para receber representantes de famílias importantes e procurara minha esposa no dia do nosso casamento. Não havia nada de pessoal ou divertido naquilo. Existia uma falha de segurança grave e uma mulher que eu já advertira claramente decidira testar até onde minha paciência se estendia.

— Talvez sua segurança não seja tão eficiente quanto você gosta de acreditar — respondeu finalmente, com um sorriso. — Ou talvez algumas pessoas simplesmente gostem mais de mim do que você imagina.

Olhei para os homens próximos à porta.

— Levem-na.

O sorriso desapareceu.

Dois homens avançaram imediatamente, e Lucy recuou.

— Se alguém encostar em mim, eu vou gritar. Há dezenas de pessoas do lado de fora, Jacob. Gostaria de explicar aos seus convidados por que uma mulher está sendo arrastada para fora da sua estufa durante sua festa de casamento?

Ela puxou o braço quando um dos homens tentou segurá-la e abriu a boca novamente, elevando a voz. Atravessei a pequena distância entre nós antes que completasse a primeira palavra e segurei seu queixo com firmeza, obrigando-a a me olhar. Não precisei apertar o suficiente para machucá-la. Lucy me conhecia havia tempo demais para não compreender a diferença entre um gesto e um aviso.

— Não fará isso — falei baixo. — Você já tomou decisões ruins suficientes por uma noite. Não vai acrescentar outra apenas porque ainda existe uma plateia do outro lado dessas paredes.

Ela ficou em silêncio. Seus olhos, antes carregados de desafio, começaram a demonstrar a primeira percepção real de que eu não estava disposto a tratar aquilo como uma provocação de ex-amante. Soltei seu rosto e me afastei.

— Eu poderia ter vindo conversar com você se você não tivesse simplesmente me descartado — disse ela, recuperando parte da arrogância. — Você acha que pode passar anos com uma pessoa e depois determinar que ela desapareça porque resolveu colocar uma aliança no dedo de outra mulher?

— Eu não determinei que desaparecesse. Encerrei uma relação. Você teve dificuldade em compreender a diferença e decidiu invadir minha casa.

— Aquela menina nem sabe com quem se casou.

Meu olhar voltou para ela.

— Cuidado.

Lucy riu sem humor.

— É exatamente disso que estou falando. Ela não sabe metade das coisas que...

— Termine essa frase e esta conversa tomará uma direção que você não vai apreciar.

Ela se calou.

A porta da estufa tornou a abrir e Paul entrou. Seu olhar passou rapidamente por Lucy antes de se fixar em mim.

— Rachel me avisou. Vim assim que consegui deixar a recepção sem chamar atenção.

— Descobriu como ela entrou?

— Ainda não. Já mandei revisar os acessos e as imagens. Ninguém sai do turno até eu saber onde ocorreu a falha.

— Quero nomes, horários e quem autorizou cada entrada. Se alguém facilitou deliberadamente o acesso dela, descubra antes de amanhecer.

Paul assentiu.

— Pode deixar.

Apontei discretamente para Lucy.

— Cuide dela.

Foi naquele momento que Lucy perdeu parte do controle que mantivera até então.

— Jacob, espere.

Não respondi.

— Você não vai simplesmente me entregar aos seus homens.

Parei quando já estava de costas para ela e virei apenas o rosto.

— Paul não é “meus homens”. É meu cunhado e uma das poucas pessoas em quem confio para resolver um problema sem transformar minha recepção de casamento em espetáculo.

— Eu não sou um problema.

— Nesta noite, foi exatamente isso que escolheu ser.

Ela deu um passo na minha direção, mas um dos seguranças se colocou entre nós.

— Jacob, eu só falei com ela.

— Depois de eu ter deixado claro que deveria manter distância da minha família.

— Eu não fiz nada contra Renesmee.

A forma como pronunciou o nome da minha esposa me desagradou mais do que deveria.

— Você entrou clandestinamente na casa dela durante o casamento dela para lhe contar sobre uma relação que já terminou. Não tente transformar uma provocação deliberada em conversa inocente.

Lucy me encarou.

— E o que pretende fazer comigo?

Dessa vez me virei completamente.

— Dar a você uma última oportunidade de compreender algo que deveria ter compreendido quando encerramos nossa relação. Você não vai se aproximar de Renesmee novamente. Não falará com Claire, William ou qualquer membro da minha família sobre assuntos que conheceu enquanto esteve comigo. Também não voltará a entrar em uma propriedade Black sem autorização. Eu não repetirei essas condições.

Ela empalideceu discretamente.

Olhei para Paul.

— Acompanhe Lucy até a casa dela. Ela vai pegar o necessário e, ainda esta noite, você vai colocá-la em um voo para o outro lado do mundo. Escolha um lugar confortável o bastante para que ela não possa alegar que fui indelicado.

Lucy arregalou os olhos.

— Você enlouqueceu. Não pode decidir que vou deixar o país.

— Pode recusar.

Ela pareceu surpresa pela resposta.

— Então estou recusando.

Assenti lentamente.

— Nesse caso, Paul pode enviá-la para outro mundo de verdade.

O silêncio na estufa se tornou absoluto.

Lucy me conhecia o suficiente para não perguntar se aquilo era uma brincadeira. Paul tampouco demonstrou qualquer reação; apenas me observou, aguardando o restante da ordem.

— Considere esta a última cortesia que receberá de mim, Lucy. Aceite o voo, escolha um lugar distante e reconstrua sua vida. Não volte a interferir na minha.

Ela respirou fundo, agora sem qualquer traço da ironia anterior.

— Tudo isso por causa dela?

Pensei em Renesmee diante do altar, na aliança que eu colocara em seu dedo, no modo como correspondera ao meu beijo e, principalmente, em tudo o que Lucy poderia destruir caso resolvesse transformar o que sabia sobre meu passado em vingança.

— Tudo isso porque você recebeu um limite e decidiu ultrapassá-lo.

Virei-me para Paul.

— Resolva.

Saí da estufa sem olhar para trás. O assunto estava encerrado para mim, embora a falha que permitira a entrada de Lucy estivesse apenas começando a ser investigada. Atravessei o caminho lateral em direção à mansão e encontrei Rachel antes de retornar à área principal da recepção. Ela estava parada próxima à varanda, aparentemente esperando por mim.

— Onde está Renesmee? — perguntei assim que me aproximei.

Rachel fez uma pequena careta.

— Antes que você fique furioso, ela está bem.

— Rachel.

— Está no quarto.

Parei.

— Sozinha?

— Sim. Saiu do banheiro muito irritada, deu a volta pelo jardim e entrou pela área dos funcionários para não atravessar a festa. Tentei ir atrás dela, mas precisava resolver Lucy primeiro. Uma funcionária confirmou que Nessie subiu.

Olhei para as portas da mansão.

Minha esposa estava no andar de cima, no dia do nosso casamento, depois de descobrir da pior maneira possível que eu mantivera uma amante durante anos.

— O que Lucy disse a ela?

— Não ouvi tudo. Quando entrei, elas já estavam discutindo. Nessie não estava chorando nem fazendo escândalo, se é isso que está pensando. Estava enfrentando Lucy de cabeça erguida e, pelo pouco que ouvi, Lucy provavelmente se arrependeu de esperar uma menina assustada.

Isso não me surpreendeu.

— E por que não me avisou imediatamente?

Rachel cruzou os braços.

— Porque você estava cercado por convidados, Lucy precisava ser retirada sem chamar atenção e sua esposa precisava de alguns minutos para não matar ninguém com um salto de quinze centímetros. Fiz escolhas.

Olhei novamente para a casa.

— Volte para a recepção.

— E você?

Comecei a caminhar em direção à entrada.

— Vou buscar minha esposa.