A esposa do Don
24 Distração
JACOB
O galpão ficava suficientemente distante das propriedades que eu utilizava publicamente para que ninguém chegasse até ele por acaso. Não havia qualquer identificação externa, apenas um antigo complexo industrial cercado por muros altos, câmeras e homens que sabiam exatamente quem podia atravessar os portões. Poucas operações importantes eram conduzidas ali, e menos pessoas ainda conheciam todas as atividades realizadas naquele lugar. Quando o carro parou diante da entrada lateral, Paul desceu primeiro. Eu o acompanhei sem esperar que um dos homens abrisse a porta e encontrei Embry assim que entramos no corredor principal.
Ele veio em nossa direção.
— Don.
— Onde está?
— Na sala de interrogatório.
— Falou alguma coisa?
— Não o suficiente.
Continuei andando.
— Quem o encontrou?
— Solomon localizou a conexão. O homem estava recebendo dinheiro havia alguns meses e apareceu em dois pontos próximos das últimas cargas interceptadas. Quando fomos buscá-lo, tentou fugir.
— Identificação?
— Os documentos que carregava são falsos.
— Todos?
— Carteira, passaporte, nome utilizado para alugar o apartamento. Estamos procurando a identidade verdadeira.
Aquilo não me agradou.
— Então ainda não sabemos quem ele é.
— Não.
Voltei a andar.
Paul permaneceu alguns passos atrás enquanto Embry seguia ao meu lado. O corredor terminava diante de uma porta reforçada. Um dos homens que estava do lado de fora afastou-se imediatamente quando me aproximei.
Embry abriu a porta.
A sala tinha sido construída para duas funções diferentes. Na primeira parte havia uma mesa pequena, algumas cadeiras e uma grande janela de vidro. Do outro lado ficava o espaço onde nossos convidados eram recebidos quando precisávamos de respostas que não costumavam ser oferecidas espontaneamente.
Sentei-me.
O homem do outro lado estava consciente.
Era a primeira coisa que me interessava.
Tinha os braços elevados, os pulsos presos por uma corrente fixada acima dele. Os pés tocavam o chão, embora a posição o obrigasse a manter o corpo esticado de maneira desconfortável. As marcas espalhadas pelo rosto e pelo tronco deixavam bastante evidente a hospitalidade que recebera antes da minha chegada. Embry havia trabalhado com cuidado. Nada daquilo, entretanto, parecia ter produzido o resultado esperado.
Observei-o durante alguns segundos.
Ele levantou a cabeça e sorriu.
Aquilo me incomodou mais do que se tivesse implorado.
Pressionei o botão que permitia que minha voz chegasse ao outro lado.
— Como você se chama?
O homem soltou uma risada rouca.
— Finalmente o lobo saiu da toca.
Não alterei a expressão.
— Como você se chama?
— Isso importa?
— Fiz uma pergunta.
Ele ergueu o rosto um pouco mais. Havia sangue seco próximo à boca, mas o sorriso continuava ali.
— Podem me matar.
— Essa possibilidade não depende da sua autorização.
— Melhor ainda.
Cruzei as mãos sobre a mesa.
— Seu nome.
Ele não respondeu.
Esperei.
Aprendi havia muito tempo que silêncio incomodava mais do que gritos. Homens preparados para interrogatórios esperavam ameaças, violência, perguntas repetidas. Poucos sabiam o que fazer quando o homem do outro lado simplesmente os observava.
Daquele, porém, não veio nervosismo.
Veio satisfação.
— Podem fazer o que quiserem — disse. — Minha missão já está concluída.
Meu olhar permaneceu nele.
— Que missão?
Ele riu novamente.
— Demorou para perguntar.
Embry estava parado próximo à parede. Não precisei olhar para ele para saber que também havia percebido a mudança.
— Que missão? — repeti.
— Tirar seu foco.
— De quê?
O homem inclinou a cabeça.
— Não de quê.
Fez uma pequena pausa.
— De quem.
Minha expressão não mudou.
— Quem?
Ele sorriu.
— De quem ela realmente quer.
Alguma coisa dentro de mim ficou imediatamente alerta.
— Ela quem?
Nenhuma resposta.
— Outra organização?
O homem começou a rir. Dessa vez alto.
O som atravessou o sistema e preencheu a pequena sala de observação.
— Vocês homens são todos iguais.
— Quem é ela?
— Sempre procurando outra família, outro Don, outra organização. Como se tudo precisasse ser sobre território e dinheiro.
Levantei-me lentamente da cadeira.
O homem acompanhou o movimento.
— Diga o nome.
Ele balançou a cabeça.
— Nem todo passado fica no passado, Black.
Fiquei em silencio.
Por um instante, nenhuma outra voz surgiu na sala.
O Passado.
A palavra poderia significar dezenas de coisas.
No meu caso, centenas.
O homem pareceu perceber que finalmente havia conseguido alguma reação, ainda que pequena.
Então sorriu.
— Como está sua noiva?
A cadeira bateu discretamente contra o chão quando me afastei dela.
Embry olhou para mim mas eu não olhei de volta.
Do outro lado do vidro, o homem começou a rir novamente.
— Bonita mulher.
Meu maxilar se contraiu.
— Embry.
— Don.
— Tire mais alguma coisa dele.
O homem continuou sorrindo.
— Pode tirar tudo.
— Nomes, contatos, lugares, quem pagou, como recebeu informações e como sabe sobre Renesmee.
Embry assentiu.
— E depois?
Olhei uma última vez para o homem.
— Livre-se do corpo.
O sorriso dele vacilou pela primeira vez.
Foi suficiente.
Saí da sala e Paul veio imediatamente atrás de mim, mas não esperei por ele. Atravessei o corredor enquanto tirava o telefone do bolso. Não liguei para os homens que acompanhavam Renesmee porque queria saber exatamente quem estava com ela.
Rachel atendeu no terceiro toque.
— Jacob, se for para perguntar quantas pessoas Rebecca quer convidar, eu já...
— Onde está Renesmee?
Minha irmã ficou em silêncio por um instante.
— O quê?
— Renesmee. Onde ela está?
— Na mansão.
Continuei andando.
— Você está com ela?
— Não. Rebecca me ligou e eu fui encontrá-la. Renesmee voltou com Claire.
Parei de caminhar — Há quanto tempo?
— Não sei, talvez meia hora. O motorista e a segurança levaram as duas. O que aconteceu?
— Nada.
— Jacob.
— Rachel, elas chegaram à mansão?
— Sim. Recebi a confirmação quando o carro entrou na propriedade. As duas estão em casa.
A tensão em meus ombros diminuiu apenas o suficiente para que eu voltasse a respirar normalmente.
— Certo.
— O que aconteceu?
— Depois.
Desliguei.
Abri imediatamente o sistema de mensagens da segurança e encontrei a confirmação do veículo. Entrada registrada. Renesmee e Claire dentro da propriedade.
Ambas estavam em casa e seguras, ainda assim, o incômodo não desapareceu.
— Jacob.
Levantei os olhos.
Sam vinha pelo corredor em minha direção. A expressão dele mudou ao perceber meu rosto.
— O que foi isso?
Guardei o telefone.
— Aquele homem não é o traidor.
Sam franziu a testa.
Paul parou alguns passos atrás de mim.
— Solomon encontrou pagamentos — Sam disse. — Ele tinha informações das cargas.
— Eu sei.
— Então como tem tanta certeza?
— Porque ele queria ser encontrado.
Sam ficou em silêncio. — Explique.
— Documentos falsos. Ligações suficientes com as cargas para conduzir nossos homens diretamente até ele. Tentou fugir, mas não longe o bastante. Aguentou um interrogatório sem dar o próprio nome e, no instante em que eu apareci, começou a falar.
Paul se aproximou.
— Pode ter sido treinado.
— Foi.
— Isso não significa que não seja nosso homem.
— Não é.
Sam me estudou.
— O que ele disse?
Olhei para os dois.
— Disse que a missão dele era tirar meu foco de quem “ela” realmente quer.
A expressão de Sam endureceu.
— Ela?
— Não deu nome. Perguntei se era outra organização. Achou graça.
— E quem ela quer?
Demorei um segundo antes de responder.
— Renesmee.
Paul ficou imóvel e Sam também.
— Ele disse o nome dela? — Sam perguntou.
— Perguntou como estava minha noiva.
— O casamento não é exatamente segredo.
— Ainda não foi anunciado publicamente.
Isso encerrou a questão.
A informação circulava dentro da família, entre homens próximos, funcionários selecionados e algumas poucas pessoas envolvidas nos preparativos. Renesmee morava em minha casa, mas o casamento não havia sido transformado em notícia. Quem estava por trás daquele homem não apenas sabia que eu me casaria.
Sabia o suficiente para usar Renesmee para conseguir minha atenção.
Sam olhou para a porta da sala de interrogatório.
— Pode ser provocação.
— É provocação.
— Então talvez seja exatamente o que querem. Fazer você reagir.
— Já conseguiram.
Sam voltou os olhos para mim.
— O que pretende fazer?
Caminhei alguns passos e parei diante de uma das janelas altas do galpão. Não havia nada interessante do outro lado, apenas concreto, veículos e homens trabalhando. Minha cabeça, porém, já estava reconstruindo as últimas semanas.
As cargas , as rotas, as informações vazadas. O homem encontrado rápido demais.
Tudo havia parecido familiar.
Familiar demais.
Oito anos antes eu também correra atrás de um traidor enquanto o verdadeiro responsável caminhava ao meu lado.
Não cometeria o mesmo erro.
— Recomeçamos do zero.
Paul franziu a testa.
— Toda a investigação?
— Toda.
— Inclusive as cargas?
— Principalmente as cargas. Quero saber se realmente pretendiam atingir nossos negócios ou se estavam apenas construindo um caminho até esse homem.
Sam assentiu lentamente.
— E a segurança da mansão?
— Dobre.
— Isso pode chamar atenção de Renesmee.
— Então façam sem chamar.
Paul pegou o telefone.
— E quando ela sair?
— Nenhuma saída sem equipe.
— Ela não vai gostar se perceber.
Olhei para ele.
— Não perguntei se vai gostar.
Paul assentiu.
Sam continuou me observando.
— Você acha que isso tem relação com seu passado?
A frase do homem voltou à minha cabeça.
Nem todo passado fica no passado.
— Ainda não sei.
— Mas está pensando em alguém.
Olhei para Sam.
Ele era uma das poucas pessoas naquela organização que conhecia o suficiente do meu passado para entender por que aquela frase me incomodara.
— Estou pensando em muitas pessoas.
— Leah?
Meu olhar endureceu, Sam não repetiu o nome.
Por oito anos, eu havia tratado aquele assunto como encerrado.
Leah não possuía acesso à minha vida. Não possuía contato com Claire ou William. Não possuía motivo algum para conhecer Renesmee.
E deveria continuar assim.
— Não tire conclusões antes de termos fatos — respondi.
Sam assentiu.
— Certo.
Comecei a andar novamente.
— Quero tudo sobre o homem daquela sala. De onde veio, onde esteve nos últimos seis meses, quem o alimentou, quem pagou por ele e quem lhe contou sobre meu casamento. Se Embry não conseguir arrancar o nome dela, encontrem por outro caminho.
— E se não houver outro caminho?
Parei e olhei para Sam.
— Sempre há.
Voltei a caminhar em direção à saída.
Sam veio ao meu lado.
— Você vai voltar para a mansão?
— Vou.
— Por causa de Renesmee?
Não respondi imediatamente.
Algumas horas antes eu havia sentado à mesa do café da manhã me divertindo porque minha proximidade fazia Renesmee corar. Naquele momento, a lembrança parecia pertencer a outro dia.
— A pessoa por trás disso acabou de demonstrar que sabe quem vai ser minha esposa.
Sam esperoube olhei para ele.
— E eu não gosto quando brincam com a minha cara.
Saí do galpão com a sensação desagradável de que havia passado os últimos quatro dias olhando exatamente para onde alguém queria que eu olhasse. Eu conhecia aquela sensação. Não era medo, tampouco insegurança; era irritação. A mesma que surgia quando peças aparentemente desconexas começavam a formar um desenho que eu ainda não conseguia enxergar por inteiro. O homem na sala de interrogatório não havia sido encontrado por competência nossa. Pelo menos não somente. Ele deixara rastros suficientes para ser encontrado, carregara documentos falsos que não resistiriam a uma investigação séria e estivera próximo demais dos ataques às cargas. Tudo fora conveniente. Conveniente demais. O fato de saber sobre Renesmee apenas confirmava que aquilo não terminava nos negócios da organização.
Paul abriu a porta traseira do veículo e entrei. Ele ocupou o banco dianteiro enquanto o motorista aguardava minha ordem. Tirei o telefone do bolso e olhei novamente para a confirmação enviada pela segurança da mansão. Claire e Renesmee haviam chegado. Rachel não estava com elas, mas isso pouco importava dentro da propriedade. Havia homens suficientes no perímetro, e eu acabara de ordenar que a segurança fosse reforçada. Ainda assim, não gostava de saber que alguém fora da minha casa conhecia detalhes suficientes sobre minha vida para perguntar pela minha noiva.
— Mansão? — Paul perguntou.
— Sim.
O motorista começou a manobrar.
Meu telefone tocou antes que alcançássemos o portão.
Olhei para a tela.
Solomon.
Atendi.
— Fale.
— Está ocupado?
Olhei pela janela enquanto o veículo deixava o galpão.
— Acabei de sair. Há alguma novidade?
— Sobre o homem que encontramos, não. Embry continua trabalhando. É outro assunto.
— Qual?
Houve um pequeno ruído do outro lado antes de Solomon responder.
— Allentown.
Minha atenção mudou imediatamente.
— Coleman?
— Não. Saint Agnes.
Fiquei em silêncio por um instante.
Havia pedido aquela investigação antes mesmo de Renesmee se mudar para minha casa. Inicialmente, eu queria apenas verificar a história que ela me contara. Não porque acreditasse que estivesse mentindo, mas porque eu não colocava uma desconhecida dentro da minha família sem saber exatamente de onde ela vinha. A investigação, porém, encontrara menos respostas do que eu esperava. Renesmee Miller existia documentalmente, mas quanto mais recuávamos, menos Miller havia em sua história.
O sobrenome fora dado pelas freiras.
Não existia pai registrado.
Não existia mãe registrada.
Nenhuma certidão anterior que esclarecesse sua origem. Nenhuma adoção formal que levasse a uma família. Apenas uma criança deixada em Saint Agnes e um nome que, aparentemente, chegara com ela.
Renesmee.
— A irmã responsável retornou? — perguntei.
— Hoje pela manhã. A irmã Margaret voltou ontem à noite da viagem. Confirmei há pouco que é realmente a mesma mulher mencionada nos registros antigos.
Endireitei-me no banco.
— Ela estava no convento quando Renesmee chegou?
— Estava.
— Tem certeza?
— O nome dela aparece nos registros daquele período e duas outras religiosas confirmaram. Era mais jovem, obviamente, mas já trabalhava na instituição. Segundo o que consegui levantar, foi uma das pessoas que receberam a criança.
Olhei para Paul pelo retrovisor. Ele percebeu imediatamente que o assunto havia mudado, mas não perguntou.
— Ela se lembra?
— Não quis responder por telefone. A irmã que falou comigo disse apenas que Margaret está disposta a conversar pessoalmente sobre Renesmee, desde que saiba por que estamos fazendo perguntas.
— Você mencionou meu nome?
— Não.
— Ótimo.
Solomon permaneceu em silêncio.
Voltei a olhar pela janela.
A princípio, eu havia mandado Embry investigar a origem de Renesmee porque precisava saber quem estava prestes a entrar em minha casa. Depois, o assunto ganhara importância própria. Uma criança não surgia do nada. Alguém a colocara naquele convento. Alguém escolhera desaparecer sem deixar o próprio nome, e eu queria saber por quê.
Agora havia um homem pendurado em uma corrente no meu galpão falando sobre meu passado e perguntando por minha noiva.
Coincidência era uma palavra que eu raramente aceitava quando havia informação faltando.
— Prepare tudo — ordenei.
— Para quando?
— Hoje.
Solomon hesitou.
— Quer que eu vá até lá?
— Você vai comigo.
Paul virou discretamente o rosto.
— Vou organizar o avião.
— Não.
— Carro?
— Sim. Não quero movimentação desnecessária. Separe dois homens. Ninguém além de nós precisa saber para onde estou indo.
— Entendido.
— E Solomon.
— Sim?
— Não entre em contato novamente com Saint Agnes.
— Por quê?
— Porque quero ouvir a irmã Margaret antes que alguém tenha oportunidade de preparar as respostas dela.
— Ela é uma freira, Jacob.
— E?
Solomon soltou uma pequena respiração que poderia ter sido uma risada.
— Nada. Eu deveria saber que isso não faria diferença para você.
— Faz diferença. Pretendo ser educado.
— Que alívio.
Desliguei.
Paul esperou alguns segundos.
— Mudança de planos?
— Sim.
— Não vamos para a mansão?
Olhei novamente para a confirmação de que Renesmee estava em casa.
— Vamos. Preciso passar lá antes.
— Depois?
— Allentown.
Ele virou-se parcialmente no banco.
— Por causa de Coleman?
— Saint Agnes.
A expressão dele demonstrou reconhecimento.
Paul sabia da investigação. Poucos detalhes lhe eram desconhecidos dentro da organização.
— A freira voltou.
— Sim.
— A que estava lá quando Renesmee foi deixada?
— Aparentemente.
Paul ficou alguns segundos em silêncio.
— Achei que Embry estivesse cuidando disso.
— Estava. Agora eu vou cuidar.
— Por causa do que aquele homem disse?
A pergunta era legítima.
— Não apenas.
— Mas ajudou.
— Bastante.
Paul assentiu e voltou a olhar para a frente.
Peguei o telefone outra vez e abri o relatório preliminar que recebera dias antes. Eu já havia lido aquelas informações, mas passei novamente pelos pontos principais.
Saint Agnes.
Allentown.
Renesmee Miller.
Nenhum registro de nascimento confiável anterior à entrada na instituição. Sobrenome atribuído posteriormente. Nenhuma informação parental. Uma anotação antiga mencionando que a criança chegara muito pequena.
E uma fotografia.
Parei nela.
Era uma cópia digitalizada de uma imagem preservada entre documentos antigos. Renesmee devia ter poucos anos. Cabelos longos demais para o rosto pequeno, expressão séria diante da câmera e olhos que, desde a primeira vez que eu vira aquela fotografia, haviam provocado uma sensação incômoda de familiaridade.
Eu já vira algo parecido.
Não sabia onde.
Aumentei a imagem por alguns segundos e depois fechei o arquivo.
Não pretendia transformar uma impressão em conclusão.
— Paul.
— Sim?
— Quero outra coisa antes de sairmos.
— O quê?
— Descubra quem teve acesso à informação sobre meu casamento desde que Renesmee assinou o contrato.
Ele olhou para mim pelo retrovisor.
— Todos?
— Todos.
— Família incluída?
— Eu disse todos.
— Sarah, Rachel e Rebecca?
— Não estou acusando minha mãe ou minhas irmãs de coisa alguma. Quero saber com quem falaram, quem trabalha próximo delas, quem viu documentos, quem ouviu conversas. Cerimonialistas, funcionários, fornecedores, motoristas. Rebecca começou os preparativos hoje. Quero a lista completa.
— Certo.
— E verifique o shopping.
Paul franziu a testa.
— O que aconteceu no shopping?
— Não sei.
— Então o que devo procurar?
— Pessoas que não deveriam estar próximas de Renesmee e estiveram.
Ele assentiu.
Eu não tinha qualquer informação de que algo acontecera durante a manhã. Rachel não mencionara problemas, e a equipe de segurança não reportara ocorrências. Em circunstâncias normais, isso bastaria.
Depois do interrogatório, não bastava mais.
O carro entrou em Manhattan e continuei olhando pela janela enquanto organizava mentalmente o restante do dia. Passaria pela mansão, veria Renesmee e Claire, confirmaria pessoalmente que estavam bem e depois seguiria para Allentown. Não precisava contar a Renesmee sobre Saint Agnes ainda. Antes de colocar diante dela perguntas sobre uma história que começava antes mesmo de possuir lembranças, eu precisava saber se existiam respostas.
E, principalmente, que tipo de respostas eram.
Durante vinte anos, Renesmee acreditara que não tinha família.
Talvez a irmã Margaret simplesmente confirmasse isso.
Talvez me dissesse que uma mulher assustada abandonara a filha porque não podia criá-la, ou que alguém deixara uma criança diante das portas do convento e desaparecera.
Histórias assim existiam.
Mas havia outra possibilidade que me incomodava desde que Embry colocara aquele relatório sobre minha mesa.
Renesmee não havia sido abandonada sem identidade.
Alguém havia se dado ao trabalho de apagar a identidade dela.
E eu queria saber quem.
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