A esposa do Don
25 Uma Cullen
JACOB
A pergunta da irmã Margaret não tinha sido feita por simples curiosidade. Havia cautela em seu olhar, uma proteção imediata que me dizia que, mesmo depois de tantos anos, Renesmee não era apenas mais um nome perdido entre os registros de Saint Agnes. Aquela mulher se lembrava dela e, mais importante, considerava que ainda tinha alguma responsabilidade sobre o que podia ou não ser dito a seu respeito. Eu poderia ter começado aquela conversa apresentando documentos, mencionado os investigadores que já haviam reconstruído parte da história da instituição ou usado meu nome para pressioná-la. Não fiz nenhuma dessas coisas. A mulher diante de mim não parecia facilmente intimidável e, se realmente guardava alguma informação havia vinte anos, começar por uma ameaça seria a maneira mais eficiente de fazê-la encerrar a conversa.
— Renesmee é minha noiva — respondi.
A reação foi maior do que eu esperava. A irmã Margaret afastou ligeiramente as costas da mesa, os olhos se ampliaram por trás dos óculos e, durante alguns segundos, esqueceu qualquer esforço para esconder a surpresa.
— Sua noiva?
— Sim.
Ela me observou demoradamente, como se tentasse conciliar a jovem que conhecera com o homem sentado diante dela. Eu não tinha intenção de explicar nosso contrato, os motivos que haviam colocado Renesmee em minha casa ou as circunstâncias pouco convencionais que nos levariam ao altar dentro de quinze dias. Nada disso dizia respeito àquela conversa.
— Renesmee vai se casar? — perguntou finalmente, e havia alguma coisa diferente em sua voz. — Eu não sabia.
— Ainda não anunciamos o casamento. A cerimônia acontecerá em breve.
— E ela sabe que o senhor está aqui?
A pergunta era previsível.
— Não.
A irmã Margaret franziu o cenho.
— Então veio investigar sua noiva sem o conhecimento dela.
— Vim esclarecer uma parte da vida dela sobre a qual nem ela possui respostas.
— Talvez exista uma razão para isso.
— É justamente essa razão que pretendo descobrir.
Ela apoiou novamente as mãos sobre a mesa e seu olhar se tornou mais severo.
— Senhor Black, todas as crianças que passaram por esta instituição tiveram suas histórias protegidas. Algumas foram abandonadas, outras retiradas de situações muito difíceis, algumas chegaram até nós em circunstâncias que envolveram pessoas que não desejavam ser encontradas. A confidencialidade não existe apenas para proteger os adultos. Muitas vezes ela existe para proteger a própria criança, mesmo quando essa criança cresce.
— Renesmee não é mais uma criança.
— Isso não significa que perdeu o direito à proteção.
— Concordo. É uma das razões pelas quais estou aqui.
A resposta fez com que ela permanecesse em silêncio durante alguns segundos. Não desviei os olhos. Eu sabia exatamente o que estava fazendo e também sabia que aquela mulher provavelmente perceberia muito rápido que minha preocupação não anulava meu interesse em obter informações. Eu não precisava fingir altruísmo absoluto. Não seria convincente.
— O senhor sabe alguma coisa sobre a infância de Renesmee? — ela perguntou.
— Sei que foi deixada aqui ainda muito pequena. Sei que não havia registro confiável de seus pais, que Miller não era o sobrenome com o qual chegou e que foi atribuído posteriormente pela instituição. Sei também que o nome Renesmee estava associado a ela desde o início, embora os registros que chegaram até meus homens não esclareçam de onde veio. Depois disso, sei que cresceu aqui, não foi adotada e permaneceu ligada a Saint Agnes até ter idade suficiente para construir a própria vida.
A expressão da irmã Margaret endureceu quando mencionei meus homens.
— O senhor já investigou a instituição.
— Investiguei Renesmee. Saint Agnes faz parte da história dela.
— Sem autorização.
— Não precisei de autorização para consultar informações públicas e registros aos quais meus representantes tiveram acesso de maneira legítima. O que não estava disponível por esses meios é justamente o motivo de eu estar sentado diante da senhora.
— E se eu disser que não há mais nada?
— Não acreditarei.
Ela pareceu ofendida.
— Está me chamando de mentirosa?
— Não. Estou dizendo que a senhora mudou de expressão no instante em que pronunciei o nome dela. Também perguntou o que eu queria com Renesmee antes de perguntar o que eu desejava saber. Isso significa que sua primeira preocupação foi comigo, não com os registros. A senhora sabe alguma coisa que considera necessário proteger.
A irmã Margaret retirou os óculos e os colocou lentamente sobre a mesa.
— O senhor observa demais.
— É uma necessidade profissional.
— E qual é exatamente sua profissão, senhor Black?
Permiti que alguns segundos passassem antes de responder.
— Administro empresas e os interesses da minha família.
Ela me olhou como se soubesse que aquela era uma resposta cuidadosamente incompleta.
— Imagino que sejam muitos interesses.
— O suficiente.
— E dinheiro também não parece ser um problema.
— Não é.
A franqueza pareceu incomodá-la ainda mais.
— Se veio acreditar que pode comprar informações sobre uma criança que foi confiada a esta casa...
— Não termine essa frase atribuindo a mim uma intenção que eu não manifestei, irmã.
Minha voz não se elevou. Não precisava.
Ela voltou a colocar os óculos.
— Então por que mencionou dinheiro?
— Eu não mencionei. A senhora mencionou.
A irmã Margaret sustentou meu olhar e, por alguns segundos, o silêncio entre nós deixou de ser apenas cauteloso. Havia resistência naquela mulher, mas não ingenuidade. Ela sabia que eu não havia viajado de Nova York até Allentown para aceitar uma negativa educada e retornar para casa. Ao mesmo tempo, eu sabia que não conseguiria nada útil transformando aquilo em uma disputa de autoridade.
Inclinei-me discretamente para a frente, mantendo as mãos unidas sobre a mesa.
— Não vim ameaçar a senhora e não vim comprar um nome. Renesmee será minha esposa. Ela viverá em minha casa, estará cercada pela minha família e carregará meu sobrenome. Se existe alguma coisa em sua origem que possa alcançá-la no futuro, eu preciso saber antes que isso aconteça.
— “Precisa” é uma palavra bastante conveniente.
— Nesse caso, é precisa.
— E Renesmee concordaria com isso?
A pergunta me atingiu exatamente onde deveria.
— Provavelmente não.
A honestidade a surpreendeu.
— Ainda assim está aqui.
— Estou.
— Por quê?
— Porque tenho condições de descobrir a verdade sem a ajuda da senhora. Isso apenas levará mais tempo e envolverá mais pessoas. Prefiro que não seja assim. Se o que a senhora protege é realmente a privacidade de Renesmee, conversar comigo pode ser a maneira de preservá-la.
Ela ficou calada.
Continuei antes que decidisse encerrar o assunto.
— Meus homens já sabem que existe uma inconsistência na origem dela. Sabem que o sobrenome foi criado aqui e que alguém deixou uma criança sem documentação suficiente para estabelecer sua identidade. A investigação pode continuar. Posso colocar pessoas procurando registros hospitalares, funcionários antigos, arquivos de igrejas, certidões, desaparecimentos, adoções interrompidas e qualquer outra coisa que exista naquela época. Não estou dizendo isso como ameaça. Estou explicando o que acontecerá se eu sair desta sala sem respostas.
— O senhor sempre consegue aquilo que quer?
— Não.
A resposta pareceu surpreendê-la novamente.
— Mas costuma tentar dessa maneira?
— Costumo utilizar os recursos que possuo.
— Poder.
— Também.
A irmã Margaret respirou profundamente e desviou os olhos para a janela. Abaixo dela, eu conseguia ouvir vagamente as crianças no pátio. Durante alguns instantes, a mulher não falou, e eu respeitei o silêncio porque sabia que pressioná-la naquele momento produziria o efeito contrário. Quando voltou a olhar para mim, sua expressão parecia menos defensiva, embora ainda estivesse longe de ceder.
— Renesmee era uma menina muito especial.
Não respondi imediatamente.
Ela continuou.
— Inteligente, teimosa, curiosa. Quando ficou maior, começou a ajudar com as crianças menores. Tínhamos de lembrá-la de que não era responsável por todas elas. Ela acreditava que era.
Aquilo me pareceu tão perfeitamente compatível com a mulher que conhecia que quase sorri.
— Continua fazendo isso.
A irmã Margaret me estudou.
— Então o senhor a conhece um pouco.
— Estou começando.
— E pretende mesmo se casar com ela?
— Daqui a quinze dias.
— Quinze dias... — repetiu, mais para si mesma. — Ela sempre dizia que não queria um casamento grande.
— Terá cem convidados.
A mulher arregalou os olhos.
— Isso é pequeno?
— Para minha família, é praticamente uma cerimônia clandestina.
Um sorriso involuntário surgiu no rosto dela e desapareceu pouco depois.
— Renesmee vai odiar metade disso.
— Já suspeito.
— Ela não gosta de chamar atenção.
— Também percebi.
A irmã Margaret voltou a ficar séria.
— Se realmente pretende fazer parte da vida dela, senhor Black, deveria entender que algumas respostas não podem ser retiradas de uma pessoa depois que são entregues. Existem verdades que mudam a maneira como alguém compreende a própria história.
— Concordo.
— Ainda quer saber.
— Mais do que quando entrei nesta sala.
Ela ficou em silêncio novamente.
Eu sabia que estava próxima de alguma coisa. Não sabia se seria uma resposta importante ou apenas uma história antiga que aquela mulher havia transformado em segredo durante duas décadas, mas a resistência já não era a mesma.
— Saint Agnes precisa de reformas — ela disse de repente.
A mudança de assunto não me confundiu.
Olhei ao redor da sala.
— Percebi.
— A ala onde ficam as crianças menores tem problemas no telhado. Temos um projeto para reformar os dormitórios e outro para ampliar a biblioteca. Passamos boa parte do ano procurando doadores.
— Quanto?
Ela imediatamente ergueu o queixo.
— Eu não estou vendendo informações.
— Não disse que estava.
— O senhor perguntou quanto.
— Porque acabou de me dizer que a instituição precisa de dinheiro.
Ela apertou os lábios.
— O senhor é muito difícil.
— Também já me disseram.
— Não quero seu dinheiro em troca do que vou dizer.
— Então não será em troca. Faça o seguinte: se, depois desta conversa, a senhora considerar que minha presença aqui não prejudicará Renesmee, envie os projetos para meu escritório. Minha equipe avaliará o que Saint Agnes precisa e cuidaremos do necessário.
— Sem condições?
— Uma.
Ela imediatamente ficou alerta.
— Qual?
— Que o dinheiro seja utilizado nas crianças. Não estou interessado em financiar administração desnecessária.
A irmã Margaret soltou uma respiração curta.
— Isso não será um problema.
— Então não temos um problema.
Ela me observou por muito tempo.
— Agora entendo por que seus homens pareciam tão seguros de que o senhor conseguiria falar comigo.
— Meus homens não costumam apostar contra mim.
— Imagino que não seja saudável.
Dessa vez eu realmente quase sorri.
A mulher diante de mim, entretanto, voltou rapidamente à questão que importava.
— Vou abrir uma exceção, senhor Black. Não porque o senhor esteja me oferecendo ajuda financeira. Quero que isso fique absolutamente claro.
— Está claro.
— Vou fazer porque Renesmee é importante para mim e porque percebi, desde o momento em que entrou aqui, que o senhor é um homem com recursos suficientes para continuar procurando independentemente da minha colaboração. Se essa história será aberta novamente, prefiro que aconteça com o menor número possível de pessoas envolvidas.
— É exatamente o que estou oferecendo.
— Não. — Ela balançou a cabeça. — O senhor está oferecendo discrição porque ela também lhe convém.
Não contestei.
— As duas coisas podem ser verdade.
Ela aceitou a resposta com um pequeno movimento de cabeça.
— Existe algo sobre Renesmee que nunca entrou nos registros comuns desta instituição.
Minha atenção se concentrou completamente nela.
— O quê?
— Um segredo que guardei durante vinte anos.
— Por quê?
— Porque prometi.
— A quem?
Ela não respondeu.
— Irmã Margaret.
— Espere aqui.
Ela se levantou.
Acompanhei seus movimentos enquanto contornava a mesa e caminhava até a porta. Antes de sair, a religiosa ainda me lançou um olhar difícil de interpretar, como se estivesse reconsiderando pela última vez a decisão que acabara de tomar.
— Não saia desta sala.
— Não pretendo.
Ela abriu a porta e desapareceu pelo corredor.
Continuei sentado.
Os minutos seguintes passaram devagar. Não peguei o telefone, não procurei Solomon e não tentei descobrir para onde ela havia ido. Se aquela mulher mantivera alguma coisa escondida durante vinte anos, eu podia conceder-lhe alguns minutos para buscá-la.
A porta finalmente se abriu.
A irmã Margaret entrou carregando uma pasta antiga contra o peito.
Não era um arquivo institucional moderno. A capa estava desgastada nas bordas, sem identificação visível, e parecia ter passado anos guardada em algum lugar onde poucas pessoas tinham acesso.
Ela fechou a porta com cuidado, retornou à mesa e se sentou diante de mim. Por alguns segundos, manteve uma das mãos sobre a pasta.
Meu olhar desceu para ela.
— Isso pertence a Renesmee?
— De certa maneira.
— O que tem aí?
A irmã Margaret respirou profundamente, então empurrou a pasta alguns centímetros na minha direção, mas ainda não a abriu.
Quando tornou a olhar para mim, toda a resistência que demonstrara desde minha chegada havia sido substituída por uma seriedade que me fez compreender que eu não viajara até Allentown por nada.
— Eu não sei quem são os pais biológicos de Renesmee, senhor Black — disse ela. — Mas talvez o senhor saiba.
A irmã Margaret permaneceu com a mão sobre a pasta durante alguns segundos depois daquela afirmação, e pela primeira vez desde que eu entrara naquela sala tive a impressão de que ela não sabia exatamente como continuar. Não era medo de mim. Era o peso de uma história guardada durante tempo demais. Eu não a apressei. Se aquela pasta estivera escondida por vinte anos e era importante o suficiente para que uma mulher já idosa ainda a mantivesse fora dos registros oficiais da instituição, alguns minutos não fariam diferença. Margaret finalmente empurrou o arquivo na minha direção, mas manteve os dedos sobre a capa antes que eu pudesse abri-la.
— Antes que veja o que existe aí, preciso contar como Renesmee chegou às minhas mãos. Algumas coisas só farão sentido se o senhor souber exatamente o que aconteceu naquela noite.
— Estou ouvindo.
Ela retirou a mão, e abri a pasta.
Havia poucos objetos dentro. Duas fotografias antigas, alguns papéis que reconheci como anotações feitas pela própria instituição e um pequeno medalhão envolvido em um pedaço de tecido já amarelado pelo tempo. Minha atenção se prendeu imediatamente à joia. Não porque fosse especialmente valiosa, embora certamente tivesse sido cara, mas porque reconheci o símbolo gravado no metal antes mesmo de tocá-lo.
Meu corpo permaneceu imóvel enquanto meus olhos se fixavam naquele desenho.
Eu conhecia aquele símbolo.
Qualquer homem que ocupasse minha posição o conheceria.
Cullen.
Peguei o medalhão.
O metal estava frio entre meus dedos. Virei a peça e encontrei uma pequena inscrição gravada no verso. As palavras estavam desgastadas, mas ainda perfeitamente legíveis.
"Com carinho."
Abri o medalhão.
De um lado havia a fotografia de uma mulher que eu conhecia apenas por imagens antigas e arquivos de família. Renee Swan. Do outro, Esme Cullen.
Durante alguns segundos, simplesmente olhei para aqueles dois rostos. Então tornei a olhar para o símbolo na parte externa.
Cullen.
A irmã Margaret começou a falar, mas precisei de alguns segundos para realmente registrar suas palavras.
— Há pouco mais de vinte anos eu ainda não permanecia em Saint Agnes em tempo integral. Trabalhava aqui, mas minha família continuava fazendo parte da minha vida e eu tinha uma sobrinha de quem era muito próxima. Ela morava em Manhattan. Estava grávida e, quando entrou em trabalho de parto, fui para Nova York porque não havia mais ninguém que pudesse acompanhá-la.
Meu olhar continuou preso ao medalhão.
— Qual hospital?
Ela disse o nome e eu o conhecia.
Não porque tivesse qualquer importância para mim atualmente, mas porque lembrava de alguma coisa relacionada aos Cullen naquele período. Uma memória antiga, enterrada entre centenas de informações que eu acumulara ao longo dos anos, começou a se mover lentamente.
— Continue.
Margaret juntou as mãos sobre a mesa.
— Minha sobrinha teve complicações durante o parto. Os médicos tentaram salvá-la, mas ela morreu. A criança também não sobreviveu. Era uma menina.
Levantei os olhos.
A freira respirou profundamente antes de prosseguir.
— Eu estava em choque. Passei algum tempo sem conseguir entender o que estava acontecendo. Depois me permitiram vê-las. Minha sobrinha e a criança tinham sido levadas para uma área próxima ao necrotério enquanto resolviam a documentação. Eu deveria ter permanecido acompanhada, mas naquela noite o hospital entrou em uma confusão que nunca consegui compreender completamente.
— Que tipo de confusão?
— Pessoas entraram no hospital. Muitas. Houve gritos nos corredores, seguranças correndo, funcionários tentando fechar setores. Eu ouvi alguém dizer que homens armados tinham invadido uma das entradas. Outros diziam que estavam procurando uma criança. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo.
Minha mão apertou discretamente o medalhão.
Margaret continuou, e quanto mais ela falava, menos eu gostava da direção daquela história.
— Eu estava perto da minha sobrinha quando um casal entrou naquela área. Eles não deveriam estar ali. Percebi imediatamente. A mulher carregava uma criança enrolada em uma manta e estava desesperada. O homem que a acompanhava estava ferido, havia sangue na roupa dele e... — Ela hesitou. — Ele tinha uma arma.
— Eles disseram os nomes?
— Não.
— A senhora reconheceu algum deles?
— Não. Nunca os tinha visto.
— Descreva-os.
— Depois de vinte anos?
— Tudo de que se lembrar.
Margaret pensou por alguns instantes.
— O homem era alto, cabelos acobreados. Talvez tivesse quarenta anos, talvez menos. Naquele momento eu não estava prestando atenção à idade. A mulher era mais jovem, também estava machucada e chorava muito. Ela segurava a criança com tanta força que lembro de ter pensado que poderia machucá-la.
— E então?
— O homem viu minha sobrinha.
O medalhão continuava aberto sobre minha mão.
— E viu a bebê morta — ela acrescentou.
Já sabia qual seria a próxima parte antes que ela dissesse.
Ainda assim, ouvi.
— Ele ficou olhando para as duas por alguns segundos. Depois olhou para a criança que a mulher carregava. Foi quando teve a ideia.
Margaret fechou os olhos por um instante, como se ainda conseguisse enxergar aquela sala.
— Ele apontou a arma para mim e pediu que eu ficasse em silêncio. Não gritou, não parecia querer me ferir. Apenas disse que eu não poderia chamar ninguém. Eu estava aterrorizada e obedeci. A mulher começou a dizer que não, que eles não poderiam fazer aquilo, mas ele segurou o rosto dela e disse que era a única maneira de salvar a criança.
— Salvar de quem?
— Não disseram.
Minha voz se tornou mais baixa.
— O que aconteceu depois?
Margaret olhou para o medalhão em minha mão.
— A mulher veio até mim.
Houve uma mudança na voz dela.
— Ela colocou a bebê nos meus braços. Era muito pequena. Devia ter poucas horas, talvez nem isso. Estava viva, saudável e chorava. A mulher beijou o rosto dela várias vezes antes de me entregar. Eu me lembro porque mal conseguia soltá-la. O homem insistia que precisavam ir. Ela me segurou pelo braço e pediu que eu cuidasse da criança. Pediu que eu nunca dissesse a ninguém de onde ela tinha vindo e que não permitisse que descobrissem que estava viva.
Olhei novamente para as fotografias dentro do medalhão.
Renee Swan.
Esme Cullen.
Duas mulheres ligadas diretamente à família Cullen.
Aquilo não podia ser coincidência.
— Ela disse o nome da criança?
— Não
Meu olhar se ergueu imediatamente.
— Tem certeza?
— Absoluta. Apenas pediu que a protegesse. Depois colocou esse medalhão junto da manta e pediu que eu guardasse.
— E o homem?
— Ele foi até onde estava o corpo da filha da minha sobrinha.
Margaret ficou em silêncio por alguns segundos antes de terminar.
— Eles levaram a bebê morta.
A sala pareceu menor.
— Explique.
— O homem pegou o corpo da criança que minha sobrinha havia acabado de perder. Enrolou-a em outra manta e entregou à mulher. Ela estava desesperada, mas fez o que ele pediu. Antes de saírem, ele me disse novamente que eu jamais deveria contar o que tinha visto. Disse que, se alguém viesse procurar aquela criança, eu deveria dizer que nunca a tinha visto.
— Eles trocaram as crianças.
— Sim.
A palavra saiu baixa.
Eu me recostei lentamente na cadeira, ainda segurando o medalhão.
A partir dali, não era difícil compreender o restante. Uma criança viva precisava desaparecer.
Uma criança morta precisava aparecer em seu lugar.
O caos no hospital fornecera a oportunidade.
O casal saíra levando um cadáver que poderia ser apresentado como prova de que a criança procurada havia morrido, enquanto a verdadeira menina desaparecia nos braços de uma religiosa que ninguém teria motivo para associar aos acontecimentos.
— Como Renesmee chegou a Saint Agnes?
— Eu a trouxe comigo. Não naquela mesma noite. Esperei até conseguir resolver a situação da minha sobrinha e depois voltei para Allentown. Não registrei as circunstâncias verdadeiras da chegada. Disse apenas que a criança havia sido deixada sob nossos cuidados e que não possuíamos informações sobre os pais.
— E Miller?
— Precisávamos de um nome e sobrenome para os documentos. Vi os nomes escritos no medalhão e juntei as iniciais, Renesmee, já o Miller não significava nada. Foi escolhido justamente por isso.
Olhei para a pasta.
— A senhora nunca investigou o medalhão?
— Não.
— Durante vinte anos?
— Eu fiz uma promessa.
— A uma mulher armada fugindo de homens que invadiram um hospital.
— A uma mulher desesperada tentando salvar uma criança.
A correção foi imediata.
— Nunca contou a Renesmee?
— Não.
— Por quê?
— Porque não sabia o que contar. Eu não sabia quem eram aquelas pessoas, não sabia quem estava atrás da criança e não sabia se o perigo havia terminado. Quando Renesmee começou a fazer perguntas sobre sua origem, eu disse o que todos aqui sabiam: que havia chegado ainda bebê e que não tínhamos informações sobre os pais. Durante muito tempo considerei entregar o medalhão a ela quando completasse dezoito anos.
— Por que não entregou?
Margaret olhou diretamente para mim.
— Porque alguns meses antes do aniversário dela, dois homens vieram até Saint Agnes fazendo perguntas sobre registros antigos.
Meu olhar se tornou mais atento.
— Que homens?
— Não deram nomes verdadeiros. Disseram que procuravam informações para uma família. Perguntaram especificamente sobre meninas deixadas aqui aproximadamente vinte anos antes.
— Perguntaram por Renesmee?
— Não exatamente.
— Então como sabe que procuravam por ela?
— Porque perguntaram se alguma criança havia chegado sem documentação naquele período e se existiam objetos deixados junto dela.
Meus dedos se fecharam sobre o medalhão.
— Objetos.
— Sim.
— Como joias.
— Exatamente.
Aquilo mudava tudo.
— O que a senhora disse?
— Nada. Disse que não tínhamos registros tão antigos disponíveis e que não sabia de objeto algum. Depois disso, retirei esta pasta do arquivo que já mantínhamos separado e passei a guardá-la pessoalmente.
— Eles voltaram?
— Nunca.
Olhei novamente para o símbolo.
Aquela história não tinha terminado vinte anos antes.
Alguém continuara procurando.
— E as fotografias? — perguntei.
Margaret indicou a pasta.
— Estavam junto do medalhão.
Retirei as duas imagens soltas.
A primeira era antiga. Uma fotografia de família. Reconheci alguns rostos imediatamente, mesmo mais jovens. Os Cullen não eram uma família desconhecida para mim. Edward. Esme. Carlisle. Outros parentes próximos.
A segunda fotografia fez minha atenção se prender por mais tempo.
Era Edward Cullen.
No verso havia uma anotação curta, parcialmente apagada pelo tempo.
Virei a fotografia para Margaret.
— Isso também estava com ela?
— Sim.
Minha cabeça começou a organizar datas antes mesmo que eu conscientemente decidisse fazê-lo.
Sim. Esse trecho voltou justamente para o estilo que você não quer: frases curtas empilhadas para criar suspense artificial. Para Jacob, fica muito melhor o choque acontecer dentro do raciocínio dele, em parágrafos longos, enquanto as informações se conectam. Eu mudaria todo esse trecho para:
A história que a irmã Margaret acabara de me contar começou a se encaixar com informações que eu conhecia havia muitos anos, e quanto mais eu tentava encontrar outra explicação para o que estava diante de mim, menos possibilidades restavam. A data coincidia, Manhattan coincidia e, principalmente, a invasão daquele hospital coincidia com um dos episódios mais violentos da história recente dos Cullen. Eu conhecia a versão que circulava entre as organizações. Edward Cullen tivera uma filha, sua primeira descendente direta, e a criança havia morrido ainda bebê durante um ataque cujos detalhes a família nunca permitira que fossem discutidos fora de seu círculo. Não era uma história que eu tivesse qualquer motivo para investigar até aquele momento. Para mim, sempre fora apenas mais uma tragédia de uma família poderosa que enterrara seus mortos e tratara o restante como assunto privado.
Agora eu tinha nas mãos um medalhão com o símbolo dos Cullen, encontrado junto de uma criança retirada justamente de um hospital de Manhattan naquela mesma época. Dentro dele estavam os rostos de Renee Swan e Esme Cullen, duas mulheres ligadas à família de Edward de maneiras que tornavam impossível considerar aquilo uma coincidência. E havia ainda a fotografia que eu segurava, mostrando Edward muito mais jovem com uma criança nos braços. Não precisava de um investigador para compreender o que estava diante de mim, embora precisasse de provas antes de transformar aquela conclusão em fato. Eu havia construído minha vida aprendendo que aquilo que parecia evidente podia ser exatamente o que alguém queria que eu acreditasse, e não cometeria o erro de aceitar uma história dessa magnitude apenas porque todas as peças pareciam se encaixar.
A irmã Margaret percebeu meu silêncio e me observou com atenção antes de perguntar:
— O senhor reconhece essas pessoas?
Mantive os olhos na fotografia por mais alguns segundos antes de responder. Havia muitas coisas que eu poderia dizer àquela mulher, mas nenhuma delas deveria sair daquela sala antes que eu soubesse exatamente o que estava acontecendo.
— Reconheço.
Margaret pareceu surpresa.
— Então sabe de que família ela veio?
Coloquei a fotografia cuidadosamente sobre a mesa e voltei a atenção para o medalhão aberto em minha mão.
— Sei a quem esse símbolo pertence. Também reconheço as pessoas nas fotografias. Isso não é suficiente para determinar quem são os pais de Renesmee, mas é muito mais do que tínhamos quando entrei nesta sala.
— Eu imaginei que o senhor pudesse saber — ela respondeu. — Quando seus homens começaram a fazer perguntas e me disseram seu nome, pensei que talvez pertencesse ao mesmo... círculo dessas pessoas.
A palavra escolhida por ela quase me fez sorrir.
— Não pertencemos ao mesmo círculo, irmã. Digamos apenas que nossas famílias se conhecem.
Ela assentiu, embora evidentemente não compreendesse o tamanho daquela simplificação. Voltei a pegar a fotografia de Edward. Conhecia aquele rosto muito bem e conhecia também a história de sua filha. O que me incomodava era que a criança que os Cullen haviam enterrado não deveria ter sobrevivido àquela noite. Se a narrativa de Margaret fosse verdadeira, porém, alguém havia retirado a filha de Edward daquele hospital, substituído seu corpo pelo de outra recém-nascida e criado provas suficientes para fazer uma das famílias mais poderosas que eu conhecia acreditar durante vinte anos que sua herdeira estava morta.
Foi então que me lembrei do nome.
Não Renesmee. O outro.
Elizabeth.
A filha de Edward Cullen se chamava Elizabeth Cullen.
Meu olhar voltou lentamente para a fotografia e, dessa vez, não precisei procurar semelhanças. Elas estavam ali. Algumas eram discretas demais para significarem qualquer coisa isoladamente, mas agora que eu sabia onde olhar, havia traços em Renesmee que poderiam perfeitamente pertencer àquela família. Ainda assim, aparência não provaria nada. Eu queria datas, registros, nomes e, acima de tudo, DNA antes de colocar Edward Cullen no meio daquela história.
— Senhor Black? — Margaret chamou novamente.
Coloquei a fotografia sobre a mesa e me recostei na cadeira, tentando compreender não apenas o que aquela descoberta significava para Renesmee, mas o que significava para tudo que eu havia planejado. Quando Sarah sugerira uma esposa contratual, uma das maiores vantagens de Renesmee era justamente sua ausência de vínculos. Ela não tinha pais interferindo, irmãos exigindo espaço, família poderosa negociando vantagens ou qualquer sobrenome capaz de transformar meu casamento em uma aliança política. Eu escolhera Renesmee Miller porque, entre outras razões, ela era completamente neutra dentro do nosso mundo.
Se aquilo fosse confirmado, eu havia cometido um erro de proporções quase absurdas.
Eu não estava prestes a me casar com uma mulher sem família. Estava prestes a colocar uma Cullen dentro da mansão Black.
E não qualquer Cullen.
A filha de Edward que acreditavam ter enterrado vinte anos antes estava viva, crescera em um orfanato sem saber quem era e, em quinze dias, se tornaria minha esposa.
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