A esposa do Don

43 Boate W( parte 2)


RENESMEE

“Ela fechou os olhos quando ele se aproximou, mas não recuou. Já havia passado tempo demais fingindo que não desejava aquele homem, e ambos sabiam que a distância entre eles deixara de existir muito antes daquele beijo.”

Li a frase mais uma vez e franzi a testa, porque a protagonista estava havia quase duzentas páginas negando o óbvio e começava a testar seriamente a minha paciência. Ajustei o travesseiro atrás das costas e acomodei melhor o livro sobre as pernas. O quarto estava silencioso, Will já dormia havia quase uma hora, Claire havia passado boa parte da noite comigo antes de recolher-se e Sarah também tinha ido para o próprio quarto. Jacob avisara durante o jantar que provavelmente chegaria tarde porque precisava passar em um de seus estabelecimentos. Não entrara em detalhes, e eu já aprendera que perguntar demais sobre alguns compromissos profissionais dele produzia respostas tão cuidadosamente vagas que era quase ofensivo. Por isso, depois de tomar banho, vesti uma camisola confortável, prendi parte do cabelo e decidi aproveitar o raro silêncio para ler.

Eu estava prestes a descobrir se a protagonista finalmente teria coragem de beijar o homem quando a porta do quarto se abriu sem uma única batida.

Levantei os olhos devagar.

Rachel entrou como se o quarto fosse dela.

Fechei o livro sobre o dedo para marcar a página.

— Rachel, um dia você vai abrir essa porta desse jeito e encontrar seu irmão sem roupa.

Ela continuou entrando tranquilamente.

— Eu cresci com Jacob. Já sobrevivi a traumas maiores.

— Eu estou falando sério.

— Eu também. — Ela fechou a porta atrás de si e olhou ao redor. — Além disso, meu irmão é tão controlador que provavelmente sente minha presença no corredor antes mesmo de eu tocar na maçaneta.

— Isso não melhora a situação.

— Melhora para mim.

— E se ele estiver fazendo alguma coisa?

Rachel finalmente me olhou.

— Renesmee, eu tenho filhos. Sei exatamente o que pessoas casadas fazem quando fecham a porta do quarto. Só espero que Jacob tenha adquirido o hábito civilizado de trancar.

Meu rosto esquentou.

— Você é impossível.

— É de família.

— Jacob vai adorar saber que você entrou assim no quarto dele.

— Nosso pai obrigou Jacob a dividir banheiro comigo quando éramos adolescentes. Ele sobreviveu. — Rachel se aproximou da cama e puxou o livro da minha mão antes que eu pudesse impedir. — E, pelo que vejo, eu cheguei na hora certa.

— Me devolve.

Ela leu rapidamente a capa.

— Romance?

— Sim.

— Numa sexta-feira?

— Livros funcionam em qualquer dia da semana.

— Não para uma mulher de vinte anos morando em Nova York.

Estendi a mão.

— Rachel.

Ela devolveu o livro.

— Vim resgatar você.

— De quê?

Rachel apontou para mim como se a resposta estivesse diante dela.

— Disso.

Olhei para minha camisola.

— Do meu pijama?

— Da sua vida.

— Minha vida está ótima.

— Você está na cama às onze da noite lendo romance enquanto meu irmão está trabalhando.

Olhei para o relógio no criado-mudo.

— São dez horas da noite.

— Eu sei ler relógio.

— O shopping está fechado.

Rachel ficou alguns segundos me encarando antes de começar a rir.

— Você acha que eu vim buscar você às dez da noite para ir ao shopping?

— Com você nunca se sabe.

— Eu não vou levar você ao shopping.

— Ótimo, porque você também não vai me levar a lugar nenhum.

Ela cruzou os braços.

— Essa parte ainda está em discussão.

— Não está.

— Está agora.

Abri o livro novamente.

— Boa noite, Rachel.

Ela arrancou o livro da minha mão outra vez.

— Você é irritante.

— Aprendi com seu irmão. Agora devolve.

— Não.

— Rachel.

— Renesmee, você tem vinte anos.

— Eu sei minha idade.

— Às vezes eu tenho dúvidas.

— Por quê? Porque eu gosto de ler?

— Porque você chegou a Nova York, casou com meu irmão, virou praticamente mãe de duas crianças em menos de dois meses, passa metade do tempo resolvendo problemas de Will, ajudando Claire, conversando com Sarah, aprendendo nome de funcionário e tentando salvar a hipoteca de uma senhora que nem conhece direito. Quando sobra uma noite, veste uma camisola e vai para a cama com um livro.

Sentei-me melhor.

— Primeiro, eu gosto da minha camisola. Segundo, eu gosto do meu livro. Terceiro, não estou tentando salvar hipoteca nenhuma sozinha. Pedi ajuda a Jacob.

— O que prova meu argumento.

— Qual argumento?

— Você está vivendo como se tivesse quarenta anos e três reuniões de pais e mestres pela manhã.

— Cuidar dos filhos do seu irmão fazia parte do acordo.

Rachel arqueou as sobrancelhas.

— Ah, não.

— O quê?

— Você não vai usar o contrato comigo.

— Por que não? Foi literalmente a razão pela qual vim morar aqui.

— Foi.

— Então?

Ela colocou meu livro sobre o criado-mudo.

— Eu sei que esse contrato já não existe da maneira que existia quando você chegou.

Fiquei olhando para ela.

Rachel sustentou meu olhar com uma tranquilidade irritante.

— Quem disse?

— Ninguém precisava dizer.

— Rachel...

— Nessie, por favor. Eu conheço Jacob desde antes de ele aprender a amarrar os próprios sapatos. Meu irmão não cancela uma tarde inteira de trabalho porque uma mulher apareceu no escritório dele se estiver apenas cumprindo contrato.

Meu rosto esquentou imediatamente.

— Como você sabe disso?

— Nova York é grande. Black Holdings é maior. Mas nenhuma das duas coisas é grande o suficiente para impedir fofoca.

— Meu Deus.

— Pelo que ouvi, a senhora Black apareceu sem marcar horário, interrompeu uma reunião que ninguém podia interromper e o Don cancelou todos os compromissos da tarde.

— Eu não mandei cancelar nada.

— Essa é justamente a parte divertida.

— Não aconteceu nada demais.

Rachel inclinou a cabeça.

— Claro.

— Não faça essa cara.

— Qual?

— Essa cara de quem está imaginando coisas.

— Não estou imaginando nada. Estou respeitando a privacidade do meu irmão e tentando não imaginar absolutamente coisa nenhuma.

Peguei um travesseiro e joguei nela.

Rachel segurou antes que atingisse seu rosto.

— Violência contra sua cunhada?

— Saia do meu quarto.

— Depois que você estiver vestida.

— Não vou sair.

Ela soltou o travesseiro e caminhou diretamente para o closet.

— Rachel!

Levantei da cama e fui atrás dela.

— Não mexa nas minhas coisas.

— Tecnicamente, metade disso foi comprado com dinheiro do meu irmão.

— Isso não dá a você direito algum.

— Eu sou irmã dele. Fui prejudicada financeiramente por esse homem durante toda a infância. Considere uma compensação.

— Você cresceu rica.

— Exatamente. Meus traumas são sofisticados.

Eu ri apesar de tentar continuar séria.

Rachel abriu uma das portas do closet e começou a examinar minhas roupas.

— O que você está procurando?

— Algo que diga que você tem vinte anos.

— Minhas roupas já dizem isso.

— Algumas dizem. Outras dizem “vou acompanhar Sarah a um almoço beneficente”.

— Eu gosto das roupas que Sarah escolhe.

— Eu também. Mas não vamos a um almoço beneficente.

A frase me fez parar.

— Aonde exatamente você pretende me levar?

— Dar uma volta.

— Isso não é um lugar.

— É o suficiente por enquanto.

— Não para mim.

Ela puxou um vestido preto do cabide, analisou e devolveu.

— Muito sério.

— Rachel.

Pegou outro.

— Muito esposa de mafioso.

— O que significa isso?

— Não sei, mas definitivamente significa esse vestido.

— Você percebe que seu irmão é meu marido, não é? Tecnicamente qualquer roupa minha pode ser roupa de esposa dele.

Rachel me lançou um olhar divertido.

— Essa resposta foi boa.

— Obrigada. Agora pode ir embora.

— Não.

Continuou procurando.

Cruzei os braços.

— Você não pode simplesmente entrar aqui e decidir que vamos sair.

— Posso. Acabei de fazer.

— Jacob vai...

Parei.

Rachel se virou imediatamente.

— Jacob vai o quê?

— Nada.

— Você ia dizer que Jacob não vai gostar.

— Eu não disse isso.

— Quase disse.

— Eu ia dizer que Jacob provavelmente vai querer saber.

— Ah, isso ele vai.

— Então você entende.

Rachel abandonou os cabides e se virou completamente para mim.

— Não. Eu entendo que meu irmão colocou segurança suficiente em volta de você para proteger uma pequena chefe de Estado. Entendo que você tem motorista, homens na porta e provavelmente alguém acompanhando até quando você compra café. O que eu não entendo é por que você está começando a agir como se precisasse da autorização dele para sair de casa.

— Eu não preciso.

— Então prove.

— Não tenho que provar nada.

— Ótimo. Vista-se.

Soltei uma risada.

— Sua lógica é péssima.

— Minha lógica colocou você de pé. Dez minutos atrás estava deitada.

Olhei para a cama e depois para ela.

— Will está dormindo.

— Minha mãe está aqui.

— Claire também.

— Claire tem quatorze anos e não precisa que você fique sentada ao lado da cama a noite inteira. Minha mãe está em casa, existem empregados e segurança em cada corredor e, caso aconteça alguma coisa, nós voltamos.

Aquilo me fez hesitar.

Rachel percebeu.

— Você não precisa abandonar ninguém para sair durante duas horas, Nessie.

— Não acho que estou abandonando.

— Eu sei. Mas você assumiu responsabilidades muito depressa. Will se apegou a você, Claire precisa de você e Jacob... — Ela fez uma pausa curta. — Bem, Jacob claramente perdeu parte do juízo. Só que você continua tendo vinte anos. Pode amar todos eles e ainda sair de casa numa sexta-feira.

Aquela parte atingiu de um jeito diferente.

Olhei para o livro abandonado sobre o criado-mudo.

— Eu nunca fui muito de sair.

— Porque não gosta ou porque nunca teve dinheiro e oportunidade?

Olhei para ela.

Rachel percebeu imediatamente que acertara.

— Não estou julgando.

— Eu sei.

— Então?

Dei de ombros.

— Em Allentown, sair significava gastar dinheiro. Quando eu tinha dinheiro, normalmente havia alguma coisa mais importante para fazer com ele. E depois vieram Emma, trabalho, as crianças dela... Não era uma prioridade.

Rachel assentiu.

— Então hoje não custa nada.

— Isso soa perigosamente como uma frase que antecede uma conta enorme.

— Sou uma Black. Contas enormes não nos assustam.

— A mim assustam.

— Você também é uma Black agora.

— Meu saldo bancário ainda não assimilou essa informação.

Ela riu e voltou para o closet.

— Vamos começar devagar.

— Eu ainda não disse sim.

— Mas já parou de dizer não.

— Isso não significa a mesma coisa.

— Na minha família significa.

Rachel puxou outro vestido, dessa vez mais simples, curto sem ser exagerado, e o colocou diante de mim.

— Esse.

Olhei.

— Para “dar uma volta”?

— Exatamente.

— Você está mentindo.

— Estou omitindo detalhes.

— Isso é mentira com boa educação.

— Conviver com Jacob está fazendo muito bem a você.

Peguei o vestido de sua mão.

— Para onde vamos?

— Conheço um lugar.

— Isso não respondeu.

— Tem música, bebida, gente e nenhuma criança pedindo ajuda com dever de matemática.

— Eu quase nunca ajudo Will com matemática.

— Porque ele provavelmente sabe mais que nós duas.

— Isso é verdade.

Rachel sorriu.

— Então vista.

Olhei novamente para o vestido.

— E se Jacob ligar?

— Você atende.

— E se perguntar onde estamos?

— Você responde.

— E se disser para voltarmos?

Rachel abriu um sorriso que imediatamente me fez desconfiar.

— Aí eu quero muito estar perto para ouvir você explicar ao grande Don Black que ele pode administrar portos, empresas e metade de Nova York, mas não decide a hora em que a esposa adulta dele precisa voltar para casa.

— Você está tentando começar uma briga no meu casamento.

— Não. Estou tentando descobrir se meu irmão encontrou finalmente uma mulher capaz de vencê-lo numa discussão.

— Isso não existe.

— Então pelo menos faça ele trabalhar pela vitória.

Eu ri, balancei a cabeça e olhei mais uma vez para o vestido.

— Duas horas.

Rachel abriu um sorriso satisfeito.

— Três.

— Duas.

— Duas e meia.

— Rachel.

— Está bem. Duas. — Ela ergueu as mãos em rendição e caminhou para a porta. — Vou esperar lá embaixo.

— E bata na porta da próxima vez.

Ela segurou a maçaneta.

— Se Jacob estiver sem roupa, prometo considerar.

— Rachel!

Ela saiu rindo.

Fiquei sozinha no closet com o vestido nas mãos, tentando entender em que momento uma noite tranquila lendo romance havia se transformado em uma saída com Rachel Black às dez horas da noite. Olhei para o celular sobre a cama e pensei em mandar uma mensagem para Jacob. Meu dedo chegou a tocar na tela, mas parei antes de abrir nossa conversa. Rachel tinha razão em pelo menos uma coisa: eu não precisava pedir autorização para sair.

Poderia simplesmente avisá-lo quando estivesse pronta.

Aquela decisão pareceu perfeitamente razoável.

O que eu ainda não sabia era que “dar uma volta”, no vocabulário de Rachel Black, possuía uma definição muito mais ampla do que no meu.

— Eu continuo achando que esse vestido é curto demais.

Fiz a reclamação pela terceira vez desde que saímos da mansão, puxando inutilmente a barra do vestido enquanto Rachel, sentada ao meu lado no banco traseiro, olhava para mim com a paciência de quem já tinha decidido que não responderia seriamente a nenhuma das minhas objeções. O vestido que ela escolhera era bonito, eu precisava admitir. Em um tom rosado delicado, coberto por pequenas aplicações brilhantes, ajustava-se ao meu corpo e terminava com franjas que se movimentavam a cada passo. O problema era justamente a quantidade de perna que aparecia quando aquelas franjas se mexiam. Rachel ainda tinha insistido nas sandálias de salto, nos brincos e em uma bolsa pequena que mal comportava meu celular.

— Você já disse isso — ela respondeu.

— Porque continua curto.

— E continuará curto independentemente da quantidade de vezes que você informar esse fato.

— Quando eu sento, ele sobe.

— Vestidos fazem isso.

— Quando eu ando, as franjas balançam.

Rachel virou o rosto lentamente para mim.

— Essa é literalmente a função das franjas, Nessie.

— Eu estava muito bem com meu livro.

— Você estava parecendo uma senhora aposentada às dez da noite.

— Eu estava confortável.

— Também estava casada com meu irmão aos vinte anos, cuidando dos filhos dele e lendo romance na cama enquanto Nova York acontecia do lado de fora. Considere isso uma intervenção familiar.

— Sua família tem um conceito muito particular de intervenção.

— Você ainda não viu nada.

O carro começou a diminuir a velocidade. Olhei pela janela esperando finalmente descobrir onde Rachel havia decidido me levar. Estávamos em uma região movimentada de Manhattan, mas o carro seguiu até uma entrada ampla diante de um prédio de fachada sofisticada, iluminação discreta e uma fila considerável organizada por seguranças. Acima da entrada havia um enorme W iluminado, integrado à arquitetura de um modo que deixava evidente que aquele não era exatamente o tipo de lugar onde eu teria entrado sozinha.

Olhei para Rachel.

Ela sorriu.

— Não.

— Sim.

— Isso é uma boate.

— Sua capacidade de observação é extraordinária.

— Você disse que íamos dar uma volta.

— Estamos dando.

— Rachel, dar uma volta é andar, conversar, talvez tomar um café.

— Isso é o que pessoas de oitenta anos chamam de dar uma volta.

O motorista abriu a porta e Rachel saiu antes que eu pudesse continuar discutindo. Fiquei alguns segundos no carro considerando seriamente a possibilidade de pedir ao homem que me levasse de volta para casa, mas Rachel apareceu do meu lado e estendeu a mão.

— Venha.

— Se seu irmão descobrir, você será a culpada pelo meu divórcio.

Rachel começou a rir.

— Se Jacob pedir divórcio porque você foi dançar comigo, eu mesma pago seu advogado.

— Com o dinheiro da família dele?

— Evidentemente. Quero que doa mais.

Não consegui segurar a risada.

— Você é péssima irmã.

— Sou excelente cunhada. Agora venha antes que você invente outra desculpa.

Segurei sua mão e desci.

O movimento das franjas imediatamente me fez puxar a barra outra vez.

Rachel bateu de leve na minha mão.

— Pare.

— Está subindo.

— Não está.

— Você não está usando.

— E agradeço todos os dias por não ter seu quadril.

— Rachel!

Ela riu e me puxou em direção à entrada.

Não enfrentamos a fila. Isso deveria ter sido minha primeira pista de que havia alguma coisa sobre aquele lugar que Rachel convenientemente não estava me contando. Os seguranças nos reconheceram antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. Um deles abriu a passagem imediatamente e outro falou alguma coisa pelo ponto eletrônico enquanto entrávamos. Eu presumi que fosse simplesmente porque ela era uma Black. Desde que me casara com Jacob, eu começara a perceber que o sobrenome funcionava como uma espécie de chave invisível em Nova York. Portas se abriam, filas desapareciam e pessoas que um segundo antes pareciam indiferentes subitamente sabiam nossos nomes.

Assim que atravessamos a entrada principal, a música tomou conta de tudo.

A boate era enorme.

Havia dois níveis visíveis, camarotes distribuídos no andar superior e uma pista central cercada por mesas e áreas reservadas. A iluminação mudava acompanhando a música, mas sem transformar o lugar naquela confusão de luzes que eu imaginava quando pensava em boates. Tudo parecia sofisticado. Garçons circulavam com bandejas, pessoas conversavam próximas ao bar, outras dançavam no centro da pista, e eu reconheci alguns rostos que provavelmente já tinha visto na televisão ou em alguma revista enquanto esperava no salão de beleza.

Parei por alguns segundos.

— Meu Deus.

Rachel olhou para mim.

— O quê?

— Isso é enorme.

— Gostou?

— Ainda estou decidindo.

— Você vai gostar.

— Você parece perigosamente confiante.

— Porque finalmente tirei você daquele quarto.

— Contra minha vontade.

— Você veio andando.

— Sob pressão psicológica.

Rachel riu e segurou minha mão, conduzindo-me entre as pessoas.

— Pare de analisar tudo.

— É minha primeira vez em uma boate assim.

Ela parou.

— Sua primeira vez?

— Sim.

— Em qualquer boate?

— Já fui a bares.

— Não perguntei sobre bares.

— Então sim.

Rachel me olhou como se eu tivesse acabado de confessar que nunca vira televisão.

— Definitivamente fiz a coisa certa.

— Não faça disso uma missão pessoal.

— Tarde demais.

Um garçom passou carregando uma bandeja com taças. Rachel pegou duas com naturalidade e colocou uma na minha mão.

Olhei para a bebida.

— O que é isso?

— Champanhe.

— Eu percebi. Perguntei porque você está me dando.

— Para beber.

— Rachel...

— Uma taça, Nessie. Não estou tentando embebedá-la.

— Seu irmão...

Ela arregalou os olhos.

— Se você começar uma frase com “seu irmão” mais uma vez nesta noite, eu vou ligar para Jacob e perguntar formalmente se a senhora Black tem autorização para respirar.

Comecei a rir.

— Está bem.

— Beba.

Tomei um pequeno gole.

Rachel levantou a própria taça.

— Pela sua primeira noite de verdade em Nova York.

— Isso é muito dramático.

— Conviver com Jacob contaminou você.

Toquei minha taça na dela.

— Por duas horas.

— Não estrague o brinde.

Bebemos.

Uma música conhecida começou e Rachel abriu um sorriso.

— Essa eu gosto.

— Rachel, não.

Ela já segurava minha mão.

— Vamos.

— Eu não vou para o meio daquela pista.

— Vai.

— Tem muita gente.

— Essa é outra característica bastante comum de uma boate.

— Eu odeio você.

— Daqui a dez minutos agradece.

Fui praticamente arrastada.

No início, fiquei consciente demais de tudo. Do vestido, dos saltos, das pessoas ao redor e principalmente do fato de que eu não fazia aquilo havia tanto tempo que nem sabia se ainda lembrava como simplesmente dançar sem pensar. Rachel, ao contrário, não tinha qualquer problema. Ela ergueu os braços, começou a acompanhar a música e me lançou um olhar que dizia claramente que eu deveria parar de me comportar como se estivesse diante de uma prova.

— Para de pensar! — gritou para que eu pudesse ouvi-la.

— Eu não estou pensando!

— Está sim!

— Como você sabe?

— Porque está com a mesma cara que Jacob faz quando está decidindo se demite alguém!

Eu ri.

E aquilo resolveu.

Comecei a acompanhar a música.

As franjas que eu passara vinte minutos criticando se movimentavam comigo e, pela primeira vez naquela noite, deixei de me preocupar com o comprimento do vestido. Rachel segurou minha mão e me fez girar, quase derramando minha bebida.

— Você vai me fazer cair!

— Você está de salto, não em pernas de pau!

— Para você é fácil!

— Eu tenho filhos e continuo viva. Você consegue!

Eu ria tanto que quase não conseguia responder.

Talvez Rachel tivesse razão. Não sobre eu viver como uma senhora de quarenta anos, porque aquilo continuava sendo um exagero ofensivo, mas sobre precisar sair um pouco. Desde que chegara a Nova York, tudo acontecera depressa demais. Coleman, o casamento, Will, Claire, Jacob, a mansão, funcionários, segurança, compromissos que eu nunca tivera antes. Até os momentos felizes pareciam vir acompanhados de alguma responsabilidade.

Ali, durante alguns minutos, não havia nenhuma.

Éramos apenas duas mulheres dançando.

Rachel se aproximou para dizer alguma coisa no meu ouvido quando seu olhar passou por cima do meu ombro.

O sorriso desapareceu.

— Merda.

— O quê?

Virei.

Um homem vinha atravessando a pista em nossa direção.

Reconheci Paul imediatamente.

Ele não parecia feliz.

Na verdade, Paul tinha exatamente a expressão de alguém que acabara de encontrar um problema que preferia não ter encontrado.

Rachel parou de dançar.

— Paul?

Ele chegou até nós e olhou primeiro para a esposa, depois para mim, depois novamente para Rachel.

— O que você está fazendo aqui?

Rachel levantou a taça.

— Dançando.

— Eu consigo ver.

— Então por que perguntou?

Paul respirou fundo.

— Rachel.

— Paul.

Ele apontou discretamente para mim.

— E ainda trouxe a esposa do Don.

— Ela tem nome.

— Eu sei perfeitamente o nome dela.

Olhei de um para o outro.

— Eu estou começando a sentir que existe alguma informação importante que ninguém me contou.

Paul passou a mão pelo rosto.

— Existe.

Rachel estreitou os olhos.

— O que você está fazendo aqui?

— Trabalhando.

Ela parou.

A mudança foi tão rápida que quase me fez rir.

— Trabalhando?

— Sim.

— Aqui?

— Sim, Rachel.

— Mas você...

Ela olhou ao redor.

Depois para Paul.

E então alguma coisa pareceu finalmente se encaixar.

— Se você está aqui...

Paul cruzou os braços.

— Exatamente.

Rachel ficou completamente imóvel.

— Jacob está aqui?

— Está.

Fechei os olhos por um segundo.

Quando abri, olhei lentamente para Rachel.

Ela evitou meu olhar.

— Rachel.

— Eu posso explicar.

— Você disse que conhecia um lugar.

— E conheço.

— Você disse que seu irmão estava trabalhando.

— E está.

— Aqui.

— Aparentemente.

Olhei para o enorme W, agora visível parcialmente através da decoração interna, e depois para Paul.

— Espera. Essa boate é do Jacob?

Paul respondeu:

— Sim.

Voltei imediatamente para Rachel.

— Por que você não me disse que a boate é do seu irmão?

— Porque ele nunca vem aqui!

Paul soltou uma respiração pesada.

— Ele é o dono.

— Eu sei que ele é o dono, Paul!

— Então “nunca” era uma aposta ruim.

Rachel apontou para ele.

— Não ajuda.

— Não estou tentando ajudar. Estou tentando entender como minha esposa saiu de casa às dez da noite com a esposa do Don e conseguiu escolher exatamente a boate onde ele resolveu aparecer hoje.

— Nova York tem milhões de lugares! — Rachel protestou. — Qual era a possibilidade?

— Considerando que metade dos lugares onde você gosta de ir pertence direta ou indiretamente ao seu irmão, maior do que você imagina.

Olhei para ela.

— Metade?

— Ele está exagerando.

Paul permaneceu sério.

— Não muito.

Eu comecei a rir.

Rachel virou o rosto para mim.

— Do que você está rindo?

Não consegui responder imediatamente.

— Nessie!

Levei a mão à boca, tentando controlar a risada.

— Do nosso azar.

— Isso não tem graça.

— Tem muita graça.

— Jacob está aqui!

— Eu entendi essa parte.

— Você não conhece meu irmão quando ele entra no modo Don.

— Eu durmo com seu irmão.

Paul fechou os olhos.

— Eu não precisava dessa informação.

Rachel olhou para ele.

— Você é casado comigo. Supere.

Paul respirou fundo e olhou ao redor. O marido divertido desapareceu e deu lugar ao homem que trabalhava para Jacob.

Ele chamou dois seguranças com um gesto.

Os homens se aproximaram imediatamente.

— Fiquem com elas.

Rachel franziu a testa.

— Não precisamos de babás.

— Não são babás.

— Paul...

— Rachel, por uma vez, não discuta.

A seriedade dele finalmente fez com que ela se calasse.

Paul voltou-se para os seguranças.

— Nenhuma das duas sai daqui sem me avisar. E ninguém se aproxima delas sem ser verificado.

Depois olhou para mim.

— Senhora Black, fique com Rachel por alguns minutos.

— Você vai contar para ele?

Paul me lançou um olhar quase piedoso.

— Preciso encontrar uma maneira de avisar o Don que a esposa dele está dançando no meio da boate dele antes que outra pessoa faça isso por mim.

Rachel fechou os olhos.

— Ele vai matar você.

Paul olhou para a própria esposa.

— Curioso. Eu estava pensando exatamente a mesma coisa sobre você.

— Eu não sabia que ele estava aqui.

— Isso certamente vai tranquilizá-lo.

— Paul!

Ele já começava a se afastar.

Olhei para Rachel novamente.

Ela estava parada com a taça na mão, observando o marido desaparecer entre as pessoas.

Não aguentei.

Comecei a rir outra vez.

Rachel virou-se para mim, indignada.

— Você ainda está rindo?

— Estou.

— Nós acabamos de descobrir que escolhemos justamente a boate do seu marido na única noite em que ele resolveu aparecer aqui.

— Eu sei.

— E Paul vai contar para ele.

— Eu também entendi essa parte.

— Então qual é a graça?

Segurei o braço dela e me aproximei para falar perto de seu ouvido, porque a música havia voltado a aumentar.

— Eu estava em casa, de camisola, quieta, lendo meu romance. Você invadiu meu quarto, escolheu esse vestido, me arrastou para fora de casa, trouxe justamente para uma boate do Jacob e ainda garantiu que ele nunca viria aqui.

Rachel me encarou por alguns segundos.

— Quando você fala desse jeito, parece culpa minha.

— Porque é.

Ela tentou manter a expressão séria.

Não conseguiu.

Começou a rir também.

— Nosso azar é inacreditável.

— Nosso não. Seu. Eu quero deixar isso muito claro quando ele aparecer.

— Traidora.

— Sobrevivente.

Nós duas ainda estávamos rindo quando Rachel ergueu a taça novamente, provavelmente decidida a aproveitar os poucos minutos que restavam antes que Jacob descobrisse exatamente onde sua esposa estava.

Apesar da descoberta de que havíamos escolhido justamente a boate de Jacob para nossa primeira saída juntas, Rachel e eu decidimos que não faria sentido ir embora imediatamente. Paul já sabia que estávamos ali, dois seguranças tinham sido colocados praticamente ao nosso lado e, em algum momento, Jacob também ficaria sabendo. Na minha opinião, o pior já havia acontecido. Eu ainda poderia argumentar que não fazia ideia de quem era o proprietário do lugar, enquanto Rachel teria de explicar por que, entre centenas de opções em Nova York, escolhera exatamente uma das propriedades do irmão. Essa perspectiva me divertia muito mais do que deveria.

— Pare de rir — Rachel reclamou enquanto voltávamos para a pista. — Quando Jacob aparecer, você vai descobrir que isso não tem graça nenhuma.

— Para mim tem bastante. Eu estava em casa, lembra? De camisola, lendo tranquilamente. Você me arrancou de lá, escolheu meu vestido e me trouxe para cá. Eu sou praticamente uma vítima.

— Quero ver você repetir “vítima” quando meu irmão perguntar por que estava dançando e bebendo champanhe.

— Eu tenho vinte anos e sou casada com ele, não estou em liberdade condicional.

Rachel me encarou por alguns segundos antes de sorrir.

— Finalmente. Era essa mulher que eu estava tentando tirar daquele quarto.

— Não se anime. Ainda pretendo colocar toda a culpa em você.

— Cunhada ingrata.

— Cunhada inteligente.

Voltamos a dançar e, depois de alguns minutos, a presença dos seguranças deixou de me incomodar tanto. Eles mantinham uma distância suficiente para não interferir, embora fosse impossível esquecer que estavam ali. Rachel aproveitava a música sem qualquer constrangimento e eu acabei fazendo o mesmo. Talvez o champanhe tivesse ajudado, talvez fosse apenas a sensação de estar fazendo algo que não envolvia a mansão, compromissos ou problemas de outras pessoas. Pela primeira vez em muito tempo eu estava simplesmente me divertindo, e a descoberta de que Jacob estava no mesmo lugar começava a parecer mais engraçada do que preocupante.

Depois de mais algumas músicas, aproximei-me de Rachel.

— Preciso ir ao banheiro.

— Eu vou com você.

— Não precisa me acompanhar.

Rachel olhou significativamente para os dois homens que Paul deixara conosco.

— Se eu não acompanhar, existe uma possibilidade real de esses dois ficarem esperando você na porta como se estivéssemos transportando documentos de Estado.

— Eles já estão fazendo exatamente isso.

— Então vamos juntas.

Saímos da pista e seguimos pelo corredor lateral, com os dois seguranças alguns passos atrás. Quando entramos no banheiro feminino e a porta se fechou, Rachel e eu paramos diante da bancada e soltamos praticamente o mesmo suspiro. Olhei para ela através do espelho e comecei a rir.

— Nunca imaginei que entrar em um banheiro feminino pudesse dar uma sensação tão grande de liberdade.

— Aproveite enquanto dura. Eles estão do outro lado da porta.

Abri a pequena bolsa e retirei o batom.

— Acho que deveríamos encontrar outra saída.

Rachel, que começava a ajeitar o cabelo diante do espelho, parou imediatamente.

— O quê?

— Não estou dizendo que vamos fazer isso. Estou apenas pensando que uma boate desse tamanho certamente tem corredores de serviço. Talvez exista outra saída do banheiro ou alguma porta que leve até uma área diferente.

Ela virou o corpo para mim.

— Você está planejando fugir dos seguranças?

— Fugir é uma palavra muito dramática. Eu diria que estou avaliando alternativas.

Rachel me observou por um instante e depois começou a rir.

— Você tem passado tempo demais com Claire.

— Não coloque sua sobrinha nisso.

— Isso tem Claire escrito em todas as partes. Algumas semanas atrás você provavelmente pediria licença até para atravessar um corredor. Agora está analisando rotas de fuga para escapar dos homens do Jacob.

— Eu não estou escapando do Jacob.

— Dos seguranças dele.

— Existe uma diferença.

— Para meu irmão, nenhuma.

Acabei rindo também enquanto passava o batom.

— Então esquece. Vamos voltar pela mesma porta, com nossos dois guarda-costas particulares, e esperar tranquilamente até seu irmão aparecer com aquela expressão que você chama de modo Don.

— Agora você está aprendendo.

Terminamos de retocar a maquiagem sem pressa. Rachel ainda tentou ajeitar uma mecha do meu cabelo, eu reclamei que ela já havia controlado meu vestido e não controlaria também meu penteado, e acabamos discutindo diante do espelho sobre qual das duas tinha sido responsável por eu estar ali. A conversa era tão banal que, quando abrimos a porta do banheiro, eu ainda estava sorrindo.

Rachel saiu primeiro. Eu vinha logo atrás dela quando ouvi um estampido seco e muito próximo. Não tive sequer tempo de entender que era um disparo antes que o vidro da parede ao meu lado se quebrasse violentamente, espalhando estilhaços pelo corredor. Levei as mãos ao rosto e gritei enquanto recuava.

— Meu Deus!

Um dos seguranças reagiu antes que eu conseguisse fazer qualquer outra coisa. Ele segurou meu braço, colocou-se entre mim e a direção de onde viera o disparo e me empurrou para baixo, cobrindo-me com o próprio corpo enquanto outros tiros ecoavam pela boate. A música continuou por poucos segundos, misturada aos gritos das pessoas, até ser interrompida. Foi então que tudo pareceu ainda pior. Sem a música, eu conseguia ouvir claramente os disparos, o vidro quebrando, pessoas correndo e homens gritando ordens que eu não compreendia.

— Fique abaixada, senhora Black! — o segurança ordenou enquanto sacava a arma.

Procurei Rachel desesperadamente e a encontrei poucos metros adiante, protegida pelo segundo homem.

— Rachel! Você está bem?

— Estou! — ela respondeu, tentando se aproximar. — Você se machucou?

— Não sei. Acho que não. O que está acontecendo?

— Eu não faço ideia!

Um novo disparo atingiu a parede próxima e o segurança que me protegia segurou meu braço com mais força.

— Precisamos sair desse corredor. Venha comigo e não levante a cabeça.

Não discuti. Naquele momento, teria obedecido a qualquer coisa que aquele homem dissesse. Ele esperou alguns segundos, avaliou a movimentação e me conduziu abaixada até o balcão mais próximo. Rachel chegou praticamente ao mesmo tempo, empurrada pelo outro segurança. Nós duas nos escondemos atrás do balcão enquanto os homens assumiam posições nas extremidades, tentando identificar de onde vinham os disparos.

Segurei a mão de Rachel com tanta força que meus dedos começaram a doer.

— Você está machucada?

— Não. E você?

Olhei rapidamente para meus braços e pernas. Havia pequenos pedaços de vidro presos ao tecido do vestido, mas não vi sangue.

— Não acho que tenha me cortado.

Rachel apertou minha mão.

— Então fica comigo e não levanta.

— Não pretendo levantar.

Um dos seguranças se ergueu apenas o suficiente para olhar por cima da lateral do balcão e disparou duas vezes. O barulho da arma tão perto fez meu corpo inteiro se contrair. Eu já tinha ouvido tiros antes, mas nunca daquela maneira, nunca cercada por pessoas correndo e sem saber quem estava atacando ou de onde viria o próximo disparo. A realidade era muito diferente de qualquer cena de filme. Não havia nada organizado naquela situação. Havia apenas ruído, medo e uma sensação sufocante de não saber o que aconteceria no segundo seguinte.

— Rachel, onde está Paul?

— Eu não sei. Provavelmente procurando o Jacob.

— E Jacob está onde?

— Também não sei, Nessie.

Outro disparo atingiu alguma coisa próxima ao balcão e nós duas nos encolhemos. O segurança à nossa esquerda respondeu, mas mal terminou de atirar quando seu corpo recuou violentamente e ele caiu atrás do balcão.

Meu estômago revirou quando vi o sangue se espalhando pela camisa dele.

— Ele foi atingido!

Tentei me aproximar, mas Rachel segurou meu braço.

— Espera!

O outro segurança veio imediatamente até o colega, abaixando-se para verificar o ferimento enquanto ainda mantinha a arma na mão.

— Pressione aqui — ordenou ao homem ferido, colocando a mão dele sobre o próprio ferimento. — Não solte e fique acordado.

— Nós podemos ajudar? — perguntei.

— Fiquem abaixadas e não saiam daqui.

Ele voltou a observar a área além do balcão, e eu olhei para Rachel. Pela primeira vez desde que ela entrara no meu quarto naquela noite, não havia nenhum traço de humor em seu rosto. Ela também estava assustada, embora tentasse manter o controle.

— Eu devia ter ficado com meu livro — murmurei, mais para conseguir dizer alguma coisa do que por achar graça.

Rachel respirou fundo.

— Se sairmos daqui, eu compro uma biblioteca inteira para você e nunca mais reclamo.

— Vou cobrar.

Ela apertou minha mão.

— Pode cobrar.

O segurança ferido gemeu e o outro homem se inclinou novamente sobre ele. Foi nesse momento que Rachel olhou para a lateral do balcão e depois para uma porta alguns metros adiante. Percebi imediatamente o que estava pensando e neguei com a cabeça.

— Nem pense nisso.

— Pode ser uma saída de serviço.

— O segurança mandou ficar aqui.

— Um deles está ferido e o outro não consegue proteger nós duas e cuidar dele ao mesmo tempo. Se aquela porta levar para fora da área principal, podemos encontrar outros homens do Jacob.

— Ou podemos encontrar quem está atirando.

— Também podemos ficar aqui esperando eles chegarem até nós.

Eu não tinha uma resposta boa para aquilo.

Rachel voltou a olhar para a porta. O caminho era curto, mas, naquele momento, aqueles poucos metros pareciam uma distância absurda. Os tiros haviam diminuído durante alguns segundos, e ela apertou minha mão antes de falar:

— Se formos, vamos juntas.

— Rachel...

— Eu corro primeiro. Se estiver livre, você vem atrás.

— Isso é uma péssima ideia.

— Tem alguma melhor?

Antes que eu pudesse responder, ela esperou o segurança se virar para o homem ferido e correu. Meu coração disparou quando a vi atravessar o espaço aberto, mas Rachel conseguiu alcançar a porta e se virou imediatamente para mim.

— Vem!

Levantei-me.

Dei apenas dois passos.

Uma nova sequência de tiros me obrigou a me abaixar. Um disparo atingiu a lateral do balcão e outro acertou alguma coisa acima de mim. Gritei e me encolhi, incapaz de continuar avançando.

— Nessie! — ouvi Rachel chamar.

— Não consigo!

Eu queria correr até ela, mas minhas pernas simplesmente não obedeciam. Fiquei agachada junto ao balcão, tentando descobrir se deveria voltar ou avançar, enquanto o barulho dos disparos se aproximava. Minha respiração estava tão acelerada que comecei a sentir tontura, e foi somente quando ouvi passos muito próximos que levantei o rosto.

Um homem que eu nunca tinha visto surgiu do outro lado do corredor.

Por uma fração de segundo, pensei que pudesse ser um dos seguranças da boate, mas a maneira como ele me olhou eliminou qualquer esperança antes mesmo que eu percebesse a arma em sua mão. Ele não procurou outra pessoa, não olhou para os lados e não demonstrou surpresa ao me encontrar. Seus olhos se fixaram diretamente em mim enquanto levantava o braço.

A arma apontou para meu peito.

Meu corpo congelou.

Não consegui correr, gritar ou sequer me abaixar novamente. Apenas fiquei olhando para ele enquanto compreendia, com uma clareza aterrorizante, que aquele homem pretendia atirar em mim.

Então ouvi outro disparo.

Fechei os olhos por reflexo, esperando sentir a dor, mas nada aconteceu. Quando tornei a abri-los, o homem ainda estava diante de mim, embora sua expressão tivesse mudado completamente. A arma escapou de sua mão e caiu no chão antes que o próprio corpo cedesse. Ele tombou alguns passos à minha frente, revelando quem estava atrás dele.

Jacob segurava uma arma com as duas mãos e mantinha o cano apontado para o homem até ter certeza de que ele não voltaria a se levantar. Eu nunca tinha visto meu marido daquela maneira. Conhecia o homem controlado, arrogante e provocador que comandava a mansão, o empresário que entrava em uma sala e fazia todos prestarem atenção sem precisar elevar a voz, mas aquele Jacob era diferente. Sua expressão estava dura, o corpo completamente alerta e havia uma frieza em seus olhos que me fez compreender, talvez pela primeira vez de verdade, por que tantas pessoas mudavam de postura quando ele entrava em um ambiente.

Só depois de verificar o homem caído Jacob levantou os olhos para mim.

E toda aquela frieza mudou no instante em que percebeu que eu estava ali, encolhida junto ao balcão, tremendo e coberta por pequenos estilhaços de vidro.