A esposa do Don

44 Boate W ( final)


JACOB

O primeiro disparo ainda ecoava quando deixei a área VIP. Alec veio logo atrás de mim, apesar de eu ter mandado que permanecesse na sala, mas não perdi tempo discutindo com ele. A música havia sido interrompida e, do segundo andar, eu conseguia ver o salão tomado pelo caos. Pessoas corriam para as saídas, funcionários tentavam direcioná-las pelos corredores laterais e meus homens respondiam aos disparos que vinham de mais de um ponto. Sam apareceu pela direita com a arma em punho, enquanto Embry falava pelo comunicador e organizava a retirada dos civis. Dois seguranças fecharam o corredor atrás de nós, isolando a área onde Alec estava.

— Don, precisamos sair. A emergência do segundo andar está livre — Embry informou, aproximando-se. — Ainda não sabemos quantos entraram.

— Descubram.

— Descobriremos quando o senhor estiver fora daqui.

Outro tiro atingiu a parede próxima à escada e Sam respondeu imediatamente. Embry fez um gesto para dois homens avançarem e voltou a olhar para mim.

— O carro já está sendo posicionado. Saímos por trás.

Alec permaneceu alguns passos atrás.

— Se está pensando que isso tem relação comigo, Black, estou tão surpreso quanto você.

— Então fique onde meus homens possam vê-lo.

— Meus seguranças estão lá embaixo.

— E vão manter as armas guardadas até os meus saberem quem está atirando. Se fizerem diferente, serão tratados como parte do ataque.

Alec não respondeu. Sam levou a mão ao ponto eletrônico e começou a exigir posições das equipes. As vozes se sobrepunham no canal, misturadas a ordens sobre os acessos e a retirada dos clientes, até que uma delas atravessou as demais com clareza suficiente para fazer todo o resto perder importância.

— Protejam a senhora Black! A senhora Black está no setor sul!

Virei imediatamente para Sam.

— Renesmee está aqui?

Ele pressionou o comunicador.

— Localização da senhora Black. Agora.

A resposta veio poucos segundos depois.

— Setor sul, próximo aos banheiros. Senhora Black e senhora Lahote. Dois homens da equipe com elas. Estão sob fogo.

Rachel também estava ali. Paul devia ter encontrado as duas e colocado segurança com elas antes de o ataque começar. Embry percebeu minha intenção assim que me voltei para a escada e tentou impedir.

— Don, não. A equipe vai buscá-las. O senhor sai pela emergência e nós levamos as duas para o ponto seguro.

— Foda-se a saída de emergência.

— Jacob, o senhor é o alvo mais provável.

— Minha esposa está lá embaixo.

— E temos homens com ela.

— Homens que estão sob fogo. Eu não vou a lugar algum sem Nessie.

Tirei a arma do coldre e avancei antes que ele insistisse. Sam praguejou atrás de mim, mas imediatamente mudou de estratégia.

— Cobertura para o Don! — gritou. — Fechem essa escada! Embry, lado esquerdo!

Um disparo atingiu o corrimão quando comecei a descer. Encostei-me à parede, localizei o homem que surgira próximo a uma coluna e respondi. Meus homens abriram espaço para que eu continuasse, cobrindo os dois lados da escada enquanto eu avançava. Não havia qualquer possibilidade de analisar aquela situação com a calma que eu usaria normalmente. Havia civis correndo entre homens armados, mesas derrubadas e pontos cegos suficientes para transformar o salão inteiro em uma armadilha. Quem havia planejado aquilo escolhera bem o lugar. Meus homens precisavam distinguir clientes de atacantes antes de puxar o gatilho; os homens que tinham entrado ali não demonstravam a mesma preocupação.

Sam me alcançou no andar principal.

— Paul está fechando a entrada. Solomon ficou com Cody e está retirando civis pelo corredor norte. Embry está abrindo a saída lateral.

— E Alec?

— Contido no segundo andar com os homens dele.

— Ninguém dos Volturi sai antes de sabermos o que aconteceu.

— Já ordenei.

Avançamos em direção ao setor sul. Outro disparo veio da esquerda e atingiu uma coluna. Respondi enquanto Sam ordenava que dois homens fechassem aquele corredor. Foi então que vi Rachel sair de trás de um balcão e correr em direção a uma porta lateral. Ela estava inteira e se movia depressa, o que me permitiu procurar imediatamente pela única pessoa que me interessava naquele momento.

Renesmee apareceu segundos depois.

Ela tentou correr atrás de Rachel, mas uma nova sequência de disparos atingiu o balcão e a parede próxima. Nessie recuou de imediato e se encolheu atrás da estrutura. Mesmo à distância consegui ver sangue em seu rosto e nas mãos. Pequenos fragmentos de vidro brilhavam presos ao cabelo e ao vestido, e uma linha vermelha descia da testa até a lateral do rosto. Ela parecia perdida no meio daquele caos, respirando de maneira descontrolada e olhando para os lados sem conseguir decidir se corria, se voltava para o balcão ou se permanecia onde estava. Vi quando tentou se levantar outra vez e desistiu no mesmo instante em que novos tiros atravessaram o salão.

— Nessie!

Ela não me ouviu.

Sam percebeu para onde eu estava olhando.

— Don, espere a cobertura!

Um homem apareceu no corredor antes que meus homens conseguissem fechar completamente o acesso. Não fazia parte da minha segurança. Vi a arma em sua mão e vi quando seus olhos encontraram Renesmee. Havia dezenas de pessoas naquele salão, mas ele não hesitou. Avançou na direção dela enquanto levantava a arma.

Corri.

— DÊ COBERTURA AO DON! — Sam gritou atrás de mim.

Meus homens responderam imediatamente, disparando contra os pontos de onde ainda vinha fogo. Atravessei o salão entre mesas derrubadas enquanto o homem continuava avançando. Renesmee finalmente o viu. O terror no rosto dela mudou no mesmo instante; ela tentou recuar, bateu as costas no balcão e levou as mãos ensanguentadas para perto do rosto, mas não havia mais para onde ir. Quando o homem levantou completamente a arma em sua direção, eu já tinha uma linha limpa.

Atirei.

Ele caiu antes de conseguir disparar.

Renesmee gritou e se encolheu ainda mais. Seus olhos passaram pelo corpo do homem caído antes de encontrarem os meus, e percebi que ela não estava simplesmente assustada. Estava em choque. A respiração vinha rápida demais, os lábios tremiam e as mãos ensanguentadas pareciam não saber onde ficar. Quando cheguei até ela e me abaixei, Nessie continuou olhando para o homem no chão como se não conseguisse compreender o que acabara de acontecer.

— Nessie. Olhe para mim.

Ela não respondeu.

Segurei seu rosto com cuidado, evitando o corte na testa.

— Renesmee, olhe para mim.

Finalmente seus olhos encontraram os meus.

— Ele... ele ia...

— Eu sei.

— Você matou ele.

Não havia tempo para explicar nada naquele lugar.

— Olhe para mim, não para ele.

Ela tentou se levantar quando segurei seu braço, mas as pernas cederam e voltou a se apoiar no balcão.

— Eu não consigo.

— Consegue.

— Jacob, eu não consigo me mexer.

Outro disparo ecoou e ela se assustou tanto que agarrou meu paletó com as duas mãos.

— Escute a minha voz. Eu vou tirar você daqui.

— Estão atirando...

— Eu sei. Fique comigo e faça exatamente o que eu mandar.

Ela negou com a cabeça, completamente apavorada.

— Eu não consigo.

Aproximei meu rosto do dela para obrigá-la a manter a atenção em mim, não no corpo caído ou nos tiros ao nosso redor.

— Consegue, sim. Eu estou aqui e não vou deixar ninguém machucar você. Agora levante comigo.

Passei um braço pela cintura dela e a coloquei de pé. Renesmee praticamente se apoiou em mim nos primeiros passos. O corte na testa continuava sangrando e as mãos estavam marcadas por pequenos ferimentos provocados pelos estilhaços, mas não havia tempo para verificar mais nada. Uma nova sequência de disparos começou no outro lado do salão e eu a puxei contra o meu corpo, protegendo sua cabeça enquanto respondia ao fogo.

Sam e dois homens avançaram pelo corredor.

— Saída lateral! — Sam gritou. — Agora!

Começamos a recuar. Mantive Renesmee entre mim e a parede, conduzindo-a enquanto meus homens nos davam cobertura. Ela ainda tremia e, a cada disparo, seu corpo se contraía contra o meu. Um tiro veio da lateral e senti uma ardência violenta atravessar meu braço. O impacto fez meu ombro recuar, mas percebi imediatamente que a bala havia passado de raspão. Continuei andando.

Renesmee viu o sangue.

Parou.

— Jacob!

— Anda.

— Você levou um tiro!

A expressão dela mudou novamente. Se já estava em choque, ver o sangue se espalhando pela manga da minha camisa terminou de desorganizá-la. Ela agarrou meu braço, os olhos cheios de pânico.

— Meu Deus, Jacob, você está sangrando. Você foi atingido.

— Estou bem. Olhe para mim.

— Não está! Tem sangue...

— Renesmee, olhe para mim.

Ela conseguiu me encarar.

— Foi de raspão. Eu estou andando, estou falando com você e vou tirar nós dois daqui. Confia em mim.

Sua respiração continuava acelerada.

— Eu estou com medo.

— Eu sei. Mas agora você vai andar comigo.

Segurei-a novamente pela cintura e não permiti que parasse. Não havia espaço para mais explicações. Seguimos atrás de Sam enquanto meus homens mantinham a cobertura, atravessamos o corredor de serviço e entramos na cozinha. Funcionários eram retirados pela outra extremidade e Embry confirmava pelo comunicador que os carros já estavam posicionados. Renesmee não soltou meu paletó em momento algum; corria ao meu lado como conseguia, assustada a cada novo ruído, e precisei segurá-la com mais força quando outro disparo ecoou atrás de nós.

Chegamos à saída lateral. Sam passou primeiro, verificou o exterior e sinalizou. Dois homens formaram cobertura junto à porta e conduzi Renesmee para fora, mantendo meu corpo entre ela e a rua até alcançarmos o SUV. Embry estava junto ao veículo com a porta traseira aberta e Rachel já estava lá dentro.

— Nessie!

Assim que Renesmee entrou, Rachel a puxou para perto. Nessie praticamente caiu no banco e abraçou a cunhada com força.

— Eu achei que não ia conseguir sair de lá.

— Você está aqui. Está tudo bem — Rachel disse, segurando seu rosto. — Meu Deus, sua testa está sangrando.

Entrei logo depois e Embry fechou a porta. O motorista arrancou antes mesmo que eu me acomodasse completamente. O veículo mal começara a deixar a rua quando Renesmee se virou para mim. O choque parecia ter encontrado uma nova forma de sair. As perguntas começaram antes que eu conseguisse verificar meu próprio braço.

— O que aconteceu? Por que estavam atirando? Quem eram aqueles homens? Eles entraram para matar alguém? Era você? Por que aquele homem apontou uma arma para mim?

— Nessie...

— E você matou ele.

Rachel olhou para ela.

Renesmee estava chorando agora, embora parecesse não ter percebido.

— Eu vi ele cair, Jacob. Eu estava olhando para a arma e depois você atirou e ele caiu na minha frente. Por que ele estava apontando para mim? Eu nem conhecia aquele homem. Eu não fiz nada. Por que alguém queria atirar em mim?

Aproximei-me dela.

— Renesmee, respira.

— Eu estou respirando.

— Não está. Está quase hiperventilando.

Segurei suas mãos antes que ela as fechasse e piorasse os cortes provocados pelo vidro.

— Não aperte as mãos. Tem vidro.

Ela olhou para os próprios dedos como se só então se lembrasse dos ferimentos, mas imediatamente tornou a olhar para meu braço.

— E você está sangrando. A gente precisa ir para um hospital.

— O médico vai nos esperar na mansão.

— Você levou um tiro, Jacob!

— De raspão.

— Para de dizer que foi de raspão como se isso fizesse ser normal!

A voz dela falhou e as lágrimas aumentaram. Rachel permaneceu ao lado, ainda abalada, mas teve a sensibilidade de não interferir. Segurei delicadamente o queixo de Renesmee e fiz com que olhasse para mim.

— Escute. Você está dentro do carro. Rachel está aqui. Eu estou aqui. Estamos saindo do local e temos segurança na frente e atrás. Neste momento, ninguém está atirando em você.

Ela engoliu em seco.

— Mas estavam.

— Eu sei.

— Aquele homem ia me matar.

Não menti para ela.

— Ia.

O rosto dela se desfez ainda mais.

— Por quê?

— Ainda não sei.

— E você matou ele porque ele ia atirar em mim?

Mantive os olhos nos dela.

— Sim.

Renesmee ficou alguns segundos em silêncio, tentando processar a resposta. Não havia arrependimento que eu pudesse oferecer para tornar aquilo mais aceitável aos olhos dela. Eu tinha visto uma arma apontada para minha esposa e puxara o gatilho. Se voltasse ao mesmo segundo, faria exatamente a mesma coisa.

— Eu nunca tinha visto uma pessoa morrer — ela disse com a voz baixa e trêmula. — Ele estava em pé e depois simplesmente caiu.

Passei a mão pela lateral do rosto dela, evitando o corte.

— Não pensa nisso agora.

— Como eu não vou pensar?

— Não estou dizendo para esquecer. Estou dizendo para não tentar entender tudo enquanto ainda está em choque. Primeiro vamos cuidar desses cortes, tirar o vidro das suas mãos e verificar se você não se machucou em outro lugar. Depois eu respondo o que puder.

— Você sabe quem fez isso?

— Ainda não.

— Pode acontecer de novo?

A pergunta me fez permanecer em silêncio por um segundo.

— Não esta noite.

— Como você sabe?

— Porque agora você está comigo.

Ela fechou os olhos, respirando com dificuldade, e eu mantive a mão em seu rosto.

— Olha para mim outra vez.

Renesmee obedeceu.

— Devagar. Respira comigo.

Ela puxou o ar.

— De novo.

Dessa vez conseguiu fazer mais lentamente.

— Isso. Continua.

A respiração começou a desacelerar aos poucos, embora o corpo ainda tremesse. Rachel encontrou o kit de primeiros socorros do carro e retirou gaze. Peguei uma antes que ela tentasse limpar a testa de Renesmee.

— Só pressione.

Rachel assentiu e segurou a gaze cuidadosamente contra o corte. Renesmee continuava olhando para mim, alternando os olhos entre meu rosto e o sangue que manchava minha camisa.

— Você tem certeza que não vai morrer?

A pergunta saiu tão assustada que qualquer resposta irônica morreu antes de chegar à minha boca.

— Tenho.

Ela soltou o ar e encostou a cabeça no banco, mas não soltou minha mão. Eu também não retirei a minha. O SUV já havia deixado a boate para trás e dois veículos da segurança nos acompanhavam, enquanto Embry falava ao telefone no banco da frente, organizando o médico e as equipes que permaneceriam no local.

Eu deveria estar concentrado no ataque, em Alec Volturi, nos homens que haviam entrado na minha propriedade e na possibilidade de tudo aquilo ter sido uma tentativa de chegar até mim. Mas havia uma imagem que se repetia com insistência: o homem avançando diretamente para Renesmee.

Ele tivera outros alvos. Outras pessoas estavam ao alcance. Ainda assim, encontrara minha esposa no meio do caos, mudara de direção e apontara a arma para ela.

Depois de Edward Cullen, de Saint Agnes e das perguntas recentes sobre uma criança desaparecida havia vinte anos, eu já não podia tratar aquilo como coincidência. Renesmee ainda não sabia quem era Elizabeth Cullen, nem quantas pessoas poderiam ter interesse em descobrir que ela sobrevivera. Enquanto ela permanecia ao meu lado, assustada e segurando minha mão como se aquilo fosse suficiente para mantê-la segura, uma certeza se estabeleceu com a mesma frieza que sempre antecedia minhas decisões mais difíceis: até descobrir quem entrara naquela boate e por quê, ninguém chegaria perto da minha esposa sem passar por mim primeiro.

O portão da mansão já estava aberto quando os SUVs entraram na propriedade. A equipe de segurança havia sido reforçada em todo o perímetro, e homens que normalmente permaneceriam em posições discretas estavam visíveis desde a entrada até a garagem. Embry ainda falava ao telefone no banco da frente, alternando entre as informações que chegavam da boate e as ordens para quem estava na casa. Eu não queria ninguém entrando ou saindo até entendermos a dimensão do ataque. A única exceção seria o médico, que já estava a caminho.

Renesmee não soltou minha mão durante o percurso. A respiração havia melhorado, mas o susto continuava evidente em cada movimento. De vez em quando, ela olhava para a minha manga ensanguentada como se precisasse confirmar que eu ainda estava sentado ao lado dela, depois olhava para as próprias mãos cobertas por gaze improvisada. Rachel permanecera perto, tentando tranquilizá-la sem encher o carro de perguntas, embora eu soubesse que minha irmã também tinha muitas. Quando o veículo parou, fui o primeiro a abrir a porta.

— Chegamos.

Renesmee olhou pela janela e respirou fundo.

— Sarah e as crianças estão bem?

— Estão. Ninguém saiu da mansão.

A menção às crianças pareceu devolver alguma organização aos pensamentos dela.

— Claire e Will ouviram alguma coisa?

— Ainda não sei. Sarah está com eles.

Desci e estendi a mão. Renesmee a segurou, mas, quando colocou os pés no chão, hesitou por alguns segundos. O corpo começava a cobrar tudo o que a adrenalina havia escondido. Ela parecia cansada, os joelhos ainda inseguros, o sangue seco na lateral do rosto e os pequenos cortes nas mãos mais visíveis sob a iluminação da garagem. Passei o braço bom pela cintura dela e a mantive junto a mim.

— Devagar.

— Eu consigo andar.

— Não disse que não consegue.

Rachel saiu pelo outro lado e nos acompanhou. Em vez de seguirmos para a entrada habitual da casa, Embry abriu uma porta na parte posterior da garagem e eu conduzi Renesmee por um corredor que ela nunca tinha usado. Depois de poucas semanas naquela mansão, ela já conhecia praticamente todos os espaços destinados à família, mas existiam áreas que não faziam parte da rotina doméstica e que eu não tivera qualquer motivo para lhe mostrar.

Renesmee percebeu imediatamente.

— Para onde estamos indo?

— Cuidar dos seus ferimentos.

— O quarto fica para o outro lado.

— Não vamos para o quarto.

Ela olhou para Rachel, mas minha irmã evitou responder. Descemos por um elevador privativo até o nível inferior da propriedade. Quando as portas se abriram, o ambiente já não tinha qualquer semelhança com o restante da mansão. O corredor era largo, muito bem iluminado e funcional, sem a decoração elegante dos andares superiores. Duas portas reforçadas davam acesso a depósitos, havia armários com materiais médicos e, no final, uma sala maior onde equipamentos básicos de emergência permaneciam permanentemente preparados.

Renesmee parou.

Olhou para o corredor, depois para mim.

— O que é isso?

— Continue andando.

— Jacob.

A maneira como pronunciou meu nome deixou claro que aquela resposta não seria suficiente.

Entramos na sala principal. Havia duas macas, monitores, cilindros de oxigênio, armários de medicamentos, materiais para sutura e equipamentos suficientes para estabilizar alguém até que fosse possível transferi-lo para um hospital, quando uma transferência fosse conveniente. Não era um hospital clandestino completo e nunca pretendi que fosse. Era uma enfermaria preparada para situações nas quais um membro da família ou um dos meus homens não pudesse simplesmente aparecer em uma emergência pública com um ferimento que levantaria perguntas demais.

Renesmee ficou ainda mais confusa.

— Vocês têm uma enfermaria embaixo da casa?

Rachel olhou para mim.

Não gostei do olhar.

— Jacob...

— Não.

— Ela acabou de estar no meio de um tiroteio na sua boate, viu você matar um homem, viu você levar um tiro e agora descobre uma enfermaria escondida no subsolo da própria casa. Você precisa contar a ela.

Renesmee virou-se lentamente para mim.

— Contar o quê?

— Rachel, não agora.

— Quando, então?

— Quando eu decidir que é seguro.

— Eu estou aqui — Renesmee interrompeu, a voz ainda abalada, mas agora acompanhada de confusão. — O que você precisa me contar?

Olhei para ela. Não era daquela maneira que eu pretendia explicar qualquer parte da minha vida que ainda desconhecia. Ela tinha sangue seco na testa, pequenos cortes nas mãos e acabara de assistir um homem morrer diante dela. Contar naquele momento o que significava ser o Don, o alcance real da família Black e por que existia uma enfermaria escondida sob a mansão não lhe daria clareza. Apenas acrescentaria outra camada de choque a uma noite que já lhe dera mais do que o suficiente.

— Eu vou explicar.

— Isso não responde.

— Eu sei.

— Então responde.

— Quando você estiver mais calma.

Ela me encarou.

— Você disse a mesma coisa no carro.

— Porque continua sendo verdade.

— Eu estou tentando entender por que homens entraram atirando em uma boate que pertence a você, por que seus seguranças andam armados, por que você sabe atravessar um tiroteio como se já tivesse feito aquilo antes e agora descubro que existe uma enfermaria escondida embaixo da nossa casa. O que exatamente você acha que eu vou imaginar?

Rachel permaneceu em silêncio dessa vez. Eu poderia ter inventado uma explicação simples, atribuído tudo à segurança privada e aos riscos dos meus negócios, mas Renesmee não era estúpida. A noite já havia destruído boa parte das respostas convenientes que eu poderia ter dado semanas antes.

— Que existem coisas sobre mim que você ainda não conhece.

Ela ficou me olhando, assustada novamente.

— Que coisas?

— Renesmee, não hoje.

Antes que insistisse, uma enfermeira entrou na sala carregando uma bandeja com materiais. Ela olhou primeiro para Renesmee, depois para o sangue na minha camisa e veio imediatamente em minha direção.

— Senhor Black, preciso ver esse braço.

— Cuide dela primeiro.

— Seu ferimento pode...

— Renesmee primeiro.

A mulher conhecia minha família havia tempo suficiente para saber quando insistir seria inútil. Voltou-se para minha esposa.

— Senhora Black, pode sentar aqui para mim?

Renesmee não se moveu imediatamente. Ainda estava olhando para mim.

— Senta, Nessie.

— E você?

— Estou aqui.

Ela finalmente caminhou até a maca e se sentou. Rachel ficou ao lado dela enquanto a enfermeira começou pela testa, limpando cuidadosamente o sangue seco para localizar o corte. Eu permaneci próximo, observando enquanto ela verificava se havia vidro preso à pele.

— Vai arder um pouco — a enfermeira avisou.

Renesmee fechou os olhos quando o antisséptico tocou o ferimento.

— Já arde.

— O corte não é profundo. Não vai precisar de pontos.

A tensão nos meus ombros diminuiu um pouco.

— E as mãos?

— Vou verificar uma por uma.

Renesmee abriu os olhos.

— Tem vidro?

— Alguns fragmentos muito pequenos. Vou retirar.

Ela olhou para as próprias mãos e depois para mim. Aproximei-me.

— Não olha.

— Eu quero olhar.

— Você está quase chorando só de pensar.

— Eu fui criada em orfanato. Já tirei farpa de criança gritando muito mais do que eu.

— Então pode usar essa experiência para ficar parada.

Ela me lançou um olhar irritado, e aquele pequeno sinal da Renesmee que eu conhecia foi provavelmente a coisa mais tranquilizadora que vi desde que começara o tiroteio.

A enfermeira trabalhou com uma pinça, retirando pequenos fragmentos das palmas e dos dedos antes de higienizar os cortes. Nenhum era profundo. Alguns precisaram apenas de pequenos curativos e dois receberam fechamento adesivo. Rachel permaneceu ao lado dela, mas percebi que minha irmã evitava me encarar. Nossa conversa estava apenas adiada. Eu sabia disso, e ela também.

Renesmee observou quando a enfermeira terminou a segunda mão.

— Pronto?

— Das mãos, sim. Quero verificar seus braços e ombros por causa dos estilhaços.

Renesmee olhou para o vestido.

— Tem vidro no meu cabelo também.

— Nós tiramos tudo com cuidado.

Foi nesse momento que o médico entrou.

Dr. Marshall atendia a família havia anos e não demonstrou surpresa ao encontrar uma mulher com cortes de vidro, um homem baleado e metade da segurança da propriedade circulando do lado de fora. Colocou a bolsa sobre a bancada, cumprimentou Rachel e veio diretamente até mim.

— Tire o paletó.

— Boa noite para você também.

— Quando você me telefona quase à meia-noite dizendo que levou um tiro, perde o direito às formalidades.

Renesmee virou o rosto imediatamente.

— Eu disse que ele precisava ir para o hospital.

Marshall olhou para ela.

— Se eu achar que precisa, ele vai.

— Não vou.

O médico apontou para uma cadeira.

— Sente antes que eu decida por você.

Tirei o paletó e comecei a soltar a camisa. O tecido havia grudado parcialmente no ferimento, e a dor se tornou mais evidente quando precisei afastá-lo. Renesmee acompanhava tudo da maca enquanto a enfermeira examinava seus braços.

— Está doendo? — ela perguntou.

— Pouco.

— Você mente muito mal sobre isso.

— Discordo. Minto excepcionalmente bem.

— Jacob.

— Estou bem, Nessie.

Marshall examinou o braço.

— Dessa vez ele está quase dizendo a verdade. A bala passou pela parte externa e não ficou alojada. Preciso limpar, verificar a extensão e provavelmente fechar alguns pontos, mas não parece ter atingido osso nem estrutura importante.

Renesmee soltou o ar que aparentemente estava prendendo.

— Então ele realmente está bem?

— Vai ficar.

A resposta do médico teve muito mais efeito do que qualquer coisa que eu dissera desde a boate. Vi os ombros dela relaxarem pela primeira vez.

Marshall começou a preparar o material enquanto a enfermeira terminava os curativos de Renesmee. Quando ela tentou se levantar da maca, porém, o médico apontou para o lugar.

— A senhora fica sentada mais alguns minutos.

— Eu estou bem.

— Acabou de sair de uma situação traumática, está pálida e ainda está sob efeito da adrenalina. Fica sentada.

Renesmee obedeceu, mas voltou os olhos para o corredor, observando novamente aquela enfermaria escondida sob a mansão. Eu conhecia bem o funcionamento da mente dela para saber que a tranquilidade não duraria muito. As perguntas estavam se acumulando, e Rachel havia acabado de confirmar que existiam respostas que eu deliberadamente não lhe dera.

Enquanto Marshall começava a limpar meu braço, Renesmee voltou a olhar para mim.

— Você vai mesmo me contar?

Sustentei seu olhar.

— Vou.

— Tudo?

Essa pergunta era mais difícil.

— O suficiente para você entender o que aconteceu esta noite.

Renesmee não pareceu satisfeita, e tinha razão para não estar. Apenas não insistiu. Sentou-se ao lado de Rachel com as mãos recém-enfaixadas sobre o colo, o pequeno curativo na testa e os olhos ainda carregados pelo choque, enquanto o médico começava a tratar meu braço.

Eu sabia que o ataque à boate mudara mais do que a segurança ao nosso redor. Até aquela noite, eu conseguira manter Renesmee na parte limpa da minha vida, cercada pelos negócios legais, pela mansão, pelos filhos e por explicações cuidadosamente incompletas. Em poucas horas, ela vira uma arma na minha mão, um homem morrer diante dela e uma enfermaria escondida sob nossa casa.

A distância entre Renesmee Black e o mundo do Don acabara de se tornar pequena demais para continuar sustentada por silêncio.