A esposa do Don

42 Boate W( parte 1)


JACOB

Os dias depois da reunião com Edward Cullen foram mais silenciosos do que eu esperava, o que, naquele mundo, nunca significava tranquilidade. Significava apenas que todos estavam pensando antes de agir. Edward não me procurou imediatamente, Carlisle não apareceu em Nova York e nenhum movimento evidente dos Cullen indicava que a informação sobre Elizabeth havia vazado. Isso me agradava. Se Edward realmente mantivesse o que dissemos restrito ao círculo mínimo necessário, eu ganharia tempo para continuar verificando quem havia procurado Saint Agnes e se Falcon Denali, ou alguém ligado a ele, ainda acompanhava rastros de uma criança que deveria estar morta havia vinte anos. Renesmee, por outro lado, continuava vivendo sem saber nada. E eu continuava observando-a de perto, mais do que antes, embora ela já começasse a reclamar que meus homens apareciam em lugares demais. Não era paranoia. Era cálculo. Agora que eu sabia exatamente o que ela representava, qualquer aproximação que antes poderia parecer casual passara a ter outro peso.

Naquela noite, porém, meu problema imediato estava longe dos Cullen.

Eu estava em uma das boates que controlava em Manhattan, um lugar que funcionava bem o suficiente para gerar dinheiro sem chamar atenção excessiva, e exatamente por isso eu não tolerava descuido. Casas noturnas eram úteis, mas também eram lugares onde homens estúpidos confundiam movimento com liberdade. Dinheiro em espécie, celebridades, empresários, turistas, funcionários que circulavam em diferentes setores e gente disposta a pagar por privacidade. Tudo isso gerava lucro. Também gerava risco. Eu não permitia drogas dentro dos estabelecimentos, não porque me preocupasse com moralidade, mas porque qualquer coisa que trouxesse narcóticos, overdose ou polícia para perto de uma propriedade minha era má administração.

Sam vinha alguns passos atrás de mim. Solomon estava ao meu lado.

— O fluxo aumentou vinte por cento nas últimas duas semanas — Solomon comentou enquanto atravessávamos uma área lateral acima da pista principal. — Principalmente nas quintas e sextas.

Olhei para o salão abaixo.

— Público novo?

— Parte. O restante veio por indicação de hotéis e concierge.

— E a segurança?

— Reforçada.

— Não parece.

Solomon me lançou um olhar curto.

— Já encontrou alguma coisa?

— Ainda não. É justamente por isso que não gosto.

Ele entendeu.

Lugar perfeito demais geralmente significava que alguém estava escondendo algo.

Descemos uma escada interna reservada ao staff e atravessamos um corredor que levava às áreas privadas. Ali a música chegava abafada, filtrada pelas paredes grossas. Dois seguranças se afastaram quando me viram. Nenhum tentou sorrir. Bom sinal. Funcionário que sorria demais perto de mim normalmente estava nervoso ou tentando agradar.

Foi quando ouvi alguém chamar meu nome.

— Black.

Parei.

Cody Ateara vinha em nossa direção.

Não o via havia anos.

A aparência estava diferente, mais madura, mas o mesmo jeito fácil permanecia. Terno escuro, barba curta, uma confiança que sempre teve mesmo quando não tinha dinheiro suficiente para sustentar metade dela. Havíamos sido próximos quando mais jovens, antes de ele passar tempo demais fora de Nova York.

— Cody.

Ele abriu os braços como se considerasse a possibilidade de me abraçar e desistiu no meio do caminho. Inteligente.

— Achei que ainda precisaria pedir audiência formal para chegar perto de você.

— Dependendo do assunto, precisaria.

Cody sorriu.

— Continua simpático.

— Continua falando demais.

Ele riu.

— Senti falta disso.

Sam permaneceu em silêncio. Solomon observava Cody com aquela calma que costumava deixar pessoas desconfortáveis.

— Quanto tempo está na cidade? — perguntei.

— Três dias.

— E pretende ficar?

— Dessa vez, sim.

— Fazendo o quê?

Cody inclinou a cabeça.

— Negócios.

— Isso normalmente significa alguma coisa específica.

— Imóveis, entretenimento, algumas participações menores. Nada que vá tirar seu sono.

— Pouca coisa tira meu sono.

— Já ouvi isso.

— De pessoas que continuam vivas?

Cody riu novamente.

— Era disso que eu sentia falta.

Ele olhou para Solomon.

— Solomon.

— Cody.

— Você não envelhece?

Solomon respondeu sem mudar a expressão:

— Você envelheceu pelos dois.

Cody soltou uma risada alta.

— Perfeito. Está exatamente como eu lembrava.

Olhei para ele.

— Vai ficar em Nova York?

— Pretendo.

— Então provavelmente vamos nos ver mais vezes.

— Essa era a ideia.

Antes que pudesse continuar, Sam se aproximou de mim.

Não precisou dizer muito.

— Don.

A voz dele já tinha mudado.

Olhei.

— O quê?

— Encontramos uma coisa.

— Que coisa?

Sam baixou um pouco a voz.

— Algo que não deveria estar aqui.

Minha expressão endureceu.

Cody percebeu.

— Problema?

— Administrativo.

Olhei para Solomon.

— Leve Cody até a sala VIP. Peça alguma coisa para ele. Volto em alguns minutos.

Cody ergueu as sobrancelhas.

— Isso significa que ganhei bebida por conta da casa?

— Não abuse.

— Vou tentar.

Solomon fez um gesto discreto para que Cody o acompanhasse.

— Vamos.

Esperei os dois se afastarem antes de olhar para Sam.

— Mostre.

Ele me conduziu por outro corredor.

Quanto mais avançávamos, menos funcionários apareciam.

Mau sinal.

Sam abriu uma porta lateral e entramos em uma sala pequena usada pela administração intermediária. O gerente responsável por aquela noite já estava ali. Quando me viu, levantou-se rápido demais.

Medo.

Melhor.

Sobre a mesa havia pequenos invólucros plásticos.

Não precisei perguntar.

— Explique.

O homem engoliu seco.

— Senhor Black, eu...

— Explique.

Ele respirou fundo.

— Encontramos com um funcionário da manutenção.

Olhei para os pacotes.

— E?

— Ele disse que não era dele.

— Eles sempre dizem.

— Sim.

— Quanto tempo isso está acontecendo?

— Eu não sabia.

Olhei para ele.

— Essa foi uma resposta ruim.

— Senhor Black, eu juro que...

— Não me interessa juramento.

Ele calou.

Aproximei-me da mesa e peguei um dos invólucros sem abrir.

— Drogas são proibidas aqui.

— Eu sei.

— Não. Você sabe agora que eu sei.

O homem baixou os olhos.

— Não vai acontecer novamente.

Coloquei o pacote de volta na mesa.

— Isso é uma promessa ou uma tentativa de continuar empregado?

Ele empalideceu.

— Os dois.

— Errado.

Ele levantou os olhos.

— Senhor?

— Um funcionário competente não espera ser descoberto para impedir que um problema chegue até a polícia.

Ele permaneceu em silêncio.

— Não quero overdose no banheiro, não quero traficante usando corredor de serviço, não quero policial entrando aqui para investigar venda interna. E, principalmente, não quero descobrir por terceiros que existe alguém fazendo negócio dentro de uma propriedade minha sem autorização.

— Entendi.

— Não acredito.

O suor já aparecia na testa dele.

— Eu posso resolver.

— Não.

O homem travou.

Virei para Sam.

— Cuide disso.

— Sim, Don.

O gerente abriu a boca.

— Senhor Black, por favor, eu consigo...

Olhei para ele.

— Se conseguisse, eu não estaria aqui.

Ele se calou.

— Sam vai verificar quem trouxe, quem distribuiu, quem recebeu pagamento e quem resolveu fingir que não viu. Depois ele decide o que acontece com você.

O homem empalideceu ainda mais.

Sam não disse nada.

Não precisava.

Saí da sala.

O corredor parecia mais frio quando voltei para a área principal. A música aumentava conforme eu me aproximava da ala VIP. Um segurança veio até mim antes que eu chegasse à escada.

— Senhor Black.

— O quê?

— Tem uma pessoa querendo falar com o senhor.

— Quem?

Ele hesitou.

— Não quis dizer aqui.

Isso me fez parar.

— Está sozinho?

— Veio com dois homens, mas estão esperando longe.

— Está armado?

— Revistado.

— Leve até a área VIP.

O segurança assentiu.

Entrei primeiro.

A sala VIP ficava elevada em relação ao restante do salão, protegida por vidro fumê e iluminação baixa. De lá eu conseguia observar boa parte da pista sem ser visto com facilidade. Cody estava em outro ambiente, acompanhado de Solomon, então escolhi uma mesa mais ao fundo. Sentei, recostei-me na poltrona e pedi apenas água.

Fiquei observando o movimento abaixo.

Casais, empresários, turistas, gente dançando, gente negociando, gente fingindo que não negociava nada.

O segurança reapareceu.

Afastou-se para o lado.

E então Alec Volturi entrou.

Alec Volturi entrou na sala VIP sem pressa, como se aparecer sem aviso em uma propriedade minha fosse uma ocorrência perfeitamente banal. O terno escuro estava impecável, a expressão tranquila demais para um homem que havia pedido uma conversa sem sequer informar o assunto e os dois homens que o acompanhavam permaneceram do lado de fora, exatamente onde minha segurança havia determinado. Pelo menos tivera inteligência suficiente para não transformar uma visita inesperada em uma demonstração de força. Levantei apenas o olhar quando ele se aproximou da mesa e indiquei a poltrona diante de mim.

— Volturi.

— Black.

— Está longe de casa.

Alec abriu um sorriso discreto.

— Tecnicamente, estou em casa. Tenho propriedades em Nova York.

— Ter um apartamento não faz desta cidade sua casa.

— Sempre tão territorial.

— Sempre tão observador.

Ele soltou uma risada baixa antes de se sentar. Fiz um sinal para o funcionário que aguardava próximo ao bar privativo.

— Vai beber alguma coisa?

— O que você está tomando?

— Bourbon.

— Então aceito o mesmo.

Pedi duas doses. O garçom serviu sem fazer perguntas e desapareceu assim que terminou. Alec pegou o copo, observou a bebida contra a luz por alguns segundos e depois me encarou.

— É uma recepção melhor do que eu esperava.

— Ainda não descobri se você merece uma pior.

— Justo.

Antes que continuássemos, a porta se abriu novamente. Duas dançarinas entraram. Provavelmente alguém da administração imaginara que uma conversa entre dois homens importantes precisava ser acompanhada por mulheres bonitas e pouca roupa. Uma delas começou a se aproximar de mim.

Ergui a mão.

— Não.

Ela parou.

— Senhor Black, nós fomos chamadas para...

— Foram chamadas por alguém que não sou eu. Podem sair.

As duas trocaram um olhar. Alec acompanhou a cena com evidente diversão.

— As duas? — perguntou.

Olhei para ele.

— As duas.

Alec ergueu o copo.

— O casamento realmente mudou você.

— Não confunda fidelidade com mudança de personalidade.

— Eu jamais ousaria.

— Ótimo.

As mulheres saíram e a porta tornou a se fechar.

Alec tomou um gole.

— Falando em casamento, parece que nós dois tivemos meses movimentados.

— O seu foi bastante comentado.

— O seu também.

— Espero que tenha enviado um presente.

— Bree escolheu alguma coisa.

— Então provavelmente foi cara e inútil.

Alec riu.

— Minha esposa não gostaria de ouvir isso.

— Então não conte.

Ele girou o copo lentamente.

— Bree gosta de você ainda menos agora.

— É um sentimento com o qual consigo viver.

— Imagino.

Deixei que o silêncio se prolongasse. Alec não aparecera ali para discutir presentes de casamento, e eu não pretendia facilitar sua entrada no assunto.

Foi ele quem cedeu.

— Fiquei sabendo que você se encontrou com Edward Cullen.

Levei o copo aos lábios antes de responder.

— Nova York é uma cidade cheia de pessoas interessadas na agenda alheia.

— Principalmente quando a agenda pertence a Jacob Black.

— Deveria cobrar assinatura.

— Eu pagaria.

— Não vendo informações úteis.

Alec sorriu.

— Edward esteve na Black Holdings.

— Esteve.

— Por bastante tempo.

— Tivemos assuntos para discutir.

— Negócios?

— É bom fazer negócios.

Ele assentiu lentamente.

— Seria uma explicação perfeitamente comum.

— Fico satisfeito que aprove.

— Seria — repetiu — se os Cullen não tivessem recuado de uma negociação que já estava cinquenta por cento finalizada poucas horas depois.

Aquilo era novo.

Não demonstrei.

— Lamentável.

Alec arqueou uma sobrancelha.

— Lamentável?

— Negociações só devem ser comemoradas quando estão finalizadas. Antes disso, são apenas conversas acompanhadas de advogados excessivamente caros.

Ele riu.

— Uma definição curiosa vindo de você.

— Realista.

— Edward estava disposto a fechar.

— Então deveria ter fechado.

— Estava praticamente decidido.

— Praticamente não assina contrato.

Tomei um gole do bourbon.

Alec continuou me observando por cima do copo. O sorriso que surgiu em seguida não era amigável.

— Você sabe o que me incomoda, Black?

— Imagino que a lista seja longa.

— Coincidências.

— Eu gosto delas. Economizam planejamento.

— Você não acredita em coincidências.

— E você veio até uma boate minha à noite para discutir filosofia?

— Vim porque Edward Cullen entra no seu prédio e, logo depois, uma negociação importante para os Volturi é interrompida sem explicação. Carlisle não responde uma ligação que normalmente responderia, homens Cullen ficam extraordinariamente cuidadosos e você continua sentado aí fingindo que discutiu transporte ou imóveis.

— Talvez eu tenha oferecido condições melhores.

— Para quê?

— Se soubesse, não estaria perguntando.

Alec deixou o copo sobre a mesa.

— Moretti acredita que alguma coisa mudou.

— Moretti acredita em qualquer coisa que o faça se sentir relevante.

— Aro também percebeu.

Isso era mais interessante.

— Mande lembranças a ele.

— Ele não costuma gostar de surpresas.

— Nessa idade, deveria aprender a apreciá-las.

Alec riu novamente, mas não desviou os olhos.

— Você está escondendo alguma coisa.

— Todos estamos.

— Não assim.

— Existe uma escala?

— Existe quando Jacob Black aceita Edward Cullen no próprio escritório enquanto o equilíbrio entre as famílias está mudando.

Recostei-me na poltrona.

— Talvez Edward tenha descoberto que minha companhia é agradável.

— Bree diria que não.

— Sua esposa tem opiniões demais.

O sorriso de Alec desapareceu um pouco.

— Minha esposa também é uma Cullen.

— Por adoção.

A mudança no rosto dele foi mínima, mas suficiente.

— Continua sendo família.

— Nunca disse o contrário.

— Mas fez questão da palavra.

— Você fez questão de interpretar.

Ele me estudou por alguns segundos.

— O que está escondendo, Black?

Não respondi.

Alec inclinou o corpo para a frente.

— Ou talvez a pergunta correta seja: quem está escondendo?

Levei o copo novamente à boca. O bourbon desceu devagar enquanto eu pensava em Renesmee. Na mulher que acordara naquela manhã reclamando porque eu havia deixado o telefone tocar cedo demais, que continuava preocupada com a hipoteca de uma senhora do Bronx e que não fazia ideia de que homens como Alec poderiam considerar seu sangue mais valioso do que qualquer fortuna que ela já tivesse visto.

Coloquei o copo sobre a mesa.

— Há coisas que permanecem escondidas porque ninguém sabe onde procurar.

Alec sorriu.

— Isso foi quase uma resposta.

— Foi exatamente a resposta que você mereceu.

— E quando alguém descobre onde procurar?

— Então geralmente descobre tarde demais que não era o único procurando.

O sorriso dele diminuiu.

— Um enigma?

— Um conselho.

— Para mim?

— Para qualquer homem suficientemente curioso para abrir uma porta sem saber o que existe atrás dela.

Alec sustentou meu olhar.

— Está me ameaçando?

— Se eu estivesse ameaçando você, não precisaria perguntar.

Ele abriu um sorriso lento.

— Agora reconheço Jacob Black.

O primeiro tiro interrompeu a conversa.

O som chegou abafado pelas paredes, mas foi inconfundível.

Levantei-me no mesmo instante.

O segundo veio antes que Alec pudesse colocar o copo sobre a mesa.

Depois o terceiro.

Dessa vez mais próximo.

Do lado de fora, a música continuou por poucos segundos antes de ser cortada abruptamente. Gritos começaram quase imediatamente no andar inferior.

Olhei para Alec.

Ele já estava de pé.

— Não olhe para mim, Black. Estou tão surpreso quanto você.

— Uma coincidência inconveniente.

— Concordo.

Mais dois disparos ecoaram.

A mão de Alec deslizou para dentro do paletó.

— Tire devagar.

Ele parou.

— Está falando sério?

— Muito.

— Meus homens estão lá fora.

— E os meus estão em todos os lugares.

Alec retirou a mão vazia.

— Melhor?

— Por enquanto.

A porta abriu e um dos meus seguranças apareceu.

— Don, fique aqui.

— Situação?

— Ainda não sabemos. Tiros no acesso leste. Sam está...

Uma sequência de disparos interrompeu a frase.

O homem levou a mão ao ponto eletrônico.

— Estão respondendo fogo.

Olhei para Alec.

— Seus homens não se movem sem minha autorização.

— Se estiverem sendo atacados...

— Se estiverem sendo atacados, minha segurança os tira daqui. Se sacarem uma arma sem saber quem está atirando, serão tratados como parte do ataque.

Alec cerrou o maxilar.

— Entendido.

Solomon apareceu na porta quase no mesmo instante.

— Cody está seguro.

— Quantos acessos comprometidos?

— Ainda não sabemos. Sam foi para o corredor leste.

Peguei do bolso interno do paletó o pequeno receptor que eu normalmente evitava usar dentro das minhas próprias propriedades. Coloquei-o no ouvido e ativei o canal da segurança.

Várias vozes entraram ao mesmo tempo.

— Fechem o corredor dois.

— Saída norte bloqueada.

— Temos civis descendo pela cozinha.

— Equipe três, comigo.

— Não atirem sem identificação.

Outra sequência de tiros.

Depois ouvi uma voz mais alta atravessar o canal.

— Protejam a senhora Black!

Meu corpo inteiro endureceu.

Por um segundo, todo o restante perdeu importância.

Renesmee não deveria estar ali.

Mas estava.