RENESMEE

Por alguns segundos, fiquei olhando para aquela mulher sem dizer absolutamente nada. Não porque não tivesse uma resposta, mas porque minha cabeça parecia ter decidido produzir vinte perguntas ao mesmo tempo e nenhuma delas conseguia chegar à minha boca. Lucy. A amante de Jacob. A palavra se repetiu em minha mente com uma força absurda, trazendo de volta trechos do contrato, nossa conversa sobre fidelidade, a segurança com que ele aceitara minha condição e, para piorar, o beijo no altar que ainda parecia recente demais sobre meus lábios. Senti a raiva crescer antes mesmo de compreender exatamente de onde vinha. O casamento havia começado como um acordo e eu sabia disso melhor do que qualquer pessoa. Jacob tivera uma vida antes de mim, mulheres antes de mim e provavelmente uma quantidade de relações sobre as quais eu não tinha qualquer direito de fazer perguntas. Ainda assim, aquela mulher estava dentro da casa dele, no dia do nosso casamento, apresentando-se deliberadamente como sua amante. Havia alguma coisa profundamente humilhante naquilo, e eu não sabia se estava mais furiosa com Jacob, com ela ou comigo mesma por me importar tanto.

Lucy pareceu esperar minha reação durante alguns segundos. Quando não a recebeu, sua expressão mudou discretamente e ela inclinou a cabeça, como se estivesse genuinamente surpresa.

— Não vai dizer nada? Confesso que esperava uma reação um pouco diferente.

Peguei uma toalha de papel e sequei as mãos com calma, mesmo sentindo o coração bater depressa demais. Se aquela mulher havia entrado ali esperando me ver chorar, perder o controle ou exigir explicações, teria escolhido o banheiro errado.

— Estou pensando no que seria apropriado dizer. Nunca tive uma amante de meu marido se apresentando formalmente a mim no banheiro da minha festa de casamento, portanto não conheço exatamente a etiqueta para esse tipo de situação.

O sorriso de Lucy diminuiu um pouco.

— Imagino que seja uma situação desconfortável.

— Menos do que você gostaria. Na verdade, sua apresentação resolveu uma parte importante da dúvida.

— Que dúvida?

Joguei a toalha no cesto e me virei completamente para ela.

— Você disse que é amante de Jacob, mas precisou vir até mim para anunciar isso pessoalmente. Se ainda ocupasse esse lugar na vida dele, provavelmente não precisaria fazer tamanho esforço para garantir que eu soubesse que um dia ocupou. Portanto, imagino que a apresentação correta seja ex-amante.

Lucy não respondeu imediatamente.

A mudança em seu rosto foi pequena, mas suficiente para que eu percebesse que havia acertado alguma coisa.

— Você parece bastante segura para uma mulher que conhece Jacob há tão pouco tempo.

— Não confunda segurança com ingenuidade. Eu sei perfeitamente há quanto tempo conheço meu marido.

Pronunciar aquelas duas palavras foi estranho.

Meu marido.

Mais estranho ainda foi perceber que gostei de dizê-las diante dela.

— Então talvez também devesse saber há quanto tempo eu o conheço — Lucy respondeu. — Você chegou a esta casa há algumas semanas. Eu estive ao lado de Jacob durante anos.

— Isso deve tornar particularmente desagradável ter sido dispensada por uma mulher que ele conhece há algumas semanas.

O olhar dela endureceu.

Eu também estava surpresa comigo mesma. Não costumava procurar confrontos, mas nunca aprendera a baixar a cabeça diante deles. Crescer em Saint Agnes não me ensinara a ser submissa; ensinara exatamente o contrário. Eu aprendera cedo que, se não defendesse meu próprio espaço, ninguém necessariamente faria aquilo por mim. Lucy era mais velha, evidentemente pertencia àquele mundo e conhecia Jacob de uma maneira que eu não conhecia. Nada disso lhe dava o direito de entrar no meu casamento para tentar me diminuir.

Ela se aproximou um pouco da bancada.

— Acha mesmo que uma cerimônia muda um homem como Jacob?

— Não tenho qualquer intenção de mudá-lo.

— Então é mais ingênua do que parece.

— Ou talvez você esteja tão acostumada a imaginar que o conhece melhor do que todos que ainda não percebeu que a vida dele continuou sem você.

Lucy soltou uma pequena risada, embora não houvesse humor nela.

— Renesmee, você não faz ideia do homem com quem acabou de se casar.

A frase atingiu um ponto que eu já temia, e isso me irritou ainda mais.

— É possível. Mas você também não faz ideia do que existe entre mim e Jacob, portanto estamos em condições semelhantes.

— Eu sei muito mais do que imagina. Conheço os hábitos dele, conheço seus silêncios, sei onde ele vai quando não quer ser encontrado e sei como ele é quando fecha a porta de um quarto. Existem coisas que você ainda levará muito tempo para descobrir.

A provocação foi tão deliberada que senti meu estômago se contrair. Imagens que eu não queria surgiram imediatamente na minha cabeça, e odiei aquela mulher por saber exatamente o que estava fazendo. Ainda assim, mantive o rosto firme.

— Tenho certeza de que vocês tiveram uma vida íntima. Jacob tem trinta e oito anos e eu não esperava encontrar um homem casto. Se sua intenção era me surpreender com a informação de que ele teve relações antes de mim, receio que tenha desperdiçado uma entrada bastante teatral.

— Não estou falando de uma relação qualquer.

— Eu percebi. Você está fazendo bastante esforço para que eu perceba.

Lucy deu um passo na minha direção.

— Foram anos, Renesmee. Não algumas noites. Não uma aventura conveniente. Anos. Eu estava com ele quando muita gente que está lá fora não conseguia sequer chegar perto. Eu o conheci em momentos que você jamais conhecerá.

— E, ainda assim, quem está usando a aliança dele sou eu.

A resposta saiu antes que eu pudesse avaliar o quanto revelava da minha própria raiva.

Lucy olhou para minha mão.

Minha aliança brilhava sob a luz do banheiro.

— Uma aliança não significa tanto para homens como Jacob quanto você gostaria de acreditar.

— Então não compreendo por que parece incomodá-la tanto.

Dessa vez ela não conseguiu esconder a irritação.

— Você realmente acredita que venceu alguma coisa?

— Não estou competindo com você.

— Deveria.

— Para competir, precisaríamos estar disputando a mesma posição. Você acabou de entrar no banheiro da esposa de Jacob no dia do casamento dele para anunciar que é amante. Não fui eu quem transformou isso em competição.

Lucy respirou profundamente e se recompôs. Quando tornou a falar, a raiva havia sido substituída por uma calma que me pareceu ainda mais calculada.

— Você é jovem. Talvez seja justamente isso que ele ache interessante agora.

— Tenho vinte anos, não cinco. Não precisa conversar comigo como se eu fosse incapaz de compreender uma provocação.

— Não estou provocando. Estou tentando lhe fazer um favor.

Eu quase ri.

— Naturalmente. Você invadiu meu casamento por solidariedade feminina.

— Vim porque sei o que acontece com mulheres que acreditam nas promessas de Jacob Black.

Aquilo me fez ficar séria.

— Se tem alguma acusação concreta para fazer, faça. Não vou passar os próximos minutos ouvindo frases cuidadosamente incompletas enquanto você espera que minha imaginação faça o trabalho por você.

Lucy me estudou com uma atenção diferente.

— Ele lhe contou tudo sobre a vida dele?

— Essa pergunta diz respeito a mim e ao meu marido.

— Ele lhe contou sobre as mulheres?

— Você está diante de mim, portanto pelo menos uma delas já se encarregou pessoalmente da apresentação.

— Estou falando das coisas que realmente importam.

— Então fale claramente.

Ela hesitou.

Foi rápido, mas percebi.

— Existem partes da vida de Jacob que ele não divide nem mesmo com a família.

— E dividiu com você?

— Algumas.

— Nesse caso, deveria ter cuidado com o que faz com a confiança que recebeu. Aparecer no casamento dele ameaçando transformar confidências em instrumento de vingança diz muito mais sobre você do que sobre Jacob.

Os olhos dela se estreitaram.

— Você não sabe o que ele fez comigo.

— Não. E não vou fingir que sei. Talvez ele tenha sido cruel, talvez tenha feito promessas que não cumpriu, talvez você tenha motivos legítimos para odiá-lo. Se tiver, resolva com ele. O que não fará é me usar para puni-lo.

Lucy soltou uma respiração lenta.

— Você está defendendo um homem que mal conhece.

— Não estou defendendo Jacob. Estou defendendo a mim mesma. Existe uma diferença.

Ela ficou em silêncio, e percebi que aquela resposta a incomodara mais do que qualquer provocação anterior.

Eu também estava furiosa, embora não permitisse que ela percebesse a extensão. Porque uma parte de mim queria encontrar Jacob naquele mesmo instante e perguntar quando exatamente aquela relação terminara. Queria saber se Lucy estivera no apartamento dele enquanto eu já vivia naquela casa, se ele a tocara depois de aceitar minha condição de fidelidade e se o beijo que acabara de me desestabilizar significava para ele tão pouco quanto aquela mulher sugeria. Eu tinha perguntas demais, e odiava descobrir que as respostas importavam.

Lucy cruzou os braços.

— Ele vai cansar dessa coragem.

— Então esse será um problema entre mim e ele quando acontecer.

— Jacob não gosta de ser desafiado.

— Já percebi.

— E você o desafia o tempo inteiro.

— Curiosamente, ele continua se aproximando.

A expressão dela se tornou fria.

— Não tenha tanta certeza de que sabe por quê.

— Não tenho certeza de quase nada sobre meu casamento, Lucy. A diferença é que consigo admitir isso. O que sei é que Jacob aceitou condições antes de me levar ao altar e uma delas foi fidelidade. Se ele descumpriu a palavra, vou tratar diretamente com ele. Se não descumpriu, então você é apenas uma mulher do passado dele que entrou aqui tentando criar um problema no presente. Em qualquer das duas situações, não existe conversa que eu precise ter com você.

— Fidelidade? — Lucy repetiu, e alguma coisa próxima de incredulidade atravessou seu rosto. — Ele realmente concordou com isso?

A reação dela foi involuntária demais para ser falsa.

Meu peito apertou.

— Pelo visto existem coisas sobre meu marido que você também não sabe.

— Ele nunca foi fiel a mulher alguma depois de Leah.

O nome me fez franzir o cenho.

Eu sabia quem Leah era. A mãe de Claire e William. A esposa morta de Jacob.

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu.

Rachel entrou falando antes mesmo de olhar para nós.

— Nessie, estamos procurando você há...

Ela parou.

Seu olhar passou de mim para Lucy, e a mudança em sua expressão foi imediata. O humor desapareceu de seu rosto com uma rapidez que me fez compreender que aquilo era muito mais sério do que uma ex-amante inconveniente entrando numa festa.

— O que você está fazendo aqui?

Lucy se virou calmamente.

— Boa noite, Rachel.

— Eu perguntei como você entrou.

— Fui convidada.

— Não por esta família.

— Isso não impediu minha entrada.

Rachel avançou alguns passos e olhou para mim.

— Nessie, o que ela disse?

Eu não queria responder. Não ali. Não com Lucy observando cada reação minha e, principalmente, não quando eu já sentia a raiva começar a ultrapassar o controle que mantivera durante toda aquela conversa.

— Pergunte a ela.

— Renesmee...

— Eu preciso de alguns minutos.

Passei pelas duas antes que Rachel pudesse me impedir. Ouvi meu nome novamente quando abri a porta, mas não voltei. Se permanecesse naquele banheiro, acabaria perguntando sobre Leah, sobre Jacob, sobre o significado daquela mulher estar ali e sobre uma quantidade de coisas que eu preferia ouvir do homem que acabara de jurar fidelidade diante de mim.

O corredor principal me levaria diretamente à recepção, e eu não estava disposta a atravessar uma sala cheia de convidados com a cabeça naquele estado. Segui para o lado contrário, encontrei uma das portas que davam para a parte posterior do jardim e saí. O ar frio atingiu meu rosto enquanto eu segurava a saia do vestido com as duas mãos para conseguir caminhar. Contornei parte da casa, evitando a área iluminada onde os convidados poderiam me enxergar, até alcançar a entrada utilizada pelos funcionários.

Empurrei a porta e entrei.

Duas mulheres da equipe pararam imediatamente ao me ver surgir pela cozinha usando um vestido de noiva.

— Senhora Black?

Continuei andando.

— Senhora, está tudo bem? O que está fazendo por aqui?

Não respondi. Naquele momento, ouvir “senhora Black” parecia uma provocação particularmente cruel.

Atravessei a cozinha sob os olhares confusos dos funcionários e cheguei ao corredor de serviço. Um homem que carregava uma caixa afastou-se rapidamente para me dar passagem, enquanto outra funcionária perguntou se eu precisava de alguma coisa. Continuei sem responder, segurando a saia para não tropeçar e tentando ignorar a pressão crescente no peito.

Eu não choraria.

Muito menos por uma mulher que aparecera no meu casamento com a intenção evidente de me atingir.

Subi pela escada lateral, evitando completamente o salão principal. Quando alcancei o andar dos quartos, diminuí o passo apenas porque o vestido já parecia pesar o dobro. O corredor estava vazio, e pela primeira vez desde que Lucy pronunciara aquelas palavras eu não precisava me preocupar com ninguém observando meu rosto.

Minha mão tremia quando alcancei a porta.

Aquilo me deixou ainda mais irritada.

Não sabia exatamente o que Jacob havia feito, não sabia quando a relação com Lucy terminara e não sabia se existia alguma verdade escondida atrás das provocações daquela mulher. O que sabia era que eu não conseguiria voltar para aquela festa, sorrir para convidados e fingir que nada acontecera antes de olhar para meu marido e ouvir dele exatamente quem era Lucy e por que sua amante tivera coragem suficiente para entrar na nossa casa no dia do nosso casamento.

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim e permaneci alguns segundos com a mão na maçaneta, respirando devagar enquanto tentava organizar tudo o que acabara de acontecer. Meu primeiro impulso tinha sido fugir daquele banheiro, e eu o seguira sem pensar muito, mas agora que estava sozinha a irritação comigo mesma começou a competir com a raiva que sentia de Lucy. Eu não era uma menina que corria para o quarto porque outra mulher aparecera tentando ferir meu orgulho. Não havia passado vinte anos aprendendo a me defender sozinha para desmoronar justamente no dia do meu casamento. Se Lucy entrara naquela casa esperando encontrar uma jovem insegura, intimidada pela experiência que ela tivera com Jacob e incapaz de suportar a ideia de que meu marido possuíra outras mulheres antes de mim, eu não lhe daria esse prazer.

Além disso, precisava separar o que sabia daquilo que Lucy queria que eu acreditasse. Jacob tivera uma amante. Aquilo era um fato, não uma traição. Ele era um homem de trinta e oito anos que fora casado, ficara viúvo e tivera uma vida durante todos os anos anteriores à minha chegada. Eu não tinha direito algum de exigir que aquele passado desaparecesse simplesmente porque agora usava uma aliança. O que eu tinha direito de saber era quando aquele relacionamento terminara. A condição que eu impusera antes de aceitar o contrato fora clara, e Jacob a aceitara sem tentar negociar: enquanto estivéssemos casados, haveria exclusividade dos dois lados. Eu não manteria amantes, ele não manteria amantes, e nenhuma antiga relação seria trazida para dentro da casa que eu ocuparia como esposa. Se Lucy pertencesse ao passado, eu poderia não gostar da maneira como descobrira sua existência, mas sobreviveria. Se ela ainda pertencesse ao presente, Jacob e eu teríamos um problema muito diferente.

Respirei profundamente e fui até o banheiro do quarto. Acendi as luzes diante do espelho e quase fiquei irritada ao perceber que não parecia tão devastada quanto me sentia. Alguns fios haviam escapado do penteado, meus lábios precisavam de retoque e havia um pequeno borrão próximo a um dos olhos, provavelmente provocado quando eu passara a mão pelo rosto sem perceber. Nada que não pudesse ser corrigido.

— Você não vai chorar — disse ao meu reflexo enquanto pegava o que precisava sobre a bancada. — E não vai se esconder.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Comecei pela maquiagem. Corrigi cuidadosamente o canto do olho, retoquei o batom e ajeitei os fios soltos sem destruir o penteado. Quanto mais me ocupava com aquelas pequenas tarefas, mais minha respiração voltava ao normal. Lucy não merecia que eu abandonasse minha própria festa. Muito menos merecia que os convidados percebessem que havia conseguido me atingir.

Quando terminasse aquela noite, eu conversaria com Jacob.

Não como uma mulher traída antes mesmo de saber se existira traição, nem como uma garota tomada por ciúmes porque descobrira que o marido tinha um passado. Eu faria perguntas objetivas e esperaria respostas igualmente objetivas. Se ele tivesse cumprido o acordo, o assunto terminaria ali. Se não tivesse, descobriria rapidamente que a jovem de vinte anos que colocara uma aliança no dedo naquela tarde não aceitara se tornar uma esposa decorativa enquanto ele mantinha a vida que possuía antes.

Olhei novamente para mim.

— Muito melhor.

Guardei o batom, respirei fundo uma última vez e saí do banheiro.

Parei imediatamente.

Jacob estava no quarto.

Ele havia retirado o paletó em algum momento da recepção e estava apenas com o colete escuro sobre a camisa branca, a gravata ainda no lugar, embora ligeiramente menos impecável do que no início da cerimônia. Estava próximo à janela quando saí, mas virou-se assim que me viu. Sua expressão era séria.

Minha irritação retornou com uma eficiência impressionante.

— Você costuma entrar nos quartos sem bater?

A sobrancelha dele se ergueu discretamente.

— Tecnicamente, este também é meu quarto.

— Tecnicamente, você poderia ter batido.

— Bati. Você estava no banheiro.

— Então poderia ter esperado.

— Poderia.

— Mas naturalmente não esperou.

— Não.

A calma dele naquele momento era irritante.

Passei por ele e fui até a penteadeira, mais para manter alguma distância do que porque precisasse de qualquer coisa.

— Rachel me contou o que aconteceu.

Minha mão parou sobre a bolsa.

— Que eficiência.

— Renesmee.

— Não precisa usar esse tom. Estou perfeitamente bem.

— Você saiu da sua própria recepção pela entrada dos funcionários e subiu sem avisar ninguém.

Virei-me para ele.

— Eu precisava de alguns minutos.

— Poderia ter me procurado.

— Curiosamente, depois de uma mulher se apresentar como sua amante, você não foi a primeira pessoa que tive vontade de procurar.

O maxilar dele se contraiu discretamente.

Finalmente alguma reação.

— Lucy não deveria estar aqui.

Soltei uma pequena risada sem humor.

— Essa é uma informação fascinante, considerando que ela está.

— Eu não a convidei.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Deveria impedir que tire conclusões antes de me ouvir.

A resposta fez minha irritação crescer.

— Não me diga quais conclusões devo ou não tirar, Jacob. Eu não fiz escândalo, não atravessei sua festa acusando você de nada e sequer contei a Rachel o que aquela mulher disse. Vim até aqui justamente porque preferi pensar antes de agir. Portanto, não me trate como se estivesse diante de uma esposa histérica que precisa ser administrada.

Ele me observou durante alguns segundos.

— Não a estou tratando dessa maneira.

— Ótimo.

Peguei minha bolsa.

— Então podemos voltar para a festa.

Dei dois passos em direção à porta.

— Não antes de conversarmos.

Parei e fechei os olhos por um instante.

— Não quero conversar agora.

— Eu quero explicar.

Virei-me tão depressa que a saia do vestido acompanhou o movimento.

— E eu acabei de dizer que não quero sua explicação agora.

— Renesmee...

— Não. — Respirei antes de continuar, porque me recusava a perder o controle. — Passei os últimos dez minutos me lembrando de que você teve uma vida antes de mim e que eu não tenho qualquer direito de exigir explicações sobre mulheres que fizeram parte dela. Portanto, se Lucy é exatamente isso, uma mulher do seu passado, não existe nada que precise ser resolvido no meio da nossa recepção. Eu vou descer, vou sorrir para seus convidados, vou terminar esta noite e depois conversaremos.

— Ela é uma mulher do meu passado.

A resposta deveria ter me tranquilizado.

Em vez disso, fiquei ainda mais irritada.

— Que ótimo.

— Não parece achar ótimo.

— Estou encantada.

— Também não parece.

— Talvez porque sua ex-amante tenha aparecido no banheiro da minha festa de casamento para me contar detalhes suficientes sobre a relação de vocês para garantir que eu passasse o restante da noite imaginando outros.

A expressão dele endureceu.

— Que detalhes?

— Isso importa?

— Importa para mim.

— Então pergunte a ela.

— Estou perguntando à minha esposa.

— E sua esposa está dizendo que não quer falar sobre isso agora.

Tentei passar por ele novamente.

Jacob se moveu e ficou entre mim e a porta.

Parei.

— Saia da frente.

— Quando terminarmos.

— Você tem um problema muito sério com a palavra “não”.

A frase alterou imediatamente sua expressão.

Ele deu um passo para o lado, liberando a passagem.

— A porta está livre. Se realmente quiser sair, não vou impedi-la.

Aquilo me fez hesitar.

Jacob permaneceu onde estava, sem me tocar.

— Mas prefiro que fique cinco minutos e me ouça — acrescentou. — Lucy não é minha amante. Foi durante alguns anos. A relação terminou antes deste casamento e não existe qualquer possibilidade de continuar.

Cruzei os braços.

— Antes do casamento é uma expressão bastante ampla.

Ele compreendeu imediatamente o que eu perguntava.

— Terminou antes de eu colocar esta aliança no seu dedo.

— Isso não responde à minha pergunta.

— Então faça a pergunta que realmente quer fazer.

Eu o encarei.

O maldito homem conseguia transformar até uma discussão conjugal em interrogatório.

— Você esteve com ela depois que eu aceitei o contrato?

Jacob sustentou meu olhar.

— Sim.

Aquilo me atingiu com força suficiente para que eu ficasse em silêncio por alguns segundos.

Ele continuou antes que eu pudesse falar:

— Nossa condição de fidelidade ainda não havia entrado em vigor.

— Interessante. Eu não me lembro de ter estabelecido que você teria alguns dias extras para organizar sua vida sexual.

— Você estabeleceu fidelidade durante o casamento.

— Eu estabeleci que não aceitaria entrar em um casamento no qual existisse outra mulher circulando pela vida do meu marido.

— E não existe.

— Existia enquanto eu já estava morando nesta casa.

— Sim.

A honestidade dele me irritava quase tanto quanto a informação.

— E você não considerou relevante me contar?

— Não.

Ri sem humor.

— Naturalmente.

— Renesmee, não vou mentir para tornar a resposta mais confortável. Lucy fazia parte da minha vida antes de você. Quando decidi que nosso casamento aconteceria e aceitei as condições que estabeleceu, encerrei aquela relação definitivamente.

— Quando?

— Dias atrás.

Meu estômago se contraiu.

— Dias.

— Sim.

— Eu dormia no quarto ao lado do seu enquanto você ainda tinha uma amante.

— Você ainda não era minha esposa.

— Essa é sua defesa?

— Não estou me defendendo. Estou lhe dizendo exatamente o que aconteceu.

— Isso é pior.

Passei por ele, dessa vez em direção à janela, porque se continuasse olhando para seu rosto excessivamente tranquilo acabaria dizendo alguma coisa de que me arrependeria.

— Eu não acredito que estou tendo essa conversa no dia do meu casamento.

— Nem eu pretendia tê-la.

— Então deveria ter escolhido melhor suas amantes.

O silêncio atrás de mim durou pouco.

— Nisso provavelmente concordamos.

Virei-me.

— Não tente ser engraçado.

— Não estou.

— Lucy sabia sobre mim?

— Sim.

— Sabia que você se casaria?

— Sim.

— E mesmo assim você foi até ela?

Jacob não respondeu imediatamente, e aquilo bastou.

— Meu Deus.

— Renesmee, olhe para mim.

— Não me dê ordens.

Ele se aproximou, mas parou antes de invadir completamente meu espaço.

— Não estou dando uma ordem. Estou tentando fazer com que entenda uma distinção importante. Eu não traí você.

— Ainda não decidi se concordo com sua definição conveniente de fidelidade.

— Não é conveniente. É factual. Nós não tínhamos uma relação íntima, não estávamos casados e o próprio contrato estabelecia o início das obrigações matrimoniais a partir da celebração. Quando encerrei minha relação com Lucy, deixei claro que era definitivo. Desde então, não estive com ela nem com qualquer outra mulher.

— Que reconfortante. Estamos casados há algumas horas e meu marido ainda conseguiu manter uma ficha impecável.

Dessa vez a boca dele quase se moveu.

Meu olhar se estreitou.

— Se você sorrir, Jacob, eu juro que...

— Não estou sorrindo.

— Está querendo.

— Um pouco.

— Você é insuportável.

— Já me disseram.

Peguei a saia e comecei novamente em direção à porta.

Ele não bloqueou o caminho dessa vez, mas sua voz me alcançou antes que eu chegasse.

— Você está com ciúmes.

Parei.

Devagar.

Virei o rosto para ele.

Jacob estava me observando com aquela calma que eu começava sinceramente a odiar.

— Perdão?

— Está com ciúmes de Lucy.

A indignação foi tão imediata que quase me fez esquecer a discussão anterior.

— Não estou com ciúmes.

Jacob caminhou alguns passos na minha direção.

— Está.

— Eu estou irritada porque uma mulher entrou no nosso casamento, apresentou-se como sua amante e me informou que conhece meu marido de maneiras que eu não conheço. Existe uma diferença considerável.

— Existe. Mas uma coisa não exclui a outra.

— Não tente analisar minhas emoções.

— Não estou analisando. Estou observando.

— Você e esse seu hábito irritante de observar tudo.

Ele parou diante de mim, mantendo uma distância pequena o bastante para me obrigar a erguer ligeiramente o rosto.

— Você não ficou furiosa quando descobriu que eu tive uma amante. Ficou furiosa quando ela lhe contou que esteve comigo durante anos. Ficou ainda mais quando soube que a relação terminou recentemente e agora está particularmente irritada porque imaginou que eu voltava para esta casa depois de estar com ela.

Senti meu rosto esquentar.

O pior era que ele estava certo sobre a última parte.

— Sua arrogância é impressionante.

— Não negou.

— Estou negando agora. Não tenho ciúmes de você.

— De mim seria estranho.

— De Lucy!

— Isso parece mais provável.

Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo.

— Eu não vou discutir isso com você.

— Porque sabe que tenho razão.

— Porque ainda existem convidados lá embaixo e eu me recuso a passar minha noite de casamento discutindo no quarto sobre uma ex-amante que claramente conseguiu exatamente o que queria ao entrar aqui.

A expressão de Jacob mudou.

A provocação desapareceu, e ele me observou com mais seriedade.

— Nisso você tem razão.

— Eu sei.

— Lucy queria provocar uma reação.

— E conseguiu. Não significa que continuará conseguindo.

Dei um passo para passar por ele, mas Jacob tocou meu braço. Não me segurou; apenas deixou os dedos sobre minha pele, dando-me espaço suficiente para me afastar se quisesse.

Não me afastei.

— Renesmee.

Olhei para ele.

— O quê?

— Não existe Lucy.

Franzi o cenho.

— Ela me pareceu bastante existente há quinze minutos.

— Na minha vida.

A firmeza com que disse aquilo eliminou por um instante a resposta que eu preparava.

— O que existia entre nós terminou. Não vai entrar neste casamento, não vai circular nesta casa e não vai ocupar espaço algum entre você e eu. Foi isso que prometi quando aceitei sua condição e é isso que vou cumprir.

Sustentei seu olhar, procurando alguma hesitação.

Não encontrei.

Ainda estava furiosa.

Ainda queria discutir sobre o fato de ele ter encerrado uma relação de anos apenas alguns dias antes de se casar comigo.

Mas, para meu profundo desgosto, uma parte de mim também se sentiu aliviada.

Jacob percebeu.

Seu polegar deslizou uma única vez sobre meu braço antes que aquele traço irritante de satisfação voltasse aos olhos dele.

— E definitivamente está com ciúmes.

Minha boca se abriu de indignação.

— Continue falando, Jacob. Você está a poucos minutos de descobrir como fica um casamento anulado antes de cortarmos o restante do bolo.

Eu esperava uma reposta de Jacob, e ela foi dada mas não da maneira que eu esperava. Em silêncio Jacob diminuiu o espaço entre nós, me puxou pela cintura e me beijou.

Dessa vez não existia juiz, convidados ou aplausos que servissem como justificativa. Eu poderia ter recuado assim que senti sua boca sobre a minha, mas minhas mãos pousaram no peito dele e permaneceram ali apenas por um instante antes de meus dedos se fecharem sobre o tecido do colete. Jacob segurou minha cintura e me aproximou, e toda a resposta ríspida que eu pretendia dar desapareceu quando correspondi ao beijo.

Era a segunda vez que ele fazia aquilo naquela noite e, ainda assim, conseguiu me desestabilizar mais do que no altar. Talvez porque estivéssemos sozinhos. Talvez porque, dessa vez, eu soubesse exatamente o que estava fazendo quando retribuí.

Quando Jacob interrompeu o beijo, permaneci com as mãos apoiadas no peito dele e precisei respirar fundo. Ele continuou próximo por alguns segundos, observando meu rosto, enquanto eu tentava recuperar alguma dignidade.

— se recomponha, vamos voltar nos despedir dos convidados como marido e mulher, encerrar a recepção e seguir para o hotel.

Parei diante do espelho e olhei para ele através do reflexo.

— Hotel?

— Nossa suíte está preparada.

A lembrança dos trinta dias surgiu imediatamente, junto com todas as provocações de Emma naquela tarde. Meu estômago se contraiu.

Jacob percebeu minha expressão.

— Nosso acordo continua exatamente como estabelecemos. Não vou exigir nada de você esta noite.

Ele caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la e tornou a olhar para mim.

— Quando chegarmos ao hotel, entretanto, vamos terminar esta conversa sem Lucy, sem convidados e sem minha família interrompendo a cada cinco minutos.

Segurei o batom diante do espelho, ainda sentindo meu coração acelerado pelo beijo.

Ele saiu e fechou a porta.

Fiquei alguns segundos olhando para meu reflexo antes de começar a corrigir o estrago que ele fizera na minha maquiagem.

Eu já não sabia o que me deixava mais apreensiva: descobrir tudo o que ainda precisava saber sobre Lucy ou perceber que a perspectiva de ficar sozinha com meu marido naquela suíte me deixava nervosa por razões que não tinham absolutamente nada a ver com ela.