A esposa do Don
33 Abusos
RENESMEE
Meu primeiro mês oficialmente como senhora Black passou de uma maneira muito diferente daquela que eu havia imaginado quando assinei o contrato. Eu esperava precisar de semanas para aprender a circular pela mansão sem me sentir uma intrusa, meses para entender as regras daquela família e talvez todo o período do casamento para me acostumar ao peso do sobrenome que agora acompanhava o meu. A realidade foi mais rápida. Em poucas semanas, eu já sabia quais funcionários chegavam primeiro pela manhã, quem gostava de conversar enquanto organizava a cozinha, qual cozinheira escondia doces de William porque ele aparecia antes do jantar dizendo que estava morrendo de fome e quais seguranças fingiam não perceber quando eu escapava para o jardim apenas para ficar alguns minutos sozinha. No início todos haviam me tratado com a formalidade reservada à esposa do homem que comandava aquela casa; depois começaram a me tratar como Renesmee, ainda que o “senhora Black” continuasse aparecendo sempre que Jacob estava por perto. Eu ajudava quando podia, conversava com eles, sabia os nomes de seus filhos e não entendia por que deveria atravessar uma sala sem cumprimentar alguém apenas porque aquela pessoa trabalhava para meu marido. Isso pareceu surpreendê-los mais do que deveria, e aos poucos percebi uma admiração sincera que me deixava constrangida. Eu não estava fazendo nada extraordinário. Talvez apenas estivesse demonstrando que me lembrava perfeitamente de como era ser a pessoa que servia uma mesa em vez daquela que se sentava diante dela.
Com William, a mudança havia sido ainda maior. Will já não perguntava todas as noites se eu estaria na mansão na manhã seguinte. Parecia finalmente ter entendido que eu não desapareceria enquanto ele dormia. Eu o ajudava com as tarefas, acompanhava suas refeições, ouvia explicações intermináveis sobre jogos que continuavam não fazendo sentido para mim e havia aprendido que ele conversava mais quando acreditava que ninguém estava tentando fazê-lo conversar. A escola também melhorara depois do episódio com Mason. Jacob havia transformado a situação em uma questão tão séria que ninguém voltou a tratar os problemas de Will como exageros de uma criança, mas eu suspeitava que a maior mudança não vinha do medo que o sobrenome Black provocava. William simplesmente estava mais seguro. Às vezes aparecia no meu quarto sem bater, deitava atravessado na cama e começava a falar sobre qualquer coisa, como se sempre tivesse feito aquilo. Jacob reclamava da falta de educação, eu lembrava que o filho tinha sete anos, e Will aproveitava nossas discussões para permanecer exatamente onde estava.
Claire, ao contrário, vinha se afastando.
Não acontecera de uma vez. Nas primeiras semanas depois do casamento, nós até havíamos encontrado uma espécie de convivência confortável. Ela continuava irônica, continuava reclamando das regras do pai e ainda possuía uma capacidade impressionante de transformar qualquer conversa simples em negociação, mas aparecia para o jantar, às vezes entrava no meu quarto para perguntar sobre alguma roupa e, em duas ocasiões, sentou-se comigo no jardim sem qualquer motivo específico. Depois começou a se recolher novamente. Passava mais tempo no quarto, inventava desculpas para não permanecer nas áreas comuns e parecia estar sempre verificando quem estava no corredor antes de sair.
Eu sabia quando aquilo começara.
Rebecca e Solomon haviam sugerido que Simon passasse a integrar a equipe de segurança da residência.
Segundo eles, seria uma maneira de aumentar a responsabilidade do rapaz e permitir que ele aprendesse diretamente com os homens de Jacob. A ideia parecia perfeitamente razoável para todos, principalmente porque Simon era da família. Para mim, não.
E, aparentemente, também não para Claire.
Eu não gostava de ter Simon circulando pela mansão praticamente vinte e quatro horas por dia. Desde o casamento, eu evitava ficar sozinha com ele. Ainda lembrava perfeitamente do corredor naquela noite, do álcool em sua voz e principalmente da frase sobre nós dois podermos tirar uma vantagem muito grande daquilo. Simon nunca explicara a que vantagem se referia, e eu não perguntara novamente. Depois disso ele se comportara como se nada tivesse acontecido, mantendo uma distância respeitosa sempre que Jacob estava por perto, mas eu já conhecia suas intenções o suficiente para não me sentir confortável em sua presença.
Crescer em um orfanato tinha me ensinado coisas que nenhuma criança deveria precisar aprender tão cedo. Eu não tivera pai, irmão ou qualquer homem disposto a aparecer se alguém ultrapassasse um limite comigo. As freiras nos protegiam, mas não podiam estar em todos os lugares, e eu crescera desenvolvendo uma espécie de alerta que nunca desapareceu completamente. Eu observava portas, percebia mudanças de comportamento, prestava atenção quando alguém se aproximava demais e, principalmente, aprendera a não ignorar o desconforto apenas porque não conseguia explicar sua origem. Simon me causava esse desconforto.
Além disso, eu sabia perfeitamente o que aconteceria se Jacob descobrisse que o próprio sobrinho demonstrara interesse por sua esposa.
Não precisava conhecer todos os detalhes da vida de meu marido para compreender que aquela conversa não terminaria com uma advertência familiar.
Por isso mantive silêncio. Não queria ser a causa de uma tragédia entre Jacob e a família da própria irmã. Entretanto, quanto mais observava Claire se fechar desde que Simon passara a permanecer com frequência na mansão, mais difícil ficava acreditar que meu problema com ele era o único existente naquela casa.
Naquela tarde, porém, eu estava tentando me obrigar a não pensar nisso. Havia saído com William para encontrar Emma e as crianças em um restaurante simples próximo ao Bronx. Jason e Jully estavam conosco, e durante quase uma hora conseguimos conversar como fazíamos antes de minha vida adquirir seguranças, motoristas e um marido que parecia considerar Manhattan inteira uma ameaça em potencial. Naturalmente, havia dois homens de Jacob sentados algumas mesas atrás de nós, mas eu aprendera a ignorá-los.
— A senhora González está preocupada — comentou Emma enquanto cortava parte da comida de Jully. — Eu a encontrei ontem no corredor e ela estava praticamente chorando.
— O que aconteceu?
— A hipoteca. Parece que aumentaram alguma coisa, houve atraso em algumas parcelas e agora ela está tentando negociar com o banco. Não entendi tudo, porque ela ficou com vergonha de explicar.
Meu garfo parou.
A senhora González havia ajudado Emma quando ela mais precisava. Fora ela quem encontrara o apartamento no Bronx, aceitara as crianças sem transformar aquilo em um problema e tratara minha amiga com uma gentileza que não tinha obrigação de oferecer.
— Quanto ela deve?
Emma ergueu os olhos.
— Nessie.
— Eu só perguntei quanto.
— E eu conheço você. Se disser o valor, amanhã a mulher acorda com a casa quitada e um bilhete dizendo para comprar pão com o dinheiro que sobrou.
— Eu não faria isso.
Emma me encarou.
— Está bem. Talvez fizesse.
Ela começou a rir.
— O dinheiro não mudou você.
— Estou casada há um mês, Emma. Dê tempo ao dinheiro para trabalhar.
— Não vai funcionar. Você continua preocupada com todo mundo.
William, que estava ao meu lado, levantou os olhos do prato.
— Ela também gasta dinheiro.
— Obrigada pela defesa, Will.
— Não foi defesa. — Ele tomou um gole do suco com absoluta tranquilidade. — Meu pai disse que você comprou seis pares de sapatos em uma tarde.
Emma imediatamente olhou para mim.
— Seis?
— Rachel estava comigo.
— Então retiro o que disse sobre o dinheiro não ter mudado você.
— Foram promoções.
— Não eram — informou William.
— Você nem estava lá!
— Meu pai falou.
— Seu pai fala demais.
Jason começou a rir.
— O senhor Black tem muito dinheiro?
Antes que eu respondesse, Will fez uma expressão séria.
— Muito.
— Mais que jogador de futebol?
Will pensou.
— Não sei. Mas ele tem pessoas que sabem.
Emma cobriu a boca, tentando não rir, enquanto eu encostava a testa na mão.
— Will, por favor, não explique as finanças do seu pai no restaurante.
Jully apontou para mim com uma batata frita.
— Tia Nessie também é rica agora.
— Tecnicamente, o dinheiro continua sendo dele.
Will franziu a testa.
— Você casou com ele.
— Isso não significa que metade da conta bancária apareceu magicamente no meu nome.
Ele pareceu refletir seriamente sobre aquilo.
— Então você fez um acordo ruim.
Emma quase engasgou.
— Eu amo essa criança.
— Não incentive.
— Estou apenas reconhecendo inteligência financeira precoce.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Peguei-o ainda sorrindo, esperando encontrar outra mensagem de Rachel ou talvez alguma ordem disfarçada de pergunta enviada por Jacob. O sorriso desapareceu quando vi o nome de Claire.
Por favor, venha pra casa.
Li outra vez.
Claire não escrevia “por favor” com frequência. Principalmente para mim.
Meu primeiro impulso foi responder perguntando o que havia acontecido, mas alguma coisa naquela mensagem me incomodou imediatamente. Toquei no nome dela e liguei.
Chamou até cair.
Tentei novamente.
Nada.
Emma percebeu minha mudança de expressão.
— O que foi?
— Claire.
Mostrei a mensagem.
Ela leu e franziu a testa.
— Ela não disse o que aconteceu?
— Não. E não atende.
Tentei uma terceira vez. Novamente nenhuma resposta.
Aquela sensação conhecida surgiu no meu estômago, a mesma que aprendera a não ignorar muitos anos antes.
Peguei minha bolsa.
— Preciso ir.
— Quer que eu vá com você?
— Não. Provavelmente não é nada grave. Ela pode ter brigado com o pai, quebrado alguma coisa ou decidido que precisa de mim para convencê-lo de alguma loucura. Mas isso não parece uma mensagem normal dela.
William imediatamente largou o garfo.
— Eu vou também.
— Você ia ao parque com Jason e Jully.
— Mas Claire precisa da gente.
A simplicidade da resposta me fez parar por um segundo.
Emma sorriu para ele.
— Você pode ficar comigo. Depois seus seguranças levam você para casa.
Olhei para os dois homens algumas mesas atrás. Um deles já havia percebido que eu me preparava para sair e se levantara discretamente.
— Seu pai vai reclamar.
Will deu de ombros.
— Ele reclama de muitas coisas.
— Essa frase definitivamente veio de mim.
Emma riu.
Abaixei-me um pouco na direção de William.
— Você fica com a Emma, vai ao parque e se comporta. Quando terminar, os seguranças levam você direto para casa. Nada de convencer Jason a subir em lugar proibido, nada de atravessar rua correndo e, principalmente, nada de desaparecer da vista deles.
— Eu sei.
— William.
— Eu prometo.
Beijei sua testa.
— Amo você.
Ele respondeu sem qualquer hesitação:
— Também amo você.
Ainda havia alguma coisa capaz de apertar meu peito todas as vezes que ele dizia aquilo.
Olhei para Emma.
— Me avise quando eles saírem do parque.
— Pode deixar. E me avise sobre Claire.
— Aviso.
Saí do restaurante acompanhada por um dos seguranças, enquanto o outro permaneceria com William. O motorista já trazia o carro quando tentei ligar novamente para Claire.
Nenhuma resposta.
Entrei no veículo e mandei apenas uma mensagem.
Estou indo.
O carro começou a seguir em direção à mansão, e eu tentei convencer a mim mesma de que Claire provavelmente estava apenas enfrentando algum problema adolescente que, na cabeça dela, justificava uma mensagem urgente. Ainda assim, quanto mais pensava nas últimas semanas, mais detalhes começavam a se encaixar de uma maneira que eu não gostava. Claire ficara mais reclusa justamente quando Simon começara a permanecer mais tempo na casa. Evitava determinados corredores. Algumas vezes mudara de direção ao vê-lo. Na primeira vez em que o encontráramos depois das compras do casamento, ela subira para o quarto quase correndo.
Eu havia percebido tudo.
Só não havia juntado as peças.
Olhei pela janela, sentindo aquele velho alerta de perigo tornar-se cada vez mais difícil de ignorar. Se eu estivesse errada, Claire poderia me chamar de paranoica pelo resto do mês e eu aceitaria de bom grado.
Mas, se estivesse certa, havia uma pergunta muito mais séria me esperando naquela mansão.
E eu pretendia ouvir a resposta diretamente dela.
O carro mal havia parado diante da entrada principal quando abri a porta antes mesmo que o motorista pudesse contornar o veículo para fazê-lo por mim. Ouvi o segurança dizer meu nome atrás de mim, provavelmente tentando lembrar que Jacob não gostava que eu saísse do carro daquela maneira, mas naquele momento a opinião do meu marido sobre protocolos de segurança era a última coisa que me preocupava. Subi os degraus quase correndo e atravessei a porta principal com a bolsa ainda pendurada no ombro, procurando imediatamente algum sinal de Claire no salão. Uma das empregadas que trabalhava conosco desde antes do casamento vinha do corredor lateral carregando algumas toalhas e parou ao me ver entrar daquele jeito.
— Senhora Black, aconteceu alguma coisa?
— Onde está Claire?
— A senhorita Claire está no quarto, eu acredito.
Olhei rapidamente para a escadaria.
— E Sarah? Minha sogra está em casa?
— Não, senhora. A senhora Sarah saiu depois do almoço. Disse que voltaria no fim da tarde.
— Jacob?
— O Don ainda não chegou.
Soltei o ar devagar, tentando controlar a inquietação que aumentava a cada resposta. Eu não sabia onde Jacob estava e não adiantaria perguntar a ninguém naquela casa. Aquilo fazia parte de uma das poucas conversas que havíamos tido sobre sua vida depois do casamento e que terminara sem qualquer possibilidade de negociação. Jacob havia sido muito claro ao dizer que existiriam momentos em que sairia e eu não saberia para onde, com quem ou exatamente o que estaria fazendo. Poderia perguntar quase qualquer coisa sobre nossa casa, os filhos, as empresas que ele admitia possuir e até algumas questões de segurança, mas aquela pergunta específica não seria respondida. Segundo ele, havia informações das quais eu deveria permanecer afastada para meu próprio bem.
No início aquilo me assustara.
Na verdade, durante os primeiros dias, eu ficava olhando para a porta quando ele desaparecia por horas e imaginava todas as coisas que um homem como Jacob Black poderia estar fazendo enquanto ninguém me explicava nada. Depois aprendera a não perguntar. Não porque tivesse deixado de me preocupar, mas porque começara a compreender que aquela parte da vida dele existia muito antes de mim e continuaria existindo independentemente do quanto eu gostasse ou não.
Naquele momento, porém, desejei que ele estivesse em casa.
— Se o senhor Black ligar, diga que cheguei — pedi à empregada, já me dirigindo às escadas.
— Sim, senhora.
Subi rapidamente, segurando o corrimão apenas nas curvas. Quanto mais me aproximava do andar dos quartos, mais estranha a casa parecia. Demorei alguns segundos para perceber exatamente o que estava me incomodando.
Não havia ninguém no corredor.
Parei no último degrau.
Normalmente havia pelo menos um segurança naquela área, principalmente depois das mudanças feitas no último mês. A equipe se revezava de maneira discreta para que a casa não parecesse um quartel, mas Jacob jamais deixava o corredor dos quartos completamente sem vigilância quando Claire estava em casa. Desde que Simon começara a trabalhar com mais frequência na segurança interna, eu o encontrara ali inúmeras vezes.
Naquele instante, não havia Simon.
Nem qualquer outro homem.
Meu estômago se contraiu.
— Claire?
Minha voz atravessou o corredor sem resposta.
Caminhei depressa até o quarto dela e bati duas vezes.
— Claire, sou eu.
Silêncio.
Segurei a maçaneta.
Trancada.
Aquilo não seria estranho em circunstâncias normais. Claire tinha quatorze anos e considerava uma porta trancada uma das poucas liberdades constitucionais que ainda possuía sob o governo de Jacob Black. O problema era a mensagem que havia me enviado.
Por favor venha pra casa.
Bati novamente, agora com mais força.
— Claire, abra a porta.
Nenhuma resposta.
Aproximei o ouvido da madeira e tive a impressão de escutar alguma coisa lá dentro. Um movimento abafado, talvez. Não consegui distinguir.
— Claire, eu sei que você está aí. Abra a porta ou vou chamar alguém para arrombá-la.
Dessa vez ouvi passos.
Afastei-me ligeiramente.
A fechadura girou.
— Graças a Deus. Você me assustou...
A frase morreu quando a porta se abriu.
Não era Claire.
Era Simon.
Durante um segundo inteiro, meu cérebro simplesmente se recusou a aceitar o que meus olhos estavam vendo. Simon estava dentro do quarto de Claire. Sua camisa estava desalinhada, a expressão muito diferente daquela arrogância despreocupada que costumava apresentar diante da família, e alguma coisa em seu rosto mudou no exato instante em que me reconheceu.
Meu alerta disparou antes que eu tivesse tempo de pensar.
Dei um passo para trás.
— O que você está fazendo aqui?
Simon abriu mais a porta.
— Entre.
— Não.
Virei o corpo imediatamente, mas ele foi mais rápido. Sua mão se fechou em meu braço e me puxou com força para dentro do quarto.
— Me solte!
Perdi o equilíbrio por um instante, e ele fechou a porta atrás de nós antes que eu conseguisse alcançar novamente a maçaneta.
— Você vai ficar quieta — disse ele em voz baixa.
Olhei para a mão apertando meu braço e depois para seu rosto.
Qualquer dúvida que eu ainda tivesse desapareceu.
— Tire a mão de mim.
— Renesmee...
— Eu disse para tirar a mão de mim.
Ele me soltou, mas permaneceu entre mim e a porta.
Foi então que olhei para o restante do quarto.
Claire estava sentada na cama.
Meu coração pareceu parar.
Ela estava encolhida junto à cabeceira, os braços apertados ao redor do próprio corpo e o rosto molhado de lágrimas. Quando nossos olhos se encontraram, vi nela uma expressão que nunca havia visto antes. Não era a adolescente insolente que enfrentava Jacob durante o jantar, nem a menina irritada que discutia castigos ou reclamava da presença dos seguranças. Era medo.
Um medo que reconheci imediatamente.
— Claire...
Dei um passo na direção dela.
Simon se moveu para bloquear meu caminho.
— Não faça isso.
Olhei para ele.
— Saia da minha frente.
— Você não sabe o que aconteceu.
— Então saia da minha frente e deixe que ela me conte.
— Não precisa transformar isso em uma coisa maior.
A frase me atingiu de uma maneira quase física.
Voltei os olhos para Claire. Ela chorava em silêncio, e alguma coisa dentro de mim se tornou fria. De repente, todas as últimas semanas voltaram com uma clareza brutal: Claire subindo para o quarto quando Simon chegava, mudando de direção nos corredores, a tensão quando ele se aproximava, a reclusão que começara justamente quando Rebecca e Solomon decidiram colocá-lo na equipe de segurança da mansão. Eu havia percebido cada sinal separadamente e permitido que explicações convenientes os mantivessem separados.
Eu não faria aquilo outra vez.
— Claire — chamei, mantendo minha voz tão calma quanto consegui. — Olhe para mim.
Ela levantou o rosto.
— Nessie...
A voz saiu quebrada.
Meu peito apertou.
— Eu estou aqui.
Simon deu outro passo.
— Renesmee, escute antes de começar a imaginar...
Virei-me para ele.
— Você vai ficar longe dela.
Ele estreitou os olhos.
— Não sabe do que está falando.
— Talvez não. Mas sei que uma menina de quatorze anos me mandou uma mensagem pedindo que eu viesse para casa, não atendeu minhas ligações, está trancada no próprio quarto chorando e você retirou os seguranças do corredor antes de entrar aqui com ela.
— Eu não retirei ninguém.
— Então explique onde estão.
Ele não respondeu.
Não precisei de mais nada naquele momento.
Eu podia estar errada sobre a razão. Podia ainda não saber o que acontecera naquele quarto antes de eu chegar. Mas não precisava conhecer todos os fatos para entender que Claire estava assustada e que Simon não queria que eu chegasse perto dela.
A menina que eu fora no Saint Agnes teria reconhecido aquilo antes de qualquer adulto.
Eu conhecia a sensação de precisar calcular a distância até uma porta. Conhecia o instinto de observar as mãos de alguém antes do rosto e a necessidade de descobrir rapidamente o que havia entre você e uma saída. Crescer sem ninguém que pudesse aparecer simplesmente porque eu gritara meu nome me ensinara que, diante de uma situação de perigo, esperar que outra pessoa resolvesvesse podia custar caro.
Naquela casa eu tinha segurança em todos os corredores, um sobrenome que fazia homens baixarem a voz e um marido que poderia mobilizar uma pequena tropa com um telefonema.
Mas naquele quarto eu continuava sendo a menina que aprendera a se proteger sozinha.
E Claire precisava que eu fosse exatamente aquela menina.
Ajustei discretamente a posição do meu corpo para ficar entre Simon e a cama.
— Claire, venha para perto de mim.
Simon segurou meu braço outra vez.
— Eu disse que você vai ficar quieta.
Dessa vez não senti medo.
Olhei primeiro para os dedos dele em meu braço e depois diretamente para seus olhos.
— E eu vou lhe dar uma única oportunidade de me soltar antes que você descubra por que foi uma péssima ideia me trancar em um quarto com você.
Atrás de mim, ouvi Claire prender a respiração.
Simon não me soltou. Ao contrário, apertou meu braço com mais força, como se a ameaça tivesse ferido seu orgulho e ele precisasse provar que ainda controlava aquela situação. Eu sustentei seu olhar enquanto tentava não demonstrar o quanto a posição em que estávamos me preocupava. Claire continuava atrás de mim, sentada na cama, e a porta estava às costas dele. Se eu gritasse, não sabia quanto tempo levaria para alguém aparecer, principalmente porque o corredor inexplicavelmente estava vazio. Ainda assim, Simon parecia estranhamente seguro de que podia continuar ali.
— Você está entendendo tudo errado — disse ele, baixando a voz. — Claire sempre quis isso. Agora está chorando porque ficou com ciúmes.
Senti meu estômago se contrair.
— Ciúmes?
— De você. — Ele olhou rapidamente para Claire e depois voltou a atenção para mim. — Ela sabe que eu estou interessado em você desde antes do casamento. Está fazendo esse teatro porque percebeu.
Por um instante fiquei tão indignada que quase não encontrei palavras. Atrás de mim, ouvi Claire protestar entre o choro.
— Mentiroso!
Simon tentou olhar para ela, mas eu me movi deliberadamente para continuar entre os dois.
— Não olhe para ela. Olhe para mim.
— Você não sabe como ela é.
— Sei que ela tem quatorze anos.
— E acha que isso significa que não sabe provocar?
Aquela frase eliminou o pouco de prudência que ainda me fazia tentar conduzir a situação apenas com palavras. Empurrei Simon com as duas mãos, obrigando-o a soltar meu braço e recuar alguns passos.
— Não ouse colocar isso sobre ela.
Ele recuperou o equilíbrio e me encarou com uma expressão que mudou rapidamente. A arrogância deu lugar à raiva.
— Você não deveria se meter nisso, Renesmee.
— Ela é minha família. Eu me meto no que for necessário.
— Você chegou aqui há um mês.
— E precisei de um mês para perceber que alguma coisa estava errada. Pessoas que cresceram ao lado dela tiveram anos e aparentemente não perceberam.
Simon avançou.
Recuei instintivamente, mas ele veio rápido demais e tentou me agarrar pelos braços. A sensação de suas mãos em mim acionou algo que não precisava de pensamento. Eu não era forte o bastante para disputar força com ele e sabia disso. Por isso não tentei.
Acertei o joelho primeiro contra sua perna para desequilibrá-lo e, quando ele tentou me prender novamente, chutei sua virilha com toda a força que consegui.
Simon soltou um grito abafado e me largou imediatamente.
Ele se curvou antes de cair de joelhos no chão.
— Sua...
— Termine essa frase e eu faço bem pior.
Não esperei para descobrir se ele pretendia levantar. Virei-me para Claire.
— Agora, corre!
Ela não precisou ouvir duas vezes. Saltou da cama e correu para a porta. Simon tentou se erguer, ainda curvado pela dor, e estendeu a mão na direção dela.
— Claire, volte aqui!
A menina abriu a porta e disparou pelo corredor.
— Socorro! — gritou com uma força que eu ainda não a ouvira usar desde que chegara. — Socorro!
A mansão pareceu despertar inteira.
Ouvi passos quase imediatamente. Portas se abriram no andar inferior, alguém gritou uma ordem e, poucos segundos depois, homens começaram a surgir no corredor. O primeiro segurança passou por Claire correndo em direção ao quarto, seguido por outros dois. Um deles entrou com a mão próxima à arma antes mesmo de compreender quem estava lá dentro.
— Senhora Black!
— Não deixem esse homem sair daqui.
Simon conseguiu se levantar parcialmente.
— Vocês ficaram loucos? Eu sou da família.
Nenhum deles se moveu para obedecê-lo.
Aquilo me mostrou, talvez pela primeira vez com absoluta clareza, o peso que meu sobrenome tinha adquirido dentro daquela casa.
— Segurem-no — ordenei.
Dois homens avançaram. Simon tentou afastar o primeiro.
— Tire a mão de mim! Meu pai...
— Segurem-no! — repeti, mais alto.
Dessa vez não houve hesitação. Um dos seguranças segurou Simon por trás enquanto o outro afastava suas mãos e o imobilizava. Ele começou a protestar, dizendo que eu não sabia o que estava fazendo, que tudo era um mal-entendido e que Solomon acabaria com qualquer homem que ousasse tratá-lo daquela maneira. Ninguém pareceu particularmente impressionado.
Eu já não estava ouvindo.
Saí para o corredor procurando Claire.
Ela estava alguns metros adiante, cercada por dois funcionários que haviam subido depois dos gritos. Parecia perdida no meio de todas aquelas pessoas. Quando me viu, afastou-se deles e veio diretamente até mim.
— Nessie...
Abri os braços.
Claire praticamente se jogou contra mim.
Eu a abracei com força, sentindo seu corpo tremer enquanto ela escondia o rosto no meu ombro. Passei a mão por seus cabelos e não fiz pergunta alguma. Não ali. Não com Simon a poucos metros, funcionários olhando e homens tentando compreender o que havia acontecido.
— Está tudo bem. Eu estou aqui.
— Eu mandei mensagem porque não sabia quem chamar.
A frase quase me desmontou.
— Você fez certo.
— Meu pai...
— Nós vamos falar com seu pai.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para mim e o medo voltou imediatamente.
— Não!
Segurei seu rosto.
— Claire, escute. Você não precisa me contar nada agora. Não precisa contar para ninguém enquanto estiver assim. Primeiro vamos sair daqui e você vai ficar comigo. Depois decidimos juntas o que fazer.
Ela assentiu, chorando novamente.
Atrás de nós, Simon continuava discutindo com os seguranças.
— Ela está mentindo! Perguntem a ela! Claire sempre quis isso!
Claire se encolheu contra mim.
Eu me virei. — Tire-o daqui.
Um dos homens hesitou.
— Para onde, senhora?
Pensei em Jacob.
Eu ainda não sabia onde ele estava. Não sabia quanto tempo levaria para voltar e, pela primeira vez desde que entrara naquela família, não queria que alguém simplesmente telefonasse para meu marido e despejasse uma versão incompleta daquela situação em seus ouvidos.
— Para uma sala onde ele não possa chegar perto de Claire. Nem de mim. E ninguém o deixa sair até Jacob chegar.
Simon soltou uma risada nervosa.
— Você acha que pode me prender dentro da casa da minha própria família?
Olhei para ele.
— Esta é a casa do meu marido.
A risada desapareceu.
— E, até ele voltar, você vai descobrir exatamente quanto isso significa.
Os homens começaram a levá-lo pelo corredor. Simon ainda tentou falar com Claire, mas eu imediatamente me coloquei na frente dela, impedindo que sequer o visse. Só quando ele desapareceu na escadaria percebi que minhas próprias mãos estavam tremendo.
Um dos seguranças se aproximou.
— Senhora Black, o Don precisa ser informado.
Fechei os olhos por um segundo.
Eu sabia.
Jacob descobriria.
Solomon e Rebecca também.
E, quando isso acontecesse, aquela família jamais voltaria exatamente ao que era antes.
Olhei para Claire agarrada à minha mão e percebi que aquilo já não importava. Durante semanas eu mantivera silêncio sobre Simon porque temia provocar uma tragédia familiar se Jacob descobrisse que o sobrinho tinha interesse por mim. Agora compreendia o tamanho do meu erro.
Proteger a paz daquela família nunca deveria ter sido mais importante do que descobrir por que Claire tinha medo.
— Ligue para Jacob — respondi. — Diga apenas que aconteceu uma coisa com Claire e que eu preciso dele em casa imediatamente. Não explique pelo telefone.
O homem assentiu e se afastou.
Passei o braço pelos ombros de Claire e comecei a conduzi-la para longe daquele corredor. Ainda não sabia o que Simon havia feito antes de eu chegar. Não faria suposições e, principalmente, não obrigaria Claire a falar antes de se sentir segura para isso.
Mas uma coisa eu sabia.
Quando Jacob Black atravessasse aquela porta, eu teria de contar que sua filha pedira ajuda a mim porque estava com medo do próprio primo.
E, conhecendo meu marido, eu temia que impedir Simon de sair daquela mansão tivesse sido a parte mais fácil daquela tarde.
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