A esposa do Don

34 Marcas do passado


JACOB

As últimas peças haviam finalmente encontrado seus lugares naquela noite. Durante semanas, meus homens seguiram rotas falsas, pagamentos fracionados, intermediários que aparentemente não tinham qualquer relação entre si e nomes descartáveis criados para morrer assim que alguém chegasse perto demais. O homem que Embry interrogara não mentira quando dissera que os ataques aos meus carregamentos serviam apenas para tirar meu foco. Ele fora colocado deliberadamente em nosso caminho para ser encontrado, assim como algumas das perdas haviam sido calculadas para parecer uma disputa territorial. A princípio, tudo indicava que outra família estivesse tentando avançar sobre negócios dos Black, mas havia um detalhe que não combinava com essa hipótese: ninguém estava verdadeiramente lucrando. Os carregamentos interceptados tinham valor, porém uma parte da mercadoria fora simplesmente abandonada; homens haviam morrido sem que territórios fossem ocupados; informações caras tinham sido compradas apenas para produzir caos. Aquilo não era expansão. Era provocação. E, quando seguimos o dinheiro em vez dos cadáveres, chegamos ao nome que eu deveria ter considerado muito antes.

Leah.

Fiquei algum tempo olhando para a fotografia colocada sobre a mesa, sem tocá-la. Oito anos haviam se passado desde a última vez em que eu a vira, e ainda assim reconheceria aquela mulher em qualquer lugar. Não porque restasse amor suficiente para me confundir, mas porque certas cicatrizes não dependiam da presença de quem as provocou. A minha estava escondida sob a camisa, atravessando o abdômen no ponto exato em que Leah enfiara uma lâmina enquanto me olhava nos olhos. Naquela ocasião, eu tivera a oportunidade de aplicar a lei que qualquer outro membro da organização teria recebido. Não o fiz. Fui suficientemente fraco para transformar uma sentença definitiva em exílio e convencer a mim mesmo de que afastá-la de Claire e William seria punição bastante.

Estava enganado.

A fraqueza tem uma característica desagradável: quando não é corrigida, alguém acaba interpretando misericórdia como incapacidade.

Fechei a pasta.

— Então é ela.

Sam permaneceu do outro lado da mesa, os braços cruzados.

— Tudo converge para isso. Os pagamentos passaram por três intermediários, mas Embry encontrou a origem. As datas também coincidem com os movimentos dela. Não temos mais uma coincidência, Jacob.

Solomon estava ao lado dele. Não disse nada imediatamente. Talvez porque, entre todos os homens presentes, fosse um dos poucos que conheciam suficientemente bem o passado para compreender o significado daquela confirmação.

Eu me levantei.

Durante alguns segundos senti apenas desprezo por mim mesmo. Não por ter amado Leah um dia; não me arrependia de sentimentos que tinham sido verdadeiros enquanto eu acreditara na mulher com quem me casara. Minha fraqueza fora outra. Eu permitira que a memória daquela mulher interferisse na sentença da traidora que ela se tornara. Havia poupado sua vida quando ela participara da destruição da minha família, ajudara Ephraim a assassinar nosso pai, contribuíra para a tentativa de me matar e permitira que Claire e William acreditassem que haviam perdido a mãe. Depois de tudo isso, eu ainda encontrara dentro de mim uma parte suficientemente humana para não ordenar sua morte.

Ela aparentemente interpretara humanidade como permissão.

Se Leah queria medir forças comigo outra vez, eu não recusaria o jogo.

— Onde?

Sam abriu o mapa digital sobre a mesa.

— Hunts Point, no Bronx. Zona industrial próxima aos depósitos do mercado.

A escolha me fez erguer os olhos.

— Aquela área está sob os Moretti.

— Exatamente — respondeu Solomon.

Olhei novamente para o mapa.

— Moretti não permitiria uma operação daquele tamanho sem informar ninguém.

— Não permitiu. — Sam apoiou uma das mãos na mesa. — Ela não tomou território deles. Escolheu uma vítima dentro dele.

— Quem?

— Um dos operadores menores ligados aos Moretti. O galpão foi usado como fachada, e os homens que deveriam protegê-lo desapareceram nas últimas quarenta e oito horas. Tudo indica que ela escolheu alguém suficientemente pequeno para ser sacrificado, mas importante o bastante para nos obrigar a olhar para lá.

Soltei uma respiração curta.

— Essa foi a vítima escolhida por ela.

Sam assentiu.

Leah sempre fora inteligente. Esse era um dos motivos pelos quais eu jamais aceitara a versão confortável de que Ephraim fizera tudo sozinho e ela simplesmente o seguira. Leah sabia observar uma estrutura e encontrar exatamente onde pressioná-la. Atacar diretamente os Black provocaria uma guerra imediata. Usar território Moretti criava suspeita entre famílias, desviava recursos e ainda me obrigava a considerar se havia uma segunda aliança escondida. Era uma jogada bem construída.

Infelizmente para ela, eu a conhecia.

— Prepare os homens.

Solomon ergueu o rosto.

— Para quê?

Peguei o paletó que havia deixado sobre a cadeira.

— Vamos fazer uma visita.

— Você pretende ir pessoalmente?

— Pretendo.

Ele não escondeu a desaprovação.

— A mulher passou semanas montando um caminho para fazê-lo chegar exatamente a esse lugar. Você não considera pouco prudente entregar a ela o resultado que procura?

Coloquei o paletó e abotoei-o com calma.

— Consideraria, se estivesse indo sozinho.

— Ainda pode ser uma armadilha.

— Naturalmente é uma armadilha.

Sam soltou uma respiração pelo nariz, quase divertido.

— Pelo menos estamos todos de acordo nessa parte.

Olhei para Solomon.

— Passei anos permitindo que outras pessoas transmitissem minhas respostas. Desta vez quero que ela compreenda pessoalmente que a concessão feita oito anos atrás terminou.

— E se ela estiver esperando exatamente isso?

— Melhor.

Solomon sustentou meu olhar.

— Você continua gostando de tornar as coisas desnecessariamente pessoais.

— Algumas coisas são pessoais. — Peguei a arma sobre a mesa e a entreguei a Sam para que fosse conferida com o restante do equipamento, sem qualquer intenção de ser eu o primeiro homem a usá-la. — E gosto de olhar meus inimigos nos olhos antes de exterminá-los.

Sam não precisou ouvir outra ordem. Fez um gesto curto para os homens posicionados próximos à saída e a movimentação começou imediatamente. Não houve gritos nem correria. Meus homens sabiam o que fazer. Em menos de dois minutos, as equipes estavam distribuídas entre os veículos, rotas alternativas haviam sido abertas, comunicação verificada e dois carros enviados à frente. Quando deixei o prédio, o SUV blindado já me esperava no centro do comboio, cercado por uma quantidade de homens que faria qualquer policial sensato decidir não descobrir o que estava acontecendo.

Entrei com Sam e Solomon. As portas se fecharam e o comboio começou a se mover.

Nova York tinha uma aparência diferente durante a madrugada. Manhattan ainda brilhava como se a cidade se recusasse a admitir que existia uma hora destinada ao descanso, mas as ruas gradualmente mudaram conforme avançávamos para o Bronx. Observei os prédios pela janela escura enquanto tentava organizar mentalmente o que faria quando encontrasse Leah. Não sentia ansiedade pela possibilidade de vê-la. Sentia curiosidade. Queria saber o que alguém que recebera oito anos de vida que não lhe pertenciam tinha imaginado alcançar ao voltar.

Meu celular vibrou.

Olhei o horário e pensei em Renesmee.

Eu havia saído antes que ela fosse dormir e não lhe dera previsão de retorno. Durante nosso primeiro mês de casamento, ela aprendera a respeitar a única pergunta para a qual eu havia deixado claro que não receberia resposta. Onde eu estava quando desaparecia à noite não era assunto que pretendia colocar sobre seus ombros. Quanto menos Renesmee conhecesse daquela parte da minha vida, menos poderia ser usada contra mim.

Liguei.

Ela demorou alguns toques para atender.

— Jacob?

A voz sonolenta provocou uma mudança involuntária em minha expressão.

— Eu a acordei.

— Não. — Houve uma pequena pausa. — Talvez.

— Volte a dormir. Liguei apenas para avisar que chegarei tarde.

— Tarde?

— Sim.

Ouvi o movimento dos lençóis.

— Jacob, já passou da meia-noite.

— Eu sei.

— Então você não vai chegar tarde. Vai chegar cedo. Pela manhã.

Olhei pela janela.

— Tecnicamente, você está correta.

— Vou registrar este momento. Pode ser a única vez que você admite isso.

— Não se acostume.

Ela soltou uma risada baixa, ainda carregada de sono, e por alguns segundos o interior daquele carro pareceu pertencer a uma realidade diferente daquela para a qual estávamos seguindo.

— Durma bem, Renesmee.

— Você também, quando voltar.

— Pretendo.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Jacob?

— Sim?

— Volte inteiro.

Minha mão apertou discretamente o telefone.

Renesmee não sabia onde eu estava indo. Não sabia quem eu procurava e muito menos que a mulher responsável por aquela noite era a mesma cuja história eu havia deliberadamente mantido fora de nosso casamento. Ainda assim, aquelas duas palavras atingiram um lugar que eu preferia manter inacessível.

— Voltarei.

Encerrei a chamada.

Quando guardei o telefone, percebi Sam me olhando.

— O que foi?

Ele desviou os olhos para a frente.

— Nada.

— Você tem uma expressão bastante específica para alguém que não está pensando nada.

— Apenas estava tentando me lembrar da última vez em que vi você telefonar para alguém no meio de uma operação para avisar que chegaria tarde em casa.

Solomon permaneceu prudentemente calado.

Olhei para Sam.

— Quer continuar tentando lembrar?

— Não particularmente.

— Excelente.

O restante do trajeto transcorreu em silêncio.

Quando entramos na região industrial de Hunts Point, a paisagem mudou definitivamente. Galpões, depósitos, caminhões estacionados e grandes estruturas substituíram os edifícios residenciais. Nossos veículos da frente reduziram a velocidade. Sam recebeu uma informação pelo ponto eletrônico e respondeu apenas com duas palavras antes de olhar para mim.

— Estamos chegando.

— Quantos?

— Não sabemos.

— Então suponha o dobro do necessário.

Ele transmitiu a ordem.

O SUV fez uma curva e entrou em uma rua estreita entre dois galpões. Os veículos que nos acompanhavam se espalharam imediatamente, ocupando posições planejadas antes mesmo de nossa chegada. O motorista parou.

Sam olhou para mim.

— Ainda pode permanecer no carro até confirmarmos o perímetro.

Abri a porta.

— Não vim até aqui para observar pelo vidro.

Desci.

O ar da madrugada estava frio e carregava o cheiro industrial daquela parte do Bronx. Atrás de mim ouvi outras portas se abrirem enquanto meus homens ocupavam posições, mas mantive os olhos no galpão diante de nós.

Uma luz acendeu.

Depois outra.

Cinco homens surgiram quase ao mesmo tempo.

Todos armados.

As armas foram levantadas diretamente para mim.

Sam e Solomon saíram do veículo, e imediatamente ouvi o movimento dos meus homens ao redor. Em segundos, aquela rua deixou de ser um lugar silencioso e se transformou em um equilíbrio delicado entre dezenas de homens esperando apenas que alguém cometesse o primeiro erro.

Não procurei cobertura.

Permaneci ao lado do SUV, ajeitei lentamente o punho da camisa sob o paletó e observei os cinco homens diante de mim. Nenhum disparou. Aquilo me disse mais do que qualquer apresentação poderia dizer.

Se Leah tivesse desejado minha morte naquele instante, não teria mandado cinco homens apontarem armas para mim.

Teria mandado um atirar.

Ergui os olhos para o galpão.

Então compreendi.

Ela sabia que eu viria.

Um sorriso sem humor tocou minha boca enquanto dei um passo à frente, ignorando as armas.

Oito anos antes, eu permitira que Leah Black saísse viva depois de me trair porque uma parte de mim ainda se lembrava da mulher que amara.

Naquela noite, eu não carregava comigo a mesma fraqueza.

Se ela queria descobrir qual de nós dois havia mudado mais durante aqueles oito anos, eu estava finalmente disposto a lhe conceder essa resposta.

O equilíbrio permaneceu intacto durante alguns segundos. Cinco armas continuavam apontadas em minha direção, enquanto atrás de mim havia homens suficientes para transformar aquele trecho de Hunts Point em um problema que nenhuma das famílias de Nova York conseguiria ignorar na manhã seguinte. Eu não fora até ali para iniciar uma guerra com os Moretti, principalmente porque começava a compreender que aquele era exatamente o tipo de consequência que Leah desejava provocar. Se eu respondesse àquela recepção com violência, o nome Black estaria envolvido em um conflito territorial antes do amanhecer, e ela teria conseguido colocar duas famílias uma contra a outra sem disparar pessoalmente uma única arma. Eu conhecia aquela forma de pensar. Durante anos, conhecera a mulher por trás dela.

Ergui a mão sem retirar os olhos dos homens diante de mim.

— Baixem as armas.

Sam virou discretamente o rosto.

— Jacob...

— Todos.

Houve um instante de hesitação, não por desobediência, mas porque meus homens tinham sido treinados para considerar minha proteção acima de qualquer protocolo diplomático. Ainda assim, uma ordem minha não precisava ser repetida. Ouvi o movimento quase simultâneo atrás de mim enquanto as armas eram abaixadas. Ninguém as guardou. Isso seria ingenuidade. Apenas deixaram de apontá-las para os homens diante do galpão.

Os cinco não fizeram o mesmo.

Esperei.

Um sexto homem surgiu da escuridão entre os prédios. Era grande, vestia uma jaqueta escura e caminhava com a confiança particular de quem se sentia protegido pelo território em que estava. Parou alguns metros à frente e me examinou sem qualquer esforço para esconder o desprezo.

— O que você quer, playboy?

Sam soltou uma respiração curta ao meu lado.

Não respondi ao insulto. Olhei apenas para ele e fiz um gesto discreto.

Sam entendeu imediatamente.

Retirou do bolso interno do paletó um cartão preto e caminhou sozinho na direção do homem. Os cinco continuaram com as armas erguidas, acompanhando cada passo, mas Sam sequer diminuiu o ritmo. Quando chegou diante dele, estendeu o cartão.

O homem olhou primeiro para Sam e depois para mim.

— Que merda é essa?

— Entregue ao homem que manda aqui — respondeu Sam. — Se for você, ficaremos bastante decepcionados.

O sujeito estreitou os olhos, pegou o cartão e virou-o entre os dedos. Não havia número de telefone, endereço ou nome de empresa. Apenas o símbolo que precisava reconhecer.

O lobo Black.

A mudança foi pequena, mas perceptível.

— Esperem.

Ele entrou no galpão.

Sam voltou para perto de mim.

— Poderia ter sido mais educado — comentei.

— Ele chamou você de playboy.

— E você se ofendeu?

— Achei pouco criativo.

Solomon olhou para nós dois.

— É reconfortante saber que chegamos armados a uma possível emboscada e ainda encontramos tempo para avaliar a qualidade dos insultos.

— A noite está longa — respondi.

Esperamos alguns minutos. Ninguém abaixou a atenção. Eu conseguia ouvir música ao longe, abafada pelas paredes do prédio, e então compreendi que o galpão era apenas a parte externa de um estabelecimento muito maior. Os Moretti sempre gostaram de negócios que misturavam dinheiro legítimo com ambientes em que ninguém fazia perguntas sobre a origem do restante.

A porta tornou a abrir.

Dessa vez outro homem saiu. Era mais velho, provavelmente um dos responsáveis pela segurança interna. Observou o cartão que ainda segurava e depois olhou diretamente para mim.

— Baixem.

Os cinco homens obedeceram.

Ele se afastou da entrada.

— O senhor pode entrar.

— Meus homens vêm comigo.

— Dois.

Olhei para Sam e Solomon.

— São suficientes.

O restante da equipe permaneceu do lado de fora. Eu sabia que continuariam controlando todas as saídas e que, se alguma coisa acontecesse lá dentro, aquela aparente concessão de segurança duraria poucos segundos.

Entrei acompanhado pelos dois.

Só depois de atravessar o primeiro corredor compreendi completamente o lugar para onde Leah decidira me levar. O exterior industrial escondia uma boate privada que parecia ter sido construída para pessoas que desejavam gastar muito dinheiro sem serem vistas fazendo isso. A música era grave, forte o bastante para vibrar sob os pés, mas não tão alta quanto em clubes comuns. Luzes baixas recortavam o salão, sofás de couro ocupavam áreas reservadas e garrafas caras cobriam mesas cercadas por homens acompanhados de mulheres cuidadosamente produzidas. Não havia qualquer placa na entrada nem indicação de que aquele estabelecimento existia. Aquilo explicava o interesse dos Moretti em mantê-lo fora das atenções.

Algumas pessoas olharam quando passamos.

Outras reconheceram Sam.

Um número menor me reconheceu.

Essas desviaram os olhos.

Fomos conduzidos pelo salão até uma escada lateral protegida por dois homens. Subimos para um segundo piso, onde o som da música diminuiu e o ambiente mudou completamente. Havia corredores escuros, portas privadas e uma área VIP separada do restante da boate por vidro fumê. O homem que nos acompanhava parou diante da última porta e abriu.

— Ele está esperando.

Entrei primeiro.

A sala era ampla, decorada com a mesma ostentação discreta do andar inferior. Sofás escuros, uma mesa baixa, bebidas, charutos e uma grande janela permitiam observar a pista sem que ninguém abaixo pudesse enxergar quem estava ali. Dois homens permaneciam junto às paredes. Outro estava de pé próximo ao bar.

E havia uma mulher sentada no sofá.

Não olhei para ela imediatamente.

O homem junto ao bar abriu os braços.

— Eu deveria ter pedido uma garrafa melhor.

Caminhou na minha direção, sorrindo.

— O lobo de Manhattan na minha frente.

Assenti.

— Moretti.

Alessandro Moretti estava alguns anos mais velho desde nosso último encontro, mas continuava com a mesma aparência de homem que passara a vida inteira cultivando uma mistura de cordialidade e ameaça. Ele não era o chefe máximo da família, mas ninguém lhe entregava uma parte lucrativa do Bronx por confiança sentimental. Alessandro administrava seus negócios com eficiência e, mais importante, entendia fronteiras. Nós não éramos amigos. Homens em nossas posições raramente tinham amigos fora da própria casa. Mas tínhamos acordos, e acordos bem respeitados eram mais úteis do que amizade.

Ele estendeu a mão.

Apertei-a.

— A que devo a honra? — perguntou. — Porque imagino que você não tenha atravessado metade de Nova York durante a madrugada para conhecer meu estabelecimento.

— Não.

— Uma pena. Tenho orgulho daqui.

— Percebi.

Alessandro sorriu e então indicou o sofá.

— Antes de começarmos, permita que eu lhe apresente minha companhia. Verônica está comigo há algum tempo. Uma mulher extremamente interessante.

Finalmente olhei para ela.

Meu corpo não demonstrou qualquer reação.

Minha mente, sim.

Oito anos desapareceram no espaço de uma respiração.

O cabelo estava diferente. Mais comprido, mais escuro do que eu lembrava. A maquiagem alterava alguns traços e havia pequenas mudanças no rosto que o tempo naturalmente produz. As roupas também não tinham absolutamente nada da mulher que vivera na minha casa, sentara à minha mesa e carregara publicamente meu sobrenome. Ela construíra Verônica com cuidado. O tipo de transformação suficiente para enganar alguém que procurasse uma fotografia antiga.

Não a mim.

Eu conhecia aquele rosto antes de saber quantas mentiras ele era capaz de esconder.

Conhecia a curva da boca antes de ela sorrir, a maneira como inclinava discretamente a cabeça quando estava avaliando alguém e, sobretudo, conhecia aqueles olhos. Eram os mesmos olhos que haviam me observado enquanto uma lâmina entrava no meu abdômen.

Leah levantou-se.

Não houve surpresa em sua expressão.

Ela sabia que eu viria.

— Senhor Black — disse, estendendo a mão. — É um prazer finalmente conhecê-lo.

Olhei para a mão oferecida.

Depois para ela.

Sam e Solomon permaneceram em silêncio atrás de mim. Solomon certamente já a reconhecera. Sam também. Nenhum dos dois era suficientemente imprudente para pronunciar seu verdadeiro nome antes que eu decidisse como conduzir aquela conversa.

Aceitei a mão de Leah.

Seu sorriso aumentou discretamente.

— Muito prazer, Verônica.

Apertei seus dedos sem desviar os olhos dos dela. Então me inclinei apenas o suficiente para que minha voz não alcançasse Moretti.

— Ou prefere que eu a chame de Leah?

O sorriso permaneceu em seus lábios.

Mas seus dedos ficaram imóveis dentro dos meus.

Eu me afastei com a mesma tranquilidade com que a cumprimentara.

Pela primeira vez naquela noite, não precisei procurar qualquer confirmação em relatórios, transferências bancárias ou homens interrogados. A mulher que eu poupara oito anos antes estava diante de mim usando outro nome, vivendo em território de outra família e me observando como se ainda acreditasse ter algum controle sobre o jogo que iniciara.

Talvez Leah tivesse passado tempo demais convivendo com a lembrança do homem que eu fora.

Porque o erro mais perigoso que ela poderia cometer era acreditar que encontraria novamente o marido que não conseguira ordenar sua morte.