Renesmee


Eu estava no escritório do senhor Black havia tempo suficiente para começar a questionar seriamente a decisão de permanecer naquela casa.

Olhei para o relógio discreto em meu pulso e descobri que mais quinze minutos haviam se passado desde que Sarah me deixara ali. Somados às horas anteriores, aquilo transformava uma simples entrevista de emprego em uma experiência que eu já não sabia como classificar. Primeiro houvera uma fila com dezenas de mulheres, depois um menino de sete anos que transformara o almoço em uma batalha de inteligência, em seguida Bree Cullen decidira que minha existência dentro daquela mansão constituía uma ofensa pessoal e, finalmente, eu descobrira que o homem responsável por decidir se conseguiria ou não o emprego tinha o hábito de surgir no fim de discussões com uma presença suficientemente intimidadora para fazer Bree perder a voz.

Tudo naquela casa era estranho.

E começava a me preocupar.

Levantei-me da poltrona e caminhei até uma das janelas. A noite havia tomado Manhattan completamente, e daquele ponto eu conseguia enxergar parte dos jardins iluminados e, além dos muros, as luzes da cidade. Minha pequena janela no Bronx parecia pertencer a outro mundo. Pensei na senhora Alvarez, na cama estreita que havia alugado por uma semana e, principalmente, no pouco dinheiro que ainda restava dentro da minha bolsa.

Precisava daquele emprego.

Isso era incontestável.

Mas necessidade não anulava prudência, e minha prudência começava a perguntar por que uma família precisava de quase cem candidatas para cuidar de uma criança. Sarah já deixara claro que existia algo além das funções de babá. Jéssica fizera praticamente a mesma coisa quando me levara ao quarto. Nenhuma das duas, porém, havia explicado o que significava aquele misterioso "algo além".

Olhei novamente para o relógio.

Mais cinco minutos.

Era o que eu daria ao senhor Black.

Depois iria embora.

Eu poderia voltar na manhã seguinte caso ainda quisessem me entrevistar, mas já passava da hora de uma pessoa razoável estar procurando o caminho de casa, principalmente uma pessoa que ainda precisava descobrir como voltar sozinha para o Bronx.

Afastei-me da janela e comecei a observar o escritório.

O ambiente combinava perfeitamente com o pouco que eu havia visto de seu proprietário. Era amplo, organizado e sóbrio, com madeira escura dominando as paredes e uma enorme mesa posicionada diante das janelas. Não havia objetos espalhados, fotografias em excesso ou qualquer coisa que sugerisse desorganização. Algumas imagens dos filhos ocupavam uma parte discreta da estante. Reconheci William imediatamente e imaginei que a adolescente ao lado dele fosse a garota da fotografia que vira anteriormente no corredor.

Claire.

A outra filha do senhor Black.

Continuei caminhando até a estante.

Livros ocupavam quase uma parede inteira. Alguns pareciam antigos, outros eram edições recentes, e encontrei títulos sobre economia, história, política, direito e filosofia. Passei os dedos pelas lombadas sem retirar nenhum até reconhecer um título.

The Great Gatsby.

Sorri discretamente.

Aquele eu conhecia.

As freiras de Saint Agnes possuíam uma pequena biblioteca e, embora os livros disponíveis fossem muito diferentes dos que ocupavam aquelas prateleiras, irmã Catherine fazia questão de nos apresentar alguns clássicos americanos. O Grande Gatsby fora um dos poucos que eu realmente terminara por vontade própria.

Retirei o exemplar.

Era uma edição muito mais bonita do que aquela que eu havia lido no orfanato. Abri com cuidado e comecei a folhear. Havia pequenas anotações a lápis em algumas margens. Não eram muitas, mas imediatamente despertaram minha curiosidade.

O senhor Black fazia anotações em Fitzgerald.

Aquilo não combinava em nada com a imagem do homem que, poucos minutos antes, fizera Bree Cullen parecer uma criança pega fazendo algo errado.

Li uma das observações e sorri.

— Fitzgerald costuma causar esse efeito nas pessoas.

A voz masculina surgiu atrás de mim.

Eu me assustei tanto que fechei o livro imediatamente.

Virei-me.

O senhor Black estava parado próximo à porta.

Não ouvira quando entrara.

— Meu Deus.

Ele ergueu discretamente uma sobrancelha.

— Não exatamente.

Fiquei olhando para ele durante um segundo antes de perceber que ainda segurava o livro.

— Desculpe. Eu não deveria ter pegado.

— Se não quisesse que fossem lidos, não teria livros no escritório.

— Ainda assim, não é meu escritório.

— Essa conclusão está correta.

Não consegui identificar se aquilo era humor ou apenas a maneira naturalmente desagradável daquele homem conversar.

Coloquei uma mecha do cabelo atrás da orelha.

— Eu estava esperando há algum tempo e comecei a olhar a estante. Reconheci o livro e acabei pegando. Não pretendia mexer nas suas coisas, senhor Black.

Seus olhos passaram pelo exemplar em minhas mãos.

— Já leu?

— Sim.

— Gostou?

— Gostei mais quando tinha dezesseis anos.

Ele fechou a porta atrás de si.

— Isso parece uma crítica.

— Acho que é apenas uma constatação. Aos dezesseis, achei Gatsby terrivelmente romântico. Quando reli alguns trechos depois, comecei a considerá-lo um homem rico tomando decisões ruins por uma mulher que não merecia metade delas.

Por um instante, achei que havia falado demais.

O canto da boca dele se moveu muito pouco.

— Uma avaliação consideravelmente menos romântica.

— Crescer costuma estragar algumas histórias.

— E melhorar outras.

Não soube o que responder.

A presença dele tornava o escritório diferente. Era estranho pensar dessa maneira, mas o ambiente parecia ter sido feito ao redor daquele homem. O terno escuro continuava impecável apesar do horário, embora estivesse sem o paletó que usava quando aparecera no corredor. As mangas da camisa permaneciam fechadas nos pulsos, e não havia nada desleixado nele. Nem mesmo o cansaço que eu conseguia perceber discretamente em seu rosto diminuía aquela impressão de controle.

Então me lembrei de que estava ali para uma entrevista.

Endireitei a postura.

— Espero não ter causado problemas com a senhorita Cullen.

O olhar dele voltou para mim.

— A senhorita Cullen é perfeitamente capaz de causar os próprios problemas.

Isso respondeu mais do que eu esperava.

Ele indicou uma das cadeiras diante da mesa.

— Sente-se, senhorita Miller.

A formalidade me surpreendeu um pouco depois de tudo que acontecera naquela casa.

— Claro.

Coloquei The Great Gatsby cuidadosamente sobre a mesa lateral, mas ele olhou para o livro.

— Pode deixar sobre minha mesa.

Peguei novamente o exemplar e coloquei onde ele indicara.

— Obrigada.

Caminhei até a cadeira e me sentei.

O senhor Black deu a volta na enorme mesa e ocupou o lugar do outro lado. Não abriu computador, não procurou currículo e tampouco pegou as anotações que Sarah fizera durante nossa conversa. Apenas se acomodou e me observou durante alguns segundos.

Comecei a compreender de onde William havia herdado aquela mania desconfortável de estudar as pessoas.

— Sei que é um pouco tarde — começou finalmente. — E também sei que minha mãe a manteve esperando por mais tempo do que seria razoável.

— Bastante mais.

A resposta escapou antes que eu pudesse decidir se deveria dizê-la.

Ele não pareceu ofendido.

— Minha noite apresentou alguns imprevistos.

Pensei na maneira como Bree reagira à presença dele no corredor. Imaginei que os imprevistos daquele homem fossem bastante diferentes dos meus.

— Tudo bem.

— Não, não está. Seu tempo tem o mesmo número de horas que o meu. Portanto, não pretendo desperdiçar mais nenhuma delas. Quero resolver esta situação ainda hoje.

Franzi a testa.

— Situação?

— Sobre o motivo de você estar aqui.

— O emprego.

Ele permaneceu em silêncio por um instante.

— Sim. Embora "emprego" não seja exatamente a definição correta.

Aquilo me deixou alerta.

Apoiei as mãos sobre o colo.

— Sua mãe também disse algo parecido. E Jéssica insinuou que havia alguma coisa que ninguém tinha me contado.

— Porque havia.

— Então talvez seja uma boa hora para alguém contar.

Ele recostou-se discretamente na cadeira.

— Concordo.

Esperei.

— A função para a qual minha mãe selecionou as candidatas envolve William, mas não se limita aos cuidados com ele. Preciso de alguém que viva nesta casa, acompanhe a rotina dos meus filhos e participe da estrutura familiar de maneira permanente durante um período determinado.

— Isso ainda parece um emprego de babá.

— Não terminei.

Calei-me.

— Existem compromissos sociais, eventos, viagens e obrigações familiares nos quais essa pessoa deverá estar presente. Há também questões relacionadas à estabilidade dos meus filhos e à estrutura sucessória da família Black. Por isso, uma funcionária convencional não atende ao que preciso.

Eu já não estava entendendo absolutamente nada.

— Desculpe, mas o que estrutura sucessória tem a ver com uma babá?

— Nada.

Esperei que continuasse.

Ele continuava perfeitamente sério.

— Senhor Black, acho que estou um pouco perdida.

— Minha mãe não estava procurando apenas uma babá para William.

— Então o que ela estava procurando?

Os olhos escuros permaneceram nos meus.

— Uma esposa para mim.

Fiquei imóvel.

Depois sorri.

Não consegui evitar.

Era absurdo demais.

Olhei para ele esperando alguma mudança de expressão que revelasse a brincadeira. Talvez um sorriso, talvez qualquer sinal de que aquele homem possuía um senso de humor particularmente estranho.

Nada aconteceu.

Meu sorriso desapareceu lentamente.

— Está falando sério?

— Completamente.

Pisquei algumas vezes.

— Uma esposa.

— Sim.

— Para o senhor.

— É assim que um casamento costuma funcionar, senhorita Miller.

Encarei-o.

— Eu sei como um casamento funciona.

— Ótimo. Economizamos uma explicação.

Eu não sabia se queria rir novamente ou levantar e ir embora.

— Eu respondi a um anúncio procurando uma babá.

— Sei.

— Fiquei quase um dia inteiro nesta casa porque precisava de um emprego.

— Também sei.

— Fiz uma queda de braço com seu filho para conseguir que ele comesse.

Dessa vez, vi claramente um pequeno movimento no canto de sua boca.

— Fui informado dessa parte.

— E ninguém achou importante mencionar que estavam escolhendo uma esposa para o pai dele?

— Se o anúncio dissesse "procura-se esposa contratual para um homem que você nunca viu", provavelmente teríamos atraído um tipo de candidata muito diferente daquele que minha mãe desejava encontrar.

Abri a boca e voltei a fechá-la.

Infelizmente, aquilo fazia algum sentido.

O que me irritou ainda mais.

— Isso é completamente insano.

— É incomum.

— Não. É insano.

Ele não discutiu.

Apenas abriu uma das gavetas da mesa.

Observei enquanto retirava algumas folhas presas dentro de uma pasta escura. Colocou-as sobre a mesa, alinhou-as com uma tranquilidade irritante e então deslizou o documento na minha direção.

Baixei os olhos.

Havia várias páginas.

E, no topo da primeira, meu nome já estava escrito. Renesmee Miller.

Ergui lentamente o rosto para o senhor Black.

Ele indicou o documento diante de mim.

— Leia. Depois poderá decidir exatamente o quanto considera minha proposta insana.



Peguei o documento, ainda esperando encontrar em algum lugar das primeiras linhas uma explicação que tornasse aquela conversa menos absurda. Não encontrei.

O nome do senhor Black aparecia primeiro, seguido pelo meu, ambos inseridos em uma linguagem jurídica que precisei ler duas vezes para compreender. Não era uma proposta informal nem uma lista de condições que ele havia improvisado naquela noite. Era um contrato elaborado por advogados, dividido em cláusulas, obrigações, direitos, confidencialidade, duração e condições para encerramento. Havia espaços para assinaturas, testemunhas e reconhecimento legal. Aquela família realmente passara o dia inteiro selecionando mulheres para descobrir qual delas receberia uma proposta de casamento de um homem que nenhuma de nós conhecia.

Ergui os olhos por cima das folhas.

— Isto é um contrato.

— Sim.

— De casamento.

— Exatamente.

— O senhor já tinha isso pronto?

— O modelo, sim. Seus dados foram incluídos depois que minha mãe decidiu que você deveria chegar à etapa final.

A naturalidade com que ele dizia aquilo me incomodava profundamente.

— Etapa final — repeti, olhando novamente para o documento. — Evidentemente. Porque chamar de entrevista de casamento pareceria estranho demais.

Ele ignorou o comentário.

Continuei lendo.

A primeira parte estabelecia que o casamento seria civil e legal, com duração contratual mínima de três anos, salvo situações específicas previstas nas cláusulas seguintes. Durante aquele período, eu residiria na mansão Black e seria apresentada publicamente como esposa de Jacob Black. Não haveria qualquer referência a casamento de conveniência, contrato ou acordo financeiro diante de terceiros. Para todos os efeitos sociais e familiares, eu seria a senhora Black.

A expressão me fez franzir a testa.

Senhora Black.

Continuei.

Minha situação financeira mudaria imediatamente após a assinatura. Havia um pagamento inicial cujo valor me fez voltar uma linha porque imaginei ter contado zeros demais. Depois, uma quantia mensal seria depositada em uma conta exclusivamente minha. Eu teria cartão, veículo com motorista, segurança particular, roupas e despesas pessoais custeadas pela família Black, além de acesso a determinadas propriedades durante o casamento.

Li o valor outra vez. Depois uma terceira. Aquilo era mais dinheiro do que eu havia visto em toda a minha vida.

Provavelmente mais do que Saint Agnes gastava em vários meses.

Meu desconforto aumentou.

Havia ainda um imóvel que seria transferido definitivamente para meu nome depois de determinado período, independentemente do término do casamento, além de investimentos criados em meu benefício. Caso cumprisse integralmente o acordo, eu deixaria aquele casamento com patrimônio próprio e segurança financeira suficiente para nunca mais depender de um emprego para sobreviver.

Aquilo deveria ter me impressionado.

Em vez disso, fez com que eu me sentisse estranhamente pequena.

Continuei lendo.

Também havia obrigações. Eu deveria residir naquela casa, salvo viagens autorizadas ou compromissos pessoais previamente informados. Participaria de eventos ao lado do senhor Black, jantares, recepções e compromissos familiares. Não poderia manter relacionamentos amorosos ou sexuais fora do casamento enquanto o acordo estivesse vigente. Deveria preservar absoluta confidencialidade sobre assuntos particulares da família e jamais fornecer informações sobre negócios, rotina, segurança ou qualquer coisa que pudesse comprometer os Black.

Até ali, por mais estranho que fosse, eu conseguia acompanhar a lógica.

Então cheguei à parte sobre William e Claire.

Minha presença não substituiria funcionários, professores ou profissionais responsáveis pelas crianças, mas eu deveria participar da rotina familiar, acompanhá-los em compromissos quando necessário e contribuir para a estabilidade doméstica que o casamento pretendia proporcionar. Nenhuma decisão médica ou educacional poderia ser tomada por mim sem autorização do pai, mas, socialmente, eu ocuparia o lugar de esposa dele e membro daquela família.

Parei.

Claire.

A garota da fotografia.

Eu nem sequer a conhecia.

William eu havia conhecido durante menos de uma hora.

E aquele homem esperava que eu entrasse na vida dos dois como esposa do pai.

— O senhor percebe que tenho vinte anos? — perguntei.

— Li seus dados.

— Sua filha deve ter quantos? Quinze?

— Quatorze.

Olhei para ele.

— Tenho seis anos a mais do que ela.

— Sei fazer essa conta também.

Fechei parcialmente o documento.

— Isso não parece um problema para o senhor?

— Não estou procurando uma mãe substituta para Claire.

— Ainda bem, porque seria ridículo.

— Nesse ponto concordamos.

Voltei a olhar para as páginas, ainda mais desconfiada.

— E William?

— Precisa de estabilidade.

— Ele precisa de uma esposa para o pai?

— Precisa de uma estrutura familiar que deixou de existir depois da morte da mãe. O casamento atende a mais de uma necessidade, senhorita Miller. William é uma delas, não a única.

Havia algo na forma como mencionou a esposa morta que me fez conter a próxima resposta. Não havia emoção aparente, mas também não parecia um assunto sobre o qual aquele homem estivesse disposto a conversar comigo.

Continuei.

Foi algumas cláusulas depois que parei novamente. Dessa vez, não por alguns segundos.

O senhor Black continuava sentado diante de mim com a mesma expressão tranquila.

— O que significa isto?

— Precisará ser mais específica.

Coloquei o dedo sobre o parágrafo.

— Isto.

Ele olhou para onde eu indicava.

— A cláusula sucessória.

— Eu consigo ler o título.

— Então qual é a dúvida?

A pergunta foi tão tranquilamente feita que precisei respirar antes de responder.

— A parte em que diz que durante o casamento deverá haver um descendente comum entre as partes.

— Significa exatamente o que está escrito.

Fiquei olhando para ele. — Um filho?

— Sim.

Soltei uma risada curta de incredulidade.

Ele não riu.

— O senhor quer que eu tenha um filho seu.

— Quero outro herdeiro.

Meu desconforto transformou-se imediatamente em irritação. — Isso não melhora em nada a frase.

— Não tentei melhorá-la.

— Evidentemente.

Coloquei as folhas sobre a mesa. — Então deixe-me ver se entendi corretamente. Eu cheguei aqui para trabalhar como babá, passei por uma entrevista com sua mãe, conheci seu filho e fiquei esperando durante horas. Agora o senhor me informa que, na verdade, quer que eu me case com um completo desconhecido, viva nesta casa, apareça em festas como esposa dele e tenha um filho com ele.

— Em termos bastante simplificados, sim.

— Bastante simplificados?

— O documento possui outras condições.

— Eu notei. Principalmente a quantidade de dinheiro envolvida.

Ele apoiou um braço na cadeira.

— Imagino que também tenha notado que as condições financeiras são favoráveis a você.

Aquilo me irritou ainda mais.

— O senhor acredita que esse é o problema?

— Acredito que dinheiro seja uma consideração relevante para alguém que procura emprego.

Atingiu exatamente onde não deveria.

— Eu preciso trabalhar. Isso não significa que esteja procurando um homem rico para me comprar.

A expressão dele mudou muito pouco, mas percebi. — Não estou comprando você.

— Como chama isto?

Toquei no contrato. — Um acordo.

— No qual o senhor me dá dinheiro, uma casa, roupas, segurança e sei lá mais quantas coisas, e eu lhe dou uma esposa e um filho.

— Você está reduzindo deliberadamente os termos para torná-los ofensivos.

— Não preciso fazer esforço algum para torná-los ofensivos.

Ele me observou em silêncio.

Eu estava ficando realmente irritada.

— O senhor faz isso com frequência?

— Proponho casamento a mulheres?

— Entrega contratos dizendo que elas receberão uma fortuna se tiverem seus filhos.

— Não.

— Que alívio. Por um momento achei que tivesse uma fila diferente para isso também.

Vi algo próximo de impaciência aparecer em seus olhos.

— Senhorita Miller, se pretende discutir comigo, ao menos discuta o que está escrito. A cláusula não determina quando ocorrerá uma gravidez, não estabelece obrigação sexual imediata e tampouco retira de você autonomia médica. Existem condições específicas justamente porque não estou procurando uma mulher para engravidar amanhã.

— Que consideração.

— Sarcasmo não altera o documento.

— Nem o documento altera o absurdo.

Ele permaneceu tranquilo, o que só tornava minha irritação maior.

— Por que precisa de outro filho? — perguntei. — Já tem dois.

— Tenho.

— Então?

— Claire e William possuem lugares diferentes na estrutura sucessória da minha família. Existem bens, empresas e responsabilidades que não seguem necessariamente as mesmas regras da legislação comum. Não considero prudente que toda uma sucessão dependa de uma única pessoa.

— William.

— Sim.

Pensei no garoto sentado diante do prato algumas horas antes.

— Ele tem sete anos.

— Sete anos e três meses.

A correção me fez encará-lo.

— E já está planejando quem ficará com tudo caso alguma coisa aconteça com ele?

— Planejo o que acontecerá com minha família caso alguma coisa aconteça comigo.

— O senhor tem trinta e...

Parei porque não sabia sua idade.

— Trinta e oito — completou.

— Trinta e oito. Não acha um pouco cedo para estar organizando sucessores como se estivesse prestes a morrer?

Ele me olhou diretamente.

— Homens na minha posição nem sempre têm o privilégio de morrer de velhice.

A resposta me calou.

Não porque tivesse compreendido, mas porque a maneira como disse aquilo me deixou desconfortável.

Olhei ao redor do escritório. A mansão, os seguranças, os portões, a quantidade absurda de homens que eu vira do lado de fora, a reação de todos quando ele aparecia.

Eu realmente não sabia quem era Jacob Black.

E aquilo era mais um excelente motivo para não me casar com ele.

Voltei ao contrato. — E depois que esse filho nascer?

— Continue lendo.

— Acho que já li o suficiente.

— Se tivesse lido, saberia que a existência de uma criança altera suas garantias depois do término do casamento.

Apesar de mim mesma, olhei novamente.

Encontrei a seção.

Se houvesse um filho, os benefícios não terminariam com o casamento. Havia previsão de patrimônio, renda vitalícia, proteção, residência e segurança permanente. O texto também estabelecia que nenhuma condição financeira poderia ser retirada como forma de punição caso o casamento terminasse.

— Renda vitalícia?

— Sim.

— Pelo resto da minha vida?

— É o significado de vitalícia.

Ergui os olhos.

— O senhor sempre fala com as pessoas como se fossem idiotas?

— Apenas quando me perguntam o significado de palavras que evidentemente conhecem.

Minha boca se abriu.

— O senhor é insuportável.

— Já me disseram.

— Imagino que muitas vezes.

— Algumas.

Voltei a olhar para o papel.

— Por quê?

— Porque a mãe de um filho meu continuará pertencendo à estrutura de proteção dos Black mesmo depois de deixar de ser minha esposa. Se cumprirmos o acordo e nos separarmos, você deverá possuir independência suficiente para seguir sua vida sem depender financeiramente de mim por escolha ou necessidade.

— Mas continuará pagando.

— A obrigação será da estrutura patrimonial criada em seu benefício, não dependerá da minha disposição mensal.

Aquilo era assustadoramente organizado.

Ele não estava improvisando absolutamente nada.

Alguém havia pensado em cada detalhe.

— E o filho fica com quem?

— Essa parte não está definida dessa maneira.

— Então está definida como?

— Qualquer questão relacionada à criança será estabelecida considerando o interesse dela e nossa condição de pais. Não estou contratando alguém para me entregar um bebê e desaparecer.

Pelo menos uma coisa naquele documento não era monstruosa.

Ainda assim, empurrei as folhas para longe.

— Não.

Ele olhou para o contrato e depois para mim.

— Não terminou.

— Não preciso terminar.

— Seria mais sensato conhecer todas as condições antes de tomar uma decisão.

— Minha decisão já está tomada.

— Rapidamente.

— O senhor acabou de me propor um casamento contratual com uma cláusula exigindo que eu tenha um filho seu. Acho que estou me saindo surpreendentemente bem.

— Não existe necessidade de responder esta noite.

— Existe para mim.

Levantei-me e ele permaneceu sentado. Aquilo também me irritou.

Peguei minha bolsa da poltrona e coloquei a alça sobre o ombro. — Agradeça à sua mãe por mim. Ela foi gentil, e William é...

Parei.

Não queria dizer adorável porque provavelmente seria mentira depois da quantidade de comida que aquele garoto aparentemente jogara em outras candidatas.

— William é uma criança muito inteligente. Espero sinceramente que encontrem alguém que consiga ajudá-lo.

— Você conseguiu.

Olhei para ele.

— Consegui fazê-lo comer três coisas porque ganhei uma aposta. Isso não me transforma em sua esposa.

— Não disse que transformava.

— Ainda bem.

Dei alguns passos em direção à porta.

— Senhorita Miller.

Parei e me virei.

Ele continuava atrás da mesa, perfeitamente calmo, como se eu não tivesse acabado de chamar sua proposta de absurda e ele de insuportável.

— O quê?

— Leve o contrato.

— Não quero o contrato.

— Ainda assim, leve.

— Para quê? Usar para lembrar que meu primeiro dia em Nova York terminou com um desconhecido me oferecendo dinheiro para ter um filho dele?

Dessa vez, tive certeza de que o canto de sua boca se moveu. Aquilo me deixou ainda mais irritada.

— Boa noite, senhor Black.

Coloquei a mão na maçaneta.

— Você tem três dias.

Olhei por cima do ombro.

— Para quê?

— Para mudar de ideia.

Soltei uma pequena risada, incrédula.

— Não vou mudar.

Ele sustentou meu olhar.

— Então, daqui a três dias, terá perdido apenas alguns minutos lendo o restante do contrato.

— Posso poupar os minutos.

— Três dias, senhorita Miller.

Balancei a cabeça. — O senhor tem uma confiança impressionante na própria capacidade de conseguir o que quer.

— Ela costuma ser justificada.

Abri a porta.

— Desta vez não será.

Saí do escritório antes que ele pudesse responder, caminhando pelo corredor com a sensação de que aquela tinha sido, sem qualquer concorrência, a entrevista de emprego mais absurda da minha vida.

E eu não voltaria.

Podia precisar desesperadamente de dinheiro, emprego e um lugar para morar, mas ainda havia uma diferença enorme entre estar desesperada e estar à venda.

Jacob Black descobriria isso quando seus três dias terminassem.