A esposa do Don
12 A parte do acordo
O galpão ficava afastado o suficiente da parte mais movimentada de Allentown para que ninguém prestasse atenção aos veículos que ocupavam o terreno naquela manhã. A construção pertencera a uma pequena empresa de armazenamento havia alguns anos e permanecia oficialmente desativada, embora naquele momento houvesse mais homens meus espalhados pela propriedade do que funcionários provavelmente trabalharam ali quando ainda funcionava. Dois estavam no portão, outros cobriam os fundos, havia veículos posicionados nas ruas de acesso e, assim que o carro parou diante da entrada lateral, reconheci mais quatro homens esperando do lado de fora. Não gostava de improvisações quando estava fora do meu território, e Paul compreendera isso perfeitamente.
Desci do veículo enquanto ele permanecia alguns passos atrás. O vento frio da manhã atingiu meu rosto, e ajeitei os punhos da camisa antes de abotoar o paletó. Um dos homens se aproximou imediatamente.
— Bom dia, Don. O convidado está lá dentro. Não tivemos nenhum problema desde que o trouxemos.
— Ele tentou alguma coisa?
— Depois que percebeu que não conseguiria sair, limitou-se a ameaçar todo mundo. Disse que conhece policiais, advogados, gente no tribunal e que todos nós vamos nos arrepender.
Olhei para Paul.
— Parece que nosso levantamento foi bastante preciso.
Paul esboçou um sorriso discreto.
— Ele também exigiu saber quem estava por trás disso.
— Espero que ninguém tenha estragado a surpresa.
— Ninguém disse nada.
Assenti e caminhei para dentro. O cheiro de poeira e madeira velha dominava o lugar, misturado ao de umidade acumulada nos cantos da construção. Homens meus estavam distribuídos pelo espaço, alguns conversando em voz baixa, outros atentos às entradas. Ninguém precisava estar ali em tamanho número para controlar Richard Coleman. Aquela demonstração sequer era para ele. Estávamos fora de Nova York, e eu não permaneceria em uma cidade que não conhecia sem controlar o ambiente ao meu redor.
Embry me esperava próximo a uma porta de metal no fundo do galpão. Não o vira no hotel porque ele chegara antes de nós para supervisionar pessoalmente a retirada de Emma e garantir que a operação ocorresse sem incidentes. Aproximou-se assim que me viu.
— Tudo limpo, Don. A equipe que acompanhou Emma confirmou que o avião decolou sem problemas. Os três homens que vigiavam a casa foram retirados antes que percebessem o que estava acontecendo.
— Coleman sabe?
— Ainda não.
— Melhor.
Embry abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse.
— Ele está irritado.
— Homens acostumados a assustar mulheres costumam ficar quando descobrem que também podem sentir medo.
Entrei acompanhado dele.
A sala era pequena comparada ao restante do galpão. Havia sido provavelmente um escritório administrativo quando o lugar ainda funcionava, embora quase tudo tivesse sido retirado. Restavam uma mesa encostada na parede, algumas cadeiras e uma lâmpada forte presa ao teto. No centro estava Richard Coleman, sentado com as mãos presas atrás da cadeira e uma venda escura cobrindo seus olhos. Não havia sangue, ferimentos ou marcas visíveis. Eu havia sido claro quando ordenara que ninguém tocasse nele antes da minha chegada, e meus homens sabiam que minhas ordens não eram sugestões.
Coleman ouviu nossos passos e imediatamente se endireitou.
— Finalmente. Seja quem for que esteja fazendo isso, é melhor saber que vai pagar caro. Vocês não fazem ideia de quem estão prendendo aqui. Tenho gente procurando por mim e, quando descobrirem quem fez isso, vocês vão desejar nunca ter colocado as mãos em mim.
Continuei caminhando.
Não respondi.
Ele parou, provavelmente esperando alguma reação, mas tudo que recebeu foi o som dos meus passos se aproximando. Puxei a cadeira posicionada diante dele, ajeitei o paletó antes de me sentar e cruzei uma perna sobre a outra. Embry permaneceu ao meu lado.
Coleman voltou a falar.
— Está me ouvindo? Eu disse que quero saber quem está por trás disso. Tire essa porcaria dos meus olhos e fale comigo como homem.
Olhei para Embry.
Ele retirou a venda.
Coleman piscou repetidas vezes diante da luz, demorando alguns segundos para adaptar os olhos. Primeiro viu Embry, depois os homens próximos à porta e, finalmente, encontrou meu rosto. Seu olhar percorreu meu terno, minhas mãos e voltou ao meu rosto numa tentativa evidente de descobrir quem eu era.
Não me reconheceu.
Era exatamente o que eu queria.
— Quem é você, seu miserável?
Sustentei seu olhar durante alguns segundos antes de responder. Não havia motivo para me apressar.
— Senhor Coleman, sinto muito pela hospitalidade pouco convencional dos meus homens. Receio que eles tenham maneiras bastante particulares de receber convidados.
Ele puxou os braços, testando as amarras.
— Você chama isso de hospitalidade? Seus homens me arrancaram da minha casa no meio da madrugada, me trouxeram para este buraco e me amarraram numa cadeira. Se quer dinheiro, escolheu a pessoa errada.
— Se eu quisesse seu dinheiro, senhor Coleman, nossa conversa seria consideravelmente mais curta.
Ele me estudou com atenção.
— Então quem diabos é você?
Apoiei as mãos sobre os braços da cadeira.
— Sou o noivo de Renesmee Miller.
A reação foi imediata.
Coleman ficou alguns segundos completamente imóvel, e a arrogância em seu rosto deu lugar primeiro à surpresa e depois à incredulidade.
— Renesmee?
— Fico satisfeito que se lembre dela.
Ele soltou uma risada curta.
— Aquela garota não tem noivo.
— Tinha razão até alguns dias atrás.
— Está mentindo.
— Não tenho motivo para mentir para o senhor.
Coleman olhou para Embry e depois para os homens próximos à porta antes de voltar a me encarar.
— Então foi ela quem mandou vocês atrás de mim.
— Não.
— Claro que foi. Aquela desgraçada...
Minha expressão mudou.
Foi suficiente para que ele interrompesse a frase.
— Escolha cuidadosamente a próxima palavra, senhor Coleman. Estamos falando da mulher que carregará meu sobrenome dentro de alguns dias. Recomendo que aprenda desde agora a tratá-la de acordo.
Ele permaneceu calado.
— Renesmee não me pediu que viesse atrás do senhor — continuei. — Ela sequer sabe que estou em Allentown. Pediu apenas que eu protegesse Emma e os filhos.
Vi a reação.
Pequena, mas suficiente.
— Não sei quem é Emma.
Inclinei discretamente a cabeça.
— Se pretende mentir para mim, faça um esforço maior. Atravessei a madrugada até a Pensilvânia. Seria falta de educação desperdiçar meu tempo com mentiras tão ruins.
— Eu não fiz nada com essa mulher.
— Ainda.
— Não sei o que Renesmee contou, mas ela está tentando se livrar do que fez.
— Tenha cuidado.
— Com o quê?
— Já lhe expliquei. Com a maneira como fala da minha futura esposa.
Coleman respirou fundo.
— Ela me atacou. Quase abriu minha cabeça e depois fugiu. Talvez sua querida noiva tenha esquecido essa parte da história.
— Não esqueceu.
Ele pareceu surpreso.
— Ela contou?
— Renesmee me contou que o senhor esperou até que estivessem sozinhos, tentou forçá-la sexualmente e recebeu um objeto de metal na cabeça quando ela se defendeu.
— Isso é mentira.
— Pode ser.
Ele franziu a testa.
— Pode ser?
— Eu não estava lá. Portanto, mandei meus homens verificarem.
Estendi a mão sem olhar para Embry, que imediatamente colocou o envelope que Paul trouxera no hotel sobre minha palma. Abri-o com tranquilidade.
— Duas antigas funcionárias deixaram seu estabelecimento em circunstâncias interessantes. Uma chegou a relatar comportamento inadequado. A outra ainda não formalizou nenhuma denúncia, mas meus homens conversarão com ela. Existem câmeras nos estabelecimentos próximos ao Riverside que estamos verificando, registros de horário, funcionários que serão ouvidos e uma diferença de caixa bastante conveniente que surgiu justamente na noite em que Renesmee fugiu.
O rosto dele endureceu.
— Você não sabe nada sobre meu negócio.
— Esta manhã sei mais do que sabia ontem. Amanhã saberei mais do que o senhor gostaria.
Fechei o envelope.
— Também sei quem são os policiais com quem costuma beber, conheço o nome do seu irmão no tribunal, sei quais imóveis herdou de seu pai e quais empresas dependem do crédito de bancos que fazem negócios com pessoas que me devem favores. Sei quais fornecedores mantêm seu restaurante funcionando e quais contratos podem receber uma atenção muito maior caso eu considere necessário. Portanto, quando digo que não precisa mentir para mim, não estou fazendo uma ameaça vazia. Estou poupando nosso tempo.
Coleman me encarou durante alguns segundos. O medo começava a aparecer, embora ele ainda tentasse esconder atrás da arrogância que provavelmente funcionara durante muitos anos com pessoas menos poderosas.
— O que você quer?
— Agora chegamos à parte útil da conversa.
Inclinei-me discretamente para a frente.
— Quero que o senhor compreenda que Renesmee Miller deixou de estar sozinha.
— Ela me deve explicações.
— Não.
— Ela me atacou.
— Então procure seu advogado.
— A polícia está atrás dela.
— Meus advogados conversarão com a polícia.
— Você acha que dinheiro vai apagar o que ela fez?
— Não pretendo apagar absolutamente nada. Pelo contrário. Quero que tudo seja investigado com uma atenção que o senhor aparentemente não esperava receber. Se Renesmee cometeu algum crime, haverá advogados para representá-la e fatos para serem examinados. Se ela agiu em legítima defesa, isso também será demonstrado. O que não acontecerá é o senhor manipular testemunhas, fabricar uma história conveniente sobre dinheiro desaparecido ou ameaçar uma mulher e duas crianças para obrigar minha noiva a voltar sozinha até o lugar onde afirma ter sido atacada.
— Eu não ameacei ninguém.
— Temos um problema, então.
— Qual?
— Renesmee ouviu sua ameaça diretamente.
Ele soltou uma risada sem humor.
— A palavra dela novamente.
— Exatamente. A diferença é que agora a palavra dela vem acompanhada da minha atenção.
Coleman ficou em silêncio.
— Emma e as crianças estão seguras — continuei. — O senhor não sabe onde estão e continuará sem saber. Seus homens não as vigiam mais, portanto não recomendo que perca tempo procurando.
Dessa vez ele não conseguiu esconder a surpresa.
— Você tirou Emma da cidade?
— Tirei-a do seu alcance.
— Você não tinha direito de...
— Curioso como essa palavra se tornou importante para o senhor esta manhã.
Coleman puxou as amarras novamente.
— Você não pode entrar na minha cidade, mexer com a vida das pessoas e achar que ninguém vai reagir.
— Sua cidade?
Olhei ao redor da sala antes de voltar a encará-lo.
— Senhor Coleman, esta é precisamente a espécie de ilusão que o trouxe até esta cadeira. O senhor herdou um restaurante, conhece alguns policiais, tem um parente trabalhando no tribunal e passou tempo demais confundindo influência local com poder. Isso funcionou enquanto escolhia pessoas que acreditava não terem a quem recorrer. Renesmee era uma órfã, jovem, sem dinheiro e sem família. Imagino que tenha parecido conveniente.
— Você não sabe o que aconteceu naquela noite.
— Ainda não sei tudo. E é justamente por isso que está sentado diante de mim sem um único ferimento.
Seus olhos foram rapidamente até Embry.
— Isso é uma ameaça?
— Não. É uma explicação.
Recostei-me novamente.
— Não vim arrancar uma confissão do senhor. Existem investigadores para encontrar fatos e advogados para cuidar do restante. Vim estabelecer um limite que aparentemente ninguém havia estabelecido antes. A partir de hoje, não procura Renesmee. Não telefona, não envia mensagens, não manda terceiros e não tenta descobrir onde ela está. Também não procura Emma nem se aproxima dos filhos dela. Se a polícia precisar falar com Renesmee, falará com os advogados que passarão a representá-la e receberá toda a cooperação necessária. Se possui alguma acusação legítima, apresente-a pelos meios legais.
Coleman me encarou.
— E se eu não aceitar?
— Então descobrirá que não preciso encostar um dedo no senhor para tornar sua vida extraordinariamente difícil.
Mantive a voz baixa e tranquila.
— Empresas são auditadas. Licenças são revistas. Bancos reconsideram riscos. Fornecedores escolhem clientes mais seguros. Pessoas que pareciam amigas começam a lembrar que possuem carreiras e famílias para preservar. Homens acostumados a construir poder sobre favores descobrem rapidamente que esses favores desaparecem quando o preço de mantê-los se torna alto demais. Posso retirar tudo aquilo que o faz acreditar que possui algum poder sem precisar sujar minhas mãos com o senhor.
A cor do rosto dele havia mudado.
— Você está dizendo que vai destruir minha vida.
— Estou dizendo que manter sua vida como está continua sendo uma escolha sua. Tudo que precisa fazer é algo que deveria ter feito desde o princípio: deixar Renesmee Miller em paz.
O silêncio se prolongou.
Coleman desviou os olhos primeiro.
Levantei-me e abotoei o paletó enquanto Embry imediatamente se afastava para abrir caminho.
— Espere.
Parei.
— O que acontece comigo agora? — Coleman perguntou, e sua voz já não possuía a mesma arrogância de quando eu entrara.
— Meus homens vão soltá-lo quando eu considerar apropriado.
— E você simplesmente vai embora depois de tudo isso?
— Tenho um avião esperando e uma noiva que provavelmente está a minha espera enquanto conversamos. Minha manhã está bastante ocupada.
Dei alguns passos em direção à porta, então parei.
Havia deixado uma coisa para o final.
Levei a mão ao bolso interno do paletó e retirei um cartão preto. Não havia nome, telefone, endereço ou empresa impressos nele. Apenas um símbolo discreto gravado na superfície.
Um lobo.
Voltei até Coleman e coloquei o cartão sobre a perna dele.
— Guarde.
Ele olhou para o cartão e sua reação foi imediata.
Se até aquele momento eu vira medo crescer lentamente, naquele instante ele deixou de tentar escondê-lo. Coleman fixou os olhos no lobo gravado, e a pouca cor que ainda restava em seu rosto desapareceu. Seus dedos se moveram inutilmente atrás da cadeira, e ele ergueu os olhos para mim com uma expressão completamente diferente.
Finalmente sabia.
Não precisei dizer meu nome.
— Você...
Não permiti que terminasse.
— Caso ainda tenha alguma dúvida de que a situação está sob meu controle, senhor Coleman, olhe para esse cartão antes de tomar sua próxima decisão.
Ele tornou a baixar os olhos para o lobo.
— Eu não sabia que ela...
— Naturalmente não sabia. Se soubesse, não estaríamos tendo esta conversa.
Aproximei-me apenas o suficiente para que não houvesse qualquer possibilidade de ele interpretar errado minhas últimas palavras.
— Renesmee fugiu do senhor porque acreditava estar sozinha. Esse tempo acabou. A partir de agora, antes de telefonar para ela, procurar Emma ou sequer considerar colocar um homem atrás de qualquer uma das duas, lembre-se do símbolo que está segurando e pergunte a si mesmo se realmente deseja descobrir quem virá buscá-lo na próxima vez.
Endireitei-me, ajeitei o paletó e caminhei em direção à porta com Embry ao meu lado. Não precisei olhar para trás para saber que Coleman continuava encarando o cartão.
O jatinho aguardava com os motores ligados quando chegamos ao pequeno terminal privado. Não havia mais razão para permanecer em Allentown. Coleman recebera a mensagem, Emma e os filhos já estavam a caminho de Nova York, meus advogados começariam a trabalhar naquela manhã e, a partir daquele momento, qualquer tentativa de usar a polícia ou suas relações locais contra Renesmee passaria primeiro por pessoas que sabiam exatamente como desmontar esse tipo de influência sem criar um espetáculo desnecessário.
Subi os degraus sem esperar pelos demais e entreguei o telefone a um dos homens antes de entrar. O interior silencioso da aeronave contrastava com as últimas horas. Tirei o paletó, coloquei-o sobre o assento ao lado e sentei-me próximo à janela. Paul ainda permaneceu alguns minutos do lado de fora acertando detalhes com a equipe que ficaria na Pensilvânia, enquanto Embry entrou logo depois de mim e ocupou a poltrona do outro lado do corredor. Sobre a pequena mesa diante do meu assento já estavam meu notebook e alguns documentos enviados durante a madrugada.
A aeronave começou a taxiar enquanto abria o computador. Havia mensagens demais esperando minha atenção. Informações sobre a carga interceptada em Nova York, uma atualização dos homens que continuavam interrogando o responsável pelo ataque, documentos da empresa que precisavam da minha autorização e três mensagens de Sarah, sendo a última suficientemente curta para chamar minha atenção.
Rachel está com ela. Claire ainda não saiu do quarto e Will está na escola. Não se preocupe, sua casa continua de pé.
Li duas vezes apenas a primeira parte.
Renesmee estava a caminho da mansão.
Minha futura esposa havia chegado à minha família enquanto eu estava em outra cidade ameaçando um homem em nome dela.
Havia certa ironia nisso.
Fechei a mensagem e abri um dos relatórios enviados por Embry durante a madrugada. O nome de Saint Agnes aparecia no alto da página. Passei os olhos pelas primeiras linhas antes de olhar para ele.
— Como foi a investigação no orfanato?
Embry levantou os olhos do telefone.
— Mais simples do que esperávamos. O Saint Agnes continua funcionando, embora com uma administração diferente da época em que a senhorita Miller viveu lá. Dois dos nossos homens foram ontem à noite para a região e outro voltou esta manhã para conversar com as religiosas.
— E?
— Até agora, tudo que a senhorita Miller lhe contou corresponde ao que disseram no orfanato. Ela foi criada lá, entrou ainda bebê, permaneceu sob os cuidados da instituição durante toda a infância e adolescência e saiu quando atingiu idade suficiente para viver por conta própria. Trabalhou ajudando com as crianças mais novas durante anos, o que explica a experiência que Sarah encontrou no relatório, embora nunca tenha sido funcionária formal.
Voltei os olhos para a tela.
— Miller?
— Também confere. Não era um sobrenome de família.
Aquilo me fez interromper a leitura.
— Explique.
Embry acomodou-se melhor no assento.
— Quando ela chegou ao orfanato, não havia documentação suficiente para estabelecer a identidade dos pais. Segundo a atual responsável pelos arquivos, havia apenas um nome associado à criança: Renesmee. O sobrenome Miller foi colocado posteriormente nos registros para regularizar a documentação.
— Escolhido pelas freiras?
— Pelo que conseguimos descobrir, sim.
Fiquei em silêncio.
Eu já sabia parte daquilo porque Renesmee me contara. Ainda assim, ouvir a confirmação produzida por uma investigação independente tinha outro peso. Ela não inventara a história para parecer desamparada diante de Sarah nem para tornar sua situação mais conveniente durante nossa negociação. Renesmee Miller realmente não sabia de onde vinha.
— Como ela chegou ao Saint Agnes?
— É justamente aí que encontramos uma lacuna.
— Que tipo de lacuna?
— Os registros mais antigos são incompletos. Há uma data de entrada, estimativa de idade e algumas informações administrativas, mas quase nada sobre quem a levou até lá. A mulher com quem nossos homens conversaram não trabalhava na instituição naquela época. Segundo ela, existe apenas uma pessoa ainda ligada ao Saint Agnes que estava lá quando Renesmee chegou.
Fechei parcialmente o notebook.
— Quem?
— Irmã Margaret. Foi uma das freiras que recebeu Renesmee quando bebê.
— Falou com ela?
— Não conseguimos.
— Por quê?
— Está viajando. Foi visitar outra congregação e deve retornar em alguns dias.
Não gostei da resposta, embora não houvesse motivo objetivo para isso.
— Quantos dias?
— Ainda não sabemos exatamente. Disseram que provavelmente antes do fim da semana.
— Provavelmente não é uma data.
— Posso descobrir.
— Descubra.
Embry assentiu.
Voltei a abrir completamente o notebook e passei para outra página do relatório. Havia uma reprodução de uma fotografia retirada dos arquivos do orfanato. A qualidade era ruim, provavelmente uma digitalização de algum documento antigo. Renesmee devia ter poucos anos nela. Cabelos longos, rosto pequeno, olhos voltados diretamente para a câmera.
Permaneci alguns segundos olhando.
Aquela sensação voltou.
Não era a primeira vez.
Na noite em que a vira no corredor da minha casa, discutindo com Bree, alguma coisa em seu rosto me parecera vagamente conhecida. Não o suficiente para que eu identificasse imediatamente de onde vinha a impressão. Eu conhecia centenas de pessoas e encontrara milhares ao longo dos anos. Semelhanças aconteciam. Certos traços se repetiam, expressões despertavam lembranças e o cérebro completava o restante.
Ainda assim, eu voltara a pensar nisso durante nossa conversa no escritório.
Principalmente quando Renesmee ficara irritada.
Havia alguma coisa no modo como seus olhos se estreitavam antes de responder, na inclinação do rosto e naquela expressão quase arrogante que surgia sempre que acreditava estar sendo subestimada.
Embry continuava me observando.
— Don?
— Cuide disso pessoalmente.
— Da freira?
— De toda a parte referente ao Saint Agnes. Não quero outro homem fazendo perguntas quando ela voltar. Você vai conversar com irmã Margaret.
— O que exatamente quer saber?
— Quem levou Renesmee até o orfanato. Em que condições ela chegou, o que vestia, se havia algum documento, objeto, carta ou informação além do nome. Quero saber se alguém procurou por ela posteriormente e se houve alguma tentativa de adoção que tenha sido interrompida por circunstâncias incomuns.
Embry franziu discretamente a testa.
— Isso aconteceu?
— Não sei. É por isso que estou mandando descobrir.
— Quer que eu procure registros hospitalares também?
Pensei por alguns segundos.
— Ainda não. Primeiro converse com a freira. Não quero transformar uma investigação discreta numa busca que deixe rastros desnecessários.
— Certo.
O jatinho ganhou velocidade na pista. Poucos segundos depois senti a aeronave deixar o solo, e Allentown começou a diminuir pela janela. Embry esperou até estabilizarmos antes de voltar ao assunto.
— Posso perguntar uma coisa?
Olhei para ele.
— Acabou de perguntar.
Ele ignorou.
— Por que está tão interessado no passado de Renesmee Miller?
Voltei os olhos para o notebook.
— Vou me casar com ela.
— Isso explica uma investigação. Não explica o senhor me mandar pessoalmente atrás de uma freira para descobrir quem deixou uma criança num orfanato vinte anos atrás.
Não respondi imediatamente.
Embry trabalhava comigo havia tempo suficiente para saber quando uma ordem escondia outra preocupação. Também sabia que insistir além de determinado ponto não era recomendável. Ainda assim, aquela pergunta era razoável.
Ampliei a fotografia na tela.
Renesmee criança.
Observei os olhos, o formato do rosto e aquela expressão séria demais para a idade.
— Ela me lembra alguém.
Embry se inclinou discretamente para tentar enxergar a tela.
— Quem?
Fechei o notebook antes que ele conseguisse olhar melhor.
— Não importa.
— Se não importasse, eu não estaria voltando a um convento para interrogar uma freira.
— Você não vai interrogar uma freira, Embry.
— Fico aliviado. Minha experiência com interrogatórios não parece adequada para religiosas.
Apesar da seriedade, quase sorri.
— Converse com ela.
— Com delicadeza.
— Preferencialmente.
Ele assentiu, mas continuou me observando.
— E quem a senhorita Miller lembra?
Passei a mão pela mandíbula e olhei pela janela. A Pensilvânia desaparecia abaixo das nuvens enquanto tentava localizar exatamente quando aquela associação surgira pela primeira vez. Talvez tivesse sido no corredor, diante de Bree. Talvez depois, quando ela se sentara diante de mim e me enfrentara sobre o contrato como se a diferença entre nossas posições não fosse suficiente para fazê-la recuar.
Eu sabia quem me viera à mente.
E era justamente por isso que não pretendia dizer.
— Foi apenas uma impressão.
— Uma impressão que colocou o segundo homem mais ocupado da sua organização atrás dos registros de nascimento de uma órfã.
— Está reclamando da tarefa?
— Jamais.
— Ótimo.
Embry recostou-se. — Certo vou descobrir.
Abri novamente o notebook.
— Faça isso.
Ele permaneceu quieto por alguns segundos, até perguntar:
— Acredita que ela mentiu sobre quem é?
— Não.
Minha resposta saiu sem hesitação.
Eu não acreditava que Renesmee estivesse mentindo. Depois da noite anterior, estava convencido do contrário. Ela contara a verdade até quando a verdade a deixava vulnerável. Admitira ter atingido Coleman, admitira ter fugido, admitira não ter procurado a polícia e admitira ter medo. Uma mulher tentando construir uma identidade falsa teria elaborado uma história melhor do que aquela.
— Acho que ela sabe exatamente o que lhe ensinaram sobre quem é — continuei. — Isso não significa que as pessoas que a deixaram naquele lugar tenham contado a verdade.
Embry ficou sério.
— Acha que alguém a escondeu?
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
Fechei um dos arquivos na tela.
— Pensei que uma criança não aparece em um orfanato sem ter vindo de algum lugar.
— Todas vêm de algum lugar.
— Exatamente.
Ele compreendeu que não obteria mais nada e voltou a pegar o telefone.
Eu, entretanto, continuei olhando para a tela.
A fotografia de Renesmee permanecia aberta no canto do relatório.
Havia vinte anos entre aquela criança e a mulher que, naquele momento, provavelmente estava conhecendo o quarto que Rachel preparara para ela em minha casa. Eu deveria estar pensando no contrato, na cerimônia que precisaria ser organizada, nos advogados, na situação com Claire ou nos ataques recentes contra meus negócios.
Em vez disso, continuava olhando para os olhos de uma menina numa fotografia antiga.
Ela me lembrava alguém.
Eu sabia exatamente quem.
Mas a possibilidade que passara pela minha cabeça era absurda demais para receber um nome, porque coincidências daquela proporção pertenciam a histórias mal contadas, não ao mundo em que eu vivia. Por enquanto, deixaria que Embry conversasse com a única mulher que estivera no Saint Agnes quando Renesmee chegou.
Se eu estivesse errado, teria perdido algumas horas investigando o passado da mulher com quem estava prestes a me casar.
Se estivesse certo, o problema seria muito maior do que um casamento por contrato.
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