Ela abre os olhos bem devagar e ao perceber que estou com os meus sobre ela, abre um lindo sorriso. O sorriso mais lindo que eu já vi na vida. É impressionante a capacidade que esse sorriso tem de me lembrar alguém, que eu tento a anos esquecer.

– Bom dia meu amor.

– Bom dia mamãe. – surge o sorriso de uma mãe babona.

Já se passaram 7 anos desde que ele se foi. Ele foi embora e nem sequer olhou para trás. Não olhou para o que estava deixando. E porque estava deixando. Eu queria pedir para que ele ficasse. E pensei várias vezes naqueles últimos meses em contar toda a verdade. Mas a raiva que e sentia dele já era bem maior que o amor. E no nosso caso não existia mais a possibilidade de perdão.

Então ele foi embora em janeiro de 2008. Me deixou aqui em Boston. Grávida de 4 meses. Sem nem imaginar essa possibilidade. Por mais estranho que pareça eu fiquei extremamente feliz.

Cecelia vai completar 6 anos no próximo mês. 15 de maio. Foi o dia em que o meu anjo nasceu. Cecelia Moore. É sempre sorridente, é delicada e pequena até demais para a idade que tem. Eu constantemente vejo Sebastian em Cecelia. Na cor dos cabelos... É loira, o mesmo tom de loiro do cabelo do pai, tem os olhos verdes e as mesmas covinhas de quando ele sorria. Sua voz é doce e calma.

Eu a amo. Amo minha filha de todas as maneiras possíveis. Sempre tentando suprir a falta que o Sebastian causa em nós duas. Mesmo que ela nunca o tenha conhecido, imagino como é difícil crescer sem conhecer o pai biológico. Max e Luke fazem um ótimo trabalho tentando representar o papel. Mas não é a mesma coisa.

Luke White. É quem Cecelia chama de pai. Ele realmente é como um pai para ela. E sei que ele também a considera como filha. Afinal, já estamos juntos a 4 anos. E é ele quem me ajuda a criar Cece, claro com a ajuda de Max.

Eu nunca cheguei a amar Luke como amei Sebastian. Mas eu o amo da minha maneira meio torta. E eu estou feliz. Sabendo que ele sempre estará ao meu lado, me amando e amando a Cecelia. Nos conhecemos logo que eu entre na Universidade. Entrei um pouco tarde devido a gravidez. E ele já estava no último ano de Direito. Pura coincidência ele também cursar direito. Como o Sebastian. Ele diz que se apaixonou por mim no momento em que eu coloquei os pés em Columbia. Duvido. Mas uma hora devido a tanta insistência eu tive que ceder. E desde então estamos juntos. Ele mora em Nova York devido ao trabalho e a família. Mas vem quase todo o fim de semana nos visitar. Já pensei em me mudar para lá com ele. Mas isso é uma coisa para o futuro.

As coisas estão bem para nós aqui em Boston. Max também fez direito e tem um ótimo trabalho. Eu me formei em jornalismo. E bom, arrumei um emprego onde consigo conciliar tudo. Até mesmo passar um bom tempo com Cece. As coisas estão caminhando para a perfeição e eu sei que só tendem a melhorar.

– Mãe estou com saudade do papai.

– Eu também estou princesa. Mas ele está cheio de trabalho e só vai poder vir na próxima semana. — ela cruza os braços e faz biquinho.

– Será que ele vai me trazer mais presentes?

– Cecelia. – a repreendo.

– Que gritaria é essa logo cedo Emily? — ele passa por mim dando um beijo em minha bochecha e pegando um pedaço de torrada em cima da mesa.

– Essa torrada é minha Max. – ele nem me dá ouvidos em seguida pega Cecelia em seu colo e a coloca de cavalinho em seus ombros. E vai em direção ao corredor. Eu bufo.

– Estamos saindo.

– Aonde vocês pensam que vão?

– Ao parque. Hoje é domingo Emy.

– Não se atrasem para o almoço.

– Sim senhora. – ele solta uma gargalhada e minha pequena o acompanha. Eu consigo escutar da cozinha e sorrio comigo mesma.

Olho para o visor do celular e o relógio mostra que já passa das 14:00 horas da tarde. Eu vou matar o Max quando ele chegar aqui. Isso é um fato. Ele me deixou almoçar sozinha em pleno domingo. E raptou minha filha, a levando mundo a fora. Que ótimo. Estou sentada no sofá a quase 2 horas esperando pelos dois e nada. Estou assistindo “ABC do amor.” que está quase no fim. E olha que eu definitivamente odeio, odeio esse filme. Escuto um barulho na porta e levanto a cabeça só para confirmar que são os dois foragidos. Vejo Max entrar com todo o cuidado carregando Cecelia que dorme em seus braços.

– Me desculpa Emy. – ele sussurra e eu simplesmente concordo com a cabeça, não querendo de jeito nenhum que ela acorde. Ele segue com ela seus braços escada a cima.

Apoio a cabeça no ombro do sofá. E volto a prestar atenção no filme. Depois de uns 10 minutos Max esta de volta.

– A gente perdeu a noção da hora e quando eu vi...

– Não tem problema Max. – o interrompi, ele faz tudo por ela... Eu não tinha nenhum motivo para ficar brava com ele.

– Eu queria conversar algo com você Emy.

– Pode falar. – me acomodo no sofá de uma maneira que fico de frente para ele que agora está sentado também.

– O Luke me ofereceu uma proposta de trabalho... – ele não parece muito empolgado.

– Que ótimo Max... – já eu estou o contrario dele. Quase explodindo de felicidade pelo meu irmão.

– Só tem um problema. – o encaro.

– Qual seria?

– É em Nova York – ele diz em um tom baixo. Como eu fui me esquecer que o Luke mora em Nova York?

– Você vai se mudar para Nova York? – meus olhos começam a lagrimejar e eu sei que logo vou chorar. Não quero que ele vá. Eu preciso dele aqui.

– Nós vamos nos mudar ara Nova York Emy. – sorri.

– Nós?

– Isso. Eu você e a pequena princesa. – seu sorriso está ainda mais estampado em seu rosto.

– Max...

– Emy pensa. Seria perfeito. Você e o Luke morando na mesma cidade. E a Cece o teria mais perto. Nós poderíamos alugar um apartamento maior com o meu salário e mudar completamente de vida... Seria algo novo que eu quero muito. E quero muito também dividir com vocês duas.

– Seria ótimo Max... Mas eu não posso ficar dependendo de você para sempre!

– Você pode conseguir um novo emprego também. É nova York Emy. – ele me olha com aqueles olhos pidões que eu nunca resisto.

– Ok. Ok. Você me convenceu. Quando nós vamos?

– Na quarta-feira! – ele solto uma gargalhada ao ver minha cara de espanto. Ele se levanta e vai em direção as escadas quando eu finalmente recupero minha voz.

– O QUE? – grito.

– NA QUARTA EMY. – ele grita de volta e some da minha vista.

Eu ainda não acredito que concordei com essa palhaçada. Em três dias eu estaria morando em Nova York. A cidade onde os dois pais da minha filha moram. Isso é um erro Emily. Um grande erro.

Segunda-feira... Terça-feira... Quarta-feira...

Nos últimos dias resolvi alguns assuntos ainda pendentes e outros detalhes da viagem. Me despedi dos amigos e colegas e do trabalho também. Encaixotei as coisas com Max e Cecelia E passei o restante do tempo arrependida de ter concordado com isso. Luke por outro lado adorou a ideia. E parecia tão empolgado quanto Max. Que merda.

– Não dá mais tempo de desistir Emy. — Max se vira para mim e solta uma risada debochada.

– Eu quero ir para Nova York Max. – nada convincente o tom da minha voz e meu sorriso forçado.

– Sei... – ele parece decepcionado. E eu sei que é por mim.

– Quero mesmo. É só que o avião está demorando de mais. – ele rola os olhos e sei que ele não acreditou. Mas que se dane também.

– Mamãe. – olho para Cecelia que está no colo de Max sorridente.

– Oi querida. – passo a mão em seu cabelo loiro, agora todo bagunçado, devido ao cuidado de Max.

– Eu quero ver o papai logo. – ela resmunga.

– Eu também quero Cece. – sorrio. – Ele prometeu que vai nos buscar no aeroporto assim que chegarmos. – ela sorri.

As últimas horas passaram voando. Literalmente. E finalmente cá estamos. SEJA BEM-VINDA EM NOVA YORK EMILY. Quero voltar para Boston. Agora. Com a minha filha protegida em meus braços.

Max por sinal ainda não a soltou nem por um minuto desde o aeroporto. Era até fofo vê-los assim grudadinhos. Se eu não estivesse morrendo de ciúmes.

– Será que eu posso segurar um pouco ela agora? — Ironia? Claro.

– Tudo isso é ciúmes Emy? — ele e esse maldito sorriso debochado.

– HÁ HÁ HÁ. – Max coloca Cecelia no chão e antes que eu possa fazer qualquer movimento em direção a ela, a pequena sai correndo do aeroporto.

– PAPAAAAI. – ela corre em direção a Luke, que não esta sozinho.

– Oi meu amor. — ele estica os braços e a pega. Segura ela contra o seu corpo e a enche de beijos e carinhos e eu involuntariamente sorrio, me aproximando deles.

– Eu sou sempre segunda opção querida? – cruzo os braços.

– Claro que não mamãe. – ela sorri e agora corre em minha direção. Eu me abaixo para pode ficar do mesmo tamanho que ela.

– Mamãe? — ele tem um olhar surpreso e curioso sobre mim. Esses malditos olhos verdes.

Ai meu Deus. Eu conheço essa voz. Eu conheço esses olhos. Pelo menos eu acho que conheço. Agora meu olhar está voltado para o rapaz que está ao lado de Luke. Percebo que seus olhos estão arregalados e voltados em direção aos meus. Em seguida ele olha para Cecelia e depois de alguns segundos para mim novamente. Ele parece não entender o que está acontecendo, mesmo que a resposta seja óbvia. É claro que eu sei de quem são aqueles olhos verdes. Mas o que ele está fazendo aqui? O que o Sebastian está fazendo aqui? E mais uma vez na presença dele eu perco a capacidade de pensar, falar ou respirar. A única coisa que eu quero é que esse pesadelo acabe quanto antes para que eu possa voltar à realidade.